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CULTURA

Ucrânia (Parte VII): Nacionalismo e identidade no Tempo dos Monstros, a hora da vertigem suicidária

Foto do escritor: Jorge Campos
Jorge Campos
há 4 horas
26 min de leitura

Se as últimas semanas indiciam a escalada no campo de batalha e a subida de tom de Zelensky e dos seus aliados europeus, a verdade é que dão igualmente sinais do progressivo esboroar dos alicerces do regime de Kiev. A rebelião de alguns, em lugares-chave, até há pouco considerados indefetíveis do presidente, o avolumar dos casos de corrupção envolvendo o seu círculo mais próximo e um descontentamento social cuja visibilidade desmente o que alguns estudos de opinião ainda deixam entender, tudo isso, ligado à imagem de destruição generalizada, contribui para a fadiga da guerra que, inexoravelmente, se vai instalando. Daí a urgência do apelo de Kiev para que se abram negociações de paz, enquanto, por outro lado, se faz adensar a cortina de fumo mediática, numa tentativa de passar a ideia de que a Ucrânia está a ganhar a guerra. Não está. Nem sequer há um impasse. Está a perder. Mas é necessário dizer o contrário de modo a criar a ilusão de poder negocial quer de Zelensky quer das lideranças europeias já confrontadas com os custos da vertigem armamentista. Até ver, o mais sério aviso veio da Alemanha. Outros virão.


 

Soldados russos da Akhmat Spetsnaz (Forças Especiais Akhmat) na região de Belgorod, perto da fronteira com a Ucrânia. Foto: Goran Tomasevic / The Globe and Mail /NEWSWEEK
Soldados russos da Akhmat Spetsnaz (Forças Especiais Akhmat) na região de Belgorod, perto da fronteira com a Ucrânia. Foto: Goran Tomasevic / The Globe and Mail /NEWSWEEK

 

Quando Zelensky subiu ao palco na Assembleia Geral da Nações Unidas, sabia, melhor do que ninguém, que enfrentava a possibilidade de estar a chegar a um ponto de não retorno. Não terá deixado Nova Iorque com melhores expectativas. Por mais que lhe alimentem a quimera de uma vitória militar e lhe prometam mísseis Patriot, que dificilmente alguma vez chegarão, a situação na Ucrânia aproxima-se do desastre. Até Merz, que promete tudo, após a visita de 4 de outubro de 2026 a Kiev, parece ter começado a entender que o abismo está ao virar da esquina.

 

Sinais que chegam de Kiev

 

Milhares de vidas ceifadas na frente de combate. Milhares de pessoas em fuga sem destino. Milhões no estrangeiro, sobretudo em países europeus, mas também na Rússia ou em lugares improváveis que a sorte ou a falta dela escolheram. Drasticamente reduzida, a população ucraniana será agora não muito mais do que metade da constante dos censos do início do século. Daí, uma parte das razões da dificuldade de recrutamento militar. A outra parte é mais complexa. O apregoado patriotismo que alimenta a vontade de resistir já conheceu melhores dias. Quem foi obrigado a fugir na sequência da invasão russa raramente se manifesta disponível para se alistar nas forças armadas. Os jogos de máscaras, as coreografias protocolares, terão ainda impacto nas coberturas noticiosas, sobretudo, nas televisões, mas estão cada vez mais longe do quotidiano de quem sofre o inferno da incerteza e da morte.

 

Ferido por dentro, o regime de Kiev vacila. Guerras intestinas no seio dos serviços secretos irrompem à luz do dia com violência nas ruas da capital. Surgem potenciais candidatos à presidência, como Mykhailo Fedoorov, ex-Ministro da Defesa, que reclamam eleições. Manifestantes saem à rua contra Zelensky. Apesar dos desmentidos, prossegue o recrutamento forçado de homens que são apanhados nas ruas, metidos à força em autocarros e transportados para unidades militares de onde seguem diretamente para a frente de combate. É a busificação, extremamente impopular, que todos os dias suscita protestos nos lugares e cidades da Ucrânia (a título de exemplo, ver aqui).

 

Busificação, grafado em inglês como busification (do ucraniano busyfikatsia) serve para descrever a ação violenta dos agentes dos Centros Territoriais de Recrutamento. A palavra resulta da junção de busik, termo coloquial que designa as carrinhas e miniautocarros de vidros fumados utilizados nas operações, e isification que denota procedimento. Qualquer homem entre os 18 e os 60 anos pode ser detido e, não tendo os documentos em dia, metido à força num veículo e transportado para um centro de mobilização. Circulam pelas redes sociais numerosos vídeos de denúncia que conseguem escapar ao controle das comunicações. Em 2024, o Myslovo, dicionário colaborativo da língua ucraniana moderna, escolheu busification como palavra do ano. Os media ucranianos parecem desconhecê-la. A foto é de julho 2026, em Bilhorod-Dnistrovky. Foto: ANTIKOR
Busificação, grafado em inglês como busification (do ucraniano busyfikatsia) serve para descrever a ação violenta dos agentes dos Centros Territoriais de Recrutamento. A palavra resulta da junção de busik, termo coloquial que designa as carrinhas e miniautocarros de vidros fumados utilizados nas operações, e isification que denota procedimento. Qualquer homem entre os 18 e os 60 anos pode ser detido e, não tendo os documentos em dia, metido à força num veículo e transportado para um centro de mobilização. Circulam pelas redes sociais numerosos vídeos de denúncia que conseguem escapar ao controle das comunicações. Em 2024, o Myslovo, dicionário colaborativo da língua ucraniana moderna, escolheu busification como palavra do ano. Os media ucranianos parecem desconhecê-la. A foto é de julho 2026, em Bilhorod-Dnistrovky. Foto: ANTIKOR

 

À semelhança do que sucede na Federação Russa, opositores à guerra são alvo de apertada vigilância. No dia 10 de agosto de 2026, o Yabloko, um pequeno partido contra a guerra, foi proibido pelo Kremlin de participar nas eleições. Ainda assim, em função do sistema eleitoral, os seus aderentes puderam participar em listas uninominais. No mesmo dia 10 de agosto, na Ucrânia, o jovem trotskista de 27 anos Bogdan Syrotiuk, apesar de opositor de Putin e crítico da invasão russa, foi condenado a 15 anos de prisão por “alta traição”. O seu crime foi criticar as autoridades ucranianas pela opção da guerra em prejuízo das negociações de paz em artigos publicados no World Socialist Web Site (ver aqui). 



