CULTURA

  • Jorge Campos

SEE IT NOW I - O Combate do Século: Murrow vs McCarthy



Edward R. Murrow no estúdio de See It Now

Anyone who isn’t confused really doesn’t understand the situation
Edward R. Murrow

Não há nenhum jornalista no mundo sobre quem tenham recaído tanto as atenções quanto Edward R. Murrow. O seu trabalho, para a Rádio a partir de 1937 e para a Televisão dez anos mais tarde, tornou-se a referência para o que viriam a ser as notícias em ambos os media. Este texto põe o foco naquela que foi a sua batalha mais dura, uma batalha travada em nome da democracia, pela liberdade de expressão. Numa América dominada pelo medo da “caça às bruxas” levada a cabo pelo senador republicano Joseph McCarthy, Murrow teve a coragem de o enfrentar. Venceu. Mas a queda de McCarthy foi também o início da sua própria queda enquanto jornalista. A ousadia paga-se. A abordagem a seguir desenvolvida articula três eixos complementares. Há o domínio do político-social, o papel dos meios de comunicação social e a sua retórica, e as relações de poder. See It Now, o mais célebre programa de Edward R. Murrow, viria também a ser olhado como aquele que mapeou os caminhos do documentário jornalístico de Televisão.


Quando a II Guerra Mundial terminou grandes nomes da rádio norte-americana foram solicitados para ingressar na televisão, o mais poderoso e lucrativo veículo de informação e entretenimento até então conhecido. As principais estações ou eram propriedade ou tinham nascido de empresas de rádio. Por isso, não foi difícil transferir esses profissionais de um medium para o outro. Edward R. Murrow, correspondente da CBS na capital britânica, devido à extraordinária notoriedade que alcançara, fez recair sobre si a maior parte das atenções. Era um excelente jornalista. As reportagens radiofónicas sobre os bombardeamentos de Londres e a Batalha da Inglaterra fizeram dele uma celebridade. O poeta Archibald MacLeish disse ao The New Yorker que Murrow “burned the city of London in our houses and we felt the flames that burned it”. Em This Reporter (1991), um documentário de Susan Steinberg, a sua mulher e alguns colegas recordam que durante os bombardeamentos ele nunca recolhia a um abrigo. Relatava em circunstâncias arriscadas a destruição à sua volta, fosse a partir do topo dos edifícios, fosse a bordo de um bombardeiro da Royal Air Force como aconteceu, no ano de 1943, numa acção de retaliação sobre Berlim.


Murrow tivera lições de dicção e drama. Sabia utilizar a voz como poucos. Charles Kuralt, seu amigo e colaborador, dizia que quando Murrow anunciava no princípio de cada intervenção “This is London” o tempo ficava suspenso. O que se seguia, segundo Kuralt, e pode ser confirmado no documentário de Steinberg, era qualquer coisa como “pintar um quadro com palavras”. Situações descritas com precisão, cada palavra no lugar certo, entonação reveladora do controle do momento.


Em reconhecimento dos serviços prestados, a CBS ofereceu-lhe um lugar na administração. Ocupou o cargo, aparentemente contrariado, durante dois anos. Depois regressou ao jornalismo e foi escolhido para ser o rosto da CBS na televisão com um programa informativo denominado See It Now, uma adaptação do radiofónico Hear it Now, também da sua responsabilidade.


Murrow e o produtor Fred Friendly em Outubro de 1954 Fonte: CBS Photo Archive

See It Now


A primeira emissão de See It Now - anos mais tarde daria origem a 60 Minutes ainda hoje no ar - teve lugar a meio da tarde de 18 de Novembro de 1951, Murrow apresentou-se, bem como aos seus colaboradores – entre eles encontrava-se Fred Friendly, jornalista, produtor e seu braço direito – como sendo uma “velha equipa tentando aprender um novo ramo de actividade ”. Com efeito, quase todos vinham da rádio e estavam a tomar contacto com a televisão. Talvez por isso, o primeiro ano de emissão foi, de certo modo, experimental. Habitualmente, o alinhamento contemplava uma série de estórias, por vezes centradas em figuras públicas, combinando procedimentos do documentário de rádio com técnicas cinematográficas de newsreels. O formato era o de um magazine. Devido à incipiência do desenvolvimento tecnológico, os percalços eram relativamente frequentes. De início, procurou-se evitar a controvérsia, embora o intuito, tal como acontecera com Louis de Rochemont dezassete anos antes ao dar corpo a March of Time, fosse tratar os assuntos em profundidade, marcando uma diferença em relação aos boletins de notícias.


