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O nacionalismo é uma questão de vida ou de morte para o regime de Kiev. Na sequência da lei da descomunização aprovado pela Rada em 9 de abril de 2015, a seguir à chamada Revolução da Dignidade, a Ucrânia iniciou um conjunto de práticas com vista a eliminar os sinais da cultura russa. Proibiu ou limitou o uso da língua e demoliu ou alterou o significado de milhares de monumentos históricos. Milícias e grupos de extrema-direita envolveram-se em perseguições que culminaram, frequentemente, em episódios sangrentos. O massacre de Odessa foi um deles. Com o apoio da Federação Russa, os movimentos separatistas ganharam força. Surgiram as repúblicas autónomas no Donbass. A partir de 2022, a questão da identidade tornou-se o epicentro da batalha ideológica. Exaltando o heroísmo e o passado mítico através da lente de um revisionismo histórico sem precedentes, a chamada Revolução Cultural pós-Maidan, quando não destruiu, tratou de proceder à apropriação conveniente da cultura russa ou soviética. Começou uma corrida contra o tempo.

 

Em apontamentos anteriores, cujo ponto de partida foi a obra de historiadores nacionalistas ucranianos – A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História (2023) de Serhii Plokhi; Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber (2020) de Serhy Yekelchyk; Passar das Marcas (2022) de Owen Matthews –, há ampla informação adicional sobre a questão cultural, as mais das vezes de origem oficial ou oficiosa. (Ver aqui)

 

Acrescentaria o seguinte. Entre 2024 e 2026 o governo de Kiev introduziu medidas drásticas visando a “desrussificação” ou “descolonização” do imaginário coletivo. Foi dada prioridade à Educação como arma contra a ocupação ideológica. Em setembro de 2025, a língua e literatura russas ou foram liminarmente banidas das escolas ou reduzidas a atividades extracurriculares residuais. Falar ucraniano nos estabelecimentos de ensino passou a ser não só obrigatório, mas também um sinal de lealdade cívica e patriótica. Hoje, as autoridades sustentam que 48 por cento da população escolar já se exprime exclusivamente em ucraniano, apesar da resistência em alguns lugares, entre os quais, Kiev. Dos novos manuais escolares foram eliminadas as referências à ideia de fraternidade entre os povos do período anterior e, em seu lugar, surgiu a glorificação dos heróis da resistência à ocupação soviética. O treino militar para crianças, à semelhança do que, de resto, também existe em escolas da Federação Russa, passou a fazer parte dos planos curriculares. Todavia, esta prática, nem sempre divulgada, é anterior à invasão de 2022. Do lado ucraniano, ficaram célebres os campos de férias do Batalhão Azov. Do lado russo, no seguimento das perseguições étnicas pós-Maidan, os separatistas do Donbass deram início a algo de semelhante. Uma peça de 2017 da insuspeita Radio Free Europe - Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, é reveladora. A primeira parte é sobre a participação de crianças em campos de Verão do Batalhão Azov. A segundo, a servir de contraponto, é sobre treino militar dado a crianças russas. Se fosse feita hoje seria, por certo, bastante diferente. (Ver, aqui)

 

Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  
Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  

 

 

A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 
A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 

 

Dito isto, vejamos como o nacionalismo ocupa um lugar central nas políticas culturais da Ucrânia, com destaque, mais à frente, para as questões relativas à apropriação de autores e obras russas que passaram a ser considerados como património ucraniano. Começamos por recuperar Marina Pesanti (Ver, aqui), a especialista em diplomacia cultural citada nos apontamentos anteriores:

 

In response to Russia’s military interventions in 2014, Uktraine’s cultural and creative sectors promoted national unity and sought to counteract the divise effects of Russian cultural influence in the country. Legislative reforms and policy initiatives included the establishment of state agencies such as the Ukrainian Cultural Foundation, The Ukrainian Institute and the Ukrainian Book Institute, as well as the restructuring of pre-existing innstitutions such as the Ukranian State Film Agency. These four bodies, in particular, became key providers of the cultural sector.”

 

 

6. Um novo imaginário coletivo: Heroísmo e Luta de Libertação 

 

Ponto prévio: em termos formais, o modelo cultural ucraniano identifica-se com o que existe, grosso modo, na União Europeia. Nesse aspeto, o texto de Marina Pesanti, até por ser de carácter institucional, é muito claro. Desde logo, para além das questões ideológicas, releva-se a dimensão económica. Em 2014, diz Pesanti, a Cultura terá sido responsável por quatro por cento do PIB ucraniano, bem como pela criação de 3,2 por cento dos empregos em setores como o cinema, radiodifusão, tecnologias da informação e comunicação, moda, design, fotografia, publicidade e relações públicas. A partir desse ano, sobretudo com o apoio de programas e especialistas europeus, surgiram empresários que desenvolvem parcerias com o intuito de fomentar as indústrias criativas. Em 2018, foi promulgada a Lei para a Cultura vista como uma atividade económica capaz de gerar valor acrescentado através da expressão artística. Assim, segundo Pesanti:


“The concept of a ‘national cultural product’, defined as the totality of ‘goods and services’ produced ‘to cater to citizens’ cultural needs’, has gained traction in the national cultural policy discourse. This has been accompanied by growing consumption of Ukraine-made clothes, furniture, souvenirs, books and films, as well as by increased popular attendance at cultural events.”


Lviv, na região da Galicia, a mais nacionalista das grandes cidades ucranianas, foi o laboratório natural para implementar experiências que pudessem ser replicadas noutros locais. Com passado de colaboração nazi, bem como de feroz resistência anti-soviética, Lviv tem uma intensa vida cultural ligada aos valores mais tradicionais. Em 2020, as autoridades da cidade criaram um programa que arrancou com 20 projetos em áreas cobrindo tópicos diversificados. Entre eles, a Educação, a Memória e a História Urbana:


“The city (...) established the Lviv City Culture Fund, a vehicle to support culture projects via funding from a variety of sources, including municipal budgets and local business as well national bodies such as the UCF. This initiative set a precedent for other Ukrainian cities, including Kyiv. (O artigo de Marina Pesenti está reproduzido na íntegra, aqui)


Os programas de Lviv pretendem fomentar o imaginário coletivo do qual deverá sair reforçada a identidade cultural. Todavia, por razões históricas, é justamente nesse âmbito que se inscrevem as contradições mais profundas, porventura, insanáveis, com a Federação Russa. Onde a Ucrânia fala de resistência ao comunismo, o Kremlin contrapõe a colaboração dos nacionalistas ucranianos com o nazismo. Daí o objetivo da “desnazificação”. A palavra não é uma invenção recente. Foi largamente utilizada no pós-guerra significando o esforço coordenado dos Aliados para purgar a ideologia nazi da vida pública, prioritariamente na Alemanha e na Áustria. No contexto atual, se para o regime de Kiev a resiliência anticomunista é uma prática de libertação nacional, para Moscovo o que está em causa são as raízes envenenadas sobreviventes ao efeito purificador da guerra da Mãe Pátria.

 

Um número significativo de nacionalistas, com efeito, não só apoiou a tropa hitleriana, como se distinguiu por excesso de zelo na perseguição a soviéticos, judeus e ciganos. Durante a II Guerra Mundial, criminosos de guerra como Stepan Bandera e Roman Shukhevych, hoje, celebrados como heróis nacionais, eram figuras de Lviv. Por essa razão, em datas simbólicas, os russos atacam os monumentos erguidos em sua memória. Foi o que aconteceu com uma ofensiva de drones em 1 de Janeiro de 2024, dia do aniversário de Bandera. Não houve vítimas a lamentar e a estátua de Tarás Shevchenko (1814-1861), o bardo da Ucrânia, foi poupada. Os meios de comunicação ocidentais fizeram referência ao ataque, mas sem especificar a natureza dos alvos. Para Kiev tratou-se de um ato de “terrorismo cultural” contra símbolos como o Memorial e Museu de Roman Shukhevych, no bairro de Bilohorshcha, e a Universidade Nacional Agrária de Dubliany, onde estudou Bandera. O Euromaidan Press de 1 de janeiro de 2024, considerou ter sido um ultraje à memória dos “combatentes da liberdade”. Ver a notícia completa, aqui.


 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine
 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine

A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.
A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.

 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine
 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine

 

A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 
A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 

 

Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine
Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine

 

O monumento do poeta Tarás Shevchenko (imagem acima) é exemplar no que respeita à restauração do passado mítico. Na estela, conhecida por Onda do Renascimento Nacional, a onda representa o ressurgimento imparável do espírito nacional. Os baixos-relevos remetem para a era histórica de Kiev, bem como para a tradição guerreira dos cossacos. Legitimam o heroísmo do qual os atuais combatentes são depositários na defesa do povo, cujo sofrimento, por outro lado, é um dos temas centrais da poesia de Shevchenko. No topo da estela está representado o futuro. A Ucrânia libertada, moderna e soberana.

 

Como facilmente se constata, a par da destruição de milhares de monumentos soviéticos, caso da Leninopad (ver a Parte IV destes apontamentos), ou da alteração simbólica que deles se fez por forma a atribuir-lhes um sentido oposto ao original, caso da estátua da Mãe Pátria, em Kiev, comemorativa da vitória sobre o nazi-fascismo e transformada em símbolo da luta contra o comunismo (ver a Parte II dos apontamentos), as políticas culturais de Kiev fazem do mito um elemento da afirmação identitária. Mas há outros elementos, igualmente arrojados. Desde logo, nem tudo herdado do tempo soviético é necessariamente mau. Pelo contrário, após ponderada avaliação, considera-se até que deve ocupar um lugar de destaque na nova cultura ucraniana. Foi assim que diversos artistas da URSS – e respetivas obras –, uma vez filtrados através da lente nacionalista, passaram a integrar o panteão dos notáveis.

