CULTURA

  • Jorge Campos

Não sei se me apetece voltar à normalidade, aliás, não quero

“O velho mundo agoniza, o novo tarda a nascer e, nesse

claro-escuro, irrompem os monstros.”

Antonio Gramsci in Cadernos do Cárcere



Uma pandemia é uma pandemia. Ninguém sabe ao certo quando irrompe embora seja sempre uma possibilidade. Na verdade, as pandemias nunca faltaram. Nem nunca se fizeram anunciar. Mas, por norma, uma vez instaladas, produzem efeitos devastadores. O guião, em função do que se vai constatando, podia ser mais ou menos como segue.

Milhões de pessoas desorientadas, cientistas à beira de um ataque de nervos, governos à deriva, o medo à solta, um cortejo de vítimas em valas comuns, enterradas dia e noite, à pressa, como se má consciência houvesse e fosse imperioso esconder uma vergonha comum. Na fase seguinte, bandos de idólatras armados de crucifixos e espingardas de canos serrados entram no centro das cidades, grandes e pequenas, prontos a exorcizar quem se lhes oponha em nome da crença no poder salvífico dos mercados e dos messias de circunstância. A tempo inteiro, em cada esquina, em cada casa, ecrãs tutelados por insufláveis sistémicos salmodiam boas práticas, cuidai-vos, dizem, se quereis voltar à normalidade o mais depressa possível com um mínimo de danos colaterais, ou seja, haverá sempre algumas mortes, todos lamentamos, embora deva reconhecer-se a escassa produtividade dos mais pobres e a nula utilidade dos mais velhos quando está em causa a distribuição de dividendos. O que importa é estar no bom caminho. E estamos. Em breve estaremos de novo a consumir. De máscara.

Fosse um guião original e poderia dar um filme interessante. Ou um livro. Ou um quadro. Mas não é original.

Os filmes catástrofe andam por aí há muito, como sucede com alguns de John Carpenter e David Cronenberg. À semelhança das obras dos cineastas expressionistas da República de Weimar, cujo conteúdo latente antecipava a mitologia nazi, também eles, a partir do final do século XX, encararam o material pró-fílmico como possibilidade de explorar os subterrâneos de uma normalidade tão eficazmente socializada quanto refractária ao sobressalto da razão. Em They Live (1988) Carpenter cria um universo de mortos vivos robotizado pelo ininterrupto estímulo ao consumismo, uma espécie de droga induzida através da fabricação de um imaginário cor-de-rosa, no qual o belo e o perfeito são, na verdade, equivalentes de posse e mercadoria, sem que disso o comprador compulsivo tenha consciência. Ironicamente, a personagem principal de nome Nada (Roddy Piper) vê para além das aparências quando coloca óculos escuros através dos quais percepciona o horror de rostos que afinal são caveiras, bem como a falsidade de anúncios publicitários que afinal são campos de concentração da mente ou, se quisermos, as máscaras invisíveis do admirável mundo reaganomics, esse modelo ultraliberal dos Chicago boys testado no Chile de Pinochet. Trinta anos depois, quando alguém quis celebrar They Live como um filme de culto de ficção científica, Carpenter comunicou aos sacerdotes da função não terem percebido nada de nada. O filme, disse ele, é um documentário.


Também na literatura há uma longa e brilhante lista de declinações mais ou menos a propósito. Tanto passa pelas distopias de Brave New World (1932) de Aldous Huxley e 1984 (1948) de George Orwell, quanto, no plano existencial, pelo jogo de espelhos e paradoxos faustianos de The Picture of Dorian Gray (1890) de Oscar Wilde, pela ambiguidade gótica de Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886) de Robert Louis Stevenson ou pela aterradora impossibilidade de ser da criatura prometaica de Frankenstein (1931) de Mary Shelley. Os dois primeiros, os livros de Huxley e Orwell, expõem o totalitarismo no quadro de normalidades construídas através da engenharia social. Sendo a individualidade e a diferença interditos, qualquer desvio à norma é punido por heresia para salvaguarda da perfeição do sistema. Os três restantes, de Oscar Wilde, Stevenson e Mary Shelley, por sua vez, propõem-se explorar comportamentos desviantes desafiando a máquina censória da normalidade que interdita pulsões perigosas e enigmas interiores. Tal como no filme de Carpenter, também em relação aos livros, é preciso desafiar as máscaras.

