CULTURA

  • Jorge Campos

Porto 2001 - Odisseia nas Imagens VII: O Som e a Fúria 1

Estão aqui reunidos alguns documentos respeitantes ao segundo módulo da Odisseia nas Imagens - O Som e a Fúria. Neste texto em duas partes, a primeira reporta sinteticamente à Programação de Cinema. A segunda, a publicar de seguida, revela um conjunto de iniciativas, algumas de grande visibilidade mediática, mas também outras consideradas muito importantes pelo seu caráter formativo e estruturante as quais não tiveram espaço nos media. Contudo, delas dependia a concretização da ideia de lançar as bases para fazer do Porto uma Cidade de Imagens. Os documentos que se seguem são uma pequena parte dos muitos anexos deste módulo O Som e a Fúria. Deles constam, designadamente, iniciativas da Casa da Animação apoiadas pela Odisseia nas Imagens, como é o caso da retrospetiva dos filmes dos Estúdios Aardman.


Joris Ivens. Fonte: Senses of Cinema

O segundo módulo O Som e a Fúria [1], cujo núcleo principal decorreu entre 17 a 25 de Setembro de 2000, mas que em rigor se desmultiplicou em iniciativas até meados de Março de 2001, poderia ter tomado de empréstimo o título da obra homónima de William Faulkner, mas a verdade é que foi a pensar no II capítulo da História do Documentário de Erik Barnow que se chegou a essa designação. No respectivo catálogo de O Olhar de Ulisses [2], igualmente intitulado O Som e a Fúria – a partir desta altura, por razões de ordem conceptual, nomeadamente devido à introdução de abordagens do documentário no quadro de outras disciplinas não estritamente da esfera do cinema, este ciclo e a restante programação da Odisseia nas Imagens deixariam de obedecer às mesmas designações –, escrevia-se:


“Se o primeiro módulo O Homem e a Câmara remetia para as teses vertovianas da cine-sensação do mundo no quadro de uma gramática emergente das imagens em movimento, agora, em O Som e a Fúria, a elucidação e organização do real apontam para um olhar reestruturado a partir de um conjunto de sinais e de regras de articulação desses sinais relacionados quer com o olho, quer com o ouvido. Com o advento do sonoro, a linguagem do cinema torna-se audiovisual e, portanto, plurissintáctica. O olhar, enquanto modo de revelação, resulta, pois, do acto combinatório de diferentes sistemas de significação convergindo na coerência de um propósito. As coisas, claro, podem não ter a simplicidade aparente que releva das categorias consagradas. Alguém será capaz de evitar ouvir, por exemplo, "O Vento" (1928) de Sjöstrom [3]?”



Este segundo módulo de O Olhar de Ulisses [4] contou entre os seus convidados com Marceline Loridan, a viúva de Joris Ivens [5] e daria também lugar ao primeiro texto de fundo sobre a questão do filme documentário da autoria de João Bénard da Costa intitulado Os filmes que nos vêem/ os olhos que nos filmam [6]. Contestando pressupostos teóricos da ideia do documentário –. na verdade, pondo em causa a própria ideia do documentário –, desvalorizando os filmes do movimento documentarista britânico ou demolindo, por exemplo, os filmes militantes de Joris Ivens, concluía dizendo, nomeadamente: “Este texto, muito provavelmente, vai arranjar-me mais inimigos do que todos quantos escrevi na minha vida [7]”.


Sendo muito diversificado – incluía o Fantasporto (já na fase de transição para o terceiro módulo Apocalípticos e Integrados porque, em rigor, lhe coube inaugurar oficialmente a Odisseia nas Imagens no ano 2001) [8], uma primeira grande retrospectiva de cinema de animação dos Estúdios Aardman [9], um filme-concerto Metrópolis (1925-26) de Fritz Lang com música ao vivo de MuteLifeDept. [10], o colóquio Tendências do Audiovisual Europeu [11], a estreia mundial dos filmes da série Estórias de Duas Cidades [12], as iniciativas preliminares do Museu da Pessoa [13] e, ainda, um número significativo de workshops e de acções de formação [14] – o segundo módulo espelhava já as dinâmicas anunciadas na fase de preparação não deixando, no entanto, de revelar os primeiros indícios de contradições ou, pelo menos, de diferentes concepções sobre a História e Teoria do Documentário, cujas repercussões se fariam sentir nos módulos seguintes.