 

Avant-Garde. O caso das vanguardas artísticas dos anos 20 do século passado é paradigmático. Bohdan Ben, que se apresenta como cientista político e investigador étnico, revelou num artigo publicado a 8 de maio de 2019, em Euromaidan Press, novos dados sobre a importância da Ucrânia para a arte de vanguarda. O título do artigo é Recovering the forgotten names of the Ukrainian avant-garde. No corpo do texto pode ler-se:

 

“Against the backdrop of new discoveries, the avant-garde movement in art emerged, with Futurism and Constructivism as the most radical. Artists everywhere expressed the desire for a complete break with the past and the creation of a "new man." The avant-garde on the territory of the Russian Empire and the early Soviet Union is often affiliated either with communist ideology or with Russian nationality. However, the reality is different. Ukrainians and their ethnic culture influenced this exciting new genre of art immensely – yet are still overlooked.” (Ler o artigo completo de Bohdan Ben, aqui)

 

Fazendo fé no autor, os artistas ucranianos influenciaram enormemente novas formas de arte a partir do momento em que introduziram elementos da cultura popular do campesinato nas suas obras. Entre esses elementos destacam-se as pinturas decorativas, os famosos ovos pintados à mão, os bordados, a cerâmica, o artesanato têxtil e os trabalhos em madeira. Serão estes alguns dos principais traços identitários em função dos quais se opera a metamorfose quer da cultura russa em avant-garde ucraniana, quer de artistas soviéticos em artistas ucranianos. Há, naturalmente, outros fatores, de importância varável, que vão do uso da língua até ao facto de se ter nascido, vivido ou trabalhado em território da atual Ucrânia, teses com a chancela de diversos grupos especializados.

 

David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press
David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press

 

É o caso da PEN Ukraine, um ramo da PEN International, associação de escritores fundada em Londres em 1921, hoje com mais de centena e meia de centros autónomos em todo o mundo. A PEN Ukraine elaborou uma lista de 40 artistas que, de acordo com o parecer dos seus membros, devem ser considerados representantes da arte e cultura ucranianas. Entre outros, constam da lista o escritor Nikolai Gogol, os cineastas Sergei Paradzanov, Aleksandr Dovjenko e Dziga Vertov, bem como o pai do suprematismo russso, Kazimir Malevich. Em relação a alguns dos nomes estabelece-se um vínculo de pertença com base em perseguições sofridas durante o período soviético, como sucedeu com Malevich.

 

Nascido em Kiev de uma família polaco-ucraniana, Malevich é mencionado pela curadora e diretora do Instituto Malevich de Kiev, Tetyana Filevska, como tendo sido profundamente influenciado pela arte popular, designadamente pelas composições geométricas que se encontram em manifestações artísticas no mundo rural. Filevska admite só tardiamente se ter apercebido da situação, uma vez que, segundo ela: “Russia as an empire regularly rewrote history, destroyed people’s lives and appropriated the names of hundreds of artists.” Assim, aos ucranianos modernos, como ela, não restou alternativa: “(...) it is our duty to investigate and learn the lessons of their experience.” A prioridade é, portanto, “descolonizar a História da Arte” e “redefinir a identidade de Malevich”. A operação resultou em pleno. Levada a cabo com o apoio dos Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, teve repercussão internacional. De tal modo que museus como o Stedelijk Museum, em Amesterdão, o Metropolitan Museum of Art e o MoMA, ambos em Nova Iorque, deram acolhimento à reclassificação de obras e artistas. (Ver, aqui e aqui)

 

Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.
Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.

 

Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.

 

 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA
 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA

 

 

O espírito da PEN Ukraine é o da maioria dos historiadores ucranianos, segundo os quais, a História, até agora vista pelo prisma dos russos, tem sido manipulada. Impõe-se, por isso, atualizá-la, conferindo-lhe rigor e sentido prospetivo. Contudo, essa atualização, devido aos constrangimentos da guerra, exige ajustamentos consoante as orientações do momento. Na sua página oficial, o grupo informa que, a partir da invasão russa de 2022, foram estipulados novos objetivos, a saber: informar o público internacional sobre a guerra da Rússia movida contra a Ucrânia; documentar os crimes da Rússia contra os media e a cultura ucranianos; preservar a memória dos jornalistas e ativistas culturais caídos em combate; documentar as experiências do povo da Ucrânia em tempo de guerra; restaurar a vida cultural na Ucrânia; apoiar as livrarias ucranianas vandalizadas pelos russos. (Ver, aqui)

 

Grosso modo, são os enunciados extensivos a todos os organismos da vida cultural ucraniana. Devem observar quer o modelo de criação do “novo imaginário coletivo”, quer a identidade do “nacionalismo moderado” tal como o regime de Kiev a entende. Não será uma equação fácil. Nem em tempo de guerra, nem em tempo de paz, qualquer que ele venha a ser. E por uma simples razão. As mais das vezes, as premissas das quais se parte são problemáticas.  Em consequência, a maioria das conclusões é afetada pela debilidade da sustentação. Na lista elaborada pelos 170 elementos da PEN Ukraine – ativistas de direitos humanos, tradutores, jornalistas, académicos, gestores culturais, dramaturgos e argumentistas – há casos incompreensíveis. Um deles é o do cineasta Dziga Vertov:



“Dziga Vertov (born David Kaufman in 1896), was a brilliant avant-garde cinema director, and was considered a key film theorist of the documentary genre. Born in Białystok, Vertov worked in different parts of the Soviet Union, but it was in Ukraine where he filmed his masterpiece, Man With a Movie Camera (1929). The film was named Best Documentary of all time by the British Film Institute for its exploration of a day in the life of a major European city. Enthusiasm: The Symphony of Donbas (1930), also filmed in Ukraine, is a more brutal examination, and incorporates an experimental soundtrack of industrial sounds known as "concrete music". (Artigo completo, aqui)

 

Vertov foi um dos maiores e mais empenhados cineastas soviéticos das vanguardas contemporâneas da Revolução de Outubro. Inclusivamente, dedicou um filme ao líder bolchevique, o famoso Três Cânticos para Lenine (1934). É certo que, sendo um artista experimental, sofreu com o realismo socialista, a política cultural do período estalinista. Não se lhe conhece, porém, nenhuma inclinação anticomunista e, muito menos, nacionalista. O Homem da Câmara de Filmar é seguramente o pináculo cinematográfico de uma revolução artística, mas, como veremos no próximo episódio destes apontamentos, nada tem a ver com a Ucrânia de hoje, salvo a circunstância de ter sido parcialmente realizado no seu território atual. O mesmo sucede com Entusiamo: A Sinfonia do Donbass, elegia da industrialização de uma região integrada por Lenine na República Socialista Soviética da Ucrânia no quadro das políticas bolcheviques para as regiões. O filme, com a sua excecional banda som, é, na verdade, uma celebração comunista em tudo contrária à “descomunização” da atualidade.

 

Em suma, o processo de construção da identidade ucraniana no domínio das artes, e não só no cinema, ou parece ser excesso de zelo nacionalista – o que acaba por dar razão a quem considera a Ucrânia uma etnocracia - ou é, simplesmente, passar das marcas, para utilizar a expressão do reiteradamente citado Owen Matthews. Ou ambas as coisas explicadas, porventura, com a corrida contra o tempo inerente à urgência de uma legitimação identitária, de facto, extremamente problemática. Assim é a Revolução Cultural Pós-Maidan. É o que veremos de seguida a partir de Dziga Vertov (Ver mais informação sobre Vertov, aqui)


 

Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.
Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.

 

 

Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z
Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z



Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

Este texto aborda um outro tipo de guerra, a guerra cultural. O início, porém, remete para a política. Política e guerra cultural são, na verdade, indissociáveis. Vejamos. Por alegada ameaça à soberania nacional, em março de 2022, o Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia suspendeu a atividade de 11 partidos políticos. O mais importante era a Plataforma - Pela Vida, anti-NATO e eurocético. O seu património seria confiscado e passaria para as mãos do estado. Sorte idêntica tiveram os demais partidos suspensos, fossem eles de maior ou menor expressão. Entre os primeiros estavam o Bloco de Oposição, o Partido de Shariy e o Nashi (Os Nossos). Entre os segundos, igualmente proibidos, contavam-se o Partido Socialista da Ucrânia, o Bloco de Esquerda, a União de Forças de Esquerda, o Estado, o Partido Progressista Socialista da Ucrânia, Os Socialistas e o Bloco de Volodymyr Saldo. Segundo as autoridades ucranianas, estas formações tinham um denominador comum: eram pró-russas. Logo, antipatrióticas.

 

A lista tem antecedentes. A Ucrânia aprovou legislação na Verkhovna Rada, em 2015, banindo quer os símbolos comunistas, como a foice e o martelo, quer os símbolos nazis, como a suástica e a iconografia das Wafen SS e da Wehrmatch, comuns a vários grupos e milícias armadas, entre os quais o famoso Batalhão Azov. Na sequência da aprovação da Lei da Descomunização foram proibidos o Partido Comunista da Ucrânia (KPU), o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses Ucranianos e o Partido Comunista da Ucrânia Reconstruído. As restrições impostas à extrema-direita nunca saíram do papel, salvo numa ou outra operação cosmética do agrado da União Europeia.


