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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

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  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 23 de fev.
  • 2 min de leitura
Raina Maria Rilke, Lou Andreas-Salomé e o poeta autodidata Spiridon Drozhzhin.
Raina Maria Rilke, Lou Andreas-Salomé e o poeta autodidata Spiridon Drozhzhin.


o fascínio da Rússia entre abril e agosto de 1900 Lou Andreas-Salomé e Rainer Maria Rilke viajaram pela Rússia. tinham-se conhecido em 1897. catorze anos mais velha que o poeta, a escritora, ensaísta e psicanalista, tinha muito em comum com ele. desde logo, a paixão pela Rússia. Lou nascera em São Petersburgo. era fluente em russo e em francês. Rilke amava o misticismo da cultura russa, cuja influência é patente na sua extraordinária obra literária. dessa viagem resultou um diário (foto da direita), o qual, em função das reflexões nele contidas, é precioso para entender o pensamento da mulher que fascinou, entre outros, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. o livro recupera experiências de estadias prolongadas em Kiev e Moscovo, abeira-se dos segredos de paisagens grandiosas, dos campos, das florestas, dos rios, mergulha nos mistérios do Dnieper e do Volga e presta minuciosa atenção aos detalhes, por exemplo, na descrição de monumentos e obras de arte, procurando encontrar neles marcas de uma espiritualidade distintiva. há, também, o encontro com Tolstoi, epítome do homem russo, bem como com o poeta autodidata Spiridon Drozhzhin, um camponês que os aloja numa cabana com um piso feito de toras de bétula, um banco de madeira ao longo das paredes, um samovar e feno para os animais. dito isto, Na Rússia com Rilke não é de leitura fácil. não toca na tempestuosa relação do poeta com a autora, evita o óbvio e afasta-se do registo habitual das memórias de viagens. propõe, sim um diálogo com o leitor, uma troca de ideias exigente, ou não frequentasse Lou Andreas-Salomé os grandes pensadores do seu tempo. afinal, o tipo de diálogo ausente das considerações dos camafeus do comentário televisivo que todos os dias falam da Rússia sem terem uma vaga ideia do que é aquele imenso país. é pena. ignorância e má fé só favorecem a guerra.



 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 23 de fev.
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Boris Kustodiev - Retrato de Zamiatine (1923).
Boris Kustodiev - Retrato de Zamiatine (1923).


Nós (1920) de Evgueni Zamiatine é o livro que antecipa O Admirável Mundo Novo (1930) de Aldous Huxley, 1984 (1948) de George Orwell e Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury. na verdade, muito do que está nas distopias subsequentes já se encontra na obra deste escritor russo menos conhecido, mas de enorme talento. Zamiatine descreve uma sociedade construída na base de uma determinada engenharia social, matematizada, racional, perfeita; é o ano 3000; a cidade é de vidro, os edifícios são transparentes, não há privacidade, os humanos não têm nomes, respondem por números e funções, envergam "unifs", alimentam-se de químicos processados, deslocam-se em pequenas aeronaves e podem ter dois parceiros sexuais à escolha por semana em dias e horas certos, desde que previamente autorizados. a felicidade inerente à ordem substituiu a liberdade portadora de caos. os "números" respondem perante uma entidade superior que antecipa o Big Brolther de Orwell; na periferia, para além dos muros protetores, vivem os selvagens, recuperados por Huxley; o pensamento e a imaginação são purgados, tal como acontece em Bradbury com a queima dos livros. Nós só foi publicado na União Soviética no tempo da Perestroika. Zamiatine, ex-bolchevique e amigo de Gorky, foi viver para Paris em 1930. dito isto, porque é que me lembrei de Nós? numa roda de amigos, alguém falou deste livro como sendo uma contundente crítica do estalinismo. bom, quando foi escrito, em 1920, ainda não havia "estalinismo". é curioso verificar o que se diz da Rússia a propósito de tudo e a propósito de nada, como dado adquirido, sem se fazer uma vaga ideia do que se diz. quanto ao livro, propriamente dito, sim, é extraordinário. há uma edição portuguesa da Antígona com tradução de Manuel João Gomes.



