CULTURA

  • Jorge Campos

em viagem, na fria caligrafia do chão

Atualizado: Fev 8


Edward Hopper. Nighthawks, 1942 (pormenor)

Como um náufrago procuro os cristais da palavra, os seus lábios húmidos de dizer, as suas longas pernas de ventos e florestas, mas é tarde, e ao dobrar da esquina de uma rua oblíqua de mim mesmo descubro uma fuligem de chuva, um cheiro intenso a óleo queimado que alastra no fluxo nervoso da cidade anunciando a vertigem da solidão. Para tanto bastará o medo soltar a alavanca da noite e deixar-me entregue à minha memória registadora de nomes e atrocidades. Não, não sei nomear a cartografia do rosto ao espelho. O tempo presente passa implacável por entre as ruínas do tempo passado: como habitar este lugar se o estar aqui é apenas refúgio do insondável tempo futuro? Sigo rumo às estações suspensas da respiração da pedra. Vejo cachorros e guardas vindos do fundo da noite para apagar o sopro das estrelas, vejo exércitos no seu ritual sombrio de passada lenta e ouço o espanto das vozes na luz coagulada do silêncio. Tropeça súbito um corpo interdito em clarão, no peito o impacto absurdo de uma flor fulminante. Há uma silhueta em câmara lenta multiplicando, aflitas, as mãos. Numa folha de papel levada pelo vento escrevo um rosto em seu rigor absoluto na fria caligrafia do chão.


fevereiro de 2012 (atualizado)


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