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CULTURA

Ucrânia (Parte VI): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Exaltação do heroísmo e apropriação cultural

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • há 1 dia
  • 14 min de leitura

 

O nacionalismo é uma questão de vida ou de morte para o regime de Kiev. Na sequência da lei da descomunização aprovado pela Rada em 9 de abril de 2015, a seguir à chamada Revolução da Dignidade, a Ucrânia iniciou um conjunto de práticas com vista a eliminar os sinais da cultura russa. Proibiu ou limitou o uso da língua e demoliu ou alterou o significado de milhares de monumentos históricos. Milícias e grupos de extrema-direita envolveram-se em perseguições que culminaram, frequentemente, em episódios sangrentos. O massacre de Odessa foi um deles. Com o apoio da Federação Russa, os movimentos separatistas ganharam força. Surgiram as repúblicas autónomas no Donbass. A partir de 2022, a questão da identidade tornou-se o epicentro da batalha ideológica. Exaltando o heroísmo e o passado mítico através da lente de um revisionismo histórico sem precedentes, a chamada Revolução Cultural pós-Maidan, quando não destruiu, tratou de proceder à apropriação conveniente da cultura russa ou soviética. Começou uma corrida contra o tempo.

 

Em apontamentos anteriores, cujo ponto de partida foi a obra de historiadores nacionalistas ucranianos – A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História (2023) de Serhii Plokhi; Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber (2020) de Serhy Yekelchyk; Passar das Marcas (2022) de Owen Matthews –, há ampla informação adicional sobre a questão cultural, as mais das vezes de origem oficial ou oficiosa. (Ver aqui)

 

Acrescentaria o seguinte. Entre 2024 e 2026 o governo de Kiev introduziu medidas drásticas visando a “desrussificação” ou “descolonização” do imaginário coletivo. Foi dada prioridade à Educação como arma contra a ocupação ideológica. Em setembro de 2025, a língua e literatura russas ou foram liminarmente banidas das escolas ou reduzidas a atividades extracurriculares residuais. Falar ucraniano nos estabelecimentos de ensino passou a ser não só obrigatório, mas também um sinal de lealdade cívica e patriótica. Hoje, as autoridades sustentam que 48 por cento da população escolar já se exprime exclusivamente em ucraniano, apesar da resistência em alguns lugares, entre os quais, Kiev. Dos novos manuais escolares foram eliminadas as referências à ideia de fraternidade entre os povos do período anterior e, em seu lugar, surgiu a glorificação dos heróis da resistência à ocupação soviética. O treino militar para crianças, à semelhança do que, de resto, também existe em escolas da Federação Russa, passou a fazer parte dos planos curriculares. Todavia, esta prática, nem sempre divulgada, é anterior à invasão de 2022. Do lado ucraniano, ficaram célebres os campos de férias do Batalhão Azov. Do lado russo, no seguimento das perseguições étnicas pós-Maidan, os separatistas do Donbass deram início a algo de semelhante. Uma peça de 2017 da insuspeita Radio Free Europe - Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, é reveladora. A primeira parte é sobre a participação de crianças em campos de Verão do Batalhão Azov. A segundo, a servir de contraponto, é sobre treino militar dado a crianças russas. Se fosse feita hoje seria, por certo, bastante diferente. (Ver, aqui)

 

Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  
Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  

 

 

A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 
A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 

 

Dito isto, vejamos como o nacionalismo ocupa um lugar central nas políticas culturais da Ucrânia, com destaque, mais à frente, para as questões relativas à apropriação de autores e obras russas que passaram a ser considerados como património ucraniano. Começamos por recuperar Marina Pesanti (Ver, aqui), a especialista em diplomacia cultural citada nos apontamentos anteriores:

 

In response to Russia’s military interventions in 2014, Uktraine’s cultural and creative sectors promoted national unity and sought to counteract the divise effects of Russian cultural influence in the country. Legislative reforms and policy initiatives included the establishment of state agencies such as the Ukrainian Cultural Foundation, The Ukrainian Institute and the Ukrainian Book Institute, as well as the restructuring of pre-existing innstitutions such as the Ukranian State Film Agency. These four bodies, in particular, became key providers of the cultural sector.”