 
 
 

Atualizado: 5 de jan. de 2024


Ver vídeo no final do texto.

O mundo pula, vamos ver se avança


Dos meus arquivos de vídeo fazem parte algumas intervenções na Assembleia da República enquanto deputado eleito pelo Bloco de Esquerda. Resolvi recuperar algumas. Não é que tenham grande mérito, se é que têm algum, mas apraz-me ter feito parte de uma solução parlamentar de esquerda que todos, ou quase todos, julgavam impossível, e que a tantos devolveu a esperança.


Agora, numa altura que o País acaba de ser surpreendido com a demissão do Primeiro-Ministro, António Costa, por motivos relacionados com uma intervenção do Ministério Público até ver envolta numa espécie de nebulosa, pareceu-me razoável recuperar a memória do tempo em que uma coligação de direita, arrogante e sem rasgo, não passou na Casa de Democracia.


Infelizmente, a maioria absoluta do Partido Socialista que sucedeu à Geringonça, para mim de boa memória, pôs-se a jeito, como se costuma dizer. Retomou velhas práticas, premiou apparatchiks - existem em todos os partidos, mas abundam nos que vão ao pote, na fabulosa expressão do chefe da extinta PAF - e a coisa deu no que deu.


Deixando sem resposta profissionais de diversos sectores, designadamente na Educação e na Saúde, ferindo, por exemplo, quem não tem casa, facilitando a vida a quem já a tinha facilitada, o governo de maioria absoluta do PS caiu, certamente, por outras razões. Na verdade, por fracas razões. Mas, caiu. De modo que resta seguir em frente.


A situação é muito diversa de 2015. Hum quadro partidário mais fragmentado, no qual se destaca, à semelhança de outros países europeus, o ressurgimento de uma extrema-direita com significativo peso eleitoral, a qual beneficiou e beneficia de uma impressionante, mas não improvável, operação de branqueamento - estou a lembrar-me de alguns episódios históricos dos quais não quero, por ora, ocupar-me. Por outro lado, é iniludível o desencanto, mesmo a raiva, de muitos portugueses cuja esperança se diluiu ao ponto de procurarem refúgio na irracionalidade do discursos do ódio.


Dito isto, para o conjunto da esquerda, e a quem a ela quiser juntar-se, adivinham-se batalhas exigentes. Não serão fáceis. Sem diálogo, imaginação, maturidade e sabedoria estarão condenadas ao fracasso. A esquerda, que é plural, deve procurar outros caminhos. No quadro de um tão vasto património quanto é o seu, será sempre possível encontrar pontos de convergência.


Pela minha parte, nunca dissociei as múltiplas atividades em que sempre estive envolvido do plano da cidadania. Umas vezes estive bem, outras mal. A vida é mesmo assim. Obviamente, não voltarei à vida política institucional, mas estou pronto para colaborar na busca de boas soluções, as dos compromissos razoáveis, consistentes e coerentes, à esquerda.


Quanto ao documento agora recuperado respeita à discussão do meu primeiro debate de um Orçamento de Estado. Era então Ministro da Cultura João Soares, pessoa com quem me dou lindamente, mas de quem habitualmente discordo. Esteve pouco tempo no cargo. Prometeu publicamente um par de estalos a um articulista, António Costa não gostou e empurrou-o para a demissão.


O João Soares fez-me uma cena da qual nunca me esquecerei. Havia uma concentração de agentes da Cultura junto à Assembleia da República e estava eu nos Passos Perdidos para me juntar aos manifestantes quando sinto alguém que me dá o braço e me diz, vou contigo. Era o João Soares. Tendo ele as responsabilidades que tinha foi mais do que um embaraço… mas passou.


Nota final. Todas as intervenções recuperadas respeitam ás áreas da Cultura e Comunicação Social, de cuja comissão na Assembleia da República fui Vice-Presidente.


2023-11-11


 


2016-02-26

 



 
 
 
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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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