CULTURA

  • Jorge Campos

Afinal, a direita é social-democrata, Marcelo também e o PSD bascula

Atualizado: 16 de Dez de 2020



a social-democracia em Portugal está em alta, à direita. o professor Marcelo anunciou a recandidatura e declarou-se social-democrata. há não muito tempo, o professor Cavaco publicou um livro a demonstrar ser ele o verdadeiro social-democrata. a prová-lo, os seus formidáveis governos. Rui Rio, evidentemente, também é social-democrata. basta lembrar a sua sensibilidade social quando, eleito para a Câmara do Porto, disse que não haveria cultura, supérflua no seu alto critério, enquanto houvesse pobreza nos bairros sociais. cumpriu. pôs-se a pensar em grande e arranjou algo de tão essencial quanto um festival de francesinhas. depois, inventou uma corrida de calhambeques. finalmente, contratou acrobacias aéreas.



não sei o que esta gente pensa da social-democracia, mas o raciocínio não deve andar longe do que há anos o então mais jovem deputado da Assembleia da República, Duarte Marques, disse numa entrevista à Antena 1. eu ouvi. para ele, os grandes faróis teóricos da causa eram Durão Barroso e Santana Lopes, certamente dois portentos conceptuais, embora, receio bem, de outros carnavais. vamos ver. o PSD nunca foi da linhagem social-democrata tal como é histórica e teoricamente referenciada. nasceu após o 25 de Abril como PPD (Partido Popular Democrático). atraiu democratas, parte dos bem instalados do Estado Novo e uma legião de conservadores receosos da mudança. também houve pessoas mais inconformadas que julgaram poder criar um verdadeiro partido social-democrata. não sei se resta algum no ativo.



Sá Carneiro, vindo da ala liberal da Assembleia Nacional, era um democrata. tentou mudar o regime por dentro. chegou a pedir a integração na Internacional Socialista, o que lhe foi negado por Mário Soares. por essa altura, o programa do partido, manifestamente condicionado pelos sinais do tempo, propunha coisas que só podem parecer mirabolantes a qualquer militante, simpatizante ou eleitor do atual PSD. olhando para os cartazes desse tempo é óbvia a busca de um rumo. num, dizia-se o PPD não é de direita. noutro, o PPD é de centro-esquerda. noutro ainda proclamava-se a social-democracia como via para o socialismo.



quando, há 40 anos, Sá Carneiro morreu no fatídico acidente aéreo de 4 de dezembro, o seu posicionamento político mudara. emergia o perfil autoritário de alguém que apoiava na corrida à Presidência da República um dos generais mais retrógrados das Forças Armadas, Soares Carneiro, candidato contra Ramalho Eanes. a consigna de Sá Carneiro passara a ser “um presidente, um governo, uma maioria”, de certo modo ultrapassando o 25 de Novembro pela direita. da sinuosa disputa sucessória haveria de sair o ”único verdadeiro social-democrata", o professor Cavaco. muito mais tarde, após uma imaginativa sucessão de cocktails ideológicos, apareceu o dr. Passos, obreiro do neoliberalismo mais serôdio e padrinho espiritual de um sujeito de nome Ventura. hoje, ninguém no PSD saberá dizer ao certo o que aquilo é, aliás, em coerência com o seu percurso histórico.



mantendo a sigla PSD não tem qualquer problema em ser considerado um partido de direita. integra há anos o PPE. para utilizar uma imagem futebolística, bascula, ou seja, vira o jogo de acordo com as circunstâncias e conforme lhe dá jeito. sendo, no essencial, um partido democrático, sempre foi assim. muitas vezes me disseram de dentro, bem vê somos um partido de poder. é certo. e a social-democracia também não é exclusiva de ninguém. mas podiam deixar-se de fantasias. davam à malta mais aguerrida umas aulas de introdução ao pensamento político e largavam a bengalinha SD. era bom para todos. achatavam a curva da crise de identidade, desdramatizavam os problemas existenciais e poupavam brutalmente no espectáculo habitual da psicanálise em grupo. coragem. tentem PDP (Partido da Direita Portuguesa). vá lá…

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