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Este texto e os seguintes estão construídos em torno de três questões fundamentais. A primeira convoca os chamados laços de sangue no seio do vasto mosaico etnolinguístico que é a Ucrânia. A segunda prende-se com o chamado Renascimento Cultural pós-Maidan, indissociável do Holodomor, mas, também, da “ucranização”, matéria incómoda e habitualmente negligenciada no espaço mediático. A terceira é uma questão de princípio, vital para a consolidação do nacionalismo de Kiev. Respeita à exaltação do martírio e heroísmo na luta de libertação. As três questões são complementares. Cada uma exige a presença das outras porque a batalha pela Cultura e pela História é existencial. Dela depende, com efeito, a legitimação da identidade através da lente nacionalista, as mais das vezes, através de uma estratégia de apropriação que fica desde já sinalizada nas duas imagens seguintes.


O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr
O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr


Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA
Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA

4. Nacionalismo, identidade e raízes envenenadas


Laços de sangue. O caso da família Bibikov (ver a Parte III destes apontamentos), à qual pertence o jornalista e escritor Owen Mathews, autor de Passar das Marcas - Os Bastidores da Guerra de Putin contra a Ucrânia, é paradigmático. Tem raízes antigas. Remontam ao tempo do Hetemanato, um estado cossaco autónomo na região central da Ucrânia, a leste do Rio Dnipro, que existiu entre 1648 e 1764. No século XVIII, com Catarina, A Grande, o estreitamento das relações da Rússia com o Hetemanato permitiu consolidar a expansão territorial do Império e fez dos Bibikov um importante clã aristocrático. Na sua maioria militares, etnicamente russos ligados à nobreza fundiária, beneficiaram de generosas benesses de Moscovo. O general Alexandr Bibikov, por exemplo, recebeu como oferenda 25 mil “almas”, ou seja, servos da gleba adultos do sexo masculino, para trabalharem nas suas propriedades.


Ao contrário do que defende a maioria dos historiadores contemporâneos nacionalistas, o domínio russo, segundo Mathews, não foi de tipo colonial. Em Passar das Marcas, escreve: “Muitos membros da elite ucraniana seriam incorporados na elite do Império e, com o tempo, acabariam por governar.” (p. 57) Aponta, entre outros, já no período soviético, Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev, ambos nascidos na Ucrânia em famílias de camponeses russos, bem como o meio-ucraniano Mikhail Gorbachev. Na família dele próprio, Mathews sublinha a existência de onze generais que participaram em acontecimentos determinantes, entre 1760 e 1941, dando como exemplo as duas Guerras da Crimeia.


Os Bibikov não são caso único. Pelo contrário, há uma rede de relações urdida no seio do Império em função dos laços de sangue, aliás, igualmente invocada, em 2001, por Vladimir Putin no seu famoso ensaio de sete mil palavras onde afirma que a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia fazem parte do mesmo espaço histórico-cultural. Mathews sustenta ter sido esse o modelo ideológico do presidente russo que haveria de justificar o recurso à guerra. Por isso, está presente, transversalmente, nas 470 páginas do seu livro.


Passar das Marcas tem uma Introdução e um Prólogo, seguindo-se o corpo do texto em tês Partes: Sangue e Império, Em Pé de Guerra e Pirocinese. No essencial, tal como Plokhi e Yekelchyk (ver Partes I, II e III destes apontamentos), resgata a Ucrânia étnica e a sua identidade cultural, embora com algumas diferenças. Se aceita que ao longo dos tempos a Ucrânia esteve refém de forças não apenas russas, mas também polacas e alemãs, as quais obstaram ao desenvolvimento de uma cultura própria minando a expansão da língua e impedindo a formação do estado-nação, também reconhece que as linhas de demarcação entre ucranianos e russos são bem mais complexas.


Talvez por isso, a Parte I do Capítulo 1 (Sangue e Império) tenha por título Raízes Envenenadas, cuja latência pulsa entre dois polos. Por um lado, não há nacionalismo sem afirmação permanente da diferença. Por outro, os movimentos nacionalistas só se definem por oposição a outras nacionalidades. São a cara e a coroa de uma mesma moeda. No caso específico, sendo ucranianos e russos os grupos mais importantes do conjunto etnolinguístico, Mathews, não iludindo a questão, tende a desvalorizar a diversidade, ainda que faça questão de lembrar que a “maior parte do que é hoje a Ucrânia moderna fez durante mais tempo parte do estado polaco-lituano do que do Império Russo.” (p.53) Avaliação diferente, quanto às nacionalidades, fazem outros observadores.


Um deles é Alexandr Markovsky, investigador sénior do London Center for Policy Research, um think tank de segurança nacional, energia e análise de riscos em políticas públicas. Em 27 de junho de 2025, Markovsky, que reside nos Estados Unidos em Houston, no Texas, mas é de origem soviética, publicou no site do RealClearDefense um artigo onde sustenta que, após o colapso da União Soviética, a Ucrânia, com as fronteiras desenhadas desde o tempo de Lenine, Estaline e Hitler, colocou milhões de russos, polacos, húngaros e romenos num impasse. A guerra, segundo ele, ao acentuar as incompatibilidades multiétnicas, poderá ter consequências dramáticas:


“Since Ukraine lacks historical roots in the real estate it inhabits, the inescapable conclusion is that Ukraine’s neighbors pursuing their own interests make Ukraine look like vulnerable prey amidst formidable predators. It is inevitable that, sooner rather than later, Ukraine will disintegrate, and its fragmented remains will gravitate toward the countries to which they truly belong.” (Artigo completo de Alexandre Markovsky, aqui)

Markovsky foi acusado de fazer propaganda russa. Porém, o seu artigo tanto deu origem às habituais partilhas nas redes sociais quanto desencadeou reações quer dos nacionalistas quer dos media ocidentais. É uma situação recorrente quando toca a apurar da legitimidade reivindicada por ambas as partes. A questão dos territórios tornou-se o epicentro das conversações recentemente encetadas visando um acordo de paz. Pelo meio, como era inevitável, há uma guerra de mapas.


Mapas, fronteiras e “ucranização”. O Truthmeter, site que subscreve o Código de Princípios da International Fact-Checking Network, na sequência de um outro artigo de Markovsky de 31 de Março de 2024, publicou, em 24 de setembro do mesmo ano, um texto a denunciar a manipulação de mapas divulgados nas redes sociais. O título do artigo é Manipulation with historical maps of Ukraine. Um dos mapas reproduzidos pelo Truthmeter é o primeiro abaixo. Nele identificam-se territórios integrados pelos russos na Ucrânia, designadamente no tempo de Lenine, Estaline e Krushev. O segundo mapa, com texto em inglês para efeito de facilitação de leitura, é praticamente idêntico, mas acrescenta informação relativa a um período mais alargado de tempo.



Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética.  Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter
Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética. Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter

Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf
Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf


Em ambos os mapas, as informações são facilmente verificáveis. Podem, no entanto, ser objeto de diferentes interpretações. Esclareça-se, como ponto prévio, que a palavra “ucranização”, detestada por historiadores como Plokhi e Yekelchyk porque, como veremos, acentua o lado negro do nacionalismo, não é uma invenção do regime de Kiev. Vem do tempo de Lenine quando, no âmbito da atribuição de maior autonomia às diferentes repúblicas, foram implementadas medidas políticas e culturais com o intuito de reforçar a coesão no seio da URSS. Originalmente, portanto, a ucranização foi a versão das políticas soviéticas da Korenizatsiya (indigenização) aplicada à Ucrânia. Em consequência, os ucranianos étnicos foram incentivados a aderir ao Partido Comunista e numerosos intelectuais ocuparam postos no aparelho de estado. Houve um notável desenvolvimento da literatura, teatro e imprensa em língua ucraniana. Os funcionários russos foram obrigados a aprender o idioma.



Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck
Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck


Em Passar das Marcas Owen Mathews não nega o efeito das políticas de Lenine, mas contesta a ideia defendida por Putin segundo a qual teriam sido os bolcheviques a criar a Ucrânia Moderna:


“Putin ignorou a razão fundamental que levou Lenine desde logo a criar uma república ucraniana distinta. As aspirações ucranianas à independência eram tão fortes no rescaldo da guerra civil pós-revolucionária que conceder um certo grau de autonomia e um estatuto de igual face à Rússia no seio da União Soviética era essencial para que os bolcheviques conseguissem manter a Ucrânia sob controle. Na verdade, durante a primeira década do poder soviético, o ucraniano tornou-se a língua oficial da administração e do ensino na República Socialista Soviética Ucraniana. Centenas de livros – incluindo livros de história – foram publicados em ucraniano, e a língua foi codificada e ganhou pela primeira vez uma gramática oficial.” (p. 61)

A Korenizatsiya ucraniana, portanto, segundo Mathews, só aconteceu porque Lenine percebeu a necessidade de apaziguar as crescentes reivindicações nacionalistas. Até certo ponto, o polígrafo do Truthmeter aponta no mesmo sentido. Criado pela Metamorphosis Foundation em 2011, o Truthmeter trabalha em rede com diversas organizações europeias e americanas. Por exemplo, a partir da Embaixada dos Países Baixos em Skopje, na Macedónia do Norte, desenvolveu um projeto intitulado “Western Balkans Anti-Disinformation Hub: Exposing Malign Influences through Data-Driven Watchdog Journalism”. O projeto teve a participação, além da citada Macedónia do Norte, de organizações da Albânia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Kosovo e Sérvia. Outras iniciativas semelhantes são referenciadas na página do site. A parceria de maior relevância, porém, é a colaboração com a Meta, proprietária de plataformas digitais como o Facebook, Instagram, Whatsapp e Threads. O foco é a desinformação russa.


