In the Year of the Pig (1968) - Resgate do Cinema Político de Emile de Antonio
- Jorge Campos
- há 11 minutos
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"It sounds flippant, but it's nonetheless correct:
only God is objective and He doesn't make films."
Emile de Antonio
Emile de Antonio é um dos mais importantes cineastas políticos da América. É também um dos de quem hoje menos se fala nos circuitos convencionais, incluindo festivais de cinema. Quem quiser encontrá-lo nos arquivos de media considerados de referência como o NYT ou dos canais da televisão comercial mainstream, desiluda-se. Há uma ou outra rara polémica. Algumas poucas críticas de cinema. Uma ou outra história relacionada com a sua personalidade vulcânica. A vida boémia. Contudo, não foi Emile de Antonio o cineasta que revolucionou o modo de pensar a não-ficção americana tendo influenciado gerações de independentes e até o cinema dos progressistas de Hollywood? Claro que sim. Então? Então, o problema está no incómodo que o acompanha, quer no plano político quer ao campo estético, bem como, em menor escala, em episódicas questões legais relacionadas com censura e direitos de autor. Porém, onde o mainstream viu no incómodo motivo de exclusão, os meios alternativos, frequentemente ligados à contracultura, encontraram o desafio da interpelação.

Conhecido no meio artístico por De, Emile de Antonio foi das pessoas mais vigiadas dos Estados Unidos. Os ficheiros na base de dados oficial do FBI que lhe dizem respeito têm mais de 10 mil páginas. Visto pelos seus pares da indústria cinematográfica como um marxista entre capitalistas, sendo um intelectual de pensamento extremamente elaborado, optou por afrontar o establishment fazendo documentários críticos da política e dos governos americanos. Alguns exemplos: Point of Order (1964) escalpeliza a “caça às bruxas” a propósito do frente a frente entre o Exército e o senador Joseph McCarthy nas audiências do Senado; Rush to Judgement (1967) questiona o trabalho da Comissão Warren na investigação do assassínio do presidente John F. Kennedy, por sinal, seu condiscípulo em Harvard; In the Year of the Pig (1968) é uma incursão em busca das origens da Guerra do Vietname da qual resulta, latente, o desfecho, posteriormente, confirmado, da derrota americana; Milhouse: A White Comedy (1971), uma sátira à carreira do “oportunista” Richard Nixon que obteve assinalável êxito, em boa parte devido ao alarido indignado dos Republicanos que funcionou como forma de promoção do filme em sala.

Capitalismo | O avesso do status quo |
Estes documentários, dos mais conhecidos da filmografia de Emile de Antonio, têm um denominador comum. Expõem o lado obscuro do poder, relevam a incoerência e irracionalidade das decisões dos seus protagonistas e põem a nu os meandros sombrios da Guerra Fria. Podendo parecer excessivos na minúcia da contextualização, são, na verdade, como o bisturi que avança explorando o corpo do paciente com intuito de localizar o maligno e, desse modo, abrir melhores perspetivas para o doente, ou seja, a sociedade. Assente na crítica do capitalismo, o ponto de vista dominante é o da esquerda americana dos anos 60 e 70 na sua versão mais radical. Analítico, desafiando o senso comum, De vira o status quo do avesso através de um método provocatório que, sendo original e inovador para uns, para outros, com diferentes perspetivas ideológicas ou das poéticas do cinema, é manipulador e rudimentar. Dito de outro modo, se o ponto de vista incomoda, o estilo não lhe fica atrás. Todavia, o juízo de descuido formal é precipitado.
Olhando bem, apesar das irregularidades ditadas por condicionantes de vária ordem, como o facto de trabalhar com arquivos de diferentes proveniências nem sempre nas melhores condições, a maioria dos filmes revela-se extremamente cuidada. Face aos materiais adquiridos – ou pirateados –, De procede experimentalmente. Joga com a polissemia das imagens, algo que vem do tempo de Esfir Schub, criadora dos filmes de compilação e autora de A Queda da Dinastia Romanov (1927), para criar objetos eventualmente estranhos, seguramente marginais, infalivelmente contundentes. Mestre da montagem dialética – por influência do trabalho de pioneiros da Arte Pop como Robert Rauschenberg e Jasper Johns, chamar-lhe-ia “colagem” – desconstrói e organiza segmentos de newsreels e telejornais subvertendo a lógica das representações de modo a produzir um efeito semântico de boomerang. Recusando liminarmente o texto televisivo, não se inibe de usar e abusar da palavra. Faz numerosas entrevistas. Com sentido de humor, servindo-se das ideias de John Cage, envereda por experiências sonoras inesperadas ao ponto de tanto poderem suscitar riso quanto perplexidade. Em suma, obriga o público mais curioso a prestar atenção. Ou, o menos disponível, à irritação.



