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CULTURA

  • Foto do escritorJorge Campos

Museu da Resistência: Houve quem quisesse fazer um hotel no Forte de Peniche

Era eu deputado eleito pelo Bloco de Esquerda, em 2017, quando começou a debater-se na Assembleia da República o destino a dar ao Forte de Peniche. Edifício histórico, classificado como Monumento Nacional, o Forte fora transformado, durante o regime fascista, numa cadeia de alta segurança para presos políticos. 

 

Muitos dos mais destacados elementos da oposição democrática, de vários quadrantes, passaram por lá, sujeitos a todo o tipo de sevícias. Sendo os comunistas o alvo principal da ditadura, por serem os mais combativos e organizados, não surpreende terem sido deles as acções mais espectaculares que ali se verificaram. Foi o caso, em 1960, da célebre evasão de Álvaro Cunhal e de mais nove dos seus camaradas da direcção do PCP.

 

Em função do histórico do Forte de Peniche, e não apenas do passado ligado ao regime fascista, o  seu lugar no futuro não deveria suscitar grandes dúvidas. Teria de estar associado à Memória e à Resistência. Pura ilusão. Primeiro, foi o governo de António Costa, a dar o flanco. Em Setembro de 2016, sem o apoio dos partidos à sua esquerda, decidiu incluir o edifício na lista dos monumentos históricos a concessionar a privados no âmbito do programa Revive, aparentemente feito à medida do grupo Pestana. Tendo estalado a polémica, por pressão do BE e do PCP, mas também de elementos do próprio PS, o governo, ao cabo de dois meses, acabou por recuar na decisão.

 

Depois, a direita, na Assembleia da República e fora dela, tratou de mobilizar-se em sentido oposto. Primeiro, procurou arrastar o debate. Depois, deixou no ar a ideia bizarra de, em nome do progresso e do futuro, transformar o Forte num hotel de luxo, no qual, pasme-se, até poderia haver lugar para um cantinho evocativo da resistência.

 

Enquanto membro da Comissão de Cultura da Assembleia da República coube-me receber, bem como aos deputados dos restantes partidos, um grupo de peticionários favoráveis à ideia do hotel. Defendia o seu porta-voz a necessidade de deixar de viver no passado e de agarrar a modernidade com ambas as mãos. Portanto, seria indesculpável não utilizar o património edificado para desenvolver a região, tanto mais que seria essa a vontade da população. Dizia mais, que a Assembleia da República não deveria ser um entrave ao interesse nacional.

 

Qualquer país civilizado, depois de uma ditadura de 48 anos, seria incapaz de varrer a memória para debaixo do tapete. Entre nós, porém, aparece sempre alguém disponível para ceder património cultural a  troco de meia dúzia de tostões. Deve ser sina. Felizmente, os partidos que viabilizaram a solução política conhecida por Geringonça chegaram finalmente a um acordo. A solução só poderia ser aquela que viria a ser materializada: o Museu da Resistência e da Liberdade.

 

O que está no vídeo que aqui deixo é uma das intervenções que então fiz nesse sentido. Nela, faço referência a meu tio Carlos Costa, um dos evadidos de Peniche na fuga de Álvaro Cunhal.  

 



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