CULTURA

  • Jorge Campos

Cine Clube do Porto: Dreyer e Godard ou uma crónica de iniciação e resistência (1967 - 1969)

Atualizado: 1 de set.



Escrever sobre experiências de há mais de meio século é como recuperar memórias difusas na chama de um fósforo, rostos cujos traços o tempo diluiu, ruas e edifícios ainda presentes, todavia, outros. E, sobretudo, é recuperar dias intensos que venceram o medo para agitar as águas estagnadas do Estado Novo. Ao escrever, se me escapam a maioria dos pormenores, sobram-me fragmentos. Talvez, a partir deles, me seja possível, ao menos, esboçar a tela de fundo de uma época na qual o Cinema ocupou uma parte significativa no puzzle da minha vida. Na verdade, aprendi-o então, o Cinema é vida. Tem que ver com tudo o mais. Deixo no ar uma pergunta: Há algo em comum entre Pierrot le Fou de Jean-Luc Godard e Gertrud de Carl Theodor Dreyer?


Flashback. Um avião vindo de Lourenço Marques aterra em Pedras Rubras num dia chuvoso do já avançado Outono de 1967. Eu era um dos passageiros. Após um ano tão rico de experiências quanto desastrado do ponto de vista académico na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, aí estava eu pronto a reincidir num curso para o qual não sentia inclinação, Economia. Má decisão. Ficavam para trás o dia a dia das enormidades do apartheid, os lugares só para brancos, a contracultura anglo-saxónica instalada no campus, as noites clandestinas de jazz nos guetos da periferia, o Soweto.


Tinha 20 anos, era imaturo, curioso, razoavelmente aventureiro. Habituado às temperaturas africanas, à claridade dos grandes espaços, ao azul do mar a perder de vista, estranhei as neblinas do Porto, a matriz granítica da cidade como se de um cenário de clausura se tratasse, estranhei a pobreza, a tristeza, o formalismo e o respeitinho das gentes, em suma, estranhei-me. A Faculdade, coisa deprimente, ficava no edifício onde hoje está a Reitoria, nos Leões. Tinha meia dúzia de salas mal iluminadas, bancos corridos onde a malta se acotovelava vergada ao peso da sapiência dos mestres na maioria das vezes, mas não todas, debitando parágrafos de sebentas anacrónicas. O exato contrário da universidade de onde viera. Portanto, se na África do Sul os estudos me tinham corrido mal, no Porto, por maioria de razão, melhor seria ir ao encontro de onde houvesse vida.


Aluguei um quarto com um amigo, o João Monteiro, num edifício junto ao Mercado do Bom Sucesso. Aí vivia, também, um dos grandes amigos da família, o Rui Feijó, bem como os Garcia Fernandes com quem fiz amizade. Por perto moravam o António Rocha Melo e o Armando Bacelar, amigos de longa data. Todos opositores do Estado Novo, todos com ligações à cultura da cidade. Foram eles o ponto de partida para as relações estabelecidas ao longo dos dois anos em que as neblinas se me foram tornando simpáticas, o granito acolhedor e as pessoas indispensáveis. Dois anos de brasa, diga-se. Ecos da revolta estudantil de Maio de 1968, em Paris, a ocupação de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a queda providencial do ditador no verão desse mesmo ano, o Vietname, a inconsequente primavera marcelista, a empolgante crise académica de Coimbra de 1969 e, claro, o agudizar de uma guerra colonial sem sentido, na qual, contrariado, eu iria dar com o ossos daí a algum tempo.



Que tem isto a ver com o Cinema, Dryer e Godard? Já lá vou. Os Feijós puseram-me em contato com o Manuel António Pina, o Chico Cordeiro e o Zé Leal Loureiro. Mas a primeira pessoa com quem por intermédio deles falei foi o Henrique Alves Costa do Cine-Clube do Porto, andava ele então ocupado com a I Semana do Cinema Português que teria lugar em Dezembro de 1967 e da qual resultaria o apoio da Gulbenkian à produção cinematográfica. Na altura, ainda não identificado com o meio, a importância do encontro passou-me um tanto ao lado. Porém, dei comigo a subir as velhas escadas de madeira do edifício da Rua do Rosário, onde ficava a sede do Cine-Clube, para recolher uma proposta de sócio. Ainda hoje conservo o cartão. Passei, também, a frequentar a Unicepe, juntei-me ao movimento estudantil e tornei-me habitual do nº45 da Praça Parada Leitão onde estava, e está, o café Âncora d’ Ouro, vulgo, Piolho. Volta e meia ia até às Belas Artes, em São Lázaro.