 

Em 10 de agosto de 2026 um tribunal ucraniano condenou a 15 anos de prisão Bogdan Syrotiuk. Ordenou igualmente o confisco dos seus bens e de materiais da sua organização, a Jovem Guarda dos Bolcheviques-Leninistas (JGBL). A condenação por “alta traição” assentou numa única prova: seis artigos publicados no World Socialist Web Site, aos quais foi anexado o registo das interações com os editores. Syrotiuk, detido pela primeira vez pelos serviços de segurança ucranianos (SBU) em 25 de abril de 2024 sob alegação de ser um agente do governo russo, interpôs recurso da sentença. Na foto, de abril de 2023, exibe um exemplar de uma antiga edição soviética do livro de John Reed, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, em que aparece uma imagem de Trotsky. Foto: World Socialist Web Site
Em 10 de agosto de 2026 um tribunal ucraniano condenou a 15 anos de prisão Bogdan Syrotiuk. Ordenou igualmente o confisco dos seus bens e de materiais da sua organização, a Jovem Guarda dos Bolcheviques-Leninistas (JGBL). A condenação por “alta traição” assentou numa única prova: seis artigos publicados no World Socialist Web Site, aos quais foi anexado o registo das interações com os editores. Syrotiuk, detido pela primeira vez pelos serviços de segurança ucranianos (SBU) em 25 de abril de 2024 sob alegação de ser um agente do governo russo, interpôs recurso da sentença. Na foto, de abril de 2023, exibe um exemplar de uma antiga edição soviética do livro de John Reed, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, em que aparece uma imagem de Trotsky. Foto: World Socialist Web Site


Acossado por dentro e por fora, pouco tempo antes, o regime de Kiev dera outro passo arriscado. Com o intuito de reforçar o apoio junto do núcleo duro dos nacionalistas, cuja componente militar é decisiva, acelerou a recuperação da memória não só de nazis ucranianos da II Guerra Mundial, mas também de elementos de milícias da extrema-direita ligados à violência étnica, designadamente, pogroms antissemitas. Uns e outros, por se terem batido pela independência da Ucrânia contra a URSS, passarão a integrar o futuro panteão dos heróis nacionais. Em maio de 2026 teve lugar a cerimónia de reabilitação do comandante do chamado Exército Insurgente (OUN), Andriy Melnyk, um dos responsáveis pelo massacre de Volínia. Na altura, Zelensky anunciou estar em curso operação semelhante em relação a outras figuras:

 

“We have already begun work to bring Yevhen Konovalets home, along with many other such Ukrainians. It is highly symbolic that our Ukrainian heroes of today, who have torn Ukraine out of Russian hands in this full-scale war – who have taken it back forever – will rest alongside Ukrainians of previous generations who also worked to ensure that Ukraine would be what it is, that Ukraine would be itself, that Ukraine would be free.”

 

Zelensky cumpriu a promessa. Numa ação coordenada com os serviços de segurança chefiados por Kyrylo Budanov e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os restos mortais de Konovalets foram exumados em Roterdão e transladados para Kiev. A 18 de agosto de 2026 foram formalmente sepultados com honras militares no cemitério do Memorial Militar Nacional. (Ver a página oficial da Presidência da Ucrânia sobre a reabilitação de Andriy Melnyk, aqui).


 Em 25 de maio de 2026, a página oficial da Presidência da Ucrânia publicou um texto com o título: “The President Took Part in the Reburial Ceremony of Andriy Melnyk and His Wife Sofia Fedak-Melnyk at the National Military Memorial Cemetery”. Estiveram presentes, além de Zelensky, alguns dos mais destacados dirigentes ucranianos. Tal como com Melnyk, o panteão nacional, que ficará situado junto do Mosteiros das Cavernas em Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), vai receber os restos mortais de Yevhen Konovalets, que é considerado pioneiro e militar mártir da independência da Ucrânia. Assassinado em 1938, em Roterdão, alegadamente por um agente de Estaline, Konovalets foi um destacado comandante dos Atiradores de Sich, milícia militar etnonacionalista da efémera República Popular da Ucrânia (1917-1919), que esteve na origem do OUN. FOTOS: 1. President of Ukraine | Volodymyr Zelensky | Official website; 2. Democràta; 3. Ukrainian World Congress.
Em 25 de maio de 2026, a página oficial da Presidência da Ucrânia publicou um texto com o título: “The President Took Part in the Reburial Ceremony of Andriy Melnyk and His Wife Sofia Fedak-Melnyk at the National Military Memorial Cemetery”. Estiveram presentes, além de Zelensky, alguns dos mais destacados dirigentes ucranianos. Tal como com Melnyk, o panteão nacional, que ficará situado junto do Mosteiros das Cavernas em Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), vai receber os restos mortais de Yevhen Konovalets, que é considerado pioneiro e militar mártir da independência da Ucrânia. Assassinado em 1938, em Roterdão, alegadamente por um agente de Estaline, Konovalets foi um destacado comandante dos Atiradores de Sich, milícia militar etnonacionalista da efémera República Popular da Ucrânia (1917-1919), que esteve na origem do OUN. FOTOS: 1. President of Ukraine | Volodymyr Zelensky | Official website; 2. Democràta; 3. Ukrainian World Congress.


Mostrei em apontamentos anteriores como milhares de monumentos comemorativos da vitória sobre o nazi-fascismo ou foram destruídos ou passaram por uma metamorfose que os transformou, no âmbito do chamado “Renascimento Cultural Pós-Maidan”, em símbolos patrióticos representativos do “novo imaginário coletivo” da Ucrânia. Na mesma direção vai a exaltação da “bravura” e da “luta de libertação” omnipresente nas políticas culturais do regime com o intuito de legitimar a “identidade ucraniana” (Ver Partes IV e V).

 

Exemplos paradigmáticos de “bravura” na “luta de libertação” são Andriy Biletsky e Denys Prokopenko. Fundadores do Batalhão Azov, ligados à perseguição de russos étnicos no período pós-Maidan, distinguir-se-iam, mais tarde, nos combates em Mariupol e no Donbass. Prokopenko chegou a ser feito prisioneiro pelos russos, sendo libertado graças à intervenção diplomática da Turquia. Zelensky promoveu ambos a oficiais de alta patente, atribuindo-lhes novas responsabilidades tanto no campo operacional quanto no da guerra comunicacional.

 

Dado o simbolismo da decisão, é relevante introduzir, a propósito de Biletsky, uma adenda a referências em textos anteriores. Tem por base a investigação publicada na Perspectives of Terrorism (PT) de setembro de 2024 da autoria de Ivan Katchanovsky e Max Abrahams. A PT é uma revista académica trimestral com revisão por pares e de acesso aberto. Fundada em 2007 com o objetivo de estudar o terrorismo, contraterrorismo e a violência política, está, hoje, sob a alçada do International Center for Counter-Terrorism (ICCT) em parceria com as universidades de Leiden e St. Andrews. A investigação tem por título Far-Right Political Violence in Ukraine: Assessment of the Donbass War and the Odessa Massacre.