A proibição de “partidos políticos pró-russos” é do âmbito de um processo mais vasto ao qual, habitualmente, se chama “ucranização”, uma tentativa de criar um “novo imaginário coletivo” consonante com a identidade necessária à ideia de Nação. Os “nacionalistas moderados” de Kiev, bem como os seus historiadores de maior notoriedade, não gostam da palavra. A razão é simples. Está associada à onda de violência da extrema-direita contra os russos étnicos, sobretudo, a partir da Euromaidan 2014, à qual se costuma chamar a Revolução da Dignidade. Foi ela, em larga medida, que levou aos movimentos autonomistas no Donbass e, posteriormente, à “operação militar especial de Putin”. A anexação da Crimeia foi justificada por motivos semelhantes, ou seja, o artigo 61º da Constituição da Federação Russa que garante aos seus cidadãos defesa e proteção fora das suas fronteiras. Há, naturalmente, um elemento adicional, que será abordado em novos apontamentos, e que é a ameaça existencial representada pela NATO.


Levada ao extremo, para já, dir-se-á que a conflitualidade étnico-linguística tem levado a Ucrânia a trilhar os caminhos da etnocracia. Abriu a frente de uma guerra cultural sem quartel vista por Kiev como um elemento primordial da sua identidade nacional.



Odessa, Março de 2022. Apesar de ter sido fundada oficialmente por Catarina, a Grande, em 1794, os ucranianos atribuem a paternidade da cidade ao Duque de Richelieu devido ao papel visionário que teve no seu desenvolvimento. O monumento protegido é de homenagem ao Duque. A Ucrânia acusa a Rússia de destruir os seus símbolos como forma de negação da sua identidade. Imagem: NBC News
Odessa, Março de 2022. Apesar de ter sido fundada oficialmente por Catarina, a Grande, em 1794, os ucranianos atribuem a paternidade da cidade ao Duque de Richelieu devido ao papel visionário que teve no seu desenvolvimento. O monumento protegido é de homenagem ao Duque. A Ucrânia acusa a Rússia de destruir os seus símbolos como forma de negação da sua identidade. Imagem: NBC News

 A demonização de Putin é um elemento central da propaganda de Kiev. O líder russo, muitas vezes associado a Estaline, é representado como uma ameaça para a Ucrânia. Abundam as caricaturas, montagens fotográficas e imagens de Putin produzidas por IA. Imagem: Ukraїner 
A demonização de Putin é um elemento central da propaganda de Kiev. O líder russo, muitas vezes associado a Estaline, é representado como uma ameaça para a Ucrânia. Abundam as caricaturas, montagens fotográficas e imagens de Putin produzidas por IA. Imagem: Ukraїner 


Retrospetiva. Num importante livro de iniciação à geopolítica moderna, intitulado Prisioneiros da Geografia, o historiador e geógrafo Tim Marshal recorda que após a Revolução da Dignidade, em Maidan, 2014, “os tumultos rebentaram nas ruas de Kiev e as manifestações cresceram em todo o país” (p. 41), o que levaria à fuga do presidente Yanukovych. Marshall, acrescenta:


“Radiante com a vitória, o novo governo interino da Ucrânia fez, de imediato, algumas afirmações insensatas, uma das quais foi a intenção de abolir o russo como segunda língua oficial em várias regiões. Como essas regiões eram as que tinham mais falantes da língua russa e partidários pró-russos, e incluíam a Crimeia, era inevitável que esta atitude desencadeasse uma reação adversa,” (p. 41)

Isso mesmo é confirmado em Passar das Marcas de Owen Matthews, livro cuja recensão temos vindo a fazer. Segundo ele, a queda de Yanukovych deixou as populações russas iradas. Surgiram revoltas e levantamentos populares. Multidões saíram à rua em Lugansk, Kharkov, Odessa e Dnipropetrovsk ostentando cartazes onde se lia “Berkut-Sim!” (Berkut é a águia-dourada russa) e “Não ao fascismo!” Na Universidade de Donetsk proclamava-se: “Vocês tiveram a vossa Maidan em Quiive, esta é a nossa” (p. 125). No início de abril de 2014, “era claro que a autodeterminação local – se não o próprio separatismo e a guerra – tinha um forte apoio na Ucrânia Oriental e meridional” (p. 125). A seguir, Matthews dá exemplos de episódios envolvendo o crescente movimento independentista, cujos líderes são comparados, em testemunhos recolhidos no Donbass, a “bandidos” à frente de soldados do exército russo infiltrados. O mais conhecido, envergando sempre um uniforme impecável, era Igor Girkin, também conhecido por Igor Strelkov, “que se apresentava como um oficial czarista pré-revolucionário” (p. 127).


Girkin “baniu os palavrões da sua autointitulada ‘força de defesa local’ de mil homens e mandou executar dois dos seus próprios homens por terem feito pilhagens” (p. 127). Designou-se a si mesmo Ministro da Defesa da República Popular de Donetsk enquanto, de um lado e do outro, no Donbass,


“uma série de escaramuças militares inconclusivas entre rebeldes e as milícias ucranianas autónomas tornou cada vez mais óbvio que as áreas separatistas de Donestsque e Lugansque só seriam reconduzidas ao domínio de Quíive com uma intervenção militar integral” (p. 127).


 Igor Girkin esteve envolvido no abate do voo MH17 da Malaysia Airlines em 2014, que matou 298 pessoas. Ultranacionalista, considera Putin um líder fraco e incompetente. Foi detido pelas autoridades russas em julho de 2023 após intensificar as críticas nas redes sociais à liderança do país. Em janeiro de 2024, um tribunal de Moscovo condenou-o a quatro anos de prisão sob a acusação de "incitamento ao extremismo" através da internet. A Ucrânia ofereceu uma recompensa de 100 mil dólares pela sua entrega, vivo ou morto. Na foto, Girkin com a sua terceira mulher, Miroslava Reginskaya, que é membro do movimento social Novorossiya e muito ativa na defesa do marido. Imagem: Euromaidan
 Igor Girkin esteve envolvido no abate do voo MH17 da Malaysia Airlines em 2014, que matou 298 pessoas. Ultranacionalista, considera Putin um líder fraco e incompetente. Foi detido pelas autoridades russas em julho de 2023 após intensificar as críticas nas redes sociais à liderança do país. Em janeiro de 2024, um tribunal de Moscovo condenou-o a quatro anos de prisão sob a acusação de "incitamento ao extremismo" através da internet. A Ucrânia ofereceu uma recompensa de 100 mil dólares pela sua entrega, vivo ou morto. Na foto, Girkin com a sua terceira mulher, Miroslava Reginskaya, que é membro do movimento social Novorossiya e muito ativa na defesa do marido. Imagem: Euromaidan


Entre as “escaramuças” Matthews faz referência ao massacre de Odessa de 2 de maio de 2014. Evita, no entanto, utilizar a palavra massacre, fazendo prevalecer a ideia de um limbo de responsabilidades repartidas. Nas páginas seguintes, dá exemplos da composição das forças ucranianas:


“Combatendo lado a lado com o exército ucraniano oficial estava uma série de ‘batalhões de milícias do povo patriótico’ formados à pressa, que vinham de combatentes nacionalistas que tinha tido a sua primeira experiência em Maidan. Os ‘Batalhões’, como eram conhecidos, entraram em alguns dos primeiros e mais difíceis combates. Eram, em essência, exércitos privados. Alguns eram financiados por homens de negócios ucranianos como Ihor Kolomoisky, um prominente oligarca (e ativista judaico) de Dnipropetrovsque que apoiava um batalhão chamado ‘Dnipro 1’ e outro chamado ‘Batalhão Azove’ (que seria depois o Regimento Azove).” (p. 128)

De um modo geral, estes combatentes, financiados por oligarcas próximos de Petro Poroshenko, bilionário conhecido como ‘o homem dos chocolates” e presidente da Ucrânia entre 2014 e 2019, eram extremistas de direita ou, simplesmente, neonazis, como o Batalhão Ucrânia sob o comando de Oleh Lyashko, o qual, segundo Matthews, seria posteriormente descontinuado. Lyashko tinha o hábito de colocar vídeos nas redes sociais exibindo os seus interrogatórios e “(...) tornara-se conhecido por percorrer as cidades orientais numa carrinha blindada para raptar os presidentes das câmaras e andar com eles às voltas até concordarem em assinar um compromisso de lealdade ao governo de Quíive.” (p. 12)



Tal como sucedeu com a maioria dos líderes ultranacionalistas, também Oleh Lyashko passou por uma metamorfose. Tornou-se um ativista anticorrupção. Em período de eleições, ficou famoso por levar uma forquilha para os comícios que simbolizava o propósito de “limpar” os corruptos do poder. Deputado na Verkhovna Rada, onde exerceu diversos mandatos, envolveu-se repetidamente em confrontos físicos com opositores. Em janeiro de 2026 recebeu das mãos de Zelensky – com quem chegou a estar incompatibilizado - a Medalha de Mérito de III Grau pelo seu desempenho na unidade de drones atualmente sob o seu comando. Imagem: Babel
Tal como sucedeu com a maioria dos líderes ultranacionalistas, também Oleh Lyashko passou por uma metamorfose. Tornou-se um ativista anticorrupção. Em período de eleições, ficou famoso por levar uma forquilha para os comícios que simbolizava o propósito de “limpar” os corruptos do poder. Deputado na Verkhovna Rada, onde exerceu diversos mandatos, envolveu-se repetidamente em confrontos físicos com opositores. Em janeiro de 2026 recebeu das mãos de Zelensky – com quem chegou a estar incompatibilizado - a Medalha de Mérito de III Grau pelo seu desempenho na unidade de drones atualmente sob o seu comando. Imagem: Babel

O exposto é o bastante para ilustrar o extremar das posições e a consequente radicalização da guerra das representações simbólicas. Resta acrescentar que Lviv, até pelo seu histórico colaboracionista durante a II Guerra Mundial, tornou-se o principal bastião nacionalista. Grupos extremistas como o Svoboda e o Pravy Sektor, bem como as milícias armadas a eles associadas, tiveram um papel determinante na cidade em termos da mobilização pela “identidade nacional” contra a “influência russa”.


