CULTURA

  • Jorge Campos

Na penumbra da memória, português suave

Atualizado: 7 de Nov de 2020


Ramón Oviedo


Feras amáveis e urbanas sorriem

espreitando a oportunidade de caírem implacáveis

sobre a presa. Falam de nariz no ar

como quem fareja o sangue da vítima.

E a mosca zumbe no interior das suas palavras

tantas vezes sem voz, palavras pesadas

da herança de gerações que buscaram

na vertigem da arena a sua cama

e da cama fizeram a arena do ódio pequenino

jogado em jogos nem sequer de azar

porque no corpo a corpo do tédio que engendraram

tudo estava irremediavelmente previsto.

Indiferentes ao sobressalto dos dias,

tendo por cúmplice a pequena mosca familiar

de patas peludas cheias de merda,

por entre anéis de fumo bebem bebidas finas

e observam sem entender o reflexo fugaz

do espelho das imagens lentas e oblíquas.

No último farrapo do tempo, quando chegar a hora

da metamorfose irrevogável, fitando-os,

haverá uns grandes olhos parados

de granito facetado, que sorriem.

Será horror, será espanto?



Dezembro, 1976

Jorge Campos

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