 

Os autores consideram que a Federação Russa exagerou o papel dos grupos neonazis da Ucrânia com o intuito de construir a narrativa que legitima a sua intervenção militar. Contudo, afirmam ser inequívoco o envolvimento desses grupos na guerra do Donbass e no Massacre de Odessa de 2 de maio de 2014: “Although the percentage of far-right supporters and fighters in Ukraine was relatively small, they exercised disproportionate influence in the country due to their greater reliance on violence and armed formations.” Isto também é dito por historiadores ucranianos que tenho vindo a citar como Plokhy, Yekelchyk e Matthews. O problema é saber se a expressão eleitoral desses grupos, hoje, é proporcional à sua presença real na esfera político-militar. A resposta continua a ser não (ver Parte I). A influência que exercem através das suas principais figuras, que transitaram para formações políticas mais aceitáveis aos olhos dos aliados europeus, bem como as ideias que veiculam e as posições que ocupam, quer no aparelho de estado quer nas Forças Armadas, têm peso significativo no regime de Kiev. De resto, só assim se justifica a razão de ser dos episódios acima mencionados.

 

Revisitemos o caso do Brigadeiro-General Andriy Biletsky, comandante do 3º Corpo do Exército, antes designado por 3º Corpo de Assalto. Biletsky tem um passado problemático. Foi dirigente dos Patriotas da Ucrânia e da Assembleia Social-Nacional (SNA) e não se limitou à ação nas investidas do Azov. Como referem Katchanovsky e Abrahams na investigação citada, também expressou o seu pensamento em diversos textos:

 

“He wrote that social nationalism is based on “Sociality, Racism, and Great Power.” Specifically, it is based on the ideas that the “white race” is “superior” to other races and is the foundation of the Aryan Ukrainian nation; the Ukrainian nation is a “blood-racial community”; and that “the historical mission of our Nation (…) is to head and lead the White Peoples of the world in the last crusade for their existence, a march against the Semitic-led subhumans.”

 

Biletsky continua a ser conhecido entre os ucranianos por “Líder Branco”. Tendo sido o primeiro comandante do Batalhão Azov, resultante da convergência dos Patriotas da Ucrânia e do SNA, defende hoje “uma Ucrânia militarizada para sempre” integrada, como “escudo protetor”, na União Europeia (ver Parte I). O símbolo do batalhão, agora parte da Guarda Nacional, é denominado “Ideia da Nação”, na verdade uma suástica estilizada com referências ao símbolo rúnico Wolfsangel das Waffen SS. Para quem qualifica o regime de Kiev como uma etnocracia, Biletsky surge como um dos seus rostos mais emblemáticos. Em setembro de 2026, veio a público assumir o comando da Operação Vivaldi, arquitetada pelo Exército e pelos serviços de inteligência com o objetivo de, por um lado, travar o avanço russo e, por outro, reforçar a guerra da comunicação. (O texto completo da revista Perspectives of Terrorism pode ser lido aqui).



 

Agora promovido a Brigadeiro-General, Andriy Biletsky voltou a ser objeto da atenção dos media ocidentais desde que assumiu o comando da Operação Vivaldi. Esta imagem de 7 de setembro de 2026 mostra-o em Sviatohirsk, na região de Donetsk, com a Igreja da Sagrada Assunção em fundo. Foi retirada de um vídeo divulgado pelos serviços de inteligência ucranianos com o intuito de desmentir a conquista da cidade anunciada pelo Kremlin. Foto: Kyiv Post
Agora promovido a Brigadeiro-General, Andriy Biletsky voltou a ser objeto da atenção dos media ocidentais desde que assumiu o comando da Operação Vivaldi. Esta imagem de 7 de setembro de 2026 mostra-o em Sviatohirsk, na região de Donetsk, com a Igreja da Sagrada Assunção em fundo. Foi retirada de um vídeo divulgado pelos serviços de inteligência ucranianos com o intuito de desmentir a conquista da cidade anunciada pelo Kremlin. Foto: Kyiv Post


O brigadeiro-General Denys Prokopenko, atual comandante do Agrupamento de Forças Azov, disse ao Ukrainska Pravda de 29 de fevereiro de 2025: "Whatever foreign politicians say, the front line should always have the last word." A declaração surgiu antes da promoção a oficial de alta patente. No novo posto tem manifestado reiteradamente a convicção de que a Rússia será derrotada militarmente. Não vê, aliás, outra solução. Licenciado em Filologia Românica, as suas raízes mergulham nos movimentos da extrema-direita de Kiev ligados ao sub-mundo das claques de futebol. Foi líder destacados dos White Boys Club do Dinamo de Kiev. Alto, atlético, louro e de olhos azuis, diversos grupos radicais europeus e dos Estados Unidos serviram-se da sua imagem estilizada – por vezes, sem conhecimento prévio dele próprio – como símbolo supremacista e ícone da estética Alt Right. Foto: 1st CORPS NGU “AZOV”
O brigadeiro-General Denys Prokopenko, atual comandante do Agrupamento de Forças Azov, disse ao Ukrainska Pravda de 29 de fevereiro de 2025: "Whatever foreign politicians say, the front line should always have the last word." A declaração surgiu antes da promoção a oficial de alta patente. No novo posto tem manifestado reiteradamente a convicção de que a Rússia será derrotada militarmente. Não vê, aliás, outra solução. Licenciado em Filologia Românica, as suas raízes mergulham nos movimentos da extrema-direita de Kiev ligados ao sub-mundo das claques de futebol. Foi líder destacados dos White Boys Club do Dinamo de Kiev. Alto, atlético, louro e de olhos azuis, diversos grupos radicais europeus e dos Estados Unidos serviram-se da sua imagem estilizada – por vezes, sem conhecimento prévio dele próprio – como símbolo supremacista e ícone da estética Alt Right. Foto: 1st CORPS NGU “AZOV”


Dualidade europeia. Nada disto parece afetar a liderança da UE. Tão pouco a generalidade dos media, quando muito disponíveis para uma nota de rodapé sobre um ou outro escândalo logo diluído no caudal de opinião em defesa de Kiev. Há assuntos tabu. Um deles, é o nacionalismo. O problema nem sequer se coloca. Pertence ao passado. Contudo, se, por absurdo, os jornalistas se dessem ao trabalho de verificar, por exemplo, o que são as políticas culturais ucranianas, bem como os princípios em que se baseiam, teriam, certamente algumas surpresas desagradáveis. Para conforto das consciências, essa matéria é tida por irrelevante. Portanto, não se ouvirá falar em etnocracia.