O Cinema Batalha, inaugurado em 3 de Junho de 1947, é uma obra do arquitecto Artur Andrade, nela tendo colaborado também os pintores Júlio Pomar, Augusto Gomes, António Sampaio e Altino, bem como os escultores Américo Braga e Arlindo Gonçalves.

Não sei dizer ao certo quando foi a sessão dupla no Cinema Batalha com Pierrot le Fou e Gertrud. Lembro-me de ter ido com o Miguel Graça Moura, com quem, entretanto, alugara um apartamento na Rua dos Bragas, de a sala estar apinhada, como, de resto, era habitual, e de ter ficado num lugar na tribuna com outros amigos, na verdade, uma espécie de tribo.


O filme de Godard, de 1965, refletia os problemas pessoais do autor, obcecado, na altura, com a guerra do Vietname e em processo de separação da sua musa, Anna Karina - Marianne, no filme -, que contracena com Jean-Paul Belmondo - Ferdinand -, alter ego do cineasta. Ferdinand e Marianne são duas almas à deriva, há encontros e desencontros filmados em deslumbrantes cores saturadas, jump cuts, deixas memoráveis como aquela em que Ferdinand, em busca de Marianne, pergunta a alguém no exterior de uma sala de jogos: “Dis donc, t’as pas vu une jeune filme dans le style d’ Hollywood en Technicolor?” O filme de Dryer, de 1964, é uma reflexão sobre a liberdade e o amor a partir da construção de uma personagem feminina, Gertrud - Nina Pens Rode -, uma cantora de ópera aprisionada num casamento esgotado. Filmado a preto e branco, resplandece no rigoroso domínio da luz e da palavra, expressão de um dispositivo cinematográfico que se apropria da estética teatral utilizando movimentos de câmara subtis ao ponto de criar a ilusão de existir apenas o plano fixo. Dois filmes tão diferentes. Exigentes. Com um denominador comum que replica o famoso título de Bazin: O que é o Cinema?


Ora o cinema, tal como a vida, é sempre uma questão em aberto. Nos dois anos em que vivi no Porto, até meados de 1969, havia um público cinéfilo que aguardava ansiosamente a estreia do último Fellini, Buñuel, Antonioni, Bergman, Kurosawa, Truffaut e tantos outros. Recuperados com frequência para as sessões do Cine-Clube, no Batalha e no Trindade, esses filmes, a par dos clássicos, às vezes em cópias de 16mm mostradas na Rua do Rosário, contribuíram para criar uma rede cinéfila de cidadãos cúmplices, evidentemente, sob vigilância da polícia política.



Para mim, foram dois anos de aprendizagem. Os filmes eram objeto de debate, motivo de conversa que levava a outras conversas, ao livro proibido passado por debaixo da mesa na Unicepe ou na Livraria Leitura pelo Fernando Fernandes, aos plenários estudantis onde se destacava, entre outros, o Edgar Correia, às manifestações reprimidas por cargas policiais. Lembro-me bem do Pedro Baptista ser espancado nos Aliados mantendo sempre o sorriso de desafio perante os agressores, do Mário Viegas na cantina da antiga Faculdade de Letras, hoje Biomédicas, cheia como um ovo, perante a debandada iniciada depois da chegada da polícia de choque, subir para uma mesa e recitar O Poema Pouco Original do Medo, do O’ Neill: O medo vai ter tudo... E todos voltaram para trás. Ficaram. Era esse o tempo da solidariedade com os estudantes de Coimbra, em 1969, quando o Alberto Martins veio fazer uma sessão de esclarecimento, justamente, na sede doC ine-Clube da rua do Rosário, onde, a propósito de um filme, já não me recordo qual, se falou da guerra colonial e o Manuel Freire cantou Gedeão: Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida...


Daí que, sim, haja tanto em comum entre Pierrot le Fou de Jean-Luc Godard e Gertrud de Carl Theodor Dreyer. Ferdinand, Marianne, Gertrud eram parte de mim e dos outros, do somatório de experiências vividas, desses fragmentos da memórias agora recuperados, em suma, de uma atitude, por vezes ingénua, por vezes imprudente, como são todas as atitudes num processo de iniciação. Pensar o Cinema, aprendi então, é como pensar a vida, mergulhar na magia de uma tela na qual se movem fantasmas, os nossos e os dos outros de modo a passar da contemplação à acção e, como foi o caso, participar nessa rede informal de resistência com sentido prospectivo da qual o Cine-Clube do Porto foi uma peça essencial.


Posta definitivamente de parte a veleidade da fazer Economia, regressei a Moçambique. Humberto Delgado, após a campanha eleitoral de 1958, após a jornada triunfal do Porto, disse: O Porto ficará no meu coração. Também ficou no meu. De tal modo que a ele voltei. Até hoje.



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