Tornando-se conhecidos devido à exibição frequente em circuitos paralelos, como os campus universitários, ao destaque dado nos meios culturais e, sobretudo, à atenção prestada pelos Cahiers du Cinéma, em França, os documentários de Emile de Antonio forçaram o interesse ocasional de um ou outro operador de televisão. Regra geral, a experiência correu mal. Sendo ásperos, eventualmente gráficos, polémicos, houve quem quisesse exibi-los ou com cortes ou mostrar apenas excertos para efeito, por exemplo, de abertura de debates. Também houve quem perguntasse por direitos de autor. Daí à litigância, em ambos os casos, foi sempre um pequeno passo.
Em relação a In The Year of the Pig (1968), porém, nem sequer chegou a haver hipótese de litígio. Nunca foi exibido na televisão comercial americana. Tão pouco na PBS, a televisão pública criada em 1970. Lançado no auge da Guerra do Vietname, a exibição em sala chegou a ser objeto de boicote e de manifestações, por vezes, violentas. Para os setores mais conservadores, apresentar o líder revolucionário Ho Chi Minh, demonizado pelos media convencionais como um ditador comunista brutal, criminoso de guerra e assassino de crianças, fazendo dele um herói nacional, era ultrapassar todos os limites. No filme, Ho Chi Minh surge, com efeito, como um homem simples, alguém que, em 1954, tinha derrotado o exército colonial francês em Điện Biên Phủ, intelectual de elevada craveira, amado pelo povo e, nas palavras do senador republicano Thruston B. Morton, “o George Washington do Vietname.”
As entrevistas com protagonistas de grande notoriedade, bem como os testemunhos recuperados dos arquivos, só vieram reforçar a animosidade do status quo até porque, da boca de alguns dos entrevistados, não se esperava ouvir o que se ouviu. O método de De, importa esclarecer, determinava que houvesse uma conversa prévia com cada um, na qual era dado a conhecer o ponto de vista do autor. Portanto, ficavam informados podendo, depois, dizer o que bem entendessem. Dito isto, a título de exemplo, eis alguns dos entrevistados:
David Halberstam, jornalista do The New York Times, vencedor do Prémio Pulitzer pelos seus textos analíticos da guerra; Harrison Salisbury, também do The New York Times, o primeiro correspondente a presenciar e relatar as atrocidades cometidas pelos soldados americanos sobre as populações civis; Jean Lacouture, famoso jornalista e historiador da transição do colonialismo francês para a intervenção dos EUA no Vietname; Roger Hilsman, antigo Subsecretário de Estado do Presidente Kennedy, que expõe a ignorância sobre a região de quem tomava decisões que viriam a revelar-se desastrosas; Daniel Berrigan, proeminente ativista pela paz, sacerdote católico e poeta, voz moral contra os bombardeamentos americanos.

No caso dos testemunhos, respigados de diversas fontes, designadamente das televisões, das sedes da Frente de Libertação do Vietname em Paris e em Praga, e dos arquivos históricos da República Democrática da Alemanha, aparecem, entre outros:
Ho Chi Minh, futuro Presidente e herói nacional do Vietname; Lyndon B. Johnson, Presidente dos Estados Unidos; General William Westmoreland, Comandante-em-Chefe das forças americanas; Robert McNamara, Secretário da Defesa dos Estados Unidos; General Curtis LeMay, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea (sob cujas ordens Emile de Antonio serviu na Guerra do Pacífico), responsável operacional pelo lançamento da bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki que advogava o bombardeamento ininterrupto do Vietname “até fazê-lo regressar à Idade da Pedra”.