Hoje em dia, os investigadores e académicos ucranianos alinhados com regime, entre os quais aqueles a que temos vindo a fazer referência – Serhii Plokhy, Serhy Yekelchyk e Owen Matthews – consideram os episódios de violência supremacista perpetrados por ucranianos étnicos como fenómenos marginais. No seu entendimento, bem como no do Instituto da Memória Nacional da Ucrânia, o essencial é o “desmantelamento da herança colonial” e recuperação da “memória que foi apagada”. (Ver, na perspetiva de Kiev, Como a Memória dos Ucranianos foi Apagada in Ukraїner, 14 de dezembro de 2024, aqui.

 

5. “Ucranização” / “Descomunização” 


A partir da Euro Maidan de 2014, a Cultura entrou em força nas contas da “ucranização” ou “descomunização”, consoante o ponto de vista. Leia-se: “ucranização” = promover os valores nacionalistas a qualquer custo; “descomunização”, na terminologia oficial = liquidar a cultura russa associada ao passado comunista. Na prática, apesar do estatuto legal da “descomunização”, não haverá grandes diferenças, salvo no plano semântico. A “ucranização” deu lugar ao Renascimento Cultural pós-Maidan.


O campo dos media mereceu da parte do Renascimento atenção imediata. As autoridades baniram estações de televisão russas, séries, filmes, livros, artistas, exposições e espetáculos. Criou-se um vazio que foi necessário preencher dando resposta às premissas impostas pelo regime. Na rádio foram estabelecidas quotas para a música ucraniana, restringindo-se drasticamente a música russa e tornando obrigatório o uso da língua nacional. Abriram-se as portas à censura. Foram encerradas diversas publicações, mas a imprensa oficial ou oficiosa beneficiou do reforço de títulos já existentes. Outros surgiram com o apoio da agência USAID a qual, em anos subsequentes, haveria de financiar centenas de media digitais e milhares de jornalistas.


Cinema. A prioridade, porém, foi para a produção de filmes com fundos da Agência Ucraniana do Cinema que obedecessem a requisitos como desenvolver a “consciência nacional” e os “sentimentos patrióticos”. Em função das medidas protecionistas adotadas pelo governo de Kiev, entre 2014 e 2019, a percentagem de exibição em sala de filmes ucranianos saltou de 1,7% para 8%. Em simultâneo, foi lançada uma campanha para expandir a sua distribuição no estrangeiro, designadamente no circuito dos festivais.

 

Neste particular, a Academia obteve resultados relevantes, sobretudo após o início da invasão russa em 2022. Conseguiu, por um lado, boicotar os filmes russos em diversos festivais europeus, entre os quais o Festival de Cannes, e, por outro, levar os filmes ucranianos, frequentemente coproduzidos em parcerias europeias, às respetivas secções competitivas. Beneficiou, e beneficia, igualmente, da creditação de delegações que funcionam como embaixadores da causa nacionalista.

 

20 Dias em Mariupol (2023) do jornalista Mstylav Chernov venceu o Óscar para Melhor Documentário de longa-metragem em 2024. O filme retrata os primeiros 20 dias do cerco do exército russo à cidade e o impacto devastador que teve na população civil. 20 Dias em Mariupol não é bem um documentário, é mais uma reportagem feita por uma equipa da Associated Press com um ponto de vista pró-ucraniano inequívoco. Apesar dos comentários sobre o carácter político do prémio, a Academia de Cinema da Ucrânia, responsável pela nomeação, exultou com a atribuição do primeiro Óscar atribuído ao país. 20 Dias em Mariupol continua presente em numerosas plataformas de streaming e canais de televisão. Imagem: Prime Vídeo
20 Dias em Mariupol (2023) do jornalista Mstylav Chernov venceu o Óscar para Melhor Documentário de longa-metragem em 2024. O filme retrata os primeiros 20 dias do cerco do exército russo à cidade e o impacto devastador que teve na população civil. 20 Dias em Mariupol não é bem um documentário, é mais uma reportagem feita por uma equipa da Associated Press com um ponto de vista pró-ucraniano inequívoco. Apesar dos comentários sobre o carácter político do prémio, a Academia de Cinema da Ucrânia, responsável pela nomeação, exultou com a atribuição do primeiro Óscar atribuído ao país. 20 Dias em Mariupol continua presente em numerosas plataformas de streaming e canais de televisão. Imagem: Prime Vídeo

Se a prioridade foi dada ao cinema, nem por isso as políticas do Renascimento Cultural deixaram de ser aplicadas às diversas áreas artísticas. Aliás, isso mesmo é reconhecido com fervor patriótico. As palavras de Marina Pesanti, diretora do Instituto Ucraniano de Londres entre 2015 e 2019, jornalista e especialista em diplomacia cultural, são esclarecedoras. Num artigo intitulado “Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” publicado no Atlantic Council de 19 de janeiro de 2021, escreveu:

 

“In 2014, Ukraine banned a range of Russian TV channels, TV series, and books, with particular attention given to content that sought to glorify Russia’s imperial past or denigrate Ukraine. Three years later, Ukraine went further and blocked a number of Russian social media platforms. Many of Russia’s leading pop stars and celebrities are also no longer welcome in Ukraine, with entry bans imposed in response to anti-Ukrainian positions or unsanctioned visits to Russian-occupied Crimea.” (Ler artigo completo, aqui)


Cultura: uma questão de segurança nacional. O artigo de Pesanti, largamente reproduzido nos media pró-ucranianos, designadamente no Kyiv Post de 20 de janeiro de 2021, sustenta que o Renascimento Cultural é uma trave mestra da resistência indissociável da identidade nacional:

 

“Over the past seven years, one of the most striking features of Ukraine’s response to Russian hybrid warfare has been the country’s remarkable cultural revival. This renaissance of Ukrainian culture has helped defend against Russian soft power influence and provided a counterweight to damaging Kremlin narratives designed to undermine Ukraine’s social cohesion.” (Ver aqui)

 Marina Pesenti, uma das responsáveis pelos serviços da BBC em ucraniano durante dez anos, contribuiu significativamente para o incremento da atividade do Ukranian Institute of London. Com experiência no campo da Cultura, soft-power e media contribuiu de forma decisiva para afirmar a narrativa de Kiev no Reino Unido. Especialista em diplomacia cultural, integra órgãos consultivos de diversas instituições, entre os quais o Conselho de Supervisão do Ukranian Institute. Imagem: Ukranian Institute of London
 Marina Pesenti, uma das responsáveis pelos serviços da BBC em ucraniano durante dez anos, contribuiu significativamente para o incremento da atividade do Ukranian Institute of London. Com experiência no campo da Cultura, soft-power e media contribuiu de forma decisiva para afirmar a narrativa de Kiev no Reino Unido. Especialista em diplomacia cultural, integra órgãos consultivos de diversas instituições, entre os quais o Conselho de Supervisão do Ukranian Institute. Imagem: Ukranian Institute of London

 

Marcha do Dia da Independência, em Kiev, a 24 de agosto de 2020.  A cultura ucraniana, raiz da identidade reivindicada pelo nacionalismo, é uma combinação de antigas tradições eslavas, cristianismo ortodoxo e vida agrária. Tem expressão em diversas expressões da arte popular, bem como nos costumes dos camponeses ligados à natureza, do nascimento à morte. O vestuário e o artesanato são dos traços mais vincados desta cultura. Imagem: Kyiv Post
Marcha do Dia da Independência, em Kiev, a 24 de agosto de 2020.  A cultura ucraniana, raiz da identidade reivindicada pelo nacionalismo, é uma combinação de antigas tradições eslavas, cristianismo ortodoxo e vida agrária. Tem expressão em diversas expressões da arte popular, bem como nos costumes dos camponeses ligados à natureza, do nascimento à morte. O vestuário e o artesanato são dos traços mais vincados desta cultura. Imagem: Kyiv Post

O Ballet Nacional da Ucrânia em digressão pelos Estados Unidos em 2024. Apresentado pela antiga embaixadora em Washington Oksana Markarova como um símbolo da resiliência, a companhia tem uma parceria com a Fundação da primeira dama Olena Zelensky e faz digressões com o intuito de angariar fundos para o esforço de guerra. A exaltação do patriotismo é a nota dominante dos espetáculos. Imagem: KWGS Public Radio Tulsa
O Ballet Nacional da Ucrânia em digressão pelos Estados Unidos em 2024. Apresentado pela antiga embaixadora em Washington Oksana Markarova como um símbolo da resiliência, a companhia tem uma parceria com a Fundação da primeira dama Olena Zelensky e faz digressões com o intuito de angariar fundos para o esforço de guerra. A exaltação do patriotismo é a nota dominante dos espetáculos. Imagem: KWGS Public Radio Tulsa

 


Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” está em linha com o extenso relatório publicado no âmbito das atividades do think tank Chatham House, em 16 de novembro de 2020, onde se saúda a ofensiva cultural anti-Rússia. Esta, segundo Pesanti, ganhou novo ímpeto, em 2015, através das políticas levadas a cabo pelo Instituto Ucraniano da Memória Nacional. Para tanto, a autora considera essenciais as leis aprovadas pela Verkhovna Rada sobre a “descomunização”, bem como a exaltação do heroísmo e a luta de libertação. No relatório, intitulado Cultural Revival and Social Transformation in Ukraine, e sub-título, The role of culture and the arts in supporting post-Euromaidan resilience, afirma:

 

“The new laws mandated the opening of all archives, the removal of Soviet-related place names, symbols and monuments from public spaces, and the promotion of a new discourse of national history with an emphasis on heroism and the struggle for liberation.”