Filme-concerto: Metrópolis (1925-26) de Fritz Lang pelos MuteLifeDept

Um primeiro sinal terá sido o artigo de João Bénard da Costa. Outro, o aparecimento de workshops sobre o documentário de televisão, algo justificadamente ausente de O Olhar de Ulisses, mas cuja relevância no plano das relações institucionais, nomeadamente a RTP e as universidades, não deveria ser ignorado. Esse seria, aliás, um ponto de partida para a discussão do lugar do documentário na programação televisiva, tanto mais que, em simultâneo, era lançada uma grande iniciativa denominada Tendências do Audiovisual Europeu [15] na qual, a par do papel do serviço público de televisão encarado numa perspectiva de descentralização, se procurava introduzir um debate em torno dos nichos de mercado pensados em função da opção pelos documentários, curtas- metragens e cinema da animação. Numa entrevista ao Jornal de Notícias de 7 de Dezembro de 2000 Manuela Melo, a responsável pelo conjunto da Programação Cultural do Porto 2001 falava da possibilidade de um grande centro de produção audiovisual e admitia a hipótese de criação de um Media Park, afirmando a determinada altura:


“Nos últimos anos criou-se uma dinâmica que faz com que haja cada vez mais cineastas, actores, técnicos e outros profissionais que, também pelo apoio logístico conseguido, se vão valorizando. O audiovisual, nesta altura mais do que nunca, sintetiza uma série de expressões artísticas. E, para nós, não interessa apenas a sobrevivência de todas elas, mas também a possibilidade de criar emprego qualificado e estável. A aposta da Porto 2001 nesta área foi lançar desafios e proporcionar meios, em termos de acções de formação, que pudessem oferecer alguma coerência a este conjunto disperso de coisas [16]”.


Na mesma linha de pensamento, no final do ano 2000, o relatório fazendo o balanço do trabalho desenvolvido [17], avançava um prognóstico, bem como algumas condições para a sua concretização:


“Através do envolvimento universitário, das parcerias institucionais que têm vindo a ser levadas a cabo, nomeadamente com a Cinemateca Portuguesa e com o serviço público de Televisão, e dos múltiplos contactos internacionais que têm vindo a ser estabelecidos, o Porto passará a ter condições para se afirmar de uma forma progressiva e sustentada como uma verdadeira Cidade dos Media. Para tanto, a par da ligação dos eventos programados a uma lógica de produção, entende-se como complementar e fundamental a abertura a novas iniciativas tendentes a fomentar actividades empresariais capazes de gerar negócios orientados em função da identificação de nichos de mercado [18]”.



Em função do trabalho realizado [19] e das múltiplas formas de feedback provenientes tanto de parceiros externos quanto do interior da Capital da Cultura o ano de 2000 terminava com legítimas expectativas, mas deixava no ar algumas interrogações sobre os conteúdos, das quais resultava evidente a necessidade de alargar e diversificar a Programação com novos ciclos e iniciatvas como, aliás, se destacava no relatório de balanço mencionado. De um modo geral, a imprensa, sem deixar de referir os problemas existentes, nomeadamente os atrasos verificados quanto à Casa da Animação [20], reflectia uma atitude positiva e, embora mostando-se pouco sensível a eventos menos espectaculares do ponto de vista mediático, traçava um quadro optimista para o ano de 2001 [21].



(Continua)


Notas remissivas


[1] . Anexo I – pp. 57-79.

[2] . Anexo I – p. 60.

[3] . Anexo I p. 57.

[4] . Anexo I pp. 59-63.

[5] . Ver entrevista com Marceline Loridan in Anexo I – pp. 94-95.

[6] . Anexo I – pp. 86-87.

[7] . Anexo I – p. 87.

[8] . Anexo I – pp. 75-79.

[9] . Anexo I – pp. 71-72.

[10] . Anexo I – pp. 63-65.

[11] . Anexo I – pp. 67-69.

[12] . Anexo I – pp. 69-70.

[13] . Anexo I –pp. 74-75.

[14] . Anexo I – pp. 65, 66, 72, 73, 74 e 79.

[15] . Ver Anexo I – pp. 96-97.

[16] . Anexo I – p. 96.

[17] . Anexo III – pp. 67-73.

[18] . Anexo III – p. 69.

[19] . Ver Anexo III – pp. 70-73.

[20] . Anexo I – p. 85.

[21] . Ver, por exemplo, o artigo de Rodrigues da Silva no Jornal de Letras, Artes e Ideias de 10 de Janeiro de 2001 in Anexo I – pp. 98-99.

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