 

Claro que os aliados de Zelensky sabem que a Ucrânia tem os seus problemas. De quando em vez, enquanto o fluxo do dinheiro escorre em quantidades inimagináveis, há um ou outro sobressalto, uma ou outra reprimenda. Já é impossível não falar em corrupção, posto que os colaboradores mais próximos de Zelensky vão caindo envolvidos em escândalos como peças de uma fileira de dominó. Um dos últimos, demitido a 14 de agosto de 2026, foi o Procurador-Geral Rusian Kravchenko, que se pôs em fuga. A norma europeia, porém, continua a ser varrer o lixo para debaixo do tapete. Há riscos? Haverá. É preocupante? Será. Mas o que é isso comparado com a “ameaça russa”?

 

Reféns da lógica geoestratégica transitada da Guerra Fria, convictos de uma pretensa “superioridade moral”, incapazes de lidar com a emergência de novos atores globais, confrontados, após a vassalagem prestada a Biden, com a imprevisibilidade de Trump, os líderes da União Europeia estão cada vez mais desunidos e desencontrados do mundo. Sem iniciativa diplomática, insistindo na via militar, revelam-se incapazes de, ao menos, refletirem sobre as consequências para a própria Europa do que seria, por exemplo, uma Rússia, com o seu gigantesco arsenal nuclear, fragmentada em repúblicas dominadas por máfias em guerras entre si, dando origem a sucessivas vagas de refugiados. Por sinal, Putin, após o descalabro da presidência de Boris Yeltisn, pôs travão a algo que ia nesse sentido abrindo caminho à estabilização das relações com a Europa, com vantagens recíprocas. Sabe-se o que aconteceu. Por pressão da administração americana, a questão da NATO viria evidenciar divergências geoestratégicas insanáveis, colocando a Ucrânia no epicentro de uma crise cujo desfecho se adivinha, a vários títulos, injusto e sombrio. 

 

Acresce que, ao assumir a retórica belicista em defesa dos princípios do direito internacional e dos direitos humanos, os dirigentes europeus caíram na situação paradoxal de negar ou relativizar esses mesmos princípios face às questões que mais ferem as consciências. Tratando-se da Palestina, do genocídio em Gaza e do Irão a dualidade de critérios é chocante. Tendo induzido a polarização afetiva, acriticamente amplificada pelo sistema mediático, Bruxelas conseguiu ganhar o senso comum e condicionar a opinião pública. Mas, acabará por beber do seu próprio veneno. Aliás, já está a beber. O avanço eleitoral das forças políticas que se opõem à guerra é notório. Parte é da extrema-direita, a qual, aliás, contando nalguns casos, pontualmente, com o apoio de Moscovo, deve agradecer o seu sucesso, sobretudo, à EU pelas políticas neoliberais que implementa e se revelam incapazes de resolver os problemas dos cidadãos. Mas o descontentamento leva igualmente à gradual ascendência de movimentos e partidos pela paz, que agem em defesa dos serviços públicos e contra a deterioração das condições de vida que decorre dos gastos astronómicos em Defesa.

 

Para agravar a situação, onde não se vislumbram sinais de racional estratégico, abunda o recurso a incidentes. É o avião de Zelensky estacionado na Moldávia que, quando o presidente se preparava para viajar para a Noruega, ia sendo atingido por um drone russo. É o comboio onde Boris Johnson seguia de Kiev para a Polónia que foi bombardeado tendo o ex-primeiro ministro britânico escapado por pouco. Os exemplos, sendo diários, poderiam multiplicar-se. São fake? Serão. Pouco importa. O que conta é a “ameaça russa”. À falência das lideranças junta-se a falência do sistema mediático.

 


O avião de Zelensky foi “quase atingido” e o comboio de Boris Johnson foi atingido, mas o ex-primeiro ministro britânico foi “salvo” por uma mudança de horário. A primeira notícia é da CNN e a segunda do tablóide Sun. Com pequenas variantes, foram ambas replicadas em centenas de media ocidentais. Também foram objeto de escrutínio em plataformas alternativas. Le Média, por exemplo, é um canal independente de notícias online que, à semelhança de outros que vão surgindo, expõe a narrativa enviesada dos meios tradicionais.
O avião de Zelensky foi “quase atingido” e o comboio de Boris Johnson foi atingido, mas o ex-primeiro ministro britânico foi “salvo” por uma mudança de horário. A primeira notícia é da CNN e a segunda do tablóide Sun. Com pequenas variantes, foram ambas replicadas em centenas de media ocidentais. Também foram objeto de escrutínio em plataformas alternativas. Le Média, por exemplo, é um canal independente de notícias online que, à semelhança de outros que vão surgindo, expõe a narrativa enviesada dos meios tradicionais.

 


“A Ucrânia está a perder a Guerra”

 

O ponto de partida destas notas soltas foi a recensão de obras de historiadores ucranianos (ver as Partes I, II e III) em torno de um tópico central, o nacionalismo, com foco na Cultura, vista na Ucrânia como uma questão de segurança interna, posto que nela reside o elemento legitimador da identidade da nação (ver Partes IV, V e VI). Um dos livros sobre os quais teci alguns comentários foi Overreach: The Inside Story of Putin and Russia’s War (Passar das Marcas: Os Bastidores da Guerra de Putin contra a Ucrânia) de Owen Matthews, jornalista e escritor britânico de origem ucraniana, que veio reiterar, nas páginas da revista semanal The Spectator, publicada em 7 de setembro 2026, que “A Ucrânia está a perder a guerra (Ukraine is losing the war”). O artigo, vindo de quem vem, um defensor da nação ucraniana, constitui severo alerta.

 

Segundo diz, as visitas no início do mês dos emissários de Trump a Moscovo e Kiev, Jared Kushner e Steve Witkoff, poucos ou nenhuns resultados produziram. Putin tê-los-á recebido “sorridente”, mas o sorriso nada teria de amistoso. O líder do Kremlin simplesmente não inicia negociações de paz enquanto o Donbass não for “libertado” e a Ucrânia “desmilitarizada” e “desnazificada”. Para Putin “as razões profundas do conflito”, sendo históricas, não são negociáveis. Quanto à Crimeia, é um assunto encerrado.