 

Admitindo que essas políticas produziram “a very mixed reception”, tendo conduzido não só à polarização do discurso público, mas, também, a limitações à liberdade de expressão, a autora manifesta-se, em todo o caso, a favor do cancelamento da cultura russa por “imperativo de ordem moral”. Releva, por isso, a importância de levar a cabo a revisão da História da Ucrânia durante o período soviético:

 

“Ukrainian artists and intellectuals challenged Russia-backed historical narratives about Ukrainian identity as a subset of the ‘Russian world’. They also increasingly engaged in more nuanced treatment of their country’s own history, willing to explore its darker chapters, such as collaboration with the Nazis during the Second World War or Ukraine’s participation in the soviet Project.”

Em 14 de Junho de 2018 a Radio Free Europe / Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, publicou esta foto de elementos do grupo neonazi C 14. Em 20 de abril de 2018, coincidindo com o aniversário de Adolf Hitler, o grupo atacou brutalmente um acampamento de ciganos na reserva natural de Lysa Hora, em Kiev. A polícia não interveio. O essencial da notícia da Radio Free Europe, porém, era outro. O Ministério da Juventude e do Desporto, pelos vistos, financiava projetos culturais apresentados por este e outros grupos de extrema-direita, o que, suscitando dúvidas sobre a bondade das suas políticas, estaria a causar grande incómodo junto dos aliados da Ucrânia. (ler a notícia na íntegra, aqui). Imagem: RadioFreeEurope / Radio Liberty
Em 14 de Junho de 2018 a Radio Free Europe / Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, publicou esta foto de elementos do grupo neonazi C 14. Em 20 de abril de 2018, coincidindo com o aniversário de Adolf Hitler, o grupo atacou brutalmente um acampamento de ciganos na reserva natural de Lysa Hora, em Kiev. A polícia não interveio. O essencial da notícia da Radio Free Europe, porém, era outro. O Ministério da Juventude e do Desporto, pelos vistos, financiava projetos culturais apresentados por este e outros grupos de extrema-direita, o que, suscitando dúvidas sobre a bondade das suas políticas, estaria a causar grande incómodo junto dos aliados da Ucrânia. (ler a notícia na íntegra, aqui). Imagem: RadioFreeEurope / Radio Liberty

 

 

Se textos de historiadores ucranianos como Plokhy, Yekelchyk e Matthews (ver Partes I, II e III destes apontamentos) estão em linha com a primeira frase da citação, convergindo, igualmente, em maior ou menor grau, na abordagem revisionista da relação da Ucrânia com a União Soviética, só residualmente se ocupam da colaboração com os nazis durante a II Guerra Mundial. Menos ainda da ação dos grupos de extrema-direita no pós-Maidan que levaria à perseguição dos russos étnicos. E quem enveredou pela investigação do papel dos movimentos, partidos e milícias neonazis, correu o risco enfrentar ameaças de morte, como sucedeu com a historiadora Marta Havryshko. (Ver Parte III destes apontamentos).

 

Algo de semelhante, porventura, outro exemplo da “very mixed reception” de que fala Marina Pesanti, sucedeu com Sergei Loznitsa, o mais conhecido cineasta ucraniano da atualidade, acusado de “cosmopolitismo” pela Academia de Cinema.


O episódio Loznitsa. Nascido na Bielorússsia, mas com nacionalidade ucraniana, tradutor da língua japonesa e estudos em Matemática Aplicada, Sergei Loznitsa tornou-se investigador de Inteligência Artificial no Instituto de Cibernética de Kiev. Em 1997, concluiu o curso de realização cinematográfica no Instituto de Cinema de Moscovo, o famoso VGIK, construindo, a partir de então, uma obra documental diversificada, distinguida em festivais de todo o mundo. Tem mais de 60 prémios e cerca de 80 nomeações.


O ponto de vista dos seus filmes - a título de exemplo, Maidan (2014), Donbass (2018) e A Invasão (2025) - é revelador daquilo em que acredita. Em declarações públicas, referindo-se a Funeral de Estado (2019), um documentário sobre as exéquias de Estaline feito unicamente com imagens de arquivo, disse algo do género: “Enquanto não se fizer a descomunização e enquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a história se repetir.” Foi mais longe. Em setembro de 2022, durante o Festival Internacional de Cinema de Veneza, disse que deveria ter havido uma espécie de tribunal de Nuremberga para julgar “os crimes do comunismo.”


Contudo, em 19 de Março de 1922, Loznitsa, acusado de “cosmopolitismo”, foi expulso da Academia de Cinema da Ucrânia. A diretora, Anna Machukh, alegou que o cineasta traíra as orientações oficiais:


“Since the beginning of Russia’s full-scale invasion of Ukraine, we have tirelessly called on the global film community to boycott Russian cinema. But Sergei Loznitsa publicly opposes this, thus denying the Russians’ collective responsibility for the war their country unleashed in Ukraine.”

No comunicado da Academia, pode ler-se: “(...) the countries of Europe and the whole world should have a complete and unambiguous picture of what the aggressor country is doing in Ukraine. Therefore, every Ukrainian is now the ambassador of his country.” Para Anna Machukh, aos agentes das indústrias criativas com reputação internacional é exigida responsabilidade acrescida, devendo as suas posições ser claras e inequívocas. Loznitsa seria reincidente:


“(He) repeatedly stressed that he considers himself a cosmopolitan, ‘a man of the world’. However, now, when Ukraine is struggling to defend its independence, the key concept in the rhetoric of every Ukrainian should be his national identity.”


Sergei Loznitsa. Excerto da sua intervenção, em ucraniano, no Festival de Cannes, em 21 de maio de 2022: “Contemporary Ukraine is a multinational and a multicultural country. A call for a boycott of Russian-language culture, which constitutes an indispensable part of the heritage and cultural wealth of modern Ukraine, is deeply archaic and destructive in its nature.” (Para cabal esclarecimento do pensamento de Loznitsa ler o seu discurso de aceitação do prémio que lhe foi atribuído em França, aqui). Imagem: Festival de Sevilla
Sergei Loznitsa. Excerto da sua intervenção, em ucraniano, no Festival de Cannes, em 21 de maio de 2022: “Contemporary Ukraine is a multinational and a multicultural country. A call for a boycott of Russian-language culture, which constitutes an indispensable part of the heritage and cultural wealth of modern Ukraine, is deeply archaic and destructive in its nature.” (Para cabal esclarecimento do pensamento de Loznitsa ler o seu discurso de aceitação do prémio que lhe foi atribuído em França, aqui). Imagem: Festival de Sevilla

Donbass (2018) de Sergei Loznitsa estreou no Festival de Cannes em 2018. O cineasta inspirou-se em O Fantasma da Liberdade (1974) de Luis Buñuel. Faz um retrato caricatural da região separatista através de um conjunto de quadros alegóricos dando a entender que os acontecimentos vistos pelo prisma dos russos são o equivalente de uma encenação grotesca. Imagem: Clip de Donbass (2018) de Sergei Loznitsa.
Donbass (2018) de Sergei Loznitsa estreou no Festival de Cannes em 2018. O cineasta inspirou-se em O Fantasma da Liberdade (1974) de Luis Buñuel. Faz um retrato caricatural da região separatista através de um conjunto de quadros alegóricos dando a entender que os acontecimentos vistos pelo prisma dos russos são o equivalente de uma encenação grotesca. Imagem: Clip de Donbass (2018) de Sergei Loznitsa.

 

Anna Machuck, Diretora Executiva da Academia de Cinema da Ucrânia e Diretora Geral dos Festival Internacional de Cinema de Odessa, agora deslocado para lugares mais seguros, como Kiev, é a principal voz da indústria cinematográfica ucraniana a defender no estrangeiro o boicote aos filmes russos. É cofundadora da plataforma DzygaMDB que surgiu para apoiar o mercado audiovisual da Ucrânia. Considera o cineasta soviético Dziga Vertov um expoente do cinema ucraniano, criando inclusivamente um prémio com o seu nome. É, seguramente, uma das apropriações da cultura russa mais arrojadas das muitas que têm vindo a ser feitas. Imagem: Ukraine Media Centre.
Anna Machuck, Diretora Executiva da Academia de Cinema da Ucrânia e Diretora Geral dos Festival Internacional de Cinema de Odessa, agora deslocado para lugares mais seguros, como Kiev, é a principal voz da indústria cinematográfica ucraniana a defender no estrangeiro o boicote aos filmes russos. É cofundadora da plataforma DzygaMDB que surgiu para apoiar o mercado audiovisual da Ucrânia. Considera o cineasta soviético Dziga Vertov um expoente do cinema ucraniano, criando inclusivamente um prémio com o seu nome. É, seguramente, uma das apropriações da cultura russa mais arrojadas das muitas que têm vindo a ser feitas. Imagem: Ukraine Media Centre.