Insere-se nesse contexto a denúncia da manipulação dos mapas com base em alegado enviesamento histórico. Resulta, neste caso, que o Truthmeter faz prevalecer a ideia de nada haver para discutir em matéria de territórios. Exemplo: “Moscow gave territories to the Ukrainians, for which they were deemed ungrateful. However, what is overlooked is the fact that the Ukrainians themselves fought for those territories (...)”. Ou seja, se os russos acusam os ucranianos de ingratidão é porque não reconhecem a luta travada pelos patriotas nacionalistas pela posse dos territórios em apreço. (Ler o texto completo, aqui)


De qualquer modo, transitando do debate da História, há, na atualidade, dois termos que são frequentemente utilizados, ainda que postos em causa pelo regime de Kiev, quando se trata de definir territorialmente a Ucrânia. Um é Malorossiya ou Pequena Rússia. Corresponde, basicamente, ao antigo Hetemanato Cossaco, na zona central, abrangendo essencialmente as províncias de Kiev, Chernihiv e Poltava. O outro é Novorossiya ou Nova Rússia. Grosso modo, aplica-se ao sul e a parte do Este, por um lado conquistados pelo império russo ao império otomano, por outro integrados por Lenine após a revolução bolchevique. Na Novorossiya cabem, designadamente, Dnipro, Odessa, Kherson e o Donbass. É em função das especificidades da Malorossiya e Novorossiya que melhor se identificam as clivagens da atualidade.



A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War
A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War


Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress
Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress

Na leitura do Kremlin, a Novorrosiya é, simplesmente, russa. Para a maioria dos habitantes, porventura, também. Para Kiev, os territórios saídos de 1991 são todos ucranianos. Seja como for, sempre houve alterações de fronteiras ao longo do tempo, designadamente nos períodos soviético e da II Guerra Mundial. Em Passar das Marcas, Mathews não ilude estas questões. Privilegia, no entanto, os dados nacionalistas encontrando neles o conforto bastante para expor a sem razão do Kremlin. Esses dados tanto passam por referências a estudos de opinião feitos ao tempo da desagregação da URSS, favoráveis à autodeterminação, quanto, de modo mais fundamentado, por narrativas que conferem legitimidade à existência da nação. Nesse sentido, utiliza dois poderosos elementos retóricos de ordem pessoal. Por um lado, associa o processo de libertação à gradual – e dramática – tomada de consciência do independentismo no seio da própria família. Por outro, recorre à primeira pessoa para relatar a sua longa experiência pessoal e profissional.


Durante 27 anos fez jornalismo na Federação Russa, quer para o Moscow Times quer para a Newsweek, da qual foi diretor na secção de Moscovo. Poucos foram, nesse período, os que lhe recusaram um pedido de entrevista ou um encontro. Porém, após a invasão da Ucrânia, a situação mudou radicalmente. A guerra trouxe maior controle sobre os meios de comunicação social, bem como o recrudescimento da repressão política, daí resultando um clima de medo que teria levado alguns dos seus amigos e contactos a afastarem-se.


Entre outros, Mathews refere Zakhar Prilepin. Figura proeminente do meio literário, com vários livros publicados, Prilepin combateu como voluntário no Donbass ao lado dos separatistas. Durante 20 anos destacado dirigente do ultraconservador Partido Nacional Bolchevique, entretanto, extinto, transitou para outras formações políticas da oposição sistémica a Putin. Ex-deputado na Duma, favorável à recuperação integral da Ucrânia para a esfera de Moscovo, é conhecido pelo radicalismo das suas posições. Vê na destruição dos símbolos soviéticos, como sucedeu, por exemplo, na Leninopad – vandalização das estátuas de Lenine –, bem como na perseguição aos russos étnicos da Ucrânia uma afronta à Mãe Pátria. A introdução de Passar das Marcas abre com uma declaração sua de abril de 2022:


“Toda a gente tem de compreender: aproxima-se a mobilização e uma guerra global pela sobrevivência, para destruir todos os nossos inimigos. A guerra é a nossa ideologia nacional. É a única tarefa, a única tarefa do nosso líder, é explicar ao povo russo que este é o nosso futuro heroico, e convencê-lo.” (p. 13)

Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna
Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna

Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13
Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13


Holodomor: martírio e consciência. A escolha da citação de Zakhar Prilepin para a entrada de Passar das Marcas não é aleatória. Pelo contrário, tem por finalidade a separação radical das águas. O ponto sem retorno é, justamente, o Holodomor (1932-1933). É nele que o nacionalismo ucraniano assenta a trave mestra. Também com Mathews assim acontece. Apesar dos laços de sangue, o autor considera a morte pela fome - ou fome vermelha - o elemento determinante da identidade, a qual, por sua vez, num sentido mais lato, é inerente à contingência e vicissitudes da História. No caso da sua família, a tomada de consciência, passa pelo martírio dos seus membros a partir do final do primeiro quartel do século XX. Vai nesse sentido, na página 60 e seguintes, o relato da experiência de vida do seu avô, Boris Bibikov:


“Apesar de ter nascido numa proeminente família nobre russa – ou talvez numa atitude de deliberada rebeldia – Boris Bibikov tornou-se um comunista fervoroso. Não é claro por que razão exatamente Bibikov e os dois irmãos mais novos se juntaram aos bolcheviques, ainda que não fossem os únicos elementos da sua classe e geração a fazê-lo. (...) Filiou-se no Partido Comunista em 1924. Designado Comissário do Exército Vermelho em 1926-1928, tornou-se organizador do Partido. Como tal, esteve presente na linha da frente do mais urgente problema do novo governo soviético, problema esse que ameaçava a sua existência.” (p.61)

A Ucrânia era vista como o grande celeiro da URSS. Nomeado para dirigir a construção de uma fábrica em Kharkiv como intuito de acelerar a produção dos tratores necessários à coletivização da terra, Boris Bibikov “usava camisa de listas do exército e apresentava-se como se fosse do proletariado”, mas vivia num apartamento de luxo, com empregada interna e fazia-se transportar pela cidade “numa gigantesca berlinda americana da Packard.” (p.62) De qualquer modo, as suas convicções eram tão arreigadas que quando a sua primeira filha nasceu, em 1925, deu-lhe o nome de Lenina, tia de Owen Mathews. Para Bibikov, diz o autor de Passar das Marcas, os enormes campos da Ucrânia, bem como as fábricas de tratores, eram as bigornas onde um novo tipo de sociedade ira ser forjada:


“Os tratores (...) libertariam milhões de pessoas do trabalho servil, da ignorância, da bebedeira e da depravação da vida de vilarejo. Boris teria esperneado com a comparação, mas a verdade é que se tornara o último de uma longa linha de Bibikovs a impor a visão de progresso e civilização de Moscovo às terras da Ucrânia.” (p. 63)

Para ele, o princípio do fim começou ao aperceber-se que “as novas fábricas coletivas não funcionavam, e os camponeses resistiram ferozmente aos novos senhores soviéticos. As terras, os cereais e o gado tinham de ser confiscados à força e ao poder da bala.” (p.63) Escreve Mathews:


“O resultado foi o mais horrível dos crimes de Estaline – o Holodomor, ou ‘morte pela fome’, que na moderna Ucrânia é recordado como um genocídio análogo ao Holocausto (...) Os camiões faziam rondas pelas ruas de Carquive, Quíive e Dnipropetrovsque recolhendo cadáveres de camponeses mortos de fome que se tinham arrastado até às cidades à procura de comida. No Inverno de 1933, entre quatro e sete milhões de camponeses ucranianos morreram à fome.” (p. 64)

Ganhando consciência da situação, Boris Bibikov opôs-se às políticas de Estaline. Em 1934 esteve em Moscovo no 17º Congresso do Partido – o “Congresso dos Vencedores” – onde, chefiada por Sergei Kirov, a oposição defendeu o abrandamento do processo de coletivização. Em dezembro desse ano, Kirov foi assassinado. Começou a “Grande Purga”. Entre janeiro de 1937 e Maio de 1938 foram presos 167 mil comunistas ucranianos. Boris Bibikov caiu em desgraça. A mulher, Marfa, presa pouco depois da morte do marido, foi enviada para um Gulag no Cazaquistão “por ser casada com um inimigo do povo. Aí passou 15 anos e enlouqueceu.” (p. 65)


“As filhas de Bibikov, a minha mãe Lyudmila e a sua irmã mais velha, Lenina, de início, foram enviadas para uma prisão infantil e, seguidamente, para um orfanato em Verhne-Dniprovk, onde Lyudmila quase morreu de tuberculose óssea. ‘Obrigado, camarada Estaline, pela nossa infância feliz’, foi uma das canções que a minha mãe aprendeu no orfanato.” (p. 65)

Para Mathews, na esteira do advogado polaco judeu Raphael Lemkin o Holodomor “é um caso de genocídio, de destruição de indivíduos, mas também de uma cultura e de uma nação.” Essa seria a razão pela qual, quando a Wehrmacht invadiu a URSS na II Guerra Mundial, “alguns ucranianos tinham a esperança de que a ocupação alemã seria tão benigna como a de 1918.” (p.67)