São obras abertas, fruto da imaginação criadora. Por mais vezes que se leiam surgem sempre renovadas convocando leituras plurais, quer em função da singularidade do leitor, quer dos contextos em mudança. Não alimentam dogmas. São intemporais e necessárias. Intemporais porque sinalizam no plano simbólico o essencial da humanidade, as suas perplexidades e interrogações. Necessárias porque a imaginação expande os jogos de prazer, alarga o horizonte da razão, sugere a ousadia de experimentar e, sobretudo, obriga a fazer perguntas. Muitas perguntas. Como aquelas que reiteradamente foram colocadas a Aldous Huxley. Numa entrevista televisiva concedida ao jornalista americano Mike Wallace, em 1958, a propósito de Brave New Word Revisited, então acabado de publicar, apontou ele como principais perigos para a democracia a explosão demográfica, as desigualdades sociais, a propaganda política e comercial, as drogas aditivas e as ainda mais aditivas tecnologias que, segundo ele, iriam irromper sem controle para ocupar um lugar central na vida das pessoas, elas próprias, por essa via, cada vez mais ausentes de si mesmas, do outro e desse outro, por ignorância, cada vez mais tementes.

Olhando em volta, sessenta anos depois, bate certo. Bem sei que aos artistas é muitas vezes atribuída a faculdade de ver mais longe, de ir à frente. Mas eles não fazem profecias. Olham em redor e buscam indícios. Pequenas coisas, aparentemente. Fragmentos sob os quais encontram raízes, conexões, porventura, a lógica oculta das normalidades do quotidiano. Ou as engrenagens dissimuladas de desastres maiores, quem sabe. Depois são capazes de inventar relações, plasmar inquietações, criar novos mundos, em suma, são capazes de, ao imaginar, ver diferente. Interpelando. Assim, através da suas obras, também nós somos levados a empreender viagens, por vezes dolorosas, fazer descobertas, por vezes inquietantes, formular perguntas, muitas vezes incómodas, crescendo ou não, é problema nosso, mas tendo essa opção no quadro do bem essencial que é a liberdade de decidir. Pelo menos, quero crer que assim seja. Gostaria que assim fosse. Mas é justamente aqui que entra na equação uma das mais sinistras hipóteses de Huxley. Em Admirável Mundo Novo - e não só - ele admite a possibilidade dos escravos amarem a própria escravidão.

E, aqui chegados, temos, na realidade, um problema. Multidões idolatram líderes de irresponsabilidade ilimitada cuja ignorância e pesporrência põem em risco vidas humanas, rasgam as vestes por oportunistas cobradores de dízimos como se deles dependesse a salvação do mundo, veneram criacionistas, terraplanistas e negacionistas da ciência projetando neles o anseio de uma ordem indiscutível, acreditam na bondade de ditaduras insidiosamente urdidas à sombra da ordem democrática, em suma, querem uma entidade omnipresente e omnisciente que as retire do suplício da dúvida e lhes proporcione a graça de viver na ilusão. Em rigor, não sei quem são estas pessoas que juntas formam multidões. Admito a transversalidade, a pertença a diferentes estratos sociais. Mas não ficaria surpreendido se a maioria não fizesse parte do grupo dos descamisados e mais pobres e se encontrasse, antes, entre aqueles que muito têm ou, não tendo, têm o pouco ou mediano bastantes para alimentar o fantasma da perda às mãos de ímpios e comunistas.