Numa carta aberta à comunidade cinematográfica, a resposta do cineasta foi contundente:


“Speaking against ‘cosmopolitanism’, Ukrainian ‘academicians’ now use this Stalinist discourse, which is based on hatred, the denial of dissent, the assertion of colective guilt and a ban of any manifestation of free individual choice. Or are they against the philosophical tradition of Diogenes, Zeno, Kant and Voltaire? Are they against the values that uderline the culture and society of modern Europe, which they say they long for? I am compelled to speak in detail about the semantics of the term ‘cosmopolitan’ because, outside the former Soviet empire, the arguments given by ‘academicians’ are intelligible only to Sovietologists.” (mais dados sobre a polémica entre Loznitsa e a Academia, aqui)

O caso de Loznitsa - que continua a participar em iniciativas de apoio à causa nacionalista fazendo, inclusivamente, sessões especiais com os seus filmes - é apenas um entre muitos da vida cultural ucraniana. Em 2020, a nomeação de Marina Kuderchuck para dirigir a DerzhKino, agência estatal responsável por regular, apoiar e implementar as políticas do cinema foi particularmente controversa. Sem experiência comparável à de outros candidatos, Kuderchuck terá beneficiado da proximidade com o círculo do Presidente Zelensky. Durante o seu mandato enfrentou acusações de cineastas e outros agentes do setor por, alegadamente, dar prioridade aos “projetos patrióticos” relegando para segundo plano propostas com critérios mais artísticos.


Nos primeiros meses deste ano de 2026, a Academia de Cinema da Ucrânia voltou a estar em foco. Para além da já habitual pressão sobre a sua congénere americana no sentido de permitir uma alocução de Zelensky durante a cerimónia da entrega dos Óscares, insurgiu-se contra filmes que, em seu entender, fazem a apologia de Putin. À cabeça, está, surpreendentemente, O Mago do Kremlin (2025) de Olivier Assayas (recensão crítica do filme e reações, aqui). De seguida, foi o vencedor da estatueta para o Melhor Documentário de longa-metragem, Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin, a ser alvo da reprovação. Ambos os filmes são, em abono da verdade, críticos do líder russo. Finalmente, a Academia manifestou-se inconformada por quer o prémio para melhor documentário quer para melhor filme internacional não ter sido atribuído a 2000 Meters to Andriivka (2025) de Mstyslav Chernov, esse, sim, “um testemunho do heroísmo” do povo ucraniano. O realizador é o mesmo de 20 Dias em Mariupol.


 

Jude Law no papel de Putin e Paul Dano no de Baranov em The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas. Recebido com severas críticas na Ucrânia, o filme foi visto, regra geral, como uma ferramenta involuntária da guerra híbrida russa por validar e perpetuar mitos da propaganda do Kremlin ao invés de os desconstruir. Imagem: Revista de Cinema.
Jude Law no papel de Putin e Paul Dano no de Baranov em The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas. Recebido com severas críticas na Ucrânia, o filme foi visto, regra geral, como uma ferramenta involuntária da guerra híbrida russa por validar e perpetuar mitos da propaganda do Kremlin ao invés de os desconstruir. Imagem: Revista de Cinema.

 

A equipa de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin na noite dos Óscares de Hollywood. A Academia de Cinema de Kiev manifestou-se desapontada com o discurso de aceitação dos vencedores por ter usado uma mensagem antiguerra genérica, sem menção explícita à Ucrânia. Numa deriva mais assertiva, condenou a tentativa de equiparar a dissidência russa ao sofrimento dos ucranianos, cujas casas são destruídas e cujas vidas são diariamente ceifadas. Mr. Nobody Against Putin foi banido na Federação Russa. Imagem: Euronews.com
A equipa de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin na noite dos Óscares de Hollywood. A Academia de Cinema de Kiev manifestou-se desapontada com o discurso de aceitação dos vencedores por ter usado uma mensagem antiguerra genérica, sem menção explícita à Ucrânia. Numa deriva mais assertiva, condenou a tentativa de equiparar a dissidência russa ao sofrimento dos ucranianos, cujas casas são destruídas e cujas vidas são diariamente ceifadas. Mr. Nobody Against Putin foi banido na Federação Russa. Imagem: Euronews.com

 

O que se aplica ao cinema é igualmente recorrente em outras áreas artísticas. O denominador comum é sempre o mesmo, ou seja, o patriotismo vem primeiro. Nos próximos apontamentos far-se-á um apanhado das linhas gerais das políticas para a Cultura do regime de Kiev, nas quais o eixo da exaltação do heroísmo e da luta de libertação tem um papel central.

 

Continua com Ucrânia (Parte VI): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Exaltação do heroísmo e apropriação cultural.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

Este texto e os seguintes estão construídos em torno de três questões fundamentais. A primeira convoca os chamados laços de sangue no seio do vasto mosaico etnolinguístico que é a Ucrânia. A segunda prende-se com o chamado Renascimento Cultural pós-Maidan, indissociável do Holodomor, mas, também, da “ucranização”, matéria incómoda e habitualmente negligenciada no espaço mediático. A terceira é uma questão de princípio, vital para a consolidação do nacionalismo de Kiev. Respeita à exaltação do martírio e heroísmo na luta de libertação. As três questões são complementares. Cada uma exige a presença das outras porque a batalha pela Cultura e pela História é existencial. Dela depende, com efeito, a legitimação da identidade através da lente nacionalista, as mais das vezes, através de uma estratégia de apropriação que fica desde já sinalizada nas duas imagens seguintes.


O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr
O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr


Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA
Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA

4. Nacionalismo, identidade e raízes envenenadas


Laços de sangue. O caso da família Bibikov (ver a Parte III destes apontamentos), à qual pertence o jornalista e escritor Owen Mathews, autor de Passar das Marcas - Os Bastidores da Guerra de Putin contra a Ucrânia, é paradigmático. Tem raízes antigas. Remontam ao tempo do Hetemanato, um estado cossaco autónomo na região central da Ucrânia, a leste do Rio Dnipro, que existiu entre 1648 e 1764. No século XVIII, com Catarina, A Grande, o estreitamento das relações da Rússia com o Hetemanato permitiu consolidar a expansão territorial do Império e fez dos Bibikov um importante clã aristocrático. Na sua maioria militares, etnicamente russos ligados à nobreza fundiária, beneficiaram de generosas benesses de Moscovo. O general Alexandr Bibikov, por exemplo, recebeu como oferenda 25 mil “almas”, ou seja, servos da gleba adultos do sexo masculino, para trabalharem nas suas propriedades.


Ao contrário do que defende a maioria dos historiadores contemporâneos nacionalistas, o domínio russo, segundo Mathews, não foi de tipo colonial. Em Passar das Marcas, escreve: “Muitos membros da elite ucraniana seriam incorporados na elite do Império e, com o tempo, acabariam por governar.” (p. 57) Aponta, entre outros, já no período soviético, Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev, ambos nascidos na Ucrânia em famílias de camponeses russos, bem como o meio-ucraniano Mikhail Gorbachev. Na família dele próprio, Mathews sublinha a existência de onze generais que participaram em acontecimentos determinantes, entre 1760 e 1941, dando como exemplo as duas Guerras da Crimeia.


Os Bibikov não são caso único. Pelo contrário, há uma rede de relações urdida no seio do Império em função dos laços de sangue, aliás, igualmente invocada, em 2001, por Vladimir Putin no seu famoso ensaio de sete mil palavras onde afirma que a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia fazem parte do mesmo espaço histórico-cultural. Mathews sustenta ter sido esse o modelo ideológico do presidente russo que haveria de justificar o recurso à guerra. Por isso, está presente, transversalmente, nas 470 páginas do seu livro.


Passar das Marcas tem uma Introdução e um Prólogo, seguindo-se o corpo do texto em tês Partes: Sangue e Império, Em Pé de Guerra e Pirocinese. No essencial, tal como Plokhi e Yekelchyk (ver Partes I, II e III destes apontamentos), resgata a Ucrânia étnica e a sua identidade cultural, embora com algumas diferenças. Se aceita que ao longo dos tempos a Ucrânia esteve refém de forças não apenas russas, mas também polacas e alemãs, as quais obstaram ao desenvolvimento de uma cultura própria minando a expansão da língua e impedindo a formação do estado-nação, também reconhece que as linhas de demarcação entre ucranianos e russos são bem mais complexas.


Talvez por isso, a Parte I do Capítulo 1 (Sangue e Império) tenha por título Raízes Envenenadas, cuja latência pulsa entre dois polos. Por um lado, não há nacionalismo sem afirmação permanente da diferença. Por outro, os movimentos nacionalistas só se definem por oposição a outras nacionalidades. São a cara e a coroa de uma mesma moeda. No caso específico, sendo ucranianos e russos os grupos mais importantes do conjunto etnolinguístico, Mathews, não iludindo a questão, tende a desvalorizar a diversidade, ainda que faça questão de lembrar que a “maior parte do que é hoje a Ucrânia moderna fez durante mais tempo parte do estado polaco-lituano do que do Império Russo.” (p.53) Avaliação diferente, quanto às nacionalidades, fazem outros observadores.