Quase 60 anos após a estreia, In the Year of the Pig continua a ser fascinante. A esta distância, porém, para melhor se perceber porquê, é útil recuperar memórias auxiliares da leitura de uma obra inscrita num espaço e num tempo precisos. Antes de mais, relevar o trabalho de investigação e pesquisa levado a cabo durante ano e meio, com destaque para o papel desempenhado por Orville Schell, especialista da História do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático. Schell, um jovem aristocrata oriundo de uma influente família de advogados da Costa Leste, haveria de ser, mais tarde, correspondente de guerra na Indochina. Habitualmente apontado como o “cérebro histórico” do filme, a ele fica a dever-se o rigor da contextualização que faz de In the Year of the Pig, mais do que um libelo contra a guerra, uma peça de reflexão geoestratégica.
Depois, ter ideia da produção e financiamento. Como sempre, Emile de Antonio angariou fundos junto de amigos, muitos oriundos do meio underground, outros personalidades influentes dos círculos progressistas. Ele próprio elemento da vanguarda artística de Nova Iorque, de Lower Manhattan a Greenwich Village passando pela Bowery, era um dos principais agitadores de iniciativas culturais. Em 1960, foi um dos subscritores com Jonas Mekas do famoso manifesto do New American Cinema ao lado de cineastas como Robert Frank, Lionel Rogosin, Shirley Clark e John Cassavetes. Essa rede de contactos permitia-lhe obter dinheiro através de pequenos donativos ou de somas avultadas, consoante as circunstâncias. Em Hollywood, através de Marjorie Schell, mãe de Orville Schell, contou com o apoio de atores como Paul Newman, Robert Ryan e Shirley MacLaine. Todos contribuíram generosamente. O mesmo sucedeu com o compositor e maestro Leonard Bernstein. E até com três herdeiras da fortuna Rockefeller ligadas ao mundo das artes. De qualquer modo, apesar de não haver referências detalhadas, o orçamento do filme terá sido bastante modesto, tendo boa parte sido utilizado na aquisição de materiais de arquivo de networks e produtoras privadas.
O “sucateiro radical” | Underground | Hollywood
Por último, é também útil antecipar a ideia do processo narrativo do filme. In the Year of the Pig assenta numa estrutura com três pilares. 1) Após uma introdução de assinalável conteúdo gráfico, há uma criteriosa contextualização histórica dos antecedentes da Indochina colonial. A partir de entrevistas com uma galeria de especialistas, o filme começa por apontar o dedo aos equívocos da política francesa resultantes do desconhecimento da terra e das aspirações das suas gentes. 2) Segue-se a exposição de como a França procurou encontrar uma alternativa política ao movimento comunista de libertação Van Minh liderado por Ho Chi Minh, chegando a recuperar o antigo imperador Bào Dai com o intuito de simular a existência de um estado aliado independente no sul. Em 1954, os 55 dias da batalha de Dien Bien Phu, culminando numa derrota clamorosa da tropa francesa, aceleraram as negociações de paz. Os acordos de Genebra do mesmo ano apontaram para eleições gerais em 1956, as quais nunca viriam a realizar-se. Face à evidência do apoio popular a Ho Chi Minh, os Estados Unidos, sentindo ameaçados os seus interesses na região, impulsionaram um referendo fraudulento que destituiu Bào Dai e permitiu fazer do Vietname do Sul um estado fantoche sob a liderança anticomunista de Ngo Dinh Diem. 3) A terceira parte respeita à Guerra do Vietname propriamente dita, ou seja, aquela que mais se aproxima do nosso tempo e sobre a qual há maior número de representações no jornalismo, na literatura e no cinema. Por um lado, remete para o envolvimento militar americano em nome da famosa “teoria do dominó” formulada pelo Presidente Dwight D. Eisenhower, segundo a qual se um país da Indochina ficasse sob controle comunista, os países vizinhos cairiam como uma fileira de peças de dominó. Por outro lado, observa e identifica o recrudescimento da guerrilha contra o ocupante, bem como o apoio popular à Frente de Libertação Nacional, designada no Vietname do Sul e no ocidente, depreciativamente, por Vietcong, de Viêt Nam Công Sán que significa, literalmente, “Comunista Vietnamita”.