Murrow começou por encarar o medium como um mero veículo de transporte, sem cuidar da sua especificidade. A verdade, porém, é que, pela sua natureza, a televisão operava uma metamorfose. Por via da presença no ecrã, Murrow não só era parte do conteúdo veiculado, mas também fazia crescer à sua volta uma espécie de halo que seria tentador explicar em função do princípio da gestalt de figura/ground. Do mesmo modo, sendo a imagem a preto e branco, de baixa definição, a exigência de participação sensorial para completar a mensagem, da qual McLuhan falaria mais tarde, poderia ser outra hipótese explicativa da aura criada em torno do jornalista. Como diria o comunicólogo canadiano, medium is message. Contudo, aquilo que iria fazer de See It Now um programa incómodo, pouco teria a ver com os seus aforismos. Foram os temas abordados, bem como a rede de relações de índole social, tecnológica e cultural inerente ao período em que a televisão se desenvolveu, que lhe conferiram relevância.


Nos anos 50 a televisão passou a ser o principal meio de entretenimento das famílias americanas Fonte: Vintage Everyday

Na verdade, See It Now foi contemporâneo do período em que a televisão conheceu maior expansão. Em 1947, nos Estados Unidos, apenas um cada 100 lares dispunha de televisão. Em 1955, oitenta por cento tinha, pelo menos, um receptor. Daí resultou uma até então desconhecida capacidade de ressonância e amplificação das mensagens. Por outro lado, a história da televisão americana também está indissociavelmente ligada, do início à fase de consolidação, ao período designado por Década do Medo ou Década do Pesadelo ou, simplesmente, da “caça às bruxas”.


Joseph McCarthy e os media


Esse período vai de 1945 a 1955, mas foi só a 9 de Fevereiro de 1950 que passou a ter um rosto, o do senador republicano Joseph McCarthy. Nesse dia, discursando perante 250 pessoas num jantar promovido pelas mulheres do Partido Republicano da cidade de Wheeling, West Virginia, o até então obscuro político do Wisconsin agitou uma folha de papel, dizendo: “Tenho aqui na minha mão uma lista de 205 nomes de pessoas que são conhecidas pela Secretaria de Estado como sendo membros do Partido Comunista e que, apesar disso, continuam a trabalhar e a influenciar a política do Departamento de Estado”.


Daí a começarem a circular listas negras em todos os sectores da sociedade, incluindo a Casa Branca, foi um pequeno passo. As raízes da orientação persecutória são parcialmente explicadas pela desconfiança dos republicanos em relação a tudo o que, de algum modo, tivesse estado ligado às políticas do New Deal, tendo ganho maior acuidade após a II Guerra Mundial com a progressão do comunismo. Em plena Guerra Fria, a ideia de um País infestado de espiões fizera o seu percurso junto de vastos sectores da sociedade americana, sucedendo-se os episódios reveladores, alguns dos quais trágicos, como o da condenação à morte de Ethel e Julius Rosenberg.


Joseph McCarthy, o senador do Wisconsin cuja paranóia anticomunista o levou a imaginar infiltrados em todos os cantos da América Fonte: People´s World

Os meios de comunicação social mereceram da parte de McCarthy uma atenção especial. Via neles uma correia de transmissão dos comunistas, ponto de vista, aliás, corroborado por um livro de três ex-agentes do FBI denominada Red Channels: The Report of Communist Influence in Radio and Televison, publicado em Junho de 1950, no qual foram denunciados 151 profissionais, na sua maioria dos mais respeitados e com maior notoriedade. Red Channels, amplamente distribuído, não foi apenas uma advertência. Teve consequências na admissão e despedimento de pessoal. Networks como a CBS, onde trabalhava Murrow, mostraram-se particularmente zelosas chegando, primeiro, a institucionalizar uma espécie de juramento anticomunista e, depois, contratando serviços especializados de segurança. Concomitantemente, McCarthy conseguia ampla cobertura. No auge das suas inquirições aparecia diariamente nas primeiras páginas dos jornais. Em 1954, alguns deles chegaram a dar quinze a vinte notícias na mesma edição tendo o senador como protagonista principal .


