CULTURA

  • Jorge Campos

(re)inventar a cidade - Porto, memória

Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão”.

Almeida Garrett

Fonte: Rádio Portuense

Sou do Porto. Estive fora. Mas agora vivo no Porto. Há 40 anos. Gosto do meu bairro da Pasteleira. Diante do meu prédio, desenhado pelo arquitecto Arménio Losa, há um jardim. Da varanda de minha casa, por entre as árvores, vejo a ponte da Arrábida. Se saio para caminhar junto ao rio, mais adiante, na Ribeira, dou com a ponte Luís I. E, a seguir, com a ponte D. Maria Pia. Quando os meus passos se encaminham em sentido inverso, encontro o mar.


As pontes do Porto têm uma história. São marcos da história da cidade. A ponte de D. Maria Pia da Eiffel Constructions Métalliques (1877) está associada à revolução industrial que chegou tarde, mas chegou. O mesmo sucede com a ponte Luís I (1888), inseparável da memória de uma época de prosperidade mercantil. A ponte da Arrábida (1963), essa maravilha do engenheiro Edgar Cardoso, assinala a expansão urbana e celebra o triunfo do automóvel. A outra ponte também por ele concebida 30 anos mais tarde serve os comboios de alta velocidade. Gosto das pontes e do rio.


Quando caminho pela marginal do Douro, do lado de cá, aquilo que vejo é mais do que aquilo que apenas vejo. É aquilo que respiro. E respira. Porque tanto é parte de um património edificado quanto de um património simbólico cuja ressonância me permite declinar o tema do rio e das pontes em busca de uma memória sem a qual nem o Porto teria o carácter identitário que tem nem eu poderia imaginar a cidade do futuro que quero.


Sim, viver a cidade, habitá-la, é poder imaginá-la a partir de quanto nela há: vestígios romanos, muralhas medievais, igrejas, o barroco do italiano Nasoni, algum neoclássico de influência inglesa, a arquitectura do ferro, os modernistas; o granito; a topografia; os carros eléctricos; os barcos, as tripas, o vinho, o carvão, o cais do bacalhau; o Douro, Faina Fluvial e o Aniki-Bóbó; as festas populares; contos, lendas e narrativas que dão vida às ruas estreitas; o Camilo, a Agustina, o Eugénio, o Mário Cláudio; os artistas, tantos; os teatros, os museus, a Casa da Música, os parques; as avenidas; e, acima de tudo, o povo.


Na verdade, sem o povo e a sua energia vital a cidade não teria o carácter identitário que tem. De pouco valeria o centro histórico ter sido classificado Património Cultural da Humanidade sem pensar em quem o habita e em quem o vive quotidianamente. Sem o povo a experiência do lugar é sempre residual. Como um postal. E será sempre uma experiência desalmada porque é impossível imaginar o Porto sem essa gente cuja irreverência, solidariedade, vernáculo, hospitalidade e sentido comunitário se manifestam de uma forma tão singular. Se a cidade é como é – a partir do rio, nas margens e granito acima – isso deve-se a quem assim a fez em função de uma forma única de viver e conviver. Com trabalho e iniciativa. Com vicissitudes. Com talento e imaginação.


Quero uma cidade inclusiva e solidária. Mas quando faço as minhas caminhadas ao longo do rio e olho, por exemplo, para o bairro do Aleixo, outras coisas me ocorrem como a estigmatização dos pobres a pretexto da marginalidade que justifica a implosão de torres para favorecer interesses imobiliários. Se me calha andar pelo centro e pela zona histórica fico de coração apertado por ver tantos prédios degradados e tanta casa desocupada a preços de mercado impensáveis – quando há tanta gente sem tecto e tantos jovens sem futuro – e isso faz-me pensar no colapso do modelo especulativo da reabilitação urbana que tem vindo a ser seguido. Por onde quer que passe sempre me ocorrem episódios incompatíveis com a minha cidade imaginada: hostilização dos agentes culturais, censura, autoritarismo, uma atitude provinciana de programação do espaço público. Obras de fachada. Em suma, pontes interditas.


Resta algum saldo positivo? Admito que sim. Mas entre o deve e o haver prevalece o sentido da lógica de quem não entende a especificidade cultural das decisões políticas e, como tal, não pode ousar além da contabilidade segundo o desgraçado modelo corrente. Por isso também quero uma cidade insurgente. Que chame a atenção e reclame ser ouvida. Capaz de fazer pontes. Onde o povo participe. Que acompanhe os sinais dos tempos e se junte ao coro de todos esses movimentos que mundo fora clamam por mais democracia e mais justiça social.


Por isso estou na candidatura E se virássemos o Porto ao contrário?


(Texto publicado em 2013 por ocasião da campanha do BE "E se virássemos o Porto ao contrário")

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