O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector
O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector

Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine
Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine

Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ
Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ


O Massacre de Volínia. Se o Holodomor justifica o desejo de independência dos ucranianos étnicos, a verdade é que, ao contrário do que Mathews dá a entender, a adesão entusiástica dos nacionalistas à invasão nazi foi algo mais do que meramente residual. Este é o calcanhar de Aquiles de Passar das Marcas, à semelhança, aliás, do que sucede com boa parte dos historiadores ucranianos empenhados em veicular a ideia de um “nacionalismo moderado”. Desde logo, quando, no âmbito da Operação Barbarrossa, os alemães entraram em território soviético por regiões da Ucrânia com forte presença de radicais, regra geral, foram recebidos como salvadores. Só assim se explica que os grupos de extrema-direita ucranianos já existentes tivessem crescido exponencialmente, e que outros, abertamente nazis, tenham surgido. O mais importante foi a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) que viria a dividir-se em duas fações: a OUN-B, liderada por Stepan Bandera, e a OUN-A de Andriy Melnyk. Bandera criou igualmente o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), braço armado da sua facção, para combater o Exército Vermelho. Proclamou a independência em Lviv, a 30 de junho de 1941, através do Ato de Restauração do Estado Ucraniano. Hitler recusou-a. O UPA voltou-se então contra a Wehrmacht, mas sem abrandar o confronto com os russos. Outras unidades militares criadas após a invasão alemã deram apoio incondicional aos nazis, caso da Divisão SS Galizien (14ª Divisão de Granadeiros SS), bem como dos Legionários Ucranianos (Batalhões Nachtigall e Roland). (Sobre estas matérias ver as Partes I, II e III destes apontamentos).


Mathews tende a relativizar o papel de Bandera enquanto colaboracionista. Invoca até o episódio, historicamente controverso, de o líder da OUN-B ter sido enviado para um campo de concentração. E, de forma algo confusa, atribui aos russos parte da responsabilidade pela imagem negativa do líder nacionalista:


“(Bandera) ficaria sempre associado na propaganda soviética e russa à facção da OrNU que constituiu o núcleo antissoviético do Exército Ucraniano Insurgente, ou UPA. Apesar de alguns dos seus mais proeminentes comandantes terem combatido anteriormente no batalhão Nachtigall, o UPA considerava que os seus principais inimigos eram os alemães. Na prática, contudo, passaram a maior parte do tempo a combater os soviéticos.” (p. 68)

Com efeito, escreve Mathews, “(...) no Verão de 1944, os 100 mil soldados da UPA combatiam como unidades irregulares na retaguarda das linhas soviéticas, dificultando as comunicações do Exército Vermelho e atacando alvos militares soviéticos, combatentes da resistência polaca e civis polacos e judeus.” (p. 68). Na mesma página, pode ler-se que os “apoiantes indefetíveis da UPA continuaram a resistência de guerrilha ao poder soviético nas florestas da Bielorrússia e da Ucrânia até à década de 1950.”


Por outro lado, pouco diz sobre o extermínio de dezenas de milhares de judeus polacos levado a cabo pela OUN-B e pela UPA na Volínia e Galícia Oriental, um ato de brutalidade inaudita. Para se ter uma ideia, só no chamado Domingo Sangrento, em 11 de julho de 1943, o Exército Insurgente atacou e martirizou uma centena de aldeias polacas em simultâneo. No período de 1943-1945 matou cerca de 150 mil judeus. O objetivo era erradicar a presença polaca na região para garantir que, após a guerra, o território (então parte da Polónia ocupada) ficasse exclusivamente sob controlo ucraniano. A ser assim, fica no ar a hipótese de a detenção de Bandera ter sido feita no sentido de o preservar para um eventual regresso no futuro.


Hoje, apesar das tentativas dos governos da Ucrânia e da Polónia no sentido de sanar as divergências, o assunto está longe de encerrado. Na Polónia, o Massacre de Volínia continua a ser visto como uma tentativa de limpeza étnica. Em 2016, o Parlamento classificou-o formalmente como genocídio. Em 2025, o anterior Presidente polaco Andrzej Duda, já em final de mandato, promulgou a lei em função da qual o 11 de Julho passou a ser considerado Dia da Memória das Vítimas do Genocídio. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia criticou asperamente a decisão considerando-a contrária ao espírito das relações de boa vizinhança. Para agravar a situação, no mesmo ano, o novo Presidente, o historiador Karol Nawrocki, durante a campanha eleitoral, explorou a tragédia de Volínia para atrair eleitores. E, uma vez eleito, declarou que “he would block Ukraineʼs European integration until Kyiv makes an official statement about ‘atonement’ for the "Volyn massacre". Ou seja, a Polónia exigiu a expiação e reparação do crime.


Entretanto, voltaram a surgir sinais de desanuviamento com a criação de equipas de especialistas de ambos os países, tal como documenta o artigo de 8 de setembro de 2025 do site de notícias Babel, considerado um dos meios de comunicação mais fiáveis da Ucrânia, assinado por Yuliia Hyra e Glib Gusiev. O título é: “For the first time in 10 years, Ukraine and Poland exhumed and reburied the victims of the Volyn tragedy.” (ver notícia completa do site Babel, aqui)


O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel
O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel


Continua com Ucrânia (Parte V): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: O Renascimento Cultural Pós-Maidan

 

 
 
 

Atualizado: 13 de mar.


A ideia que se faz dos ucranianos da atualidade, segundo os historiadores de maior notoriedade referenciados nestes textos, é a resultante de um método de fusão da investigação do passado com a construção da realidade no presente, vertente em relação à qual os ativistas nacionalistas teriam um papel determinante. Nem todos, no entanto, pensam assim, até porque, como veremos, a complexidade da História não se compagina com simplificações. Se, por exemplo, para a maioria dos russos, a Ucrânia, enquanto estado nação, é difícil de entender, para os nacionalistas ucranianos é algo de simplesmente inquestionável. Sumariando a posição destes últimos quanto à identidade, os seus antepassados ocuparam sempre o mesmo território, pelo menos desde o século V. Originalmente, seriam o povo rus, mais tarde, já integrados no Império Russo, seriam os “pequenos russos” e, no tempo do Império Austro-Húngaro, os “ruténios”. Portanto, haveria como que uma linha legitimadora de espaço e tempo.

 

Isto mesmo nos é dito, desenvolvidamente, em Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber de Serhy Yekelchyk. Este mesmo autor, porém, também diz que “O termo Ucranianos firmou-se nos anos 1920, com a criação da RSS da Ucrânia, dentro da União Soviética, e a mobilização nacional dos ucranianos da Polónia” (p. 47), o que complexifica a questão. Para mais, se levada em linha de conta que grande parte do território atual do país só foi incorporada no século XX, após a Revolução de Outubro de 1917, e em períodos subsequentes. Portanto, devido às dinâmicas da História, as fronteiras foram mudando. Daí a dificuldade dos nacionalistas, sejam eles “radicais” ou “moderados”, em fundamentar com rigor o seu ponto de vista. E, assim sendo, não surpreende a cristalização progressiva de uma crença etno-nacionalista, mais ou menos dissimulada, em todo o caso fortemente presente nos círculos do poder.

 

No capítulo 5, intitulado A Revolução Laranja e a EuroMaidan, Serhy Yekelchyk aborda   aquilo a que chama “nacionalismo extremo”. Em relação à EuroMaidan, faz a seguinte pergunta: Que papel desempenhou a direita radical nos protestos e que símbolos usou? Na resposta começa por enfatizar o papel dos meios de comunicação social russos, acusados de propaganda, ao projetarem uma imagem falsa dos acontecimentos, posto atribuírem aos neonazis uma influência que não tiveram.

 

Kiev, 19 de Fevereiro, 2014. Manifestante anti-governamental lança um cocktail Molotov contra forças policiais na Praça da Independência ou Praça Maidan. Se a Revolução Laranja de 2004 foi relativamente pacífica, tendo levado à repetição de eleições das quais Viktor Yushchenko sairia vencedor, a Revolução da Dignidade, também conhecida como Euromaidan, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, teve episódios extremamente violentos, com centenas de mortos e feridos. O presidente pró-russo Viktor Yanukovytch fugiu do país. Imagem: MPRnews
Kiev, 19 de Fevereiro, 2014. Manifestante anti-governamental lança um cocktail Molotov contra forças policiais na Praça da Independência ou Praça Maidan. Se a Revolução Laranja de 2004 foi relativamente pacífica, tendo levado à repetição de eleições das quais Viktor Yushchenko sairia vencedor, a Revolução da Dignidade, também conhecida como Euromaidan, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, teve episódios extremamente violentos, com centenas de mortos e feridos. O presidente pró-russo Viktor Yanukovytch fugiu do país. Imagem: MPRnews

 


Barricadas no centro de Kiev num still do documentário de observação Maidan (2014) do cineasta nacionalista ucraniano Sergei Loznitsa. O que aconteceu na Praça está amplamente documentado em imagens, havendo diversos filmes sobre o assunto. Este é, provavelmente, o melhor de todos eles. Mostra, não explica. Depois, cada um tire as conclusões. O que não quer dizer que não tenha um ponto de vista. Pró-ucraniano e nacionalista. Imagem: Sabzian
Barricadas no centro de Kiev num still do documentário de observação Maidan (2014) do cineasta nacionalista ucraniano Sergei Loznitsa. O que aconteceu na Praça está amplamente documentado em imagens, havendo diversos filmes sobre o assunto. Este é, provavelmente, o melhor de todos eles. Mostra, não explica. Depois, cada um tire as conclusões. O que não quer dizer que não tenha um ponto de vista. Pró-ucraniano e nacionalista. Imagem: Sabzian