 

 

6. Um novo imaginário coletivo: Heroísmo e Luta de Libertação 

 

Ponto prévio: em termos formais, o modelo cultural ucraniano identifica-se com o que existe, grosso modo, na União Europeia. Nesse aspeto, o texto de Marina Pesanti, até por ser de carácter institucional, é muito claro. Desde logo, para além das questões ideológicas, releva-se a dimensão económica. Em 2014, diz Pesanti, a Cultura terá sido responsável por quatro por cento do PIB ucraniano, bem como pela criação de 3,2 por cento dos empregos em setores como o cinema, radiodifusão, tecnologias da informação e comunicação, moda, design, fotografia, publicidade e relações públicas. A partir desse ano, sobretudo com o apoio de programas e especialistas europeus, surgiram empresários que desenvolvem parcerias com o intuito de fomentar as indústrias criativas. Em 2018, foi promulgada a Lei para a Cultura vista como uma atividade económica capaz de gerar valor acrescentado através da expressão artística. Assim, segundo Pesanti:


“The concept of a ‘national cultural product’, defined as the totality of ‘goods and services’ produced ‘to cater to citizens’ cultural needs’, has gained traction in the national cultural policy discourse. This has been accompanied by growing consumption of Ukraine-made clothes, furniture, souvenirs, books and films, as well as by increased popular attendance at cultural events.”


Lviv, na região da Galicia, a mais nacionalista das grandes cidades ucranianas, foi o laboratório natural para implementar experiências que pudessem ser replicadas noutros locais. Com passado de colaboração nazi, bem como de feroz resistência anti-soviética, Lviv tem uma intensa vida cultural ligada aos valores mais tradicionais. Em 2020, as autoridades da cidade criaram um programa que arrancou com 20 projetos em áreas cobrindo tópicos diversificados. Entre eles, a Educação, a Memória e a História Urbana:


“The city (...) established the Lviv City Culture Fund, a vehicle to support culture projects via funding from a variety of sources, including municipal budgets and local business as well national bodies such as the UCF. This initiative set a precedent for other Ukrainian cities, including Kyiv. (O artigo de Marina Pesenti está reproduzido na íntegra, aqui)


Os programas de Lviv pretendem fomentar o imaginário coletivo do qual deverá sair reforçada a identidade cultural. Todavia, por razões históricas, é justamente nesse âmbito que se inscrevem as contradições mais profundas, porventura, insanáveis, com a Federação Russa. Onde a Ucrânia fala de resistência ao comunismo, o Kremlin contrapõe a colaboração dos nacionalistas ucranianos com o nazismo. Daí o objetivo da “desnazificação”. A palavra não é uma invenção recente. Foi largamente utilizada no pós-guerra significando o esforço coordenado dos Aliados para purgar a ideologia nazi da vida pública, prioritariamente na Alemanha e na Áustria. No contexto atual, se para o regime de Kiev a resiliência anticomunista é uma prática de libertação nacional, para Moscovo o que está em causa são as raízes envenenadas sobreviventes ao efeito purificador da guerra da Mãe Pátria.

 

Um número significativo de nacionalistas, com efeito, não só apoiou a tropa hitleriana, como se distinguiu por excesso de zelo na perseguição a soviéticos, judeus e ciganos. Durante a II Guerra Mundial, criminosos de guerra como Stepan Bandera e Roman Shukhevych, hoje, celebrados como heróis nacionais, eram figuras de Lviv. Por essa razão, em datas simbólicas, os russos atacam os monumentos erguidos em sua memória. Foi o que aconteceu com uma ofensiva de drones em 1 de Janeiro de 2024, dia do aniversário de Bandera. Não houve vítimas a lamentar e a estátua de Tarás Shevchenko (1814-1861), o bardo da Ucrânia, foi poupada. Os meios de comunicação ocidentais fizeram referência ao ataque, mas sem especificar a natureza dos alvos. Para Kiev tratou-se de um ato de “terrorismo cultural” contra símbolos como o Memorial e Museu de Roman Shukhevych, no bairro de Bilohorshcha, e a Universidade Nacional Agrária de Dubliany, onde estudou Bandera. O Euromaidan Press de 1 de janeiro de 2024, considerou ter sido um ultraje à memória dos “combatentes da liberdade”. Ver a notícia completa, aqui.


 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine
 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine

A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.
A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.

 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine
 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine

 

A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 
A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 

 

Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine
Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine

 

O monumento do poeta Tarás Shevchenko (imagem acima) é exemplar no que respeita à restauração do passado mítico. Na estela, conhecida por Onda do Renascimento Nacional, a onda representa o ressurgimento imparável do espírito nacional. Os baixos-relevos remetem para a era histórica de Kiev, bem como para a tradição guerreira dos cossacos. Legitimam o heroísmo do qual os atuais combatentes são depositários na defesa do povo, cujo sofrimento, por outro lado, é um dos temas centrais da poesia de Shevchenko. No topo da estela está representado o futuro. A Ucrânia libertada, moderna e soberana.