Este é o império do medo. Não cabe nele a fissura ontológica. O ar rarefeito favorece o desígnio da absoluta certeza. No meio de uma entropia informativa sem precedentes ligada a tecnologias aditivas, com centenas de milhões de pessoas a trocar mensagens à hiper velocidade consentida no ciberespaço, essa fantasmagoria identitária ganha espessura em lugares fascistas de notícias falsas manipulados por peritos em condicionamento. Na era da pós-verdade pouco importa o que é dito. Importa é atingir o nervo sensível do medo de modo a reforçar a crença. E um crente assim formado tem uma força desmedida. Elege gente saída das catacumbas, associa a cultura ao marxismo, a imaginação criadora à subversão, compra avidamente de tudo a prestações e usa o cartão de crédito para legitimar o estatuto social que a dívida lhe concede. Não sei se ama a escravidão, mas é provável. Se bem lembro, o selvagem de Brave New World comete o pecado capital de ter descoberto um estranho livro de um tal Shakespeare há muito apagado dos registos. E, na novilíngua de Orwell, escravatura é liberdade.

Isto já não é apenas latência. É, demasiadas vezes, conteúdo manifesto. Mas não tem de ser fado. Há sinais nesse sentido. Paradoxalmente, a pandemia, a par da tragédia sanitária e da enormidade das consequências dela decorrentes, está a obrigar a pensar a desordem do mundo. É como se, de súbito, muitos tivessem sentido a necessidade de colocar os óculos escuros de Nada, o herói de They Live, e surgisse a descoberto, perante a perplexidade de tantos, um insuspeitado desconcerto das coisas. Afinal, sob a máscara das democracias liberais, por sinal, cada vez mais iliberais, movem-se as engrenagens subterrâneas de uma normalidade que coisifica as relações infetando o espaço público com o vírus da mercantilização e deixa multidões indefesas perante a falência de serviços públicos essenciais. Não é propriamente uma novidade. Conhecem-se há muito os efeitos desagregadores no tecido social de privatizações que contrariam a universalidade e igualdade de acesso a esses mesmos serviços, designadamente de saúde.

Novidade é que um outro vírus, o da dúvida, em relação ao qual se julgava existir uma vacina infalível, se tenha insidiosamente infiltrado no próprio sistema imunitário neoliberal. Pelo menos, por agora. O sobressalto terá as suas limitações, mas existe. Veja-se como na União Europeia há quem, face à pandemia, se interrogue sobre a bondade da ortodoxia financeira dominante quando antes não abria mão dela. Como o Tribunal Constitucional Alemão entrou em conflito com o Tribunal de Justiça da UE por este ter declarado legal o programa de compra de dívida pública do Banco Central Europeu. São bons sinais, algo se move. Serão temporários? Talvez. Entre outras razões, devido à irreprimível tendência dos decisores mais conservadores, a maioria na Europa, de procurar soluções à sombra do mantra de um modelo económico predador, notoriamente incapaz de dar resposta aos problemas do mundo.

São esses da mesma linhagem daqueles outros que não hesitaram, inicialmente, apresentar uma solução malthusiana para responder à ameaça da COVID-19. A economia primeiro, disseram eles. Umas quantas mortes, aliás, teriam a vantagem de eliminar improdutivos, como pobres e velhos, reduzindo despesas com a segurança social e aplanando caminho para uma retoma impetuosa. Não o disseram assim, como é óbvio. Mas a ideia, subconscientemente ou não, era exatamente essa. Não por acaso é nos grandes países que seguiram a pauta da economia primeiro que a situação se tornou especialmente grave. Em todos eles se impôs o fetiche dos mercados. Em todos eles falhou a ponderação do simbólico, saltou à vista o défice da imaginação criadora, estalou a brecha das lacunas culturais.

Tivesse Boris Johnson levado a sério Dorian Gray e saberia o quanto a metamorfose de uma imagem pode revelar o hediondo oculto do modelo perfeito que lhe serviu de referente. Não só não teria sugerido infetar 60 por cento dos seus concidadãos, como também teria evitado, ele próprio, a humilhação de ser tratado num hospital público ficando, ainda por cima, ao cuidado de um enfermeiro estrangeiro, por sinal um português. Depois agradeceu, emendou a mão e fez bem. Mas convém que não esqueça que, talvez inspirado pela nostalgia do império, começou por dizer a economia primeiro. Deu no que deu.

