- Jorge Campos
- há 1 dia
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Este texto aborda um outro tipo de guerra, a guerra cultural. O início, porém, remete para a política. Política e guerra cultural são, na verdade, indissociáveis. Vejamos. Por alegada ameaça à soberania nacional, em março de 2022, o Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia suspendeu a atividade de 11 partidos políticos. O mais importante era a Plataforma - Pela Vida, anti-NATO e eurocético. O seu património seria confiscado e passaria para as mãos do estado. Sorte idêntica tiveram os demais partidos suspensos, fossem eles de maior ou menor expressão. Entre os primeiros estavam o Bloco de Oposição, o Partido de Shariy e o Nashi (Os Nossos). Entre os segundos, igualmente proibidos, contavam-se o Partido Socialista da Ucrânia, o Bloco de Esquerda, a União de Forças de Esquerda, o Estado, o Partido Progressista Socialista da Ucrânia, Os Socialistas e o Bloco de Volodymyr Saldo. Segundo as autoridades ucranianas, estas formações tinham um denominador comum: eram pró-russas. Logo, antipatrióticas.
A lista tem antecedentes. A Ucrânia aprovou legislação na Verkhovna Rada, em 2015, banindo quer os símbolos comunistas, como a foice e o martelo, quer os símbolos nazis, como a suástica e a iconografia das Wafen SS e da Wehrmatch, comuns a vários grupos e milícias armadas, entre os quais o famoso Batalhão Azov. Na sequência da aprovação da Lei da Descomunização foram proibidos o Partido Comunista da Ucrânia (KPU), o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses Ucranianos e o Partido Comunista da Ucrânia Reconstruído. As restrições impostas à extrema-direita nunca saíram do papel, salvo numa ou outra operação cosmética do agrado da União Europeia.
A proibição de “partidos políticos pró-russos” é do âmbito de um processo mais vasto ao qual, habitualmente, se chama “ucranização”, uma tentativa de criar um “novo imaginário coletivo” consonante com a identidade necessária à ideia de Nação. Os “nacionalistas moderados” de Kiev, bem como os seus historiadores de maior notoriedade, não gostam da palavra. A razão é simples. Está associada à onda de violência da extrema-direita contra os russos étnicos, sobretudo, a partir da Euromaidan 2014, à qual se costuma chamar a Revolução da Dignidade. Foi ela, em larga medida, que levou aos movimentos autonomistas no Donbass e, posteriormente, à “operação militar especial de Putin”. A anexação da Crimeia foi justificada por motivos semelhantes, ou seja, o artigo 61º da Constituição da Federação Russa que garante aos seus cidadãos defesa e proteção fora das suas fronteiras. Há, naturalmente, um elemento adicional, que será abordado em novos apontamentos, e que é a ameaça existencial representada pela NATO.
Levada ao extremo, para já, dir-se-á que a conflitualidade étnico-linguística tem levado a Ucrânia a trilhar os caminhos da etnocracia. Abriu a frente de uma guerra cultural sem quartel vista por Kiev como um elemento primordial da sua identidade nacional.


Retrospetiva. Num importante livro de iniciação à geopolítica moderna, intitulado Prisioneiros da Geografia, o historiador e geógrafo Tim Marshal recorda que após a Revolução da Dignidade, em Maidan, 2014, “os tumultos rebentaram nas ruas de Kiev e as manifestações cresceram em todo o país” (p. 41), o que levaria à fuga do presidente Yanukovych. Marshall, acrescenta:
“Radiante com a vitória, o novo governo interino da Ucrânia fez, de imediato, algumas afirmações insensatas, uma das quais foi a intenção de abolir o russo como segunda língua oficial em várias regiões. Como essas regiões eram as que tinham mais falantes da língua russa e partidários pró-russos, e incluíam a Crimeia, era inevitável que esta atitude desencadeasse uma reação adversa,” (p. 41)
Isso mesmo é confirmado em Passar das Marcas de Owen Matthews, livro cuja recensão temos vindo a fazer. Segundo ele, a queda de Yanukovych deixou as populações russas iradas. Surgiram revoltas e levantamentos populares. Multidões saíram à rua em Lugansk, Kharkov, Odessa e Dnipropetrovsk ostentando cartazes onde se lia “Berkut-Sim!” (Berkut é a águia-dourada russa) e “Não ao fascismo!” Na Universidade de Donetsk proclamava-se: “Vocês tiveram a vossa Maidan em Quiive, esta é a nossa” (p. 125). No início de abril de 2014, “era claro que a autodeterminação local – se não o próprio separatismo e a guerra – tinha um forte apoio na Ucrânia Oriental e meridional” (p. 125). A seguir, Matthews dá exemplos de episódios envolvendo o crescente movimento independentista, cujos líderes são comparados, em testemunhos recolhidos no Donbass, a “bandidos” à frente de soldados do exército russo infiltrados. O mais conhecido, envergando sempre um uniforme impecável, era Igor Girkin, também conhecido por Igor Strelkov, “que se apresentava como um oficial czarista pré-revolucionário” (p. 127).
Girkin “baniu os palavrões da sua autointitulada ‘força de defesa local’ de mil homens e mandou executar dois dos seus próprios homens por terem feito pilhagens” (p. 127). Designou-se a si mesmo Ministro da Defesa da República Popular de Donetsk enquanto, de um lado e do outro, no Donbass,
“uma série de escaramuças militares inconclusivas entre rebeldes e as milícias ucranianas autónomas tornou cada vez mais óbvio que as áreas separatistas de Donestsque e Lugansque só seriam reconduzidas ao domínio de Quíive com uma intervenção militar integral” (p. 127).

Entre as “escaramuças” Matthews faz referência ao massacre de Odessa de 2 de maio de 2014. Evita, no entanto, utilizar a palavra massacre, fazendo prevalecer a ideia de um limbo de responsabilidades repartidas. Nas páginas seguintes, dá exemplos da composição das forças ucranianas:
“Combatendo lado a lado com o exército ucraniano oficial estava uma série de ‘batalhões de milícias do povo patriótico’ formados à pressa, que vinham de combatentes nacionalistas que tinha tido a sua primeira experiência em Maidan. Os ‘Batalhões’, como eram conhecidos, entraram em alguns dos primeiros e mais difíceis combates. Eram, em essência, exércitos privados. Alguns eram financiados por homens de negócios ucranianos como Ihor Kolomoisky, um prominente oligarca (e ativista judaico) de Dnipropetrovsque que apoiava um batalhão chamado ‘Dnipro 1