Um deles é Alexandr Markovsky, investigador sénior do London Center for Policy Research, um think tank de segurança nacional, energia e análise de riscos em políticas públicas. Em 27 de junho de 2025, Markovsky, que reside nos Estados Unidos em Houston, no Texas, mas é de origem soviética, publicou no site do RealClearDefense um artigo onde sustenta que, após o colapso da União Soviética, a Ucrânia, com as fronteiras desenhadas desde o tempo de Lenine, Estaline e Hitler, colocou milhões de russos, polacos, húngaros e romenos num impasse. A guerra, segundo ele, ao acentuar as incompatibilidades multiétnicas, poderá ter consequências dramáticas:


“Since Ukraine lacks historical roots in the real estate it inhabits, the inescapable conclusion is that Ukraine’s neighbors pursuing their own interests make Ukraine look like vulnerable prey amidst formidable predators. It is inevitable that, sooner rather than later, Ukraine will disintegrate, and its fragmented remains will gravitate toward the countries to which they truly belong.” (Artigo completo de Alexandre Markovsky, aqui)

Markovsky foi acusado de fazer propaganda russa. Porém, o seu artigo tanto deu origem às habituais partilhas nas redes sociais quanto desencadeou reações quer dos nacionalistas quer dos media ocidentais. É uma situação recorrente quando toca a apurar da legitimidade reivindicada por ambas as partes. A questão dos territórios tornou-se o epicentro das conversações recentemente encetadas visando um acordo de paz. Pelo meio, como era inevitável, há uma guerra de mapas.


Mapas, fronteiras e “ucranização”. O Truthmeter, site que subscreve o Código de Princípios da International Fact-Checking Network, na sequência de um outro artigo de Markovsky de 31 de Março de 2024, publicou, em 24 de setembro do mesmo ano, um texto a denunciar a manipulação de mapas divulgados nas redes sociais. O título do artigo é Manipulation with historical maps of Ukraine. Um dos mapas reproduzidos pelo Truthmeter é o primeiro abaixo. Nele identificam-se territórios integrados pelos russos na Ucrânia, designadamente no tempo de Lenine, Estaline e Krushev. O segundo mapa, com texto em inglês para efeito de facilitação de leitura, é praticamente idêntico, mas acrescenta informação relativa a um período mais alargado de tempo.



Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética.  Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter
Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética. Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter

Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf
Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf


Em ambos os mapas, as informações são facilmente verificáveis. Podem, no entanto, ser objeto de diferentes interpretações. Esclareça-se, como ponto prévio, que a palavra “ucranização”, detestada por historiadores como Plokhi e Yekelchyk porque, como veremos, acentua o lado negro do nacionalismo, não é uma invenção do regime de Kiev. Vem do tempo de Lenine quando, no âmbito da atribuição de maior autonomia às diferentes repúblicas, foram implementadas medidas políticas e culturais com o intuito de reforçar a coesão no seio da URSS. Originalmente, portanto, a ucranização foi a versão das políticas soviéticas da Korenizatsiya (indigenização) aplicada à Ucrânia. Em consequência, os ucranianos étnicos foram incentivados a aderir ao Partido Comunista e numerosos intelectuais ocuparam postos no aparelho de estado. Houve um notável desenvolvimento da literatura, teatro e imprensa em língua ucraniana. Os funcionários russos foram obrigados a aprender o idioma.



Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck
Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck


Em Passar das Marcas Owen Mathews não nega o efeito das políticas de Lenine, mas contesta a ideia defendida por Putin segundo a qual teriam sido os bolcheviques a criar a Ucrânia Moderna:


“Putin ignorou a razão fundamental que levou Lenine desde logo a criar uma república ucraniana distinta. As aspirações ucranianas à independência eram tão fortes no rescaldo da guerra civil pós-revolucionária que conceder um certo grau de autonomia e um estatuto de igual face à Rússia no seio da União Soviética era essencial para que os bolcheviques conseguissem manter a Ucrânia sob controle. Na verdade, durante a primeira década do poder soviético, o ucraniano tornou-se a língua oficial da administração e do ensino na República Socialista Soviética Ucraniana. Centenas de livros – incluindo livros de história – foram publicados em ucraniano, e a língua foi codificada e ganhou pela primeira vez uma gramática oficial.” (p. 61)

A Korenizatsiya ucraniana, portanto, segundo Mathews, só aconteceu porque Lenine percebeu a necessidade de apaziguar as crescentes reivindicações nacionalistas. Até certo ponto, o polígrafo do Truthmeter aponta no mesmo sentido. Criado pela Metamorphosis Foundation em 2011, o Truthmeter trabalha em rede com diversas organizações europeias e americanas. Por exemplo, a partir da Embaixada dos Países Baixos em Skopje, na Macedónia do Norte, desenvolveu um projeto intitulado “Western Balkans Anti-Disinformation Hub: Exposing Malign Influences through Data-Driven Watchdog Journalism”. O projeto teve a participação, além da citada Macedónia do Norte, de organizações da Albânia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Kosovo e Sérvia. Outras iniciativas semelhantes são referenciadas na página do site. A parceria de maior relevância, porém, é a colaboração com a Meta, proprietária de plataformas digitais como o Facebook, Instagram, Whatsapp e Threads. O foco é a desinformação russa.


Insere-se nesse contexto a denúncia da manipulação dos mapas com base em alegado enviesamento histórico. Resulta, neste caso, que o Truthmeter faz prevalecer a ideia de nada haver para discutir em matéria de territórios. Exemplo: “Moscow gave territories to the Ukrainians, for which they were deemed ungrateful. However, what is overlooked is the fact that the Ukrainians themselves fought for those territories (...)”. Ou seja, se os russos acusam os ucranianos de ingratidão é porque não reconhecem a luta travada pelos patriotas nacionalistas pela posse dos territórios em apreço. (Ler o texto completo, aqui)


De qualquer modo, transitando do debate da História, há, na atualidade, dois termos que são frequentemente utilizados, ainda que postos em causa pelo regime de Kiev, quando se trata de definir territorialmente a Ucrânia. Um é Malorossiya ou Pequena Rússia. Corresponde, basicamente, ao antigo Hetemanato Cossaco, na zona central, abrangendo essencialmente as províncias de Kiev, Chernihiv e Poltava. O outro é Novorossiya ou Nova Rússia. Grosso modo, aplica-se ao sul e a parte do Este, por um lado conquistados pelo império russo ao império otomano, por outro integrados por Lenine após a revolução bolchevique. Na Novorossiya cabem, designadamente, Dnipro, Odessa, Kherson e o Donbass. É em função das especificidades da Malorossiya e Novorossiya que melhor se identificam as clivagens da atualidade.



A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War
A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War


Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress
Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress

Na leitura do Kremlin, a Novorrosiya é, simplesmente, russa. Para a maioria dos habitantes, porventura, também. Para Kiev, os territórios saídos de 1991 são todos ucranianos. Seja como for, sempre houve alterações de fronteiras ao longo do tempo, designadamente nos períodos soviético e da II Guerra Mundial. Em Passar das Marcas, Mathews não ilude estas questões. Privilegia, no entanto, os dados nacionalistas encontrando neles o conforto bastante para expor a sem razão do Kremlin. Esses dados tanto passam por referências a estudos de opinião feitos ao tempo da desagregação da URSS, favoráveis à autodeterminação, quanto, de modo mais fundamentado, por narrativas que conferem legitimidade à existência da nação. Nesse sentido, utiliza dois poderosos elementos retóricos de ordem pessoal. Por um lado, associa o processo de libertação à gradual – e dramática – tomada de consciência do independentismo no seio da própria família. Por outro, recorre à primeira pessoa para relatar a sua longa experiência pessoal e profissional.


Durante 27 anos fez jornalismo na Federação Russa, quer para o Moscow Times quer para a Newsweek, da qual foi diretor na secção de Moscovo. Poucos foram, nesse período, os que lhe recusaram um pedido de entrevista ou um encontro. Porém, após a invasão da Ucrânia, a situação mudou radicalmente. A guerra trouxe maior controle sobre os meios de comunicação social, bem como o recrudescimento da repressão política, daí resultando um clima de medo que teria levado alguns dos seus amigos e contactos a afastarem-se.


Entre outros, Mathews refere Zakhar Prilepin. Figura proeminente do meio literário, com vários livros publicados, Prilepin combateu como voluntário no Donbass ao lado dos separatistas. Durante 20 anos destacado dirigente do ultraconservador Partido Nacional Bolchevique, entretanto, extinto, transitou para outras formações políticas da oposição sistémica a Putin. Ex-deputado na Duma, favorável à recuperação integral da Ucrânia para a esfera de Moscovo, é conhecido pelo radicalismo das suas posições. Vê na destruição dos símbolos soviéticos, como sucedeu, por exemplo, na Leninopad – vandalização das estátuas de Lenine –, bem como na perseguição aos russos étnicos da Ucrânia uma afronta à Mãe Pátria. A introdução de Passar das Marcas abre com uma declaração sua de abril de 2022:


“Toda a gente tem de compreender: aproxima-se a mobilização e uma guerra global pela sobrevivência, para destruir todos os nossos inimigos. A guerra é a nossa ideologia nacional. É a única tarefa, a única tarefa do nosso líder, é explicar ao povo russo que este é o nosso futuro heroico, e convencê-lo.” (p. 13)

Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna
Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna

Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13
Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13


Holodomor: martírio e consciência. A escolha da citação de Zakhar Prilepin para a entrada de Passar das Marcas não é aleatória. Pelo contrário, tem por finalidade a separação radical das águas. O ponto sem retorno é, justamente, o Holodomor (1932-1933). É nele que o nacionalismo ucraniano assenta a trave mestra. Também com Mathews assim acontece. Apesar dos laços de sangue, o autor considera a morte pela fome - ou fome vermelha - o elemento determinante da identidade, a qual, por sua vez, num sentido mais lato, é inerente à contingência e vicissitudes da História. No caso da sua família, a tomada de consciência, passa pelo martírio dos seus membros a partir do final do primeiro quartel do século XX. Vai nesse sentido, na página 60 e seguintes, o relato da experiência de vida do seu avô, Boris Bibikov:


