CULTURA

  • Jorge Campos

Presidenciais em debate: a incógnita de Marcelo


Foto: Portugal Digital

Há quatro candidatos em quem eu, em princípio, poderia votar. São eles Marcelo, Marisa, Ana Gomes e João Ferreira. Vou falar do primeiro, cujo percurso político é o mais longo, com raízes que vão até às brumas do Estado Novo, e cujo futuro se adivinha. Apesar de estar fora do quadro de referências ideológicas com o qual me identifico, Marcelo fez um mandato equilibrado. Conviveu bem com um governo apoiado pela esquerda parlamentar, contornou incómodos com uma exposição mediática permanente, desviando atenções, tirou vantagem de um agudo sentido de comunicação, tratou de promover uma onda de afetos sem precedentes, em suma, é difícil não gostar dele. Eu gosto. Dentro da televisão, sem opositor, é imbatível. Com opositor, é problemático. Fora dela, volta e meia, disfunciona.


Tive ocasião de o acompanhar em duas viagens de estado ao estrangeiro, uma ao Brasil, outra a Andorra. Só posso elogiar a sua conduta. Tanto no trato pessoal, quando no plano institucional. E, já agora, também o seu sentido de humor, por sinal, nunca inocente. Em Andorra, deu a volta à mesa onde decorreu o jantar de boas vindas à delegação presidencial apresentando, um a um, os deputados portugueses a quem se encontrava a seu lado. Coube-me ficar junto da ministra da Cultura. Vem o Presidente e graceja em francês: este senhor é deputado do Bloco, um partido da extrema-esquerda onde mandam as mulheres, aliás, ele deve ser dos poucos homens que restam. A ministra não percebeu a piada. Eu não contive uma gargalhada. Marcelo é mesmo assim.


Invulgarmente inteligente, por vezes, algo mefistofélico, mas sempre simpático, também precisa do frenesim para viver. Adapta-se bem. Antes da Revolução foi protegido do Marcelo a quem deve o nome, o Caetano, depois situou-se na esquerda da direita do regime, sempre a conspirar, designadamente no movimento estudantil anti-marxista. Foi fura-greves. Após a Revolução ajudou à fundação do PPD, defendeu um socialismo que nunca se soube bem o que era, tratou de inventar factos políticos no Expresso, juntou-se a uma tendência chamada Nova Esperança - onde teve por companhia Santana Lopes, José Miguel Júdice e Durão Barroso - para exorcizar a social democracia de uma vez por todas, criou um jornal conservador chamado Semanário, andou a dar aulas na Faculdade de Direito, onde, de resto, tinha sido um aluno brilhante, e, mais tarde, em 1996, chegou à liderança para, entre outras medidas, tirar o partido da família liberal europeia, aderindo ao PPE, e avançar com propostas de privatização, designadamente da Caixa Geral de Depósitos, da RTP e da RDP.


A pecar, a lista peca por defeito, não por excesso. Com efeito, pelo meio poder-se-iam ter citado inúmeras peripécias como a da célebre tentativa fracassada de travessia a nado do Tejo durante a campanha autárquica para Lisboa, uma eleição em que foi literalmente destroçado no debate televisivo por um opositor muito melhor preparado do que ele, Jorge Sampaio. Dito isto, nunca deixei de considerar Marcelo Rebelo de Sousa um democrata. Mais, admiro a sua capacidade de se reinventar. Sempre com um objetivo, atingido há cinco anos após a interminável maratona de comentário político que fez dele a pessoa mais conhecida de Portugal, a Presidência.


Reitero, de um modo geral, esteve bem. Mas não deixou de ser um homem da direita. As suas opções ficaram claras em relação a aspetos essenciais como a inclinação para os privados na Lei de Bases da Saúde, como na desatenção quanto às relações laborais, designadamente, quanto à precariedade, como no visível incómodo causado pelas sucessivas tropelias do sistema financeiro. São questões de fundo, de projeto político, de modelo de sociedade. Marcelo sabe-o. Talvez por isso, num piscar de olho ao eleitorado da esquerda, tenha sentido a necessidade de, no anúncio da sua recandidatura, se declarar social-democrata.


Dada a volatilidade do seu pensamento político - quando muito poder-se-ia reconhecer-lhe fidelidade à matriz social-cristã da igreja católica - a declaração não surpreende. Marcelo tem a reeleição garantida, mas precisa de uma vitória esmagadora, impensável sem uma parte significativa dos votos dos eleitores dos partidos da geringonça. Se a obtiver fica legitimado para um segundo mandato mais irrequieto, permitindo-lhe, porventura, criar condições para a alternativa à direita da qual tanto fala e manifestamente sente a falta.


De modo que a possibilidade de votar nele, pela minha parte, fica descartada. Por uma questão de projeto, por inerência, de prudência, mantendo embora a avaliação feita e, obviamente, a simpatia de sempre.


Jorge Campos

2 de janeiro de 2021

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