 

Segundo Yekelchyk, “o protesto que derrubou Yanukovytch não era ideológico e a sua vaga identificação com a Europa não encaixa com a suposta orientação neonazi.” (p. 159) Ainda assim, admite que “Ao mesmo tempo, a direita radical desempenhou um papel notório na revolução, que vale a pena examinar.” (p. 159) O ponto de partida para o exame é o seguinte: “Antes da presidência de Yanukovytch, os nacionalistas radicais ucranianos definhavam nas margens da política.” (p. 159) Portanto, como nas páginas seguintes – e também em páginas anteriores - se pretende demonstrar, foi o presidente pró-russo - e o seu Partido das Regiões - o responsável pelo descontentamento que trouxe de volta os radicais nos anos de 2013 e 2014:


“Quando o regime de Yanukovytch tentou uma forte repressão contra a Maidan, a direita radical liderou o caminho na organização de uma resistência igualmente violenta. Os ativistas do Setor Direito e do Liberdade ainda constituíam uma pequena minoria na multidão revolucionária, mas eram os mais bem organizados e os mais visíveis.” (p. 161)

 

De seguida:

 

“Foi neste ponto crítico que alguns símbolos e palavras de ordem da direita radical foram introduzidas na cultura de protesto. A saudação nacionalista dos anos 1940, Slava Ukraini! (Glória à Ucrânia!) e a sua resposta Heroiam slava! (Glória aos Heróis!) adquiriram novo significado na Maidan. Quando usadas pelos manifestantes, essas palavras de ordem referiam-se a uma esperada democracia e a uma Ucrânia pró-ocidental, e eram vistos como heróis aqueles que caíram a lutar por essa causa. Significativamente, outra palavra de ordem dos anos 1940, Slava natsii, smert voroham! (Glória à nação, morte aos inimigos!), não pegou” (p. 162) 

 

Nesta conjuntura, o historiador considera natural que símbolos como a bandeira da Organização dos Nacionalistas Ucranianos de Bandera, com as suas cores vermelha e negra, tenham sido aceites pelos cidadãos patriotas. No entanto, acrescenta, nem todos o fizeram de bom grado, havendo mesmo uma situação no EuroMaidan em que uma imagem de grandes dimensões do líder nacionalista, em lugar de destaque, foi substituída “por uma de Taras Shevchenko, o bardo nacional do século XIX e um símbolo muito menos divisor da identidade ucraniana.” (p. 162)

 

Aqui chegados, permito-me novo comentário. O balanço da Revolução da Dignidade foi trágico. Houve mais de uma centena de mortos entre os manifestantes, 13 do lado da polícia, e centenas de feridos. É uma estimativa benigna. Hoje, o que aconteceu entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014 está mapeado. Está igualmente registado em imagens, entre as quais filmes de sinal contrário O resultado é inquietante. Com forte probabilidade, os efeitos, mesmo se algo diluídos na forma, persistem. Havendo diferentes versões - ora se atribuem responsabilidades ao dispositivo repressivo, ora se consideram responsáveis os extremistas do Liberdade e do Setor Direito, apoiados por diplomatas e políticos ocidentais - o facto iniludível, como adiante se verá, é que os extremistas foram determinantes. Na Praça e no que se seguiu. E o que se seguiu foi a “ucranização”, há muito latente, que atingiu as populações, a cultura e a língua russas, bem como a guerra contra os separatistas do Donbass, iniciada em 2014 e na qual morreram, pelo menos, 14 mil pessoas.

 

Um exemplo dessa russofobia revangista foi Roman Ratushnyi, ativista da Euro Maidan. Publicou nas suas redes sociais a citação abaixo reproduzida pelo Ukraїner, jornal em linha que "pugna pelos valores democráticos", na edição internacional de 18 de julho de 2023:

 

“Burn out in yourself even the traces of Russian subculture. Burn away all the memories from your childhood that are connected with anything Russian and Soviet. Burn down relationships with friends and relatives that are from ‘that side’ – with everyone who is a carrier of the Russian subculture. Otherwise, it will burn you down.”

 

Prestando homenagem aos caídos no campo de batalha - Heroiam slava! –, o Ukraїner deu à estampa numerosos testemunhos patrióticos por eles deixados em vida. O artigo tem o título: Powerful Quotes from the Heavenly Regiment of Ukraine. (ver artigo completo, aqui)

 

 

Roman Ratushnyi foi um dos participantes na Revolução da Dignidade. É um herói da Ucrânia, morto em combate. Há memoriais em seu nome. A unidade em que servia foi emboscada pelo exército russo perto de Yzyum, em 9 de junho de 2023. Como ele, após o EuroMaidan, milhares de jovens juntaram-se às milícias armadas. Imagem: Ukraїner
Roman Ratushnyi foi um dos participantes na Revolução da Dignidade. É um herói da Ucrânia, morto em combate. Há memoriais em seu nome. A unidade em que servia foi emboscada pelo exército russo perto de Yzyum, em 9 de junho de 2023. Como ele, após o EuroMaidan, milhares de jovens juntaram-se às milícias armadas. Imagem: Ukraїner

Kiev, 14 de outubro 2019. Movimentos nacionalistas manifestam-se em defesa da Mãe Pátria e contra a tentativa de Zelensky de negociar uma solução política com os separatistas do Donbass. À luz de tochas, a manifestação contou sobretudo com jovens, alguns fazendo uso de máscaras de modo a evitar serem reconhecidos, bem como com grupos de veteranos irredutíveis quanto à eventual cedência de qualquer parcela do território. Imagem: Los Angeles Times
Kiev, 14 de outubro 2019. Movimentos nacionalistas manifestam-se em defesa da Mãe Pátria e contra a tentativa de Zelensky de negociar uma solução política com os separatistas do Donbass. À luz de tochas, a manifestação contou sobretudo com jovens, alguns fazendo uso de máscaras de modo a evitar serem reconhecidos, bem como com grupos de veteranos irredutíveis quanto à eventual cedência de qualquer parcela do território. Imagem: Los Angeles Times


Voltando a Serhy Yekelchyk, na avaliação do mosaico etnolinguístico, apesar de considerar, por um lado, que as populações do Donbass, em estudos de opinião (não identificados) não são maioritariamente favoráveis à secessão, admite, por outro lado, “que não se dá o caso de os voluntários vindos da Rússia estarem a lutar em prol das gentes do Donbass sem que estas os apoiem.” (p. 37) Pelo contrário, afirma que a ideia de uma “Grande Rússia” apela tanto aos recém-chegados combatentes russos como a parte das populações locais, e acrescenta que “o prolongado conflito tem as suas raízes tanto na identidade cultural da região como em medos recentemente incutidos.” (p.37)

 

A seguir:

 

“Mais do que uma região “russa” da Ucrânia, o Donbass é uma região industrial “soviética”, incerta do seu papel na nova Ucrânia. Migrantes vindos de toda a Rússia e camponeses ucranianos assimilados pela vida russófona da fábrica, os trabalhadores do Donbass identificavam-se com a glória das suas construções soviéticas, agora minas ineficientes e indústrias pesadas. (...) Depois da vitória da Maidan, foi relativamente fácil para a elite política local alimentar o descontentamento. Os revolucionários vitoriosos (da EuroMaidan) providenciavam os pretextos perfeitos com as disparatadas tentativas de abolir a lei da língua, vista como protegendo o russo enquanto língua regional, e as falhadas ‘ocupações simbólicas’ de alguns edifícios administrativos no leste (referência a Odessa).” (p. 37)

 

Passar das marcas 1. Se a ideia da “ucranização”, apesar de considerada um “disparate”, é tratada por Yekelchyk de modo a não lhe atribuir grande espaço ou importância, a verdade é que outros historiadores ucranianos a tratam de forma mais severa. É o caso de Marta Havryshko, académica de reputação internacional, feminista, investigadora do holocausto, do antissemitismo e dos movimentos de extrema-direita, com passagem por diversas universidades europeias e pelos Estados Unidos. Numa entrevista dada a 11 de dezembro de 2024 ao site, em inglês, ESSF (Europe Solidaire Sans Frontières), uma organização não governamental de solidariedade, falou dos “mitos etno-nacionalistas”.

 

Oriunda de uma família onde assinala a presença de partidários do nacionalismo radical, Marta Havryshko fez estudos superiores na Universidade Ivan Franko de Lviv, sua terra natal. De acordo com o seu testemunho, nos anos de 1990, foi ensinada a olhar para o nacionalismo como tendo pugnado pela independência, mas omitindo sempre a colaboração com a Alemanha nazi. Ora, segundo afirma na entrevista, é errado fazer interpretações convenientes de acontecimentos cientificamente certificados, dando como exemplo o massacre de Volínia, em 1943, uma questão, ainda hoje, em aberto com a Polónia. Aponta, igualmente, o caso da glorificação da 14ª Divisão de Granadeiros (Divisão da Galícia), uma unidade militar ucraniana da força de elite de Hitler, as Waffen SS, maioritariamente constituída por ucranianos étnicos, a qual, no Museu de História Militar de Kiev, seria comparada em bravura à 3ª Brigada de Assalto hitleriana. Considera, ainda, noutra passagem, haver consequências nefastas para o seu país decorrentes do revisionismo da História, o qual, a seu ver, favorece a narrativa russa da desnazificação. Lamentando que as autoridades ucranianas considerem a colaboração com os nazis durante a II Guerra Mundial um “mal menor”, afirma:

 

“Therefore, not only members of the Ukrainian national underground are celebrated, but also members of military units created by the Nazis who swore allegiance to Hitler and fought for the interests of Nazi Germany. I am referring to the Waffen-SS Galicia division, involved in anti-partisan punitive actions in Slovakia and Slovenia in 1944.”