“Apesar de ter nascido numa proeminente família nobre russa – ou talvez numa atitude de deliberada rebeldia – Boris Bibikov tornou-se um comunista fervoroso. Não é claro por que razão exatamente Bibikov e os dois irmãos mais novos se juntaram aos bolcheviques, ainda que não fossem os únicos elementos da sua classe e geração a fazê-lo. (...) Filiou-se no Partido Comunista em 1924. Designado Comissário do Exército Vermelho em 1926-1928, tornou-se organizador do Partido. Como tal, esteve presente na linha da frente do mais urgente problema do novo governo soviético, problema esse que ameaçava a sua existência.” (p.61)

A Ucrânia era vista como o grande celeiro da URSS. Nomeado para dirigir a construção de uma fábrica em Kharkiv como intuito de acelerar a produção dos tratores necessários à coletivização da terra, Boris Bibikov “usava camisa de listas do exército e apresentava-se como se fosse do proletariado”, mas vivia num apartamento de luxo, com empregada interna e fazia-se transportar pela cidade “numa gigantesca berlinda americana da Packard.” (p.62) De qualquer modo, as suas convicções eram tão arreigadas que quando a sua primeira filha nasceu, em 1925, deu-lhe o nome de Lenina, tia de Owen Mathews. Para Bibikov, diz o autor de Passar das Marcas, os enormes campos da Ucrânia, bem como as fábricas de tratores, eram as bigornas onde um novo tipo de sociedade ira ser forjada:


“Os tratores (...) libertariam milhões de pessoas do trabalho servil, da ignorância, da bebedeira e da depravação da vida de vilarejo. Boris teria esperneado com a comparação, mas a verdade é que se tornara o último de uma longa linha de Bibikovs a impor a visão de progresso e civilização de Moscovo às terras da Ucrânia.” (p. 63)

Para ele, o princípio do fim começou ao aperceber-se que “as novas fábricas coletivas não funcionavam, e os camponeses resistiram ferozmente aos novos senhores soviéticos. As terras, os cereais e o gado tinham de ser confiscados à força e ao poder da bala.” (p.63) Escreve Mathews:


“O resultado foi o mais horrível dos crimes de Estaline – o Holodomor, ou ‘morte pela fome’, que na moderna Ucrânia é recordado como um genocídio análogo ao Holocausto (...) Os camiões faziam rondas pelas ruas de Carquive, Quíive e Dnipropetrovsque recolhendo cadáveres de camponeses mortos de fome que se tinham arrastado até às cidades à procura de comida. No Inverno de 1933, entre quatro e sete milhões de camponeses ucranianos morreram à fome.” (p. 64)

Ganhando consciência da situação, Boris Bibikov opôs-se às políticas de Estaline. Em 1934 esteve em Moscovo no 17º Congresso do Partido – o “Congresso dos Vencedores” – onde, chefiada por Sergei Kirov, a oposição defendeu o abrandamento do processo de coletivização. Em dezembro desse ano, Kirov foi assassinado. Começou a “Grande Purga”. Entre janeiro de 1937 e Maio de 1938 foram presos 167 mil comunistas ucranianos. Boris Bibikov caiu em desgraça. A mulher, Marfa, presa pouco depois da morte do marido, foi enviada para um Gulag no Cazaquistão “por ser casada com um inimigo do povo. Aí passou 15 anos e enlouqueceu.” (p. 65)


“As filhas de Bibikov, a minha mãe Lyudmila e a sua irmã mais velha, Lenina, de início, foram enviadas para uma prisão infantil e, seguidamente, para um orfanato em Verhne-Dniprovk, onde Lyudmila quase morreu de tuberculose óssea. ‘Obrigado, camarada Estaline, pela nossa infância feliz’, foi uma das canções que a minha mãe aprendeu no orfanato.” (p. 65)

Para Mathews, na esteira do advogado polaco judeu Raphael Lemkin o Holodomor “é um caso de genocídio, de destruição de indivíduos, mas também de uma cultura e de uma nação.” Essa seria a razão pela qual, quando a Wehrmacht invadiu a URSS na II Guerra Mundial, “alguns ucranianos tinham a esperança de que a ocupação alemã seria tão benigna como a de 1918.” (p.67)


O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector
O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector

Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine
Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine

Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ
Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ


O Massacre de Volínia. Se o Holodomor justifica o desejo de independência dos ucranianos étnicos, a verdade é que, ao contrário do que Mathews dá a entender, a adesão entusiástica dos nacionalistas à invasão nazi foi algo mais do que meramente residual. Este é o calcanhar de Aquiles de Passar das Marcas, à semelhança, aliás, do que sucede com boa parte dos historiadores ucranianos empenhados em veicular a ideia de um “nacionalismo moderado”. Desde logo, quando, no âmbito da Operação Barbarrossa, os alemães entraram em território soviético por regiões da Ucrânia com forte presença de radicais, regra geral, foram recebidos como salvadores. Só assim se explica que os grupos de extrema-direita ucranianos já existentes tivessem crescido exponencialmente, e que outros, abertamente nazis, tenham surgido. O mais importante foi a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) que viria a dividir-se em duas fações: a OUN-B, liderada por Stepan Bandera, e a OUN-A de Andriy Melnyk. Bandera criou igualmente o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), braço armado da sua facção, para combater o Exército Vermelho. Proclamou a independência em Lviv, a 30 de junho de 1941, através do Ato de Restauração do Estado Ucraniano. Hitler recusou-a. O UPA voltou-se então contra a Wehrmacht, mas sem abrandar o confronto com os russos. Outras unidades militares criadas após a invasão alemã deram apoio incondicional aos nazis, caso da Divisão SS Galizien (14ª Divisão de Granadeiros SS), bem como dos Legionários Ucranianos (Batalhões Nachtigall e Roland). (Sobre estas matérias ver as Partes I, II e III destes apontamentos).


Mathews tende a relativizar o papel de Bandera enquanto colaboracionista. Invoca até o episódio, historicamente controverso, de o líder da OUN-B ter sido enviado para um campo de concentração. E, de forma algo confusa, atribui aos russos parte da responsabilidade pela imagem negativa do líder nacionalista:


“(Bandera) ficaria sempre associado na propaganda soviética e russa à facção da OrNU que constituiu o núcleo antissoviético do Exército Ucraniano Insurgente, ou UPA. Apesar de alguns dos seus mais proeminentes comandantes terem combatido anteriormente no batalhão Nachtigall, o UPA considerava que os seus principais inimigos eram os alemães. Na prática, contudo, passaram a maior parte do tempo a combater os soviéticos.” (p. 68)

Com efeito, escreve Mathews, “(...) no Verão de 1944, os 100 mil soldados da UPA combatiam como unidades irregulares na retaguarda das linhas soviéticas, dificultando as comunicações do Exército Vermelho e atacando alvos militares soviéticos, combatentes da resistência polaca e civis polacos e judeus.” (p. 68). Na mesma página, pode ler-se que os “apoiantes indefetíveis da UPA continuaram a resistência de guerrilha ao poder soviético nas florestas da Bielorrússia e da Ucrânia até à década de 1950.”


Por outro lado, pouco diz sobre o extermínio de dezenas de milhares de judeus polacos levado a cabo pela OUN-B e pela UPA na Volínia e Galícia Oriental, um ato de brutalidade inaudita. Para se ter uma ideia, só no chamado Domingo Sangrento, em 11 de julho de 1943, o Exército Insurgente atacou e martirizou uma centena de aldeias polacas em simultâneo. No período de 1943-1945 matou cerca de 150 mil judeus. O objetivo era erradicar a presença polaca na região para garantir que, após a guerra, o território (então parte da Polónia ocupada) ficasse exclusivamente sob controlo ucraniano. A ser assim, fica no ar a hipótese de a detenção de Bandera ter sido feita no sentido de o preservar para um eventual regresso no futuro.


Hoje, apesar das tentativas dos governos da Ucrânia e da Polónia no sentido de sanar as divergências, o assunto está longe de encerrado. Na Polónia, o Massacre de Volínia continua a ser visto como uma tentativa de limpeza étnica. Em 2016, o Parlamento classificou-o formalmente como genocídio. Em 2025, o anterior Presidente polaco Andrzej Duda, já em final de mandato, promulgou a lei em função da qual o 11 de Julho passou a ser considerado Dia da Memória das Vítimas do Genocídio. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia criticou asperamente a decisão considerando-a contrária ao espírito das relações de boa vizinhança. Para agravar a situação, no mesmo ano, o novo Presidente, o historiador Karol Nawrocki, durante a campanha eleitoral, explorou a tragédia de Volínia para atrair eleitores. E, uma vez eleito, declarou que “he would block Ukraineʼs European integration until Kyiv makes an official statement about ‘atonement’ for the "Volyn massacre". Ou seja, a Polónia exigiu a expiação e reparação do crime.


Entretanto, voltaram a surgir sinais de desanuviamento com a criação de equipas de especialistas de ambos os países, tal como documenta o artigo de 8 de setembro de 2025 do site de notícias Babel, considerado um dos meios de comunicação mais fiáveis da Ucrânia, assinado por Yuliia Hyra e Glib Gusiev. O título é: “For the first time in 10 years, Ukraine and Poland exhumed and reburied the victims of the Volyn tragedy.” (ver notícia completa do site Babel, aqui)


O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel
O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel


Continua com Ucrânia (Parte V): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: O Renascimento Cultural Pós-Maidan

 

 
 
 
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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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