CULTURA

  • Jorge Campos

Apogeu e queda da América com Trump em pano de fundo



Elvis Presley morreu em 16 de agosto de 1977. Continua a ser o maior ícone da cultura popular americana e um negócio altamente lucrativo. Acabam de sair em embalagem de luxo, por exemplo, as gravações de Elvis em Nashville. Baz Luhrmann, o cineasta australiano de Moulin Rouge, The Great Gatsby e outros blockbusters, ultima o seu Elvis com um dos jovens atores revelado por Tarantino, Austin Butler, no papel principal e Tom Hanks no do coronel Tom Parker, o famigerado agente acusado de ter metido Elvis numa gaiola, nunca mais lhe permitindo voar. Na HBO está disponível The Searcher, um documentário de 2018 com mais de três horas que procura resgatar o legado musical de Presley e refutar a vulgata tablóide criada à volta da sua vida. Da autoria de Thom Zimny, cineasta que trabalha com Bruce Springsteen, The Searcher tem a colaboração de Tom Petty na banda sonora, insiste na influência da música negra, recolhe imagens de arquivo inéditas e conta com a participação de celebridades como o próprio Springsteen. Sendo bem feito, não se afasta da mitologia instalada. O mesmo não sucede com The King, um documentário também de 2018 da autoria de Eugene Jarecki, um dos mais conceituados e controversos cineastas americanos da atualidade. Agora acessível na Netflix, é dele que quero falar.


Não é o tipo de filme do agrado dos chamados die hard fans. Esses vão detestá-lo. Até porque rejeita a narrativa repetida até à exaustão durante décadas, cujo guião é mais ou menos como segue. Elvis, o furacão nascido em Tupelo, Mississippi, é catapultado para a fama a partir do estúdio de Sam Philips, Sun Records, em Memphis, Tennessee. Na ressaca do macarthismo, escandaliza a América conservadora com a versão branca de música negra a que se chamou Rock’n Roll. Em 1958, embarca rumo a Bad Nauheim, na Alemanha, onde presta serviço militar. O rebelde de Memphis regressa dois anos mais tarde enfiado num uniforme militar, faz um concerto patriótico em Pearl Harbour, aparece de smoking no show de Frank Sinatra e vai hibernar para Hollywood onde faz filmes muito bem pagos, na sua maioria imprestáveis. Em 1968, no ocaso dos Beatles, acontece a ressurreição. Um Especial da NBC, trá-lo de volta na companhia da sua primeira banda. De couro negro colado ao corpo, ataca o Rock’n Roll pletórico de energia. O 68 Comeback Special faz a maior audiência da história da televisão. Elvis regressa aos concertos, grava dois álbuns excelentes nos estúdios da Stax e segue para a perdição de Las Vegas, última escala de uma viagem assombrada por fantasmas, sexo e drogas, prescritas ou não, porventura, o culminar da viagem do herói, certamente a tragédia indispensável à consumação do mito.



Tudo isto em The King é virado do avesso, escrutinado, eventualmente posto de pernas para o ar, uma vez que Jarecki nunca perde de vista o contexto. Sendo um crítico radical do establishment o resultado só poderia ser algo de muito diferente do habitual, embora, adianto, nem sempre inteiramente convincente, Discípulo do lendário Melvin Van Peebles, o pioneiro dos filmes de ação afro-americanos popularizados como blaxploitation, Jarecki é autor de filmes como Why We Fight (2005) e The House I Live In (2012), ambos premiados pelo Grand Jury do Festival de Sundance. Em Why We Fight - título tomado de empréstimo dos famosos documentários de propaganda anti-nazi da II Guerra Mundial de Frank Capra - desmonta as intervenções armadas dos Estados Unidos em vários pontos do globo, enquanto expõe quer o complexo militar-industrial quer os meandros do lucrativo negócio de armas a ele associado. Em The House I Live In analisa a mais longa de todas as guerras da América, a guerra contra as drogas, a qual fez da população prisional do país a maior do mundo. Tão pouco neste domínio vislumbrou soluções, até porque, infere-se, apesar da identificação do terrível drama social e humano, não é fácil resolver problemas onde abundam oportunidades de negócios. Ativista de organizações cívicas com presença regular nos mais importantes media nacionais, Jarecki, em suma, faz filmes sobre a América, procurando descodificá-la. É essa a sua motivação. The King não foge à regra.