 

É certo que a Ucrânia resiste. Desenvolveu sistemas de ataque na profundidade do território russo através da nova geração de drones Geran que podem destruir refinarias e uma parte das cadeias de distribuição como a Wildberries, a Amazon russa, o que, além dos danos causados, produz efeitos positivos na guerra comunicacional. Não inibem, porém, a ação militar de Moscovo. A Rússia incrementou o fabrico de sofisticados mísseis balísticos que podem ser lançados da terra e do ar. Na indústria militar atingiu níveis de produção nunca vistos. Longe de ser esmagada por sanções ou paralisada pelos ataques de longo alcance, a sua indústria de defesa expandiu-se ao ponto de 45% das receitas do estado serem destinados ao armamento. Ataques devastadores às infraestruturas das principais cidades ucranianas, como o de 8 de setembro de 2026, inviabilizaram numerosas vias de comunicação, bem como diversas redes de distribuição. Apesar de os ataques com drones em profundidade terem provocado uma crise de combustíveis na Rússia, Putin deixou claro que Moscovo suportará os custos de uma economia de guerra pelo tempo que for necessário. Matthews resume assim a situação:

 

“Para Putin, o conflito não trata de preservar a prosperidade, mas de defender a Rússia contra uma ameaça existencial. Ao mesmo tempo, Zelensky nutre ilusões semelhantes quanto às chances de a Ucrânia derrotar a Rússia – ou até mesmo, tragicamente, de deter os avanços lentos, mas imparáveis, do Kremlin. Mais importante ainda: à medida que Moscovo prossegue uma campanha implacável que torna as cidades ucranianas inabitáveis e destrói a economia do país roubando-lhe o futuro, a capacidade de Kiev de se defender suscita as mais sérias dúvidas.”


 

A vida nas cidades ucranianas, particularmente em Kiev, é um inferno para os seus habitantes. A foto é de 6 de julho de 2026 e mostra uma mãe a proteger a filha após um ataque com mísseis à capital ucraniana na véspera de uma cimeira da NATO. Foto: Genya Savilov / AFP
A vida nas cidades ucranianas, particularmente em Kiev, é um inferno para os seus habitantes. A foto é de 6 de julho de 2026 e mostra uma mãe a proteger a filha após um ataque com mísseis à capital ucraniana na véspera de uma cimeira da NATO. Foto: Genya Savilov / AFP


No artigo lê-se que a Ucrânia está à beira do seu momento mais crítico.  O primeiro-ministro, Serhii Koretsky, anunciou que Kiev já gastou a maior parte dos recursos destinados à defesa para 2026, enfrentando um colossal défice orçamental estimado em 26 mil milhões de euros, apesar do empréstimo recente da UE de 90 mil milhões de euros. Segundo Matthews: “À medida que a Ucrânia entra no inverno mais rigoroso e penoso da guerra, o país está prestes a ficar não apenas sem mísseis Patriot e sem efetivos nas linhas da frente, mas também sem recursos financeiros para continuar la guerra.”
No artigo lê-se que a Ucrânia está à beira do seu momento mais crítico.  O primeiro-ministro, Serhii Koretsky, anunciou que Kiev já gastou a maior parte dos recursos destinados à defesa para 2026, enfrentando um colossal défice orçamental estimado em 26 mil milhões de euros, apesar do empréstimo recente da UE de 90 mil milhões de euros. Segundo Matthews: “À medida que a Ucrânia entra no inverno mais rigoroso e penoso da guerra, o país está prestes a ficar não apenas sem mísseis Patriot e sem efetivos nas linhas da frente, mas também sem recursos financeiros para continuar la guerra.”


O pesadelo ucraniano, de acordo com Matthews, é, em parte, de natureza tática. A título de exemplo, a continuar assim, diz ele, a desproporção de meios será tal que a Ucrânia dificilmente conseguirá obter mísseis em número suficiente para proteger as suas cidades no próximo inverno. No entanto, a derrota da Ucrânia a que se vai assistindo lentamente é, sobretudo, de natureza estratégica e remete para um triplo fracasso por parte dos aliados europeus.

 

Em primeiro lugar, “o Reino Unido e a Europa exaltaram as sanções, ao mesmo tempo em que, na prática, enviaram muito mais dinheiro a Moscovo pelo pagamento de petróleo e gás do que o que forneceram a Kiev em ajuda militar.” Em segundo lugar, temendo uma escalada do conflito, suspenderam o envio para a Ucrânia de mísseis ofensivos, como o Taurus alemão, e recusaram partilhar os intersectores antimísseis, como os Patriot, optando por reforçar a sua própria defesa. Mas, o terceiro e mais grave fracasso, escreve Matthews, “é a recusa em considerar seriamente o engajamento do Kremlin em negociações de paz, bem como a ideia obstinada de que incentivar a Ucrânia a lutar – e lutar indefinidamente – levará, em razão de alguma fórmula mágica, à vitória.”

 

Em suma, as promessas do início da guerra de fornecer à Ucrânia "o que fosse preciso" e "pelo tempo que fosse necessário", como disse o presidente Biden em junho e novembro de 2022, e reiteradas, em Kiev, quer pelas lideranças europeias quer por todos os primeiros-ministros britânicos desde o tempo de Boris Johnson até ao atual inquilino de Downing Street, Andrew Burnham, acabaram por resultar no pior cenário possível. O Kremlin, “já propenso à paranoia, convenceu-se de que estava em guerra contra o "Ocidente coletivo."

 

Reiterando o que vai sendo do conhecimento geral sobre a situação interna da Ucrânia, Matthews recupera dados avançados por um medium que, na perceção ocidental, está acima de qualquer suspeita:

 

“... uma investigação do New York Times revelou que o sistema de compras militares da Ucrânia tem sido marcado por fraudes graves, desperdício e má gestão durante a guerra. Auditorias sigilosas indicam que, apenas em 2024, cerca de 1,2 mil milhões de dólares (900 milhões de libras) foram perdidos devido a pagamentos excessivos e contratos corruptos.”  

 

Na mesma linha de raciocínio, acrescenta:

 

“Como era de se esperar, pesquisas realizadas pelo SOCIS em agosto mostram que a maioria dos ucranianos considera a corrupção uma ameaça ao Estado mais grave do que a Rússia – e que quase 57% dos ucranianos responsabilizam Zelensky pela prevalência da corrupção, um índice quase duas vezes maior do que o registado em pesquisa semelhante realizada em abril de 2025.”

 

O SOCIS - Centro de Estudos Sociais e de Mercado - com sede em Kiev, o mais antigo e prestigiado centro de sondagens da Ucrânia, não está isolado nos estudos de opinião desfavoráveis a Zelensky. O SOCIOPOLIS – Centro de Tecnologias Sociais, igualmente com sede na capital, num estudo realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026, mostra que na eventualidade de uma segunda volta em eleições presidenciais, o General Valerii Zaluzhnyi, antigo Comandante-em-Chefe das Forças Armadas e atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido, venceria por larga vantagem qualquer outro candidato, incluindo Zelensky. Zaluzhnyi é visto como um homem próximo do MI 6, os serviços secretos britânicos.



