CULTURA

  • Jorge Campos

(re)inventar a cidade - Porto, alerta!

Atualizado: Mar 10


Bairro de Aldoar. Fonte: JN
Luís Filipe Menzes, candidato do Governo. Fonte: Jornal de Negócios

Há dias, um candidato à Câmara do Porto andou pelo bairro de Aldoar e, segundo o testemunho de moradores, fez promessa de construir uma piscina. Alguém lhe terá dito que até dava jeito porque sempre haveria onde tomar banho. O comentário faz sentido: não falta ali gente sem água em casa pela simples razão de não ter como pagá-la. Mas a história não fica por aqui. Como é habitual nestas circunstâncias, havia um fotógrafo. Pouco tempo volvido, os moradores receberam como prenda uma fotografia alusiva à visita do candidato com moldura a preceito.


É claro que cada candidato tem o seu estilo, apesar da normalização dos cartazes onde a generalidade dos políticos do velho arco da governabilidade ostenta o fulgor juvenil concedido pela graça do photoshop. A propósito, passando há dias por Oeiras, vi enormes outdoors ao estilo O Horizonte é Vermelho, o famoso filme da Revolução Cultural chinesa, com um remoçado dr. Flores e as setinhas do PSD. Foi uma grata surpresa. Salvo o pormenor das setinhas – aqui pelo Porto, sumiram – sempre há sinais inequívocos de que, no maior partido da coligação, por cada malfeitoria de Mr. Hyde no governo há um Dr. Jekyll que se levanta no poder local.


Tanto assim que o Dr. Jekyll que nos coube é imbatível nas questões sociais. E tem o seu estilo. Ao ouvi-lo falar sobre aquilo que vai fazer nos bairros – piscinas, jardins, parques infantis, obras nas casas, apoio aos idosos e tantas outras coisas cuja simples enumeração não caberia no espaço desta crónica – cheguei a pensar se ele não estaria a falar de um clube Med. Mas não. Ele vai transformar os bairros sociais em bairros de classe média. Eu, digo-o já, faço questão de aplaudir. E se a esse desígnio juntar a catadupa de prodígios propalados a bem da cidade, sinto-me obrigado a dar a mão à palmatória e a concluir que a austeridade do Mr. Hyde do governo, contra a qual me tenho insurgido, simplesmente não existe e, como tal, eu tenho andado a esgrimir contra moinhos de vento.


Tudo estaria bem e eu nas minhas sete quintas, não fora um pequeno problema. Diz-se que quando, em meia dúzia de dias, Stevenson escreveu The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde estava num tal estado de exaltação que mal conseguia controlar o turbilhão de ideias que o assaltava. O resultado foi uma novela em relação à qual, ainda hoje, quase 130 anos mais tarde, continuam a ser feitas as mais diversas interpretações sobre a identidade dos nossos outros. Talvez por isso, se fico aturdido com a capacidade de efabulação do Dr. Jekyll, nem por isso consigo deixar de entrar em rota de colisão, todos os dias, com a narrativa de Mr. Hyde.


Por exemplo, sendo professor do ensino superior público, olho em volta e vejo a penúria dos meios disponíveis para o funcionamento dos cursos, a situação de precariedade dos investigadores, a angústia dos colegas mais novos a quem pouco ou nada servem os graus académicos, as dificuldades das famílias para pagarem as propinas dos filhos e os problemas dos estudantes com a exiguidade dos apoios sociais. Mas, dizem-me que se trata de uma reforma estrutural do ensino, a qual faz parte de uma reforma do estado, a qual, por sua vez, é uma exigência de uma entidade supranacional que me está a ajudar a livrar-me de problemas. Eu sinto na pele que tudo piora. Ora, dizem-me que tudo piora porque tudo melhora. Sendo pouco dado às subtilezas da novilíngua, enquanto eleitor, dou comigo a pensar: e se ao votar Jekyll me sai Hyde?


Vai daí, para clarificar as ideias, procuro fazer um exercício em função do novo acordo semântico. Vejamos. Que pensarão os professores sem trabalho em longas filas de espera nos centros de emprego? Devem estar felizes em nome da escola do futuro que passa bem sem eles, suponho. E os funcionários públicos que atendem os 900 mil desempregados, eles próprios na contingência de irem para a mobilidade? Só podem estar contentes com a modernização do estado, imagino. E os casais que deixaram de poder pagar as prestações das casas? Felizes por terem percebido que não podem viver acima das suas possibilidades, estou em crer. E os jovens altamente qualificados de partida para outras paragens? Radiantes, é o mundo da aventura, parece-me. E os pensionistas a quem agora se diz que os descontos efectuados ao longo da vida não eram para valer? Eufóricos, porque mais vale perceber as coisas tarde do que nunca, como é lógico. E os velhos obrigados a optar entre refeições e medicamentos? Serenos, porque sendo velhos são sábios, como é evidente.


Francamente, o exercício, faz-me espécie. Bem sei que em eleições autárquicas, muitas vezes, o perfil dos candidatos pesa mais do que as siglas partidárias. Eu, à cautela, é que, afinal, vou mesmo evitar candidatos associados a setinhas, sejam elas quais forem: arrebitadas para a direita, viradas para uma bolinha ao centro, disfarçadas ou simplesmente omissas em fundo azul. Nem Dr. Jekyll, nem Mr. Hyde. É um questão de elementar prudência.


De resto, pensando bem, até não tenho nada a ver com o psicodrama da direita no Porto. Interessa-me é acrescentar esquerda onde ela tem faltado: na câmara, na assembleia municipal e nas freguesias. Vai ser uma batalha dura, eu sei. Mas havendo ousadia, a convergência acontecerá. A propósito, veio-me à memória O Terceiro Homem de Carol Reed, um clássico do film noir centrado nos primeiros tempos da Guerra Fria. Diz Harry Lime (Orson Welles) a um perplexo Holly Martins (Joseph Cotten):


“Os italianos tiveram guerras civis, os Bórgias, catástrofes, mas produziram artistas como Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Miguel Ângelo, Bellini e Tintoretto. Os suíços tiveram 500 anos de paz e inventaram o relógio de cuco.”


De relógios de cucos, creio eu, estamos todos fartos.


(Texto publicado em 2013 por ocasião da campanha do BE "E se virássemos o Porto ao contrário")


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