 

Como facilmente se constata, a par da destruição de milhares de monumentos soviéticos, caso da Leninopad (ver a Parte IV destes apontamentos), ou da alteração simbólica que deles se fez por forma a atribuir-lhes um sentido oposto ao original, caso da estátua da Mãe Pátria, em Kiev, comemorativa da vitória sobre o nazi-fascismo e transformada em símbolo da luta contra o comunismo (ver a Parte II dos apontamentos), as políticas culturais de Kiev fazem do mito um elemento da afirmação identitária. Mas há outros elementos, igualmente arrojados. Desde logo, nem tudo herdado do tempo soviético é necessariamente mau. Pelo contrário, após ponderada avaliação, considera-se até que deve ocupar um lugar de destaque na nova cultura ucraniana. Foi assim que diversos artistas da URSS – e respetivas obras –, uma vez filtrados através da lente nacionalista, passaram a integrar o panteão dos notáveis.

 

Avant-Garde. O caso das vanguardas artísticas dos anos 20 do século passado é paradigmático. Bohdan Ben, que se apresenta como cientista político e investigador étnico, revelou num artigo publicado a 8 de maio de 2019, em Euromaidan Press, novos dados sobre a importância da Ucrânia para a arte de vanguarda. O título do artigo é Recovering the forgotten names of the Ukrainian avant-garde. No corpo do texto pode ler-se:

 

“Against the backdrop of new discoveries, the avant-garde movement in art emerged, with Futurism and Constructivism as the most radical. Artists everywhere expressed the desire for a complete break with the past and the creation of a "new man." The avant-garde on the territory of the Russian Empire and the early Soviet Union is often affiliated either with communist ideology or with Russian nationality. However, the reality is different. Ukrainians and their ethnic culture influenced this exciting new genre of art immensely – yet are still overlooked.” (Ler o artigo completo de Bohdan Ben, aqui)

 

Fazendo fé no autor, os artistas ucranianos influenciaram enormemente novas formas de arte a partir do momento em que introduziram elementos da cultura popular do campesinato nas suas obras. Entre esses elementos destacam-se as pinturas decorativas, os famosos ovos pintados à mão, os bordados, a cerâmica, o artesanato têxtil e os trabalhos em madeira. Serão estes alguns dos principais traços identitários em função dos quais se opera a metamorfose quer da cultura russa em avant-garde ucraniana, quer de artistas soviéticos em artistas ucranianos. Há, naturalmente, outros fatores, de importância varável, que vão do uso da língua até ao facto de se ter nascido, vivido ou trabalhado em território da atual Ucrânia, teses com a chancela de diversos grupos especializados.

 

David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press
David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press

 

É o caso da PEN Ukraine, um ramo da PEN International, associação de escritores fundada em Londres em 1921, hoje com mais de centena e meia de centros autónomos em todo o mundo. A PEN Ukraine elaborou uma lista de 40 artistas que, de acordo com o parecer dos seus membros, devem ser considerados representantes da arte e cultura ucranianas. Entre outros, constam da lista o escritor Nikolai Gogol, os cineastas Sergei Paradzanov, Aleksandr Dovjenko e Dziga Vertov, bem como o pai do suprematismo russso, Kazimir Malevich. Em relação a alguns dos nomes estabelece-se um vínculo de pertença com base em perseguições sofridas durante o período soviético, como sucedeu com Malevich.

 

Nascido em Kiev de uma família polaco-ucraniana, Malevich é mencionado pela curadora e diretora do Instituto Malevich de Kiev, Tetyana Filevska, como tendo sido profundamente influenciado pela arte popular, designadamente pelas composições geométricas que se encontram em manifestações artísticas no mundo rural. Filevska admite só tardiamente se ter apercebido da situação, uma vez que, segundo ela: “Russia as an empire regularly rewrote history, destroyed people’s lives and appropriated the names of hundreds of artists.” Assim, aos ucranianos modernos, como ela, não restou alternativa: “(...) it is our duty to investigate and learn the lessons of their experience.” A prioridade é, portanto, “descolonizar a História da Arte” e “redefinir a identidade de Malevich”. A operação resultou em pleno. Levada a cabo com o apoio dos Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, teve repercussão internacional. De tal modo que museus como o Stedelijk Museum, em Amesterdão, o Metropolitan Museum of Art e o MoMA, ambos em Nova Iorque, deram acolhimento à reclassificação de obras e artistas. (Ver, aqui e aqui)

 

Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.
Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.