SOCIOPOLIS. Estudo de opinião realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026. FOTO: SOCIOPOLIS
SOCIOPOLIS. Estudo de opinião realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026. FOTO: SOCIOPOLIS

 


Sondagem do Kyiv International Institute of Sociology (KIIS) realizada entre 11 e 21 de setembro 2026 pulicada no Kyiv Post. Foto: Kyiv Post
Sondagem do Kyiv International Institute of Sociology (KIIS) realizada entre 11 e 21 de setembro 2026 pulicada no Kyiv Post. Foto: Kyiv Post


Televisão | media na linha da frente | crise do senso comum

 

Creio ser consensual que a opinião maioritária veiculada pelos media ocidentais, por razões de ordem geoestratégica, é alinhada com a NATO, a União Europeia e o regime de Kiev. Pela veemência argumentativa, em grande parte determinada por uma visão pré-concebida do mundo, Portugal ocupa um lugar na linha da frente desse combate simbólico. Nos canais de notícias das televisões sucedem-se os comentadores afinados pelo mesmo diapasão. Há, contudo, à margem do coro, as exceções que, sendo necessárias à legitimação do sistema, evitam a cartilha e procuram fazer uma análise mais abrangente, introduzindo variáveis menos habituais. Se bem que minoritário, esse outro comentário é útil, posto que permite equacionar perspetivas diferenciadas. Afasta-se do dogma que tanto cristaliza o pensamento para alimentar o determinismo moral quanto promove a cegueira das indignações.

 

O comentário reiterativo. Na prática, o comentário dominante é, essencialmente, uma peça do xadrez da guerra comunicacional. Para desviar as atenções do desastre anunciado, dando asas à efabulação, recorre frequentemente à hipérbole. Constrói realidades paralelas reciclando em looping a fórmula do “agressor” e do “agredido”. Exalta, na persona de Zelensky, o combate pela “independência”, “democracia” e “liberdade”, o “modo de vida ocidental”. Nem sequer pode dizer-se que ignora a perceção russa da guerra porque, simplesmente, olha para ela em função de um enviesamento há muito interiorizado. A Rússia é o mal. Ponto. Por via de derivas especulativas e considerações abonatórias envereda, sem travão, por aquilo a que chamo o comentário reiterativo, do qual se espera o efeito de bola de neve, ou seja, o processo dinâmico de fazer crescer a mensagem de forma exponencial convocando a repetição e promovendo a partilha.

 

Ainda assim, sob pena de deixar cair a máscara, não pode ficar totalmente indiferente aos sinais que chegam da Ucrânia. Como procede? Levanta biombos. Valoriza o acessório e desqualifica o essencial. Acantonado na trincheira da “ameaça russa”, coloca, por um lado, o ponto de mira nas dificuldades do inimigo, sejam elas o problema dos combustíveis nas grandes cidades da Federação, o descontentamento “crescente” da população, “a farsa das eleições” ou os bastidores conspirativos do Kremlin, enquanto glosa, por outro lado, em diferentes escalas, a partitura da “extraordinária resiliência do povo”, bem como os feitos no campo militar, sejam os ataques em profundidade com drones no território russo, seja a reconquista de posições no Donbass como sucede, agora, com a Operação Vivaldi. Descodificando, quer isto dizer que se os centros de decisão político-militar da Ucrânia e dos seus aliados avançam com construções mediáticas destinados a reforçar as ilusões necessárias, o comentário televisivo acompanha e inflaciona essas mesmas informações. Trata-se de manter o indispensável exército do senso comum sem o qual é impossível travar com êxito a guerra. Face ao evidente esboroamento da situação, o comentário dominante torna-se proclamatório.

 

Vejamos dois exemplos, muito diferentes, do efeito bola de neve no espaço mediático. O primeiro, respeita a Portugal na linha do que tem sido dito a propósito do comentário televisivo. O segundo, no plano global, tomando como referência os jornais. Ambos resultam daquilo a que se chama agenda-setting, a qual determina os temas da ordem do dia destinados a fazer caminho na formação da opinião pública, seja através das notícias selecionadas seja pela delimitação do espaço do debate. O primeiro obedece a um princípio básico do condicionamento cognitivo segundo o qual, observada a garantia de um casting adequado, uma notícia é tanto mais notícia quanto mais é comentada. O segundo, remete para o chamado efeito de ondulação, o ripple effect, por vezes, também, chamado efeito de contágio. São coisas diferentes, em todo o caso, compreensíveis através de uma analogia que serve a ambos. Quando se observa o impacto de uma pedra num lençol de água surgem pequenas ondas que vão alastrando em círculos concêntricos. Assim sucede, também, com informações plantadas nos media, incluindo as redes sociais.

 

O primeiro exemplo respeita à mencionada Operação Vivaldi. Lançada em setembro de 2026, alegadamente com o objetivo de suster o avanço russo e reconquistar território, designadamente no Donbass, foi pensada para ser o novo mantra televisivo. Quem, como eu, tiver o hábito de frequentar os media ucranianos ficará com a sensação de ter sido preparada uma ação discreta, todavia, desconcertante e, por isso, eficaz. Leiam-se o Kyiv Independent ou o New Voice of Ukraine. Do que lê – e vê em diversos vídeos – resulta que a tropa ucraniana impôs no terreno uma nova forma de guerra. Destruiu a “pinça norte” com a qual a Rússia procurava fechar o cerco às cidades fortaleza de Sloviansk e Kramatorsk, abateu dois mil soldados russos, recuperou 125 km2 de território e fez 250 prisioneiros, uma proeza tanto mais notável quanto é dito que os grupos de combate envolvidos atuam com apenas quatro ou cinco elementos cada um. Outro feito de enorme ressonância – “uma estreia mundial” – foi a introdução de drones pesados que lançaram robôs kamikazes atrás das linhas russas, fazendo prova da superioridade da Ucrânia na guerra tecnológica - este é já o campo da ficção científica do qual o programa dominical “Correspondente de Guerra” do jornalista da CNN Sérgio Furtado se fez eco. No conjunto, assevera-se, até os bloggers russos, habitualmente pró-guerra e pró-Putin, carregaram nas tintas verberando a incompetência das suas forças armadas. Tudo isto foi replicado em crescendo pelos praticantes do comentário reiterativo.  

 

 

Nuno Rogeiro, ao princípio da tarde, domingo, 20 de setembro de 2026, explica na SIC os contornos da Operação Vivaldi sob o comando do Brigadeiro-General Andriy Biletsky. Depois disso, a SIC voltou ao assunto por diversas vezes.
Nuno Rogeiro, ao princípio da tarde, domingo, 20 de setembro de 2026, explica na SIC os contornos da Operação Vivaldi sob o comando do Brigadeiro-General Andriy Biletsky. Depois disso, a SIC voltou ao assunto por diversas vezes.