Havryshko acrescenta:


“When I criticised all these disturbing developments related to the celebration of Nazi collaborators, I was subjected to harassment, persecuted, smeared, and received death threats. Freedom of speech has become a luxury in war-torn Ukraine, where ethno-nationalist historical myths are at the core of war propaganda. Most Ukrainians cannot afford to criticise memory politics out of fear of being accused of spreading “Russian propaganda” and “collaborating with the enemy”, which could mean trial and imprisonment.” (ler entrevista completa de Marta Havrysko, aqui)

 


Marta Havryshko, ela própria refugiada de guerra, entre outros cargos dirigiu o Instituto do Centro Memorial de Babi Yar, em Kiev. Em 22 de Julho de 2025 foi publicada uma carta aberta, subscrita por numerosos académicos, com o título An Open Letter in Defense of Academic Freedoom and the Ukrainian Historian Marta Havryshko. Nela se afirma, designadamente, “we are witnessing na alarming rise in harassment, threats and persecution – often stemming from nationalist activism and public campaigns – targeting scholars who continue their research under these exceptionally difficult wartime conditions.” (ler Carta Aberta, aqui. Imagem: Clark University, Worcester, Massachusetts
Marta Havryshko, ela própria refugiada de guerra, entre outros cargos dirigiu o Instituto do Centro Memorial de Babi Yar, em Kiev. Em 22 de Julho de 2025 foi publicada uma carta aberta, subscrita por numerosos académicos, com o título An Open Letter in Defense of Academic Freedoom and the Ukrainian Historian Marta Havryshko. Nela se afirma, designadamente, “we are witnessing na alarming rise in harassment, threats and persecution – often stemming from nationalist activism and public campaigns – targeting scholars who continue their research under these exceptionally difficult wartime conditions.” (ler Carta Aberta, aqui. Imagem: Clark University, Worcester, Massachusetts

Lviv, 18 de julho de 1943. Parada de recrutas das Waffen SS-Galicia em Lviv. Em primeiro plano, destacado, o coronel Alfred Bisanz, comandante da Administração Militar e principal responsável pelo recrutamento de ucranianos para a Divisão Galicia. Treinada pelos SS, adotando os símbolos nazis, tinha por principal missão combater o Exército Vermelho que à data já rechaçava as forças terrestres da Wehrmacht da União Soviética. A participação da Divisão Galicia em crimes de guerra é motivo de controvérsia entre os historiadores ucranianos contemporâneos. No entanto, em Fevereiro e Março de 1944, é certo ter estado no massacre de populações em Huta Pieniacka, Zawonia, Pidkamin e Palykorovy. Alfred Bisanz era, também, membro da Abwehr, os serviços de intelligentsia do Reich. Foi detido pela tropa soviética em Viena de Áustria, em 1945, julgado e executado. Imagem: Wikimedia Commons
Lviv, 18 de julho de 1943. Parada de recrutas das Waffen SS-Galicia em Lviv. Em primeiro plano, destacado, o coronel Alfred Bisanz, comandante da Administração Militar e principal responsável pelo recrutamento de ucranianos para a Divisão Galicia. Treinada pelos SS, adotando os símbolos nazis, tinha por principal missão combater o Exército Vermelho que à data já rechaçava as forças terrestres da Wehrmacht da União Soviética. A participação da Divisão Galicia em crimes de guerra é motivo de controvérsia entre os historiadores ucranianos contemporâneos. No entanto, em Fevereiro e Março de 1944, é certo ter estado no massacre de populações em Huta Pieniacka, Zawonia, Pidkamin e Palykorovy. Alfred Bisanz era, também, membro da Abwehr, os serviços de intelligentsia do Reich. Foi detido pela tropa soviética em Viena de Áustria, em 1945, julgado e executado. Imagem: Wikimedia Commons


Kyiv, 28 de Abril de 2021. Nacionalistas saem à rua para celebrar o 78º aniversário da Waffen-SS Galicia, maioritariamente constituída por ucranianos étnicos, ostentando pendões com os símbolos da unidade militar. A marcha deu origem a protestos da parte das autoridades israelitas. Imagem: Jewish Telegraphic Agency
Kyiv, 28 de Abril de 2021. Nacionalistas saem à rua para celebrar o 78º aniversário da Waffen-SS Galicia, maioritariamente constituída por ucranianos étnicos, ostentando pendões com os símbolos da unidade militar. A marcha deu origem a protestos da parte das autoridades israelitas. Imagem: Jewish Telegraphic Agency

 

Se o caso de Marta Havryshko não é passar das marcas, o que será passar das marcas? Em data anterior às declarações da historiadora, a 23 de Setembro de 2020, o Tribunal Supremo da Ucrânia decidira que os símbolos da Waffen-SS Galicia não estavam associados ao nazismo, pelo que não seriam proibidos. No ano seguinte, como documentado na foto acima, nacionalistas radicais desfilaram em Kiev para comemorar o 78º aniversário da Divisão, fundada em 1943 por voluntários da região. O presidente Zelensky, posteriormente, manifestou descontentamento com a manifestação. Mas, na edição em inglês de 29 de abril de 2021, o Kyiv Post escreveu: “In Ukraine, many people see members of the Galychyna Division as national heroes because they fought for Ukraine’s independence from the Soviet Union.”


Ainda segundo o Post:


“Some historians have stated that elements associated with the Galychyna Division were involved in attacks on civilians and other atrocities. However, despite being declared a criminal organization during the Nuremberg Trials, the division was not convicted of any crimes.” (ler notícia aqui)

 

Passar das marcas 2. Depois de Serhii Plokhi e Serhy Yekelchyk, é altura de falar de Owen Mathews e do seu livro Passar das Marcas – Os bastidores da guerra de Putin contra a Ucrânia (Edições 70), redigido em Moscovo e Kiev durante o primeiro ano de guerra. Mathews é cidadão britânico de ascendência ucraniana. Historiador, graduado em Oxford, mas destacando-se sobretudo como jornalista e escritor, foi durante 25 anos correspondente de jornais em Moscovo. Tendo começado a carreira na Bósnia, é profundo conhecedor da História da União Soviética, bem como dos assuntos da Federação Russa e dos seus principais protagonistas, em particular dos setores oposicionistas. Colaborou em numerosas publicações, entre as quais, o Moscow Times, The Times, Spectator, Independent e Newsweek. Alguns dos livros que publicou sobre os meandros da espionagem são simplesmente extraordinários. Destaca-se An Impeccable Spy: Richard Sorge, Stalin's Master Agent, biografia daquele que é considerado o espião mais famoso de todos os tempos, a meu ver, uma obra prima do género. Obviamente, o Passar das Marcas de Owen visa Vladimir Putin e a invasão da Ucrânia que, por sinal, o apanhou de surpresa na capital da Federação Russa, e acabaria por ter consequências na sua vida pessoal e familiar. Lá iremos.

 

Antes, porém, introduzo uma deriva. Se confrontada com o que depois virá, será, espero, um contributo relevante para o entendimento da complexidade da questão ucraniana. Recupero então parte de um extenso artigo de opinião publicado no Spectator, em 21 de julho de 2025, no qual Owen Mathews afirmava, em título, Ukrainians have lost faith in Zelensky. O texto desencadeou uma onda de indignações entre os pró-ucranianos do comentário político, bem como entre os partidários da bandeira azul e amarela nas redes sociais, muitos dos quais, em ambos os casos, comentadores ou fiéis seguidores, não sabiam sequer da inclinação nacionalista do autor.

 

De qualquer modo, Ukrainians have lost faith in Zelensky é, de facto, arrasador. Ouvido pelo jornalista, um antigo alto funcionário do governo, não identificado, afirma que se a guerra continuar, em breve não haverá mais Ucrânia pela qual lutar. Cada vez mais incapaz no campo de batalha, onde a realidade colide com o sucesso apregoado no ocidente, segundo ele, o País enfrentaria uma situação interna de crescente tensão “com vagas de detenções e silenciamento de órgãos de comunicação social”. Outros testemunhos, entre os quais o de Kyrylo Shevchenko, antigo diretor do Banco Central da Ucrânia, exilado na Áustria desde 2023, e também acusado de corrupção, levam Mathews a sugerir que “os líderes de uma nação em guerra roubam enquanto o povo luta e morre”. Em meados de 2025, novos escândalos. Dois vice-primeiros-ministros, o Ministro da Unidade Nacional, Oleksiy Chernyshov, e o Ministro da Reconstrução, Oleksandr Kubrakov, entre outras acusações, foram investigados por desvio de fundos e traição. A multiplicação de casos, de acordo com o que se lê, seria revelador das divergências no seio do governo, às quais se juntariam duras críticas ao presidente.  De tal modo que um antigo ministro, igualmente não identificado, é levado a dizer que a Ucrânia tem dois inimigos com o mesmo nome, Vladimir: Zelensky e Putin. Em síntese, “Putin destrói a Ucrânia por fora, Zelensky está a destruí-lo a partir do interior. (ler o artigo completo aqui)

 

O homem que alertou para a grave situação do país em Ukrainians have lost faith in Zelensky, em 2025, é o mesmo que, em 2022, fez a defesa do Vladimir ucraniano contra o Vladimir russo em Passar das Marcas, (The Inside Story of Putin’s War Against Ukraine), livro visto pelo já nosso conhecido Serhy Yekelchyk como a “melhor análise atual da contagem decrescente para a guerra”. É provável que assim seja. Entre outras razões porque, por motivos familiares, Owen, conhece bem ambos os lados da barricada, sentindo-se, por isso, à vontade para fazer uma abordagem multifacetada, de diferentes ângulos de vista. Ao relato empolgante de experiências de vida, a começar pela dele próprio, junta abundante e rigorosa informação sobre aqueles dias em que o Kremelin pareceu ter perdido a cabeça.