Há muito Jarecki pensava fazer algo de sério sobre Elvis. Terá começado a trabalhar no projeto ainda antes da eleição de Trump, criando uma equipa de consultores da qual se destaca um dos mais conhecidos especialistas de Jazz e da música popular, Peter Guralnick, autor de duas obras fundamentais, The Last Train to Memphis e Careless Love. Seguindo meticulosamente os passos do ídolo e ouvindo inúmeras pessoas cujos percursos, por qualquer razão, com o dele se cruzaram, Guralnick acaba por fazer um retrato que, transcendendo a figura, mergulha no imaginário da cultura popular. Seria esse o ponto de partida de Jarecki. Com Trump na presidência, o enfoque sobre o que seria a crítica do American Dream, não deixando de o ser, infletiu para a abordagem do mito enquanto expressão e garante de um capitalismo feroz, devorador de corpos e almas, que tem na hegemonia cultural associada ao entertainment uma das ferramentas ideológicas mais eficazes da dominação global. Assim, a vertigem da ascensão, apogeu e queda do Rei é a metáfora da vertigem, apogeu e queda de uma América subitamente mergulhada na insanidade da mentira, dos factos alternativos e da pós-verdade. A América radicalizada de Trump é, na verdade, o pano de fundo do documentário.


O filme começa com o Rolls-Royce de Elvis na estrada. É um esplendoroso modelo de 1963 adquirido e restaurado para o filme. É também um símbolo da realeza. O automóvel viaja pela América, atravessa a mítica Route 66, costa a costa, circula nas grandes cidades como New York, Chicago, L.A. e Memphis. No luxuoso interior transporta os diversos protagonistas que são músicos, atores, brancos e negros, celebridades, amigos e conhecidos de Elvis, ativistas de black lives matters, gente comum, velhos e novos, todos eles com alguma coisa a dizer, ora bem ora mal, constituindo um mosaico complexo e multicolor de olhar e sentir que excede a singularidade do totem em torno do qual se organiza a narrativa para se inscrever no horizonte mais vasto do American Way of Life. Para Van Jones, antigo conselheiro de Barak Obama e atual comentador residente da CNN, Elvis usurpou a música negra e, ao contrário de outros artistas, jamais tomou posição, por exemplo, a propósito da guerra do Vietname, do movimento cívico ou de qualquer outra causa. Chuck D., sarcástico, diz: Elvis doesn´t mean a shit. Alec Baldwin, cujas imitações de Trump lhe valeram ainda maior notoriedade, vê Elvis, ambiguamente, como um colosso americano. Ethan Hawke, embora alinhando pelo mesmo diapasão, aponta à destruição do homem e do artista operada pelas engrenagens do show biz. Segundo Emmylou Harris, Elvis era um ser infeliz e solitário, bem poderia ter saído de uma tragédia grega. Alguém diz a frase chave: Elvis foi para a Alemanha como James Dean, voltou como John Wayne.


James Dean transporta consigo a aura de Rebel Without A Cause de Nicholas Ray. John Wayne é o símbolo do ultra-conservadorismo plasmado em Green Berets, um filme lamentável sobre a Guerra do Vietname. Um e outro são a cara e a coroa do road movie que é The King. E a viagem do Rolls-Royce prossegue na vastidão das estradas da América. Quando supostamente avaria, - tem o mesmo percalço duas vezes - sabemos tratar-se de um plot point necessário à inflexão da narrativa. Quando estaciona nas grandes cidades e se transforma em polo de atração, sabemos que Trump vai aparecer nos ecrãs da televisão de onde quer que o cineasta vá ao encontro das pessoas com quem quer falar. No mítico estúdio B da RCA, em Nashville, onde Elvis gravou a maioria dos seus grandes sucessos, emerge a lógica da esterilização do som, tecnicamente perfeito, mas destinado a polir qualquer vestígio de irreverência. E assim por diante até à fase da auto-destruição em Las Vegas, onde predomina a lógica do negócio de um jogo que encara os seres humanas como mercadoria, e ao terrível episódio do Especial da CBS, em 1977, onde, a troco de dinheiro, o coronel Tom Parker vendeu uma caricatura de Elvis anunciadora da morte, afinal, como pretende Jarecki, a morte de uma certa América. O fim de America, the Beautiful. Ao volante de um Rolls-Royce.




Vejam que vale a pena. Todavia, em minha opinião, sendo um bom documentário, The King não é um documentário exemplar. A ousadia das opções de Jarecki tê-lo-á levado a deixar algumas páginas em branco. Como costuma dizer-se, quando a ambição é grande corre-se o risco de dar passos maiores do que as pernas. Neste caso, talvez nem sempre o filme seja inteiramente convincente. Quanto ao mais, excelente edição, ritmo contagiante, imagens espetaculares, ótima banda sonora. E, já agora, uma pergunta que contém em si mesma um paradoxo: até que ponto esta desconstrução do mito não contribui para lhe conferir renovada vitalidade?


20/11/2020



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