 

Segunda-feira, 28 de setembro, Germano Almeida, “especialista NOW em Geopolítica”, depois de condenar mais um ataque russo a Kiev, garante ventos de feição para a Operação Vivaldi. O canal tem diversos comentadores residentes a declinar o tema, entre eles o “analista internacional” Ireneu Teixeira, figura de um programa de informação sui generis do panorama audiovisual.
Segunda-feira, 28 de setembro, Germano Almeida, “especialista NOW em Geopolítica”, depois de condenar mais um ataque russo a Kiev, garante ventos de feição para a Operação Vivaldi. O canal tem diversos comentadores residentes a declinar o tema, entre eles o “analista internacional” Ireneu Teixeira, figura de um programa de informação sui generis do panorama audiovisual.

 

Terça-feira, 29 de setembro, o Major-General Isidro de Morais Pereira, outro “especialista NOW em Geopolítica”, comenta lacónica, mas indignadamente, mais um dia de ataques devastadores das forças armadas russas a diversas cidades ucranianas, entre as quais a capital, Kiev. Em contrapartida, responde elaboradamente, com base em “informações ucranianas”, à pergunta: a Operação Vivaldi pode mudar o rumo da guerra? Ouvindo-o, tudo leva a crer que sim.
Terça-feira, 29 de setembro, o Major-General Isidro de Morais Pereira, outro “especialista NOW em Geopolítica”, comenta lacónica, mas indignadamente, mais um dia de ataques devastadores das forças armadas russas a diversas cidades ucranianas, entre as quais a capital, Kiev. Em contrapartida, responde elaboradamente, com base em “informações ucranianas”, à pergunta: a Operação Vivaldi pode mudar o rumo da guerra? Ouvindo-o, tudo leva a crer que sim.
Nuno Rogeiro na SIC, ao princípio da tarde, domingo, 11 de outubro 2026 declara que a Operação Vivaldi, “para surpresa dos próprios ucranianos”, está a ultrapassar todas as expetativas. Segundo ele, “a Ucrânia sob pressão... avança”.
Nuno Rogeiro na SIC, ao princípio da tarde, domingo, 11 de outubro 2026 declara que a Operação Vivaldi, “para surpresa dos próprios ucranianos”, está a ultrapassar todas as expetativas. Segundo ele, “a Ucrânia sob pressão... avança”.


A Operação Vivaldi, como é óbvio, combina o âmbito militar com o domínio da narrativa. Ao observá-la de diferentes ângulos, introduzindo, designadamente, a variável do contexto, a análise do conteúdo manifesto das mensagens que lhe estão associadas deixa perceber que o conteúdo latente remete, essencialmente, para uma ação de propaganda. É disso que se trata. Lançada num momento em que a Ucrânia se encontra numa fase crítica, seja do ponto de vista da defesa, com as cidades devastadas e as populações aterrorizadas, seja por se encontrar numa situação financeira que não lhe permite sequer fazer face às despesas correntes do estado, a Operação Vivaldi foi feita coincidir, não por acaso, com a Assembleia Geral da ONU onde Zelensky discursou a 23 de setembro. Com encontro agendado com Trump, Zelensky utilizou o palco das Nações Unidas para coreografar uma posição negocial reforçada pelos resultados na frente militar, dando a entender estar em condições de recuperar os territórios do Donbass já reconhecidos pela Federação Russa como repúblicas independentes. Simultaneamente, tratou de reclamar novos empréstimos junto dos aliados, posto que, em seu entender, a luta da Ucrânia é a chave da defesa do ocidente. Pelo meio, não deixou de fazer um apelo dramático em nome da paz que só ainda não se concretizou, segundo disse, por causa de Putin.

 

Entretanto, continuou – e continua – a fazer-se o elogio da ação miliar de Andriy Biletsky, ele próprio reiteradamente exibido nas televisões. Ícone nacionalista, aparece confiante, exalando uma bravura serena e fazendo passar a ideia de que a Operação, sendo discreta, é contundente. Longe de observar a distância prudente, o comentário reiterativo tratou de proclamar uma ação militar inovadora, baseada no efeito de surpresa, tecnologicamente inédita, eventualmente, delineada pelo próprio Biletsky, portanto, com marca de autor. Tal como a famosa composição As Quatro Estações do veneziano António Vivaldi, mestre do barroco italiano, também a operação seria desenvolvida em quatro fases distintas consoante a época do ano. Sabendo-se o quanto as políticas culturais identitárias, com pontes reais ou imaginárias para o cosmopolitismo, são uma questão de vida ou de morte para o nacionalismo ucraniano (ver Parte VI destes apontamentos), a designação quadra bem com os requisitos de uma peça de guerra comunicacional sofisticada dirigida, essencialmente, a líderes de opinião. Serão eles os portadores da boa nova procurando contrariar a inflexão negativa das perceções que vai surgindo na batalha pelo senso comum.



Zelensky com militares da Operação Vivaldi algures na periferia de Lyman em 30 de setembro. Foto: AFP
Zelensky com militares da Operação Vivaldi algures na periferia de Lyman em 30 de setembro. Foto: AFP

 

Outro exemplo do efeito de bola de neve, diferente do anterior quer pelo método quer pelo modo de propagação, remete para a edição do NYT de domingo, dia 6 de Setembro de 2026. Nesse dia há um artigo intitulado Putin Denies a Draft is Coming, but Some Russian Men Are Taking no Chances da autoria do correspondente em Moscovo Ivan Nechepurenko, antigo jornalista do Moscow Times, hoje, por sinal, com sede em Amesterdão. O artigo refere dificuldades de recrutamento na Rússia, associadas à oposição à guerra, e sugere a possibilidade de uma mobilização geral. Como se sabe, a norma na Federação Russa é os soldados serem contratados em regime de voluntariado. Sentindo-se ameaçado, Putin, segundo Nechepurenko, estaria a equacionar medidas drásticas, o que, em tese, será uma possibilidade real. Daí o teor da publicação do NYT ainda que, lendo-a, possa parecer algo especulativa. (ver o artigo completo do NYT, aqui).

 

Na verdade, como também será do conhecimento geral, é a Ucrânia, não a Rússia, que tem problemas de recrutamento. Com a população reduzida a pouco mais de metade da de 2022 e mais de oito milhões de pessoas na diáspora, por mais que recorra à busificação, não encontra soluções satisfatórias. Apesar do patriotismo e resiliência apregoados, poucos são os que vindos de fora se apresentam para combater. Acresce que há deserções em números preocupantes e que o recurso a tropa mercenária é cada vez mais frequente. São factos reconhecidos pelas autoridades como, de resto, provam os acordos celebrados com a União Europeia com vista à devolução, em determinadas circunstâncias, de cidadãos ucranianos a viver no exterior para servirem na Guarda Nacional.