 


Owen Matthews, excerto de Passar as Marcas: “Quando comecei a preparar este livro, nos primeiros dias da guerra, fiquei chocado ao ver que amigos e contactos que conhecia há vários anos e décadas me diziam que não podiam a arriscar-se a encontrar-se comigo em público ou a fazer declarações. Mesmo os funcionários apoiantes do Kremlin, tanto atuais como reformados, assim como proeminentes figuras patrióticas dos meios de comunicação e da vida política, ganharam cautelas que raiavam o absurdo.” (p. 16). Imagem: The Moscow Times
Owen Matthews, excerto de Passar as Marcas: “Quando comecei a preparar este livro, nos primeiros dias da guerra, fiquei chocado ao ver que amigos e contactos que conhecia há vários anos e décadas me diziam que não podiam a arriscar-se a encontrar-se comigo em público ou a fazer declarações. Mesmo os funcionários apoiantes do Kremlin, tanto atuais como reformados, assim como proeminentes figuras patrióticas dos meios de comunicação e da vida política, ganharam cautelas que raiavam o absurdo.” (p. 16). Imagem: The Moscow Times

Sendo o foco destes apontamentos o papel do nacionalismo na Batalha pela História - ou pela identidade legitimadora da nação, vai dar ao mesmo - vale a pena começar a conhecer melhor o autor, na primeira pessoa:

 

“A minha mãe, Lyudmila Bibikova, nasceu em 1934, na Carquive – em russo, Kharkov – uma cidade industrial de língua russa no norte da Ucrânia. O seu pai, Boris, nasceu em 1903, em Simferopol, na Crimeia, e a sua mãe, Martha Shcherbak, em Poltava, na Ucrânia. Contudo, a família Bibikov não se considerava ucraniana. Muito pelo contrário. Durante dois séculos, os Bibikov desempenharam um papel significativo no domínio imperial russo sobre a Ucrânia, primeiro como servos dos czares e depois como leais tenentes do poder soviético. A conexão não é confortável. Quer eu queira quer não, a história da minha família – o meu sangue – está intimamente ligado não só à Ucrânia e à Rússia, mas também à história do Império Russo.” (p. 50)

 

Daí a dificuldade em lidar como o problema de forma distanciada. Owen tenta fazê-lo indo bater nos mesmos pontos já largamente tratados por Plokhi e Yekelchyk, todavia, com algumas diferenças significativas. Contra a tese de Putin, segundo a qual russos e ucranianos seriam um mesmo povo, convoca o israelita Noal Yuval Harari. Para este, cujo pensamento corresponde ao dos nacionalistas, a Ucrânia tem uma história de mais de mil anos e Kiev já era uma importante metrópole e centro cultural quando Moscovo não era sequer um vilarejo. Owen, porém, discorda de ambos:

 

“As duas perspectivas são inadequadas. Os nacionalistas ucranianos têm razão quando afirmam que a sua nação é realmente antiga – mas é uma nação que raramente foi independente, e nunca com as fronteiras que herdou da União Soviética em 1991. E Putin tem razão quando afirma que os Russos, os Bielorussos e os Ucranianos descendem todos da unidade política da Rússia de Quíive – mas do mesmo modo que os estados francês e alemão foram conjuntamente os herdeiros do império quase contemporâneo de Carlos Magno, facto esse que dificilmente se revelou uma receita para uma unidade história subsequente.” (p. 48)

 

Putin, que não recolhe nenhuma simpatia da parte do autor, teria ainda razão num outro ponto: “Para quase qualquer russo ou ucraniano moderno, as relações entre as duas nações não são uma questão abstrata de política, e muito menos de história, mas de sangue e família.” (p. 49)

 

Prova disso, o percurso da família de Owen Mathews, os Bibikov. 

 


Mapa dos territórios da Ucrânia a partir de 1654. A verde, áreas incorporadas no tempo do Império Russo, especialmente no tempo de Catarina, a Grande. A rosa, a zona do Donbass integrada por Lenine em 1922 tendo em vista proporcionar a base industrial complementar às extensas regiões agrícolas dominantes. A verde escuro, a oeste, terras entregues à República Soviética da Ucrânia por Estaline, após a II Guerra Mundial. Finalmente, a Crimeia, a sul, região geoestratégica fundamental onde se encontra Sebastopol, a grande base naval russa, foi integrada por Krushev, em 1954. Imagem: Washington Times
Mapa dos territórios da Ucrânia a partir de 1654. A verde, áreas incorporadas no tempo do Império Russo, especialmente no tempo de Catarina, a Grande. A rosa, a zona do Donbass integrada por Lenine em 1922 tendo em vista proporcionar a base industrial complementar às extensas regiões agrícolas dominantes. A verde escuro, a oeste, terras entregues à República Soviética da Ucrânia por Estaline, após a II Guerra Mundial. Finalmente, a Crimeia, a sul, região geoestratégica fundamental onde se encontra Sebastopol, a grande base naval russa, foi integrada por Krushev, em 1954. Imagem: Washington Times



Continua com Ucrânia (Parte IV): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Holodomor, laços de sangue e disputa territorial



 
 
 

 

2. O “nacionalismo moderado” de Plokhy, Yekelchyk e Matthews


São os pilares do nacionalismo identificados no monumento a Stepan Bandera de Lviv que servem de matriz aos historiadores ucranianos ou de ascendência ucraniana. Com diferentes e, por vezes, substanciais declinações, a maioria procura afastar-se do líder ultranacionalista, promovendo, em simultâneo, a ideia de um novo “nacionalismo moderado”. É o que fazem Plokhy, Yekelchyk e Matthews que, em maior ou menor grau, levam a cabo digressões, medidas em séculos, em busca da identidade da nação. Poderá haver, e há, ponderação diversa de episódios sinalizados, mas partilham os fundamentos de uma mesma matriz histórica legitimadora. A razão é simples. A questão da Ucrânia é existencial.


 

Stepan Bandera, o herói nacionalista ucraniano de quem a maioria dos historiadores contemporâneos procura distanciar-se. Comandante da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), Bandera foi um dos principais colaboradores da Alemanha nazi, sendo comprovadamente responsável por numerosas atrocidades e crimes de guerra, incluindo o extermínio de judeus ucranianos. Todavia, há quem veja nele um ícone da resistência anti-soviética e um combatente pela liberdade. A imagem negativa a ele associada que para o exterior é, regra geral, atribuída à propaganda russa. (ver exemplo do elogio de Bandera, herói nacional, aqui: https://theins.ru/en/politics/250805). Imagem:The Insiderd
Stepan Bandera, o herói nacionalista ucraniano de quem a maioria dos historiadores contemporâneos procura distanciar-se. Comandante da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), Bandera foi um dos principais colaboradores da Alemanha nazi, sendo comprovadamente responsável por numerosas atrocidades e crimes de guerra, incluindo o extermínio de judeus ucranianos. Todavia, há quem veja nele um ícone da resistência anti-soviética e um combatente pela liberdade. A imagem negativa a ele associada que para o exterior é, regra geral, atribuída à propaganda russa. (ver exemplo do elogio de Bandera, herói nacional, aqui: https://theins.ru/en/politics/250805). Imagem:The Insiderd

A bandeira nacional e o tridente sempre presentes nas manifestações pró-ucranianas. A foto é de Pittsburgh, em 03 de março de 2025, com a refugiada nos Estados Unidos, desde 2014, Natalka Rymar, ao centro. O tryzub, tridente em português, em fundo azul (o céu) e ouro (o trigo), é o símbolo nacional da Ucrânia. Há quem localize a sua origem no século I d.C., como símbolo de poder de algumas tribos nórdicas. A partir desses vestígios procurou estabelecer-se um itinerário que tem na Rus’ de Kiev, no século X, o momento em que o tridente, então visto como a Santíssima Trindade, representa o estado. Porém, só no século XX surge associado a duas efémeras repúblicas ucranianas, aliás, com pouco ou nada em comum com a atual. O tridente em fundo ouro e azul, enquanto símbolo da república da Ucrânia que emergiu com o colapso da União Soviética, em 1991, tem pouco mais de 30 anos. Imagem: Pittsburgh’s Public Source
A bandeira nacional e o tridente sempre presentes nas manifestações pró-ucranianas. A foto é de Pittsburgh, em 03 de março de 2025, com a refugiada nos Estados Unidos, desde 2014, Natalka Rymar, ao centro. O tryzub, tridente em português, em fundo azul (o céu) e ouro (o trigo), é o símbolo nacional da Ucrânia. Há quem localize a sua origem no século I d.C., como símbolo de poder de algumas tribos nórdicas. A partir desses vestígios procurou estabelecer-se um itinerário que tem na Rus’ de Kiev, no século X, o momento em que o tridente, então visto como a Santíssima Trindade, representa o estado. Porém, só no século XX surge associado a duas efémeras repúblicas ucranianas, aliás, com pouco ou nada em comum com a atual. O tridente em fundo ouro e azul, enquanto símbolo da república da Ucrânia que emergiu com o colapso da União Soviética, em 1991, tem pouco mais de 30 anos. Imagem: Pittsburgh’s Public Source