O fresco pintado pelo “sucateiro radical” Emile de Antonio – a expressão serve a quem trabalha a partir da reutilização de materiais encontrados na “sucata” – rompe com as convenções do cinema documental mais em voga na altura, em particular o vérité, cujos pressupostos o cineasta via como um embuste. A neutralidade, supostamente resultante da mera observação, segundo ele, escondia o complexo processo de decisões conducente ao ponto de vista, o qual, querendo-se ou não, existe necessariamente em todo o filme. Mestre em Filosofia pela Universidade de Columbia, erudito em Artes e Literatura, antes de começar a fazer cinema aos 40 anos, ganhava a vida como professor. Nos meios artísticos era visto, para além da vida boémia, como alguém que se fazia notar pela argúcia argumentativa e ferocidade crítica. Fez uso de uma e outra para lidar com as contradições do capitalismo, bem como com a agenda do sistema mediático associado, em especial das televisões comerciais geradoras de “lixo”, afinal, boa parte da “sucata” de que iria servir-se para fazer os seus filmes.
Vendo-se como um criador, à semelhança dos amigos Andy Warhol, John Cage, Robert Rauschenberg, Jasper Johns ou Jonas Mekas, para citar alguns, acreditava poder fazer arte experimental através de colagens e justaposições de fragmentos ou “restos” de peças pré-existentes. Detestava a palavra documentário. Preferia a expressão “filmes-colagens”. Manipulava criativamente os materiais. Na introdução de In the Year of the Pig, por exemplo, com o intuito de ilustrar as profundas clivagens políticas e religiosas do Vietname do Sul, constrói uma curta sequência a partir da lendária foto de Malcom Browne onde se vê a imolação pelo fogo, em Saigão, do monge budista Thích Quảng Dức. Através da montagem de diferentes ângulos da foto, justapondo uma trilha sonora não síncrona da autoria de Steve Addiss, discípulo de John Cage, reinterpreta a imagem original.

Outro exemplo, na sequência relativa à derrota do franceses em Dien Bien Phu usa, com ironia, uma “colagem” de newsreels da rendição e retirada das tropas ao som de uma versão bizarra de La Marseillaise, executada com instrumentos tradicionais vietnamitas. Procede de forma semelhante ao dessacralizar The Battle Hymn of the Republic da autoria da poetisa abolicionista Julia Ward Howe, hino patriótico escrito em 1861 no início da Guerra Civil Americana. E assim sucessivamente.
Como facilmente se constata, o método de Emile de Antonio difere radicalmente das convenções dos media tradicionais onde, no caso da televisão, dominava – e domina – a voz de autoridade, a chamada “Voz de Deus”, alinhada com o senso comum, que leva o espectador pela mão de princípio ao fim. Os mecanismos da perceção induzidos pela agenda mediática, conformista por natureza, revelaram-se, por isso, sem surpresa, inadequados à leitura do filme. Por um lado, no plano do conteúdo, causou estranheza a latitude da opinião crítica da ordem sistémica. Não faltou quem falasse de propaganda comunista. Por outro, no plano formal, os códigos presentes na construção da narrativa, escapando à norma, dificultaram o entendimento da mensagem, quando não levaram à rejeição pura e simples. No contexto da época, sendo a oposição à guerra desviante do pensamento institucional, democrata ou republicano, In The Year of the Pig veio pôr em causa consensos há muito dados por adquiridos. O olhar presente no filme, na verdade, era um apelo a engrossar o movimento pacifista da contracultura do final da década de 60 que viria a ser determinante para pôr fim ao conflito. Isso explica, em parte, a recusa da exibição em salas comercias, as ameaças de bomba e as ações de vandalismo por parte quer de defensores da guerra em nome da “democracia” e dos “valores patrióticos” quer de grupos de extrema-direita nostálgicos do machartismo ou com filiação a franjas como o Ku Klux Klan. Indo ao encontro da tela de fundo de In the Year of the Pig encontramos uma longa lista de referências. Cabem nela, seguramente, expressões como Beat Generation, Woodstock, POP ART, Civil Rights Movement, Underground, Black Panthers, New American Cinema, Free Jazz, Factory e muitas mais. Na Europa, era o tempo do Maio de 68.

Holywood não se esqueceu de In the Year of the Pig. Nomeou-o para o Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem. Pela primeira vez, uma obra marxista, feita de “sucata” mediática, à revelia dos procedimentos convencionais, merecia essa distinção. Emile de Antonio reagiu com o sarcasmo habitual. Numa carta enviada à sua co-produtora Marjorie Schell, escreveu: “I’m sure we won’t win, but it is odd, isn’t it? The picture, I suspect is too good for it. Most of the pictures which have won in this category are about nothing...” Crítico da Academia de Cinema, não esteve presente no Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, onde, a 7 de abril de 1970 decorreu a cerimónia de entrega das estatuetas. Coube a Fred Astaire anunciar o nome do vencedor: Arthur Rubinstein - The Love of Life (L’ Amour de La vie) (1969), uma produção francesa assinada por Gérard Patris e François Reinchenbach sobre a vida do grande pianista polaco-americano que termina com um concerto em Jerusalém e uma visita ao Muro das Lamentações.