 

Portanto, o artigo do NYT prossegue uma linha argumentativa cuja intenção é calibrar as perceções. Ao atribuir a uma das partes aquilo que é, afinal, uma das preocupações mais dramáticas da outra, equilibra os pratos da balança. Dito de outro modo, se a Ucrânia tem problemas, a Rússia também os tem, porventura, até em maior escala. Publicado num jornal de referência, o artigo foi declinado de múltiplas formas. Entrando na agenda, o tema tornou-se obrigatório. Como sempre acontece, as ondas de difusão chegaram longe. Um exemplo entre centenas respeita ao Winnipeg Free Press, quotidiano da cidade de Winnipeg, em Manitoba, Canadá, que na sua edição de 13 de setembro de 2026, deu à estampa um texto de Dasha Litvinova, da Associated Press, intitulado Some Russians are fleeing abroad, citing draft fears and a loss of freedom. O artigo, dando voz a um protagonista, valoriza o chamado fator humano. Foi ilustrado com a foto abaixo. A legenda é a original em inglês.

 


“A 28-year-old digital content marketer who decided to leave Russia stands near his packed belongings at the railway station in Krasnodar, Russia, on Saturday, Aug. 29, 2026. He asked not to be identified because of security concerns.” Foto: AP
“A 28-year-old digital content marketer who decided to leave Russia stands near his packed belongings at the railway station in Krasnodar, Russia, on Saturday, Aug. 29, 2026. He asked not to be identified because of security concerns.” Foto: AP

 

E pur si muove. No processo de comunicação, após fases mais ou menos prolongadas de aceitação de um ponto de vista, inclusivamente, abrindo lugar à crença, há sempre lugar, em maior ou menor grau, para a mudança de opinião. É um processo lento que obedece a razões complexas de vária ordem. São, todavia, razões compagináveis numa equação simples. Reportando à guerra na Ucrânia, ainda que genuinamente indignadas, afetivamente condicionadas ou intelectualmente motivadas, as pessoas entrarão, cedo ou tarde, em rota de colisão com construções mediáticas da realidade que não colam com o que vai ganhando contornos de evidência. Instalada a dúvida, são necessários ajustamentos não só na agenda, compelida a lidar com situações não desejadas, mas também no domínio da narrativa. Não é uma tarefa fácil e, diga-se em abono da verdade, vale para ambos os lados do conflito.

 

Em 2 de junho de 2026, Moscovo lançou sobre a capital ucraniana uma ofensiva aérea de uma escala sem precedentes. Visando, sobretudo, instalações militares, depósitos de armamento, sistemas de defesa aérea e infraestruturas energéticas, o ataque deu lugar a uma destruição massiva e causou um elevado número de baixas civis. Os comentadores reiterativos das televisões reagiram com um coro de indignações, sem perceberem que a guerra tinha entrado numa nova fase. Mais disponíveis e menos entrincheirados teriam levado a sério as declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Com efeito, na sequência do ataque com drones ao Colégio de Starobilsk da Universidade Pedagógica de Luhansk que vitimou 21 jovens com idades compreendidas entre os 14 e 22 anos e fez mais de 60 feridos, Moscovo avisou que o morticínio de 22 de maio 2026, considerado deliberado, teria uma resposta contundente. E teve. Não descurando nem a linha da frente – onde se desenvolve a Operação Vivaldi – nem a defesa do território anexado, apesar das perdas em vidas humanas, enveredou por violentos bombardeamentos a pontos nevrálgicos das principais cidades com a destruição sistemática das infraestruturas necessárias à vida quotidiana.

 


Vítimas do ataque ucraniano ao Colégio de Starobilsk. Este memorial foi amplamente reproduzido na Federação Russa e em países alinhados como provas de um crime de um crime de guerra. Nos países da União Europeia a maior parte das parcas referências sugeriam a possibilidade de uma ação de propaganda russa. Foto: Russian Embassy in India
Vítimas do ataque ucraniano ao Colégio de Starobilsk. Este memorial foi amplamente reproduzido na Federação Russa e em países alinhados como provas de um crime de um crime de guerra. Nos países da União Europeia a maior parte das parcas referências sugeriam a possibilidade de uma ação de propaganda russa. Foto: Russian Embassy in India


Na madrugada de 2 de Junho, durante o bombardeamento de Kiev, milhares de pessoas de Kiev buscaram refúgio nos subterrâneos do metropolitano. Desde então, é uma situação que se repete diariamente. Foto: Reuters
Na madrugada de 2 de Junho, durante o bombardeamento de Kiev, milhares de pessoas de Kiev buscaram refúgio nos subterrâneos do metropolitano. Desde então, é uma situação que se repete diariamente. Foto: Reuters

 

É este o cenário atual, aliás, antecipado por Owen Matthews, que potencia a mudança de opinião. Não porque se mude de lado, mas porque se começam a perceber contornos mais realistas da situação. Os termos de um acordo de paz inclinam-se cada vez mais para as condições que a Federação Russa quiser impor. Como escreveu o escritor e jornalista britânico, cada nova proposta tem sido pior para Kiev do que a anterior. É isso a que temos assistido. A intenção de Putin parece clara, desferir um golpe final brutal contra as cidades ucranianas antes de encerrar a guerra nos seus próprios termos. Planeada para ser o leitmotiv do comentário durante quatro estações, dificilmente a Operação Vivaldi, dadas as novas características da guerra, voltará a ter a centralidade comunicacional pretendida. Para agravar a situação, Trump veio dizer sem meias palavras que Zelensky deve ser substituído. De imediato, responsáveis da NATO apareceram “de surpresa” em Kiev. Para quê?     

 

Colocam-se numerosas outras interrogações. Estou em crer que o comentário televisivo dominante, reiterativo, irá resvalar para uma nova fase de radicalização proclamatória. Como sempre, fará por desviar as atenções das dificuldades e alimentar fantasias do tipo “até ao último ucraniano”. Poderá alterar o modo de dizer, mas observando o ponto de vista estratégico da ordem velha. Poderá recorrer ao casting de novos intérpretes, porventura mais jovens, mas nem por isso criará a ilusão de novas dinâmicas. A história será a mesma de sempre. Como dizia o sobrinho do Príncipe de Salina em Il Gattopardo de Tomasi di Lampedusa, Tancredi Falconeri: "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi." A tragédia segue dentro de momentos. O senso comum, não sabemos. E pur si muove.

 


Kiev, 6 de Julho 2026. Foto: Canberra Times.
Kiev, 6 de Julho 2026. Foto: Canberra Times.

 

 

CONTINUA

 

 

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