Moeda de prata do tempo do príncipe Vladimir, o Grande, da Rus’ de Kiev. No reverso, à direita, o tridente. Mykhailo Hrushevsky, historiador ucraniano da transição do século XIX para o século XX, afirma ter identificado no tridente a simbologia das origens da nacionalidade, o elo de ligação entre o estado moderno e o passado medieval. Imagem: Reddit
Moeda de prata do tempo do príncipe Vladimir, o Grande, da Rus’ de Kiev. No reverso, à direita, o tridente. Mykhailo Hrushevsky, historiador ucraniano da transição do século XIX para o século XX, afirma ter identificado no tridente a simbologia das origens da nacionalidade, o elo de ligação entre o estado moderno e o passado medieval. Imagem: Reddit


O Regresso da História. Historiador e diretor do Harvard Ukranian Research Institute, apresentado pelo Financial Times como “o mais importante historiador da Ucrânia”, Serhii Plokhy introduz em A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História, publicado pela Editorial Presença, a diferenciação entre “nacionalismo moderado” e “nacionalismo radical”. Porém, ao longo das 330 páginas do livro escassas linhas se ocupam do nacionalismo “radical”. A par do reconhecimento do papel de organizações extremistas, Plokhy, não omitindo o passado de Stepan Bandera, apoiante do III Reich, cujo colaboracionismo sugere ter sido consequência de uma reação ao Holodomor, realça, em todo o caso, o papel do homem que, no final da guerra, chegou a estar detido num campo de concentração nazi.


Em contrapartida, investe a fundo na tese segundo a qual “A invasão russa destruiu os últimos resquícios da crença de que os Ucranianos e os Russos eram povos irmãos” (p.186), providenciando, nesse sentido, diversos comprovativos. Por exemplo, em Pereiaslav, as autoridades municipais removeram o monumento comemorativo da reunificação da Rússia e Ucrânia, o qual, reportando a 1654, aludia ao juramento de fidelidade prestado pelo atamã Bohdan Khmelnytsky ao Czar russo (p.187). Outro exemplo:


“O monumento da Mãe Pátria a defender a cidade contra a agressão nazi com a espada numa mão e o escudo na outra, erigido pelos soviéticos nos anos 1980 e conhecido como um símbolo de Kiev, permaneceu quase intacto, mas mudou de significado. É agora visto como um símbolo da resistência à invasão russa.” (p.187)


A estátua da Mãe Pátria com 102 metros de altura, originalmente um monumento comemorativo da vitória soviética sobre o nazi-fascismo, foi adaptado aos novos tempos. Perdeu a foice e o martelo e em seu lugar apareceu o tridente ucraniano. Na foto, o monumento original. Imagem: Poder 360
A estátua da Mãe Pátria com 102 metros de altura, originalmente um monumento comemorativo da vitória soviética sobre o nazi-fascismo, foi adaptado aos novos tempos. Perdeu a foice e o martelo e em seu lugar apareceu o tridente ucraniano. Na foto, o monumento original. Imagem: Poder 360


Estátua atual da Mãe Pátria, outrora parte do complexo do memorial do Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial. Imagem: Los Angeles Times
Estátua atual da Mãe Pátria, outrora parte do complexo do memorial do Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial. Imagem: Los Angeles Times


Mapa da demolição de estátuas de Lenine e resultados eleitorais das presidenciais de 2010 disputadas entre Yanukovych, considerado pró-russo, e Tymoshenko, pró-ocidental. O mapa é de 2017 e permite algumas reflexões quando comparado os mapas militares atuais. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute
Mapa da demolição de estátuas de Lenine e resultados eleitorais das presidenciais de 2010 disputadas entre Yanukovych, considerado pró-russo, e Tymoshenko, pró-ocidental. O mapa é de 2017 e permite algumas reflexões quando comparado os mapas militares atuais. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute

 

Em A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História está o que se ouve e lê na generalidade dos meios de comunicação em Portugal e no resto da Europa. Tendo a chancela de um cientista social, reforça a crença de quem encara positivamente a narrativa dominante. Vejamos alguns exemplos. Celebra O Regresso do Ocidente (p.229), título de um extenso capítulo em que se debruça exclusivamente sobre a atualidade; em Os Pacificadores (p.244) destaca o papel de Emmanuel Macron, bem como de dirigentes como Johnson e Scholtz, no apoio a Zelensky; congratula-se, adiante, com a Frente Comum (p.247) dos países ocidentais e considera histórica a reunião da Nato de 29 de Junho de 2022, em Madrid, por ter reforçado, por um lado, a unidade transatlântica e, por outro, porque “o comunicado emitido pelo gabinete de imprensa da cimeira designava a Rússia como ‘a ameaça mais significativa e direta para a segurança dos aliados’, designação usada pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria.” (p.248).


Escrito entre março de 2022 e fevereiro de 2023 no seguimento da contraofensiva do exército ucraniano que desalojou os russos de várias posições no terreno, o livro foi acrescentado de um Posfácio onde o autor escreve sobre a Nova Ordem Mundial. Corolário da crença na identidade da nação em armas contra o inimigo comum, condição em função da qual a vitória militar estaria assegurada, o Posfácio avança atribuindo à Ucrânia um papel charneira na geoestratégia do ocidente, sob liderança americana. Dá igualmente como adquirido o enfraquecimento da Federação Russa, destinada a uma posição de vassalagem face à China. Mas, Plokhy vai mais longe. Escreve:


“Há indicações claras de que a nação ucraniana emergirá desta guerra mais unida e segura da sua identidade do que em qualquer outro momento da sua história moderna. Além disso, a resistência bem-sucedida da Ucrânia à agressão russa está destinada a promover o próprio projeto de construção nacional da Rússia.” (p.271)


Serhii Plokhy, académico residente nos Estados Unidos, disse numa entrevista ao Hrohromadske ter rompido com a arquitetura da História posto que, sendo esta uma ciência do passado, decidira fazer incidir o foco do seu livro, sobretudo, no presente. Exemplo, excerto: “Toda a operação militar, sustentada pela convicção de Putin na inexistência da nação ucraniana e no desejo de os Ucranianos viverem sob autoridade russa, foi inspirada na ocupação russa da Crimeia.” (p.154). Imagem: Hrohromadske, 04 jun 2024
Serhii Plokhy, académico residente nos Estados Unidos, disse numa entrevista ao Hrohromadske ter rompido com a arquitetura da História posto que, sendo esta uma ciência do passado, decidira fazer incidir o foco do seu livro, sobretudo, no presente. Exemplo, excerto: “Toda a operação militar, sustentada pela convicção de Putin na inexistência da nação ucraniana e no desejo de os Ucranianos viverem sob autoridade russa, foi inspirada na ocupação russa da Crimeia.” (p.154). Imagem: Hrohromadske, 04 jun 2024

Sendo uma celebridade da intelligentsia ucraniana, autor de best-sellers como Chernobyl (2018) e Átomos e Cinzas (2022), Plokhy é sempre muito solicitado. Numa entrevista em inglês concedida à maior publicação on line da Ucrânia, o Hrohromadske, de 4 de junho de 2024, face à hipótese da cedência de territórios à Rússia, afirmou: “Border shifts are normal. The main thing is sovereignty and independence, and the ability to maintain them. The Poles today are somehow coping well without Lviv.” É uma diferença assinalável face ao tom geral do livro.

 

O que toda a gente precisa de saber. Se o livro de Plokhy é interessante porque construído em torno do O Regresso Da História, o de Serhy Yekelchyk, apesar de anterior, é essencial para o entendimento desse ponto de vista. O Regresso Da História, aliás, é tributário de Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber de Yekelchyk. O próprio Plokhy considera o trabalho do colega como o melhor de entre todos para efeito de introdução ao conflito. Timothy Snyder, académico americano e opositor de Putin, vai mais longe. Autor do sempre citado O Caminho Para O Fim Da Liberdade (2019)) diz que Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber deveria ser adotado como livro de cabeceira, andar sempre no bolso do casaco e se, porventura, alguém decidisse ler apenas um livro sobre o conflito, então, esse livro só poderia ser o de Yekelchyk. Está lá tudo.