Emile de Antonio nunca ganhou um Oscar da Academia. Tão pouco algum dos seus “filmes-colagens” voltou a ser nomeado. Todavia, o pioneirismo da sua obra, desafiando o establishemnt, abriu as portas a uma vasta produção cinematográfica sobre o Vietname com acesso à passadeira vermelha. O cineasta gostava de salientar esse aspeto. Desconsiderava, no entanto, a maioria desses trabalhos, mesmos aqueles que tinham ido buscar inspiração direta a In the Year of the Pig como Apocalypse Now (1979) de Francis Ford Coppola. Na sua opinião, Hollywood valorizava a dimensão espetacular em detrimento da profundidade analítica. Martin Sheen, o capitão Willard do filme de Coppola e um dos grandes amigos de De, haveria de lembrar que a celebrada cena de início, com o som das pás de helicópteros militares, não é mais do que uma citação do “Concerto para Helicópteros” concebido por Steve Addiss para In the Year of the Pig.
Seria descabido elaborar aqui a lista de filmes que, ao longo de décadas, de um modo ou de outro, prestaram atenção ao cinema de Emile de Antonio. O último de que me lembro é One Battle After Another (2025) de Paul Thomas Anderson, cuja matriz anda à volta dos movimentos radicais americanos, como o Wheather Underground, ativo entre 1969 e 1977. Sobre este grupo, na altura ainda na clandestinidade, De fez Underground (1976) o que, se lhe valeu na posteridade a atenção de Anderson, trouxe-lhe, no imediato, a vigilância redobrada por parte de J. Edgar Hoover, o todo poderoso chefe do FBI.
De entre todos os filmes inspirados no seu trabalho, dos quais raramente gostava, Hearts and Minds (1974) de Peter Davis, tal como ele um homem de esquerda, foi alvo de uma fúria especial. Peter Davis defende no documentário a tese da impossibilidade de se ganhar uma guerra como a do Vietname contra o coração e a alma do povo. Na 47ª edição de atribuição das estatuetas, a 8 de abril de 1975, poucos dias antes da queda de Saigão, venceu o prémio que cinco anos antes escapara a In the Year of the Pig. Bert Schneider, co-produtor de Hearts and Minds, subiu ao palco para celebrar a “libertação iminente” do Vietname e leu um telegrama de agradecimento enviado pela delegação vietnamita que se encontrava a negociar o acordo de paz em Paris. Foi um dos maiores escândalos da história dos Óscares da Academia.
Não foi isso que enfureceu Emile de Antonio. O que ele detestou foi mesmo o filme. No nº 41 da University Review de 8 de dezembro de 1974, portanto meses antes da cerimónia, publicou uma crítica demolidora onde considerava Hearts and Minds uma peça condescendente com o imperialismo americano, adocicada, falha de visão política, hollywoodesca, excessivamente polida, vazia de conteúdo, em suma, “heartless and mindless”. Isto mostra bem até ponto podia ser brutal. E foi-o por diversas vezes, alimentando polémicas monumentais. Davis defendeu-se como pôde dizendo que se tinha colocado do lado humano da história ao contrário de In the Year of the Pig que, segundo disse, era ideológico, propaganda política.
O que se segue já nada tem a ver com o Vietname. É apenas uma nota de rodapé que talvez ajude a fazer o retrato da pessoa que foi um cineasta boémio, invulgarmente talentoso, superiormente inteligente, bebedor inveterado, mulherengo compulsivo, comunista ou anarquista, como se queira, ou conforme a ocasião, e contudo, sempre igual a si próprio.