Tivesse Donald Trump refletido sobre Dr. Jekyll and Mr. Hyde, admitindo-se que o leu, e saberia do risco de desenvolver uma patologia esquizofrénica ao dizer todos os dias no Twitter uma coisa e o seu contrário como se fosse duas pessoas, uma menos boa, outra menos má. Também, não só não teria prescrito aos seus concidadãos lixívia para combater o novo coronavírus, como teria evitado a humilhação de ser permanente e publicamente contrariado pelas autoridades de saúde pública. Porventura viciado nas passadas andanças de boneco televisivo a viver de audiências, confundindo números e pessoas, mentindo por norma, também ele apontou ao nirvana da economia primeiro. Num país onde os pobres morrem por não poderem pagar cuidados de saúde, deu no que tinha de dar.


O presidente Jair Bolsonaro é um caso à parte. Evidentemente não leu Frankenstein e se tivesse lido teria manifestado preferência pelo torturador Brilhante Ustra, o seu super-herói da ditadura militar ou pela malta aguerrida dos quadrinhos Marvel de quando andava a brincar ao paraquedismo na tropa. Passar-lhe-ia completamente ao lado a tragédia da criatura concebida para ser super-homem, incapaz de se relacionar com o comum dos mortais, rejeitado por todos. No fundo, a tragédia dele próprio, Bolsonaro, criado pela burguesia Frankenstein brasileira para ser o messias da salvação evangélica, o missionário do extermínio de índios anormais, o curandeiro das minorias doentes como os gays, o campeão da luta contra o contágio dos puros, o capitão do saque. Alguém lhe disse que 70 por cento da população tinha de ser infetada e ele, feito estarola em cima de uma moto de água, lá disparou a facécia com a irresponsabilidade do costume. A economia primeiro. Num país com as assimetrias sociais do Brasil deu no que deu e o pior ainda está para vir.

Finalmente, uma carta aberta de duzentos artistas publicada no Le Monde pôs o dedo na ferida. Encabeçada por Juliette Binoche e pelo filósofo Aurélien Barrau, a carta tem como ponto de partida a opinião de David Cronenberg manifestada numa entrevista recente ao Hollywood Reporter, na qual o cineasta encarava a pandemia como uma oportunidade para repensar o mundo. Os signatários constatam que o consumismo nega o valor da vida - entre os homens, no mundo animal e no mundo vegetal - e que a destruição da natureza atingiu o ponto de ruptura. Exigem-se responsabilidades a quem as tem. Recusam-se os meros ajustamentos. E assim se chega ao essencial: o problema é sistémico, a mudança terá de ser radical. Rejeitamos, portanto, dizem eles, o regresso à normalidade. Assinam, entre outros, Almodóvar, Madonna, Javier Bardem, Joaquin Phoenix, Robert de Niro, Jane Fonda, Iñárritu e Penélope Cruz.

Se o nosso problema fosse apenas um problema de lideranças, mudavam-se as lideranças, resolvia-se o problema. Não é. É mais fundo. É preciso restaurar a autoridade pública democrática sobre o sistema financeiro, promover uma reestruturação profunda das dívidas pública e privada, rever tratados, questionar a globalização neoliberal, pôr travão aos combustíveis fósseis, modificar hábitos de trabalho, levantar as máscaras do consumismo, enfim, um sem número de tarefas e combates no âmbito de um desafio maior que é tornar o planeta um lugar habitável. Como? De certeza certa sei apenas da inevitabilidade de empreender um longo caminho feito de tentativa e erro, avanços e recuos, determinação e perseverança, alterando a correlação de forças a começar pelas lutas do dia a dia, as quais farão tanto mais sentido quanto mais forem enquadradas por uma revolução cultural. Chego, assim, ao meu ponto de partida, reiterando a necessidade de inscrever a centralidade da arte, da cultura e da imaginação na equação global. Não vejo como sem entender as representações do mundo se possam fazer as perguntas para desencadear a ação. Para mais, sabendo que da sombra do tempo que agoniza irrompem novos monstros do velho normal. Perante esse quadro de horror que O Grito do norueguês Edvard Munch poderia simbolizar, precisamos mais do que nunca das ferramentas da Cultura. Li a carta dos 200 artistas. Assino por baixo. Não, definitivamente não quero o regresso à normalidade.

Porto, 12 de Maio de 2020

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