 

Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.

 

 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA
 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA

 

 

O espírito da PEN Ukraine é o da maioria dos historiadores ucranianos, segundo os quais, a História, até agora vista pelo prisma dos russos, tem sido manipulada. Impõe-se, por isso, atualizá-la, conferindo-lhe rigor e sentido prospetivo. Contudo, essa atualização, devido aos constrangimentos da guerra, exige ajustamentos consoante as orientações do momento. Na sua página oficial, o grupo informa que, a partir da invasão russa de 2022, foram estipulados novos objetivos, a saber: informar o público internacional sobre a guerra da Rússia movida contra a Ucrânia; documentar os crimes da Rússia contra os media e a cultura ucranianos; preservar a memória dos jornalistas e ativistas culturais caídos em combate; documentar as experiências do povo da Ucrânia em tempo de guerra; restaurar a vida cultural na Ucrânia; apoiar as livrarias ucranianas vandalizadas pelos russos. (Ver, aqui)

 

Grosso modo, são os enunciados extensivos a todos os organismos da vida cultural ucraniana. Devem observar quer o modelo de criação do “novo imaginário coletivo”, quer a identidade do “nacionalismo moderado” tal como o regime de Kiev a entende. Não será uma equação fácil. Nem em tempo de guerra, nem em tempo de paz, qualquer que ele venha a ser. E por uma simples razão. As mais das vezes, as premissas das quais se parte são problemáticas.  Em consequência, a maioria das conclusões é afetada pela debilidade da sustentação. Na lista elaborada pelos 170 elementos da PEN Ukraine – ativistas de direitos humanos, tradutores, jornalistas, académicos, gestores culturais, dramaturgos e argumentistas – há casos incompreensíveis. Um deles é o do cineasta Dziga Vertov:



“Dziga Vertov (born David Kaufman in 1896), was a brilliant avant-garde cinema director, and was considered a key film theorist of the documentary genre. Born in Białystok, Vertov worked in different parts of the Soviet Union, but it was in Ukraine where he filmed his masterpiece, Man With a Movie Camera (1929). The film was named Best Documentary of all time by the British Film Institute for its exploration of a day in the life of a major European city. Enthusiasm: The Symphony of Donbas (1930), also filmed in Ukraine, is a more brutal examination, and incorporates an experimental soundtrack of industrial sounds known as "concrete music". (Artigo completo, aqui)

 

Vertov foi um dos maiores e mais empenhados cineastas soviéticos das vanguardas contemporâneas da Revolução de Outubro. Inclusivamente, dedicou um filme ao líder bolchevique, o famoso Três Cânticos para Lenine (1934). É certo que, sendo um artista experimental, sofreu com o realismo socialista, a política cultural do período estalinista. Não se lhe conhece, porém, nenhuma inclinação anticomunista e, muito menos, nacionalista. O Homem da Câmara de Filmar é seguramente o pináculo cinematográfico de uma revolução artística, mas, como veremos no próximo episódio destes apontamentos, nada tem a ver com a Ucrânia de hoje, salvo a circunstância de ter sido parcialmente realizado no seu território atual. O mesmo sucede com Entusiamo: A Sinfonia do Donbass, elegia da industrialização de uma região integrada por Lenine na República Socialista Soviética da Ucrânia no quadro das políticas bolcheviques para as regiões. O filme, com a sua excecional banda som, é, na verdade, uma celebração comunista em tudo contrária à “descomunização” da atualidade.

 

Em suma, o processo de construção da identidade ucraniana no domínio das artes, e não só no cinema, ou parece ser excesso de zelo nacionalista – o que acaba por dar razão a quem considera a Ucrânia uma etnocracia - ou é, simplesmente, passar das marcas, para utilizar a expressão do reiteradamente citado Owen Matthews. Ou ambas as coisas explicadas, porventura, com a corrida contra o tempo inerente à urgência de uma legitimação identitária, de facto, extremamente problemática. Assim é a Revolução Cultural Pós-Maidan. É o que veremos de seguida a partir de Dziga Vertov (Ver mais informação sobre Vertov, aqui)


 

Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.
Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.

 

 

Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z
Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z



Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários


Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

Iluminação Camera

 

Ensaios, conferências, comunicações académicas, textos de opinião. notas e folhas de sala publicados ao longo de anos. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes quando se justificar.

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Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

televisão sillouhette

Atualidade, política, artigos de opinião, textos satíricos.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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