Adenda | Drunk | O talentoso Mr. Hoover
Num dia de janeiro de 1965, Emile de Antonio e Andy Warhol marcaram encontro no Russian Tea Room, famoso restaurante de luxo em Midtown Manhattan, mesmo ao lado do Carnegie Hall. Fundado em 1927 por antigos elementos do Ballet Imperial Russo, o Russian Tea Room, nos anos 60, era frequentado por celebridades como Marilyn Monroe, Truman Capote, Elisabeth Taylor, Salvador Dali, Sidney Poitier, Rudolf Nureyev e uma infinidade de outras mais. Apesar das divergências políticas insanáveis, Emile de Antonio e Andy Warhol eram grandes amigos. O primeiro era já uma figura destacada do cinema independente. Tinha acabado de fazer Point of Order (1964) e o seu nome estava associado a diversas iniciativas de vanguarda, designadamente à co-produção de Pull My Daisy (1959) de Robert Frank e Alfred Leslie, filme ícone da geração beat que conta com a participação dos poetas Allen Gingsberg, Gregory Corso e Peter Orlovsky. Quanto a Warhol, gozava já de notoriedade que transcendia as fronteiras dos Estados Unidos. Anos mais tarde, em Popism: The Warhol Sixties (1980), contaria que devia tudo o que aprendera sobre Arte Moderna a Emile de Antonio. Segundo o que escreveu para o livro, em 1960, mostrou-lhe duas telas, ambas com representações de uma garrafa de Coca-Cola, uma de pendor expressionista, outra figurativa, a preto e branco, ao estilo dos anúncios comerciais. Observando as obras num relance o cineasta disse mais ou menos o seguinte: a primeira é uma merda, a outra é o que fazes bem, vai por aí. E assim, confirmado pelo próprio, encontrou Andy Warhol o seu caminho.


Enquanto bebiam sentados ao balcão no bar do Russian Tea Room, o pintor manifestou interesse em fazer um filme experimental sobre o cineasta, que acedeu. O filme seria Emile de Antonio a beber uma garrafa de whisky em 20 minutos, duração prevista da curta-metragem. Quando deixaram o restaurante foram diretamente para o quinto andar do edifício em 231 East 47th Street, Midtown Manhattan, onde ficava a Factory, o atelier de Andy Warhol. Os Velvet Underground viriam a instalar-se ali, mais tarde, como banda residente. Montado o dispositivo, diante de uma câmara Auricon de 16mm colocada num tripé, De bebeu uma garrafa de J&B não em 20 minutos, mas em 66 minutos. O climax deu-se quando, perdido de bêbado, se pôs a gatinhar e arranhar as paredes até cair inconsciente no chão. Dias depois, ao ver o resultado da experiência, ficou de tal modo perturbado que ameaçou processar o amigo e levá-lo a tribunal caso mostrasse as imagens. A película foi para os arquivos da Factory de onde saiu, 50 anos depois, para ser restaurada pelo MOMA (Museu de Arte Moderna). Hoje, Drunk ou Drink, que Andy Warhol queria que fizesse parte de uma trilogia juntamente com Eat e Sleep, pode ser visto.
Há um outro filme sobre Emile de Antonio. É o seu último e é dele próprio. Chama-se Mr Hoover and I (1989). É um filme pessoal. Da mesma forma que se serviu de footage das estações de televisão para as reverter contra elas próprias em In the Year of the Pig, assim que teve conhecimento da possibilidade de consultar os volumosos ficheiros secretos que o FBI reunira a seu respeito, tratou de os consultar e voltou a virar o feitiço contra o feiticeiro. Ficou, aliás, a saber de coisas de que nem ele tinha conhecimento. De caminho, desmascarou o talentoso Mr. Hoover.

A terminar. Quando acabou a montagem de In The Year of the Pig uma das primeiras pessoas a quem o mostrou foi Jonas Mekas. Mekas achou o filme interessante, mas pouco objetivo. Emile de Antonio respondeu: "It sounds flippant, but it's nonetheless correct: only God is objective and He doesn't make films."
Ficha Técnica
Título original: In the Year of the Pig
Realizador: Emile de Antonio
Ano de lançamento: 1969 (estreia no final de 1968)
País de origem: Estados Unidos
Duração: 101 minutos (1 hora e 41 minutos)
Produção: Emile de Antonio Productions, Turin Film Productions
Argumento: Emile de Antonio
Consultores: Marjorie “Moxie” Schell, Orville Schell
Fotografia: John F. Newman, Jean-Jacques Rochu
Found footage: Várias fontes de noticiários e arquivos históricos
Montagem: Emile de Antonio, Helen Levitt, Hannah Moreinis e Lynzee Klingman
Música: Steve Addiss
Distribuição: Pathe Contemporary Films



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