Trata-se, com efeito, de um texto esclarecedor porque responde às questões em função das linhas gerais do que possa ser um eventual contraditório. Recuperando o revisionismo histórico assente nos pilares nacionalistas, introduzindo uma variante bastante criativa sobre o papel da “cultura de massas”, da qual adiante se falará, o livro tem como horizonte temporal o primeiro ano da presidência de Zelensky, em 2020, portanto, anterior à invasão russa. Talvez por isso, dedica particular atenção à guerra lançada contra os separatistas do Donbass a partir de 2014. Os títulos dos sete capítulos permitem identificar o foco do autor. Vejamos: 1. Porquê a Ucrânia? 2. A Terra e o Povo; 3. A construção da moderna Ucrânia; 4. Ucrânia depois do comunismo; 5. A Revolução Laranja e a EuroMaidan; 6. A anexação russa da Crimeia e a guerra no Donbass; 7. A guerra na Ucrânia como questão internacional.


Daqui, facilmente se poderá inferir a presença de uma estrutura baseada na construção de uma ideia de nação. Cada um dos capítulos responde a perguntas, 83 no conjunto, às quais o autor responde de forma precisa e sistemática. No primeiro, desenha uma tela de fundo da atualidade. As perguntas nele contidas são as seguintes: Porque tornou a Ucrânia um assunto-chave na luta política americana? Que é a Praça Maidan e porque se tornou notícia de abertura em todo o mundo? Como e porque motivo a Rússia anexou a Crimeia? Porque se desencadeou um conflito no Leste da Ucrânia na primavera de 2014? Porque causou a crise ucraniana tensões entre a Rússia e o Ocidente?



Serhy Yekelchyk vive no Canadá onde ensina História e Estudos Eslavos na Universidade de Vitória, na província da Columbia Britânica. Na foto, de fevereiro de 2022, discursa perante apoiantes da Ucrânia concentrados diante do edifício do Parlamento na cidade de Vitória. Excerto do livro: “Na atual cultura de massas da Ucrânia, Bandera funciona mais como um símbolo da resistência antirússia, uma vaga afirmação de protesto, semelhante à imagem de Che Guevara numa T-shirt.” (p. 95). Imagem: David Furlonger - University of Victoria/UVic News Archive
Serhy Yekelchyk vive no Canadá onde ensina História e Estudos Eslavos na Universidade de Vitória, na província da Columbia Britânica. Na foto, de fevereiro de 2022, discursa perante apoiantes da Ucrânia concentrados diante do edifício do Parlamento na cidade de Vitória. Excerto do livro: “Na atual cultura de massas da Ucrânia, Bandera funciona mais como um símbolo da resistência antirússia, uma vaga afirmação de protesto, semelhante à imagem de Che Guevara numa T-shirt.” (p. 95). Imagem: David Furlonger - University of Victoria/UVic News Archive

Perguntas, na verdade, que qualquer pessoa faria, sendo essa uma das razões da eficácia retórica do livro. Uma vez respondidas, porém, resulta evidente a presença de um ponto de vista analítico com um juízo moral subjacente. Segue-se, parafraseando Plokhy, o “regresso à História”. O método, legítimo, consiste em estabelecer as premissas e retirar as conclusões. As primeiras resultam da particular interpretação de Yekelchyk a propósito da complexa rede política, geoestratégica e étnico-linguística, cujas raízes tanto mergulham no tempo quando são aplicáveis a episódios mais recentes, alguns dos quais envoltos em controvérsia. Entre eles, o massacre de Odessa. É visto pelo autor como um confronto entre manifestantes pró-russos e pró-Maidan que “terminou num banho de sangue quando uma coluna conjunta de adeptos de futebol e de ativistas da EuroMaidan entraram em confronto com uma parada de forças pró-russas no centro da cidade.” (p. 207)


Acrescenta o autor:


“Depois das primeiras vítimas, a luta moveu-se para a praça onde os ativistas tinham assentado campo. Ali, muitos ativistas pró-russos refugiaram-se num edifício sindical abandonado e dezenas morreram, aparentemente, devido à inalação de fumo quando o edifício pegou fogo, em circunstâncias ainda por esclarecer. Nesse dia houve 48 mortos na cidade, todos, exceto seis, pró-russos, e centenas de pessoas foram feridas.” (p. 207)

A versão de Yekelchyk, não mais do que uma breve passagem do livro, diverge da que levou as autoridades europeias a pedirem explicações a Kiev, exigindo o apuramento de responsabilidades, bem como, mais tarde, já em março de 2016, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU (OHCHR) a elaborar um relatório sobre os sucessivos adiamentos e entorses da justiça ucraniana. Seriam ainda elaborados outros dois relatórios, cujas consequências foram nulas. A dada altura, o massacre de Odessa passou a ser considerado quer em Kiev quer no ocidente como “propaganda russa”, apesar das evidências. Por exemplo, sabe-se que quem incendiou a Casa dos Sindicatos foi Demyan Ganul, comandante de milícias de rua constituídas para perseguir a população pró-russa. Conhecem-se, também, pessoas que participaram na carnificina e, na ocasião, exibiram fotos de congratulação nas redes sociais. Uma delas é Ievgeniia Kraizman, ativista do grupo Femen, alegadamente feminista e admiradora de Bandera.


 

A Casa dos Sindicatos de Odessa em chamas. Segundo o que então veio a lume, milícias ucranianas, organizadas pelo Sector Direito e outras organizações extremistas, bloquearam manifestantes pró-russos no interior e incendiaram o edifício. Dezenas de pessoas foram queimadas vivas. Mais de duas centenas ficaram feridas, na maioria dos casos alvejadas quando tentavam escapar. Imagem: ABC News
A Casa dos Sindicatos de Odessa em chamas. Segundo o que então veio a lume, milícias ucranianas, organizadas pelo Sector Direito e outras organizações extremistas, bloquearam manifestantes pró-russos no interior e incendiaram o edifício. Dezenas de pessoas foram queimadas vivas. Mais de duas centenas ficaram feridas, na maioria dos casos alvejadas quando tentavam escapar. Imagem: ABC News


Demyan Ganul, notório neonazi, foi identificado como um dos organizadores e perpetradores do massacre. Figura proeminente do submundo ucraniano, o seu nome constou das listas de criminosos procurados em diversos países. Foi executado em Março de 2025 por um atirador solitário no centro da cidade de Odessa. Imagem: Nevillegafa
Demyan Ganul, notório neonazi, foi identificado como um dos organizadores e perpetradores do massacre. Figura proeminente do submundo ucraniano, o seu nome constou das listas de criminosos procurados em diversos países. Foi executado em Março de 2025 por um atirador solitário no centro da cidade de Odessa. Imagem: Nevillegafa

As conclusões extraídas por Yekelchyk em função das suas premissas são, com frequência, bastante ousadas. É o que sucede quanto à questão étnico-linguística, decisiva para compaginar de modo coerente o que se entende por “ucranianos”. Tendo a Ucrânia acedido à independência apenas em 1991, a noção de “ucranianos” ou “nação ucraniana”, segundo Yekelchyk, “é ainda entendida como referindo-se a ucranianos étnicos.” Com efeito, a Constituição do País proclama como fonte da sua soberania “o povo ucraniano – cidadãos da Ucrânia de todas as nacionalidades”, distinguindo, no entanto, “entre este conceito cívico de nação e nação ucraniana étnica.” Nas últimas décadas, contudo, escreve o autor:


“(...) os falantes de ucraniano aceitaram gradualmente um entendimento ocidental de ‘Ucranianos’ como tratando-se de todos os cidadãos da Ucrânia. Uma tal mudança linguística reflete o moroso desenvolvimento de um patriotismo cívico baseado na aliança com o Estado em vez de com a nação étnica.” (p. 46).

Para se entender a questão, a qual, na verdade, parece algo nebulosa, Yekelchyk defende ser necessário compreender a natureza da nação étnica ucraniana que “também vindo a mudar”. Vejamos como:


“Os nacionalistas acreditam em nações étnicas, orgânicas, primordiais, definidas pelo sangue; mas os estudiosos modernos argumentam o contrário. Demonstram que as nações modernas emergiram quando a educação e os media ajudaram as massas a ‘imaginarem-se” a si mesmas como parte da nação. A cultura folclórica do campesinato serviu como fundação das modernas nações na Europa do Leste, mas foi necessário o esforço de intelectuais patriotas para definir as nações étnicas dentro dos impérios, que eram como mantas de retalhos, desenhando a partir de elementos folclóricos uma cultura moderna nobre que servisse de alicerce para a identidade nacional contemporânea.” (p. 47)

Dada a complexidade etno-linguística da Ucrânia, e para quem busca as raízes profundas da identidade, entregar a tarefa a historiadores patriotas fazer fé na cultura de massas, não será passar um pouco das marcas?

 


Mapa etno-linguístico da Ucrânia. 2014. Imagem: Eurasian Geopolitcs, UC Berkeley
Mapa etno-linguístico da Ucrânia. 2014. Imagem: Eurasian Geopolitcs, UC Berkeley



Mapa linguístico da Ucrânia, 2014. A língua oficial, o ucraniano, era falada por cerca de 70 por cento da população. O russo, a segunda língua, era igualmente utilizada em todo o país, sendo dominante em regiões como o Donbass e praticamente exclusiva na Crimeia. Imagem: CNN
Mapa linguístico da Ucrânia, 2014. A língua oficial, o ucraniano, era falada por cerca de 70 por cento da população. O russo, a segunda língua, era igualmente utilizada em todo o país, sendo dominante em regiões como o Donbass e praticamente exclusiva na Crimeia. Imagem: CNN

 

Continua com Ucrânia (Parte III): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros, passar das marcas

 
 
 
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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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