Na ofensiva pelo controle da televisão, McCarthy legislou no sentido de proibir a exibição de filmes de autores suspeitos de simpatias pelo comunismo e levou o presidente Eisenhower a colocar gente da sua confiança na FCC, a entidade à qual cabia, como ainda hoje cabe, entre outras competências, atribuir, recusar ou retirar as licenças de emissão. Este clima de medo e suspeição levou ao recuo na abordagem de matérias controversas porque, nos termos do regime de patrocínio de programas, tanto o operador quanto o patrocinador eram responsáveis pelos conteúdos veiculados. Mesmo assim, apesar dos constrangimentos, algumas vozes não hesitavam em fazer uso do direito constitucional de liberdade de expressão. Por exemplo, o presidente Harry Truman, atacado por McCarthy por supostamente permitir a infiltração de comunistas no aparelho de estado, acusou publicamente o senador de corrupção da verdade e de falsificação da justiça. As suas palavras ficaram nos anais da política americana:


“É o uso da Grande Mentira e da acusação sem fundamento contra qualquer cidadão em nome dos valores americanos e da segurança. É o abuso de poder de um demagogo que vive na inverdade. É o alastrar do medo e da destruição da confiança em todos os níveis da nossa sociedade”.



Truman, por sinal, foi o responsável pela primeira legislação restritiva sobre segurança nacional nos Estados Unidos durante a Guerra Fria e o seu nome é sempre recordado por ter autorizado o uso da bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki.


Christmas in Korea e o documentário jornalístico


See It Now, portanto, foi fazendo o seu percurso num contexto conturbado. No já mencionado documentário This Reporter, Mini Lerner Bonsignori, a montadora dos filmes de Murrow, recorda como as pessoas viviam no terror de perder o emprego. Segundo ela, para tanto bastava uma simples denúncia anónima. Certamente não indiferente aos sinais do tempo, Murrow disse logo na primeira emissão, a 18 de Novembro de 1951, que o programa obedecia a princípios de “serviço público” e que a televisão era “um medium para usar e não para abusar”. Talvez por isso e, certamente, também, devido à crítica da época se mostrar impiedosa com a generalidade da programação televisiva, considerada de uma vacuidade a toda a prova, See it Now, distinguindo-se pelo modo como abordava os assuntos, ganhou prestígio crescente.


Na série de 1952-1953 mudou de formato, passou a tratar apenas um ou dois temas num espaço de 30 minutos. Deixou o horário da tarde para se fixar às dez e meia da noite. A ideia do documentário jornalístico, que viria a atingir o pináculo com Harvest of Shame, da autoria do próprio Murrow, em 1960, começara a ganhar forma. O confronto entre o jornalista e o senador do Wisconsin, também. Na emissão de 23 de Novembro de 1952, ao denunciar a recusa de uma escola secundária de Harrison, Nova Iorque, em ceder o seu auditório para um debate público a pretexto da falta de uma declaração de lealdade patriótica, Murrow sugeriu a possibilidade do sucedido ter uma leitura mais ampla, mas evitou afrontar directamente McCarthy. Por sua vez, modelo que viria a ser apontado como exemplo pioneiro do documentário jornalístico surgiu na série seguinte com Christmas in Korea, exibido em Dezembro de 1953. A partir de então, segundo William Bluem em Documentary in American Television (!965), o número das baixas da guerra, o registo dos avanços e recuos das tropas e as declarações oficiais ficavam para as notícias do dia a dia (hard news). Os aspectos humanos, a análise da situação e a interpretação dos factos seriam da responsabilidade de See It Now.


Murrow a bordo de um avião militar durante a guerra que opôs as duas Coreias, a do Norte e a do Sul, entre 1950 e 1953, causando mais de dois milhões meio de mortos. Os Estados apoiaram o Sul, a União Soviética, o Norte. Fonte: Edward R. Murrow papers

Nessa altura, Murrow já se tinha apercebido da eficácia da presença de gente comum no ecrã. Os seus colaboradores costumavam dizer que o casting de See It Now era feito no terreno. Ao contrário de March of Time (ver neste blogue: Newsreels, Documentário e Buster Keaton: os anos de outro das actualidades cinematográficas), não havia recurso a reconstituições, sendo interdito o uso de actores. Como dizia Fred Friendly “os actores são o povo americano”. Na Coreia, Murrow falou com homens nos seus postos de vigília, perguntou-lhes como se sentiam por passar o Natal fora de casa, que medos os assaltavam, filmou momentos de música e lazer com três militares interpretando Rotation Blues, ouviu as enfermeiras de hospitais de campanha sobre combates que estariam a ser travados, fixou-se nas expressões dos rostos, captou pequenos sinais, mas só por uma vez interrogou um grupo de soldados sobre a guerra tendo obtido respostas evasivas e, por isso mesmo, reveladoras. Havia ainda vistas aéreas do território coreano, pilotos concentrados no painel de instrumentos dos seus aviões, pára-quedistas preparados para saltar, centenas de pára-quedas abertos no espaço descendo para as linhas da frente. Numa escola aldeã, crianças coreanas cantavam uma canção de Natal para os militares americanos.


Christmas in Korea pouco ou nada tem de controverso. Visto hoje tem interesse meramente histórico. Ao tempo, porém, foi inovador. No plano da mensagem, não caindo em excessos de retórica, o filme adopta um ponto de vista em relação ao qual o qualificativo de patriótico não parece excessivo. Algumas sequências do dia a dia dos soldados fazem lembrar os bombeiros de Fires Were Started (1943) de Humphrey Jennings, mas a narrativa está nos antípodas do filme britânico. Neste há uma lógica das imagens e uma suspensão da acção onde o subentendido é mais esclarecedor do que o denotado, ao passo que no documentário de Murrow se verifica a sua intervenção sistemática colocando o primado do enunciado na palavra. Bluem fala mesmo numa lógica da palavra.


Sendo o seu livro Documentary in American Television posterior à publicação de A Galáxia de Gutenberg e Understanding Media, não é improvável algumas das ideias de McLuhan aí terem encontrado eco, mas não no mesmo sentido expresso pelo canadiano. Para Bluem o meio não é a mensagem, e a mensagem obedece a critérios de codificação subjacentes aos meios quentes, como a imprensa. As suas considerações a propósito do documentário jornalístico de televisão levam-no inclusivamente a concluir que este respeita os padrões de raciocínio e de associação de ideias da ordem sequencial característica do jornalismo impresso. Essa ordem inerente, ao pensamento linear, confere um papel de autoridade ao jornalista/ narrador, assim se explicando a necessidade da sua presença recorrente no ecrã como parte constitutiva da mensagem.


Fonte: TimeGhost

A partir de Christmas in Korea a entrevista passou a ser utilizada de forma original e sistemática. Murrow e Friendly viam nela não tanto uma forma de transmitir informação, mas uma possibilidade dramática da revelação da personalidade, dúvidas e conflitos interiores dos entrevistados. Por exemplo, num programa posterior dedicado ao escritor Carl Sandburg pouco mais se vê do que um homem de idade avançada numa cadeira de balanço, como se estivesse a reflectir em voz alta. Para Bluem, a relevância da palavras associada à imagem de um homem a discorrer sobre o mundo acrescentava valor jornalístico à peça. Daí a ausência de artifícios como efeitos, música de fundo e cortes dramáticos. Procedimentos semelhantes foram adoptados em entrevistas de Murrow com, por exemplo, Ghandi, Nehru e Churchill, cuja mera presença no ecrã dava ao público a sensação de se encontrar face a face com a História.


Prólogo de um confronto


Consolidada a reputação See It Now voltou-se para o senador McCarthy. Este estivera no programa logo no primeiro mês de emissões através de uma curta peça de quatro minutos, uma montagem de afirmações contraditórias do senador que passou praticamente despercebida. Alguns meses mais tarde, Murrow entrevistou McCarthy em directo. O senador simplesmente ignorou as perguntas, aproveitando o tempo de antena para levantar suspeitas sobre membros do Congresso e atacar adversários políticos. Também neste caso não houve reacções significativas nem da parte da imprensa nem do público. Só mais tarde, poucos dias antes da emissão de 8 de Março de 1953, inteiramente dedicada ao interrogatório de Reed Harris, director da Voz da América, as águas começaram a agitar-se. Chegaram à CBS os primeiros sinais de desagrado de McCarthy. Harris aparecera na lista negra acusado de actividades vagamente esquerdistas por algo ocorrido há 21 anos. Nesse dia 8 de Março, Murrow fez no final fez um curto e seco comentário sobre aquilo que acabara de ser visto: “um exemplo de técnica de investigação”.


Em Good Night and Good Luck (2006) George Clooney deixa um alerta para o colapso da objectividade jornalística da televisão na era de George W. Bush, antes e após a invasão do Iraque. Clooney não visa directamente nem a Administração nem os media americanos. Utiliza o célebre confronto de Murrow com McCarthy em See It Now como alegoria. Recuperar episódios exemplares do passado para elucidar acontecimentos do presente é recorrente no cinema americano

Em This Reporter Fred Friendly diz que na CBS todos sabiam ser inevitável o confronto com McCarthy. Era uma questão de tempo. Em Outubro de 1953 as inquirições atingiram o paroxismo. Faziam-se ouvir vozes indignadas. Na imprensa próxima dos democratas os comentadores e editorialistas começavam a questionar abertamente os métodos do senador. Por sua vez, See It Now alcançara um estatuto de credibilidade sem paralelo na televisão americana, tendo conquistado uma audiência correspondente a esse estatuto. Estavam, portanto, criadas as condições para um dos episódios mais célebres do jornalismo de televisão nos Estados Unidos.


Interlúdio, flash forward


A memória de Edward R. Murrow, por vezes, parece reverter para o domínio da hagiografia. Ficou dele a imagem do jornalista fiel aos princípios da ética profissional, defensor dos valores democráticos, uma espécie de paladino do bem contra o mal. Esse mal, porém, não era apenas o poderoso adversário político que ajudara a derrotar e que, de algum modo, o arrastaria na queda por razões adiante explicitadas. Era, também, a televisão comercial sujeita à tirania do entretenimento e à dependência dos anunciantes, implacável na punição dos refractários.


Murrow não era nenhum santo. Quando teve de ser pragmático no exercício das suas funções não deixou de o ser. Mas, ao lançar a controvérsia jornalística como elemento de elucidação do debate público sobre questões relevantes apontou um caminho cujo preço os operadores de televisão não estavam dispostos a pagar. O início de Good Night and Good Luck (2006) de George Clooney é justamente a intervenção de Murrow perante a assembleia da Radio-Television News Directors Association (RTNDA), em Chicago, a 15 de Outubro de 1958. Ele começa por advertir os colegas de que poderiam não gostar de ouvir o que tinha para lhes dizer, que poderiam até vir a ser acusados de ter dado acolhimento a um herético, um crítico do estado da televisão comercial e da sua lógica de evasão.


Murrow com Marylin Monroe, uma das numerosas celebridades que entrevistou em Person to Person, por vezes identificado como jornalismo light. A consigna de William Paley, o patrão da CBS, era: Television is business. Fonte: New York Daily News

Na altura, a sua estrela começara a empalidecer. O discurso - o famoso discurso “Wires and lights in a box” que ficaria para a posteridade - soava a uma derradeira tentativa de alertar as consciências:


“Para aqueles que dizem que as pessoas não reparam; que não estão interessadas; que são demasiado complacentes, indiferentes e isoladas, limito-me a responder: há, pelo menos na opinião deste repórter, considerável evidência em contrário. Mas mesmo que estejam certos, que teriam a perder? Porque se estiverem certos e este instrumento servir apenas o entretenimento, a diversão e a evasão, então saberemos que esta lâmpada apenas emite uma luz vacilante e em breve teremos ocasião de constatar que nada valeu a pena”.


Na parte final, um apelo:


“Este instrumento pode ensinar, pode iluminar, pode mesmo inspirar. Mas só pode fazê-lo na medida em que os homens estejam decididos a utilizá-lo para esses fins. De outro modo, não será mais do que cabos e luzes dentro de uma caixa. Há uma grande e porventura decisiva batalha a travar contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. A arma da televisão pode ser muito útil”.


Estas palavras foram proferidas quatro anos e alguns meses após a última das quatro emissões de See It Now reportando ao senador McCarthy que foi para o ar em 16 de Março de 1954. A administração da CBS recebeu pressões de vária ordem tendo adoptado uma posição de ambiguidade como o filme de Clooney habilmente ilustra. Se a Murrow sugeriu estar a ir longe de mais, face à pressão dos anunciantes invocou junto do poder institucional os princípios da liberdade de expressão impeditivos de actos de censura.


Em 1955, a ALCOA (Aluminum Company of America) retirou o patrocínio a See It Now, cujo tempo de emissão aumentou para uma hora, mas sem horário regular. Quem conhece o meio sabe ser esta esta uma forma expedita de acabar com algo incómodo. O programa passou a ser anunciado como um “especial de informação”. Gilbert Seldes, crítico cultural, autor do influente livro The Seven Lively Arts (1924) e, posteriormente, director de CBS News sugeriu ironicamente aos executivos da companhia que o programa mudasse de nome para See It Now and Then. Extinto em 1958, o que poderá explicar parcialmente o discurso de Murrow na RTNDA, deu lugar ao CBS Reports, depois 60 Minutes.


Cena de Good Night an Good Luck de George Clooney. Murrow ( David Strathairn) fala aos pares da RTNDA. Citação a propósito do McCarthyism: “We must not confuse dissent with disloyalty. We must remember always that accusation is not proof and that conviction depends upon evidence and due process of law. We will not walk in fear, one of another. We will not be driven by fear into an age of unreason, if we dig deep in our history and our doctrine, and remember that we are not descended from fearful men – not from men who feared to write, to speak, to associate, and to defend causes that were, for the moment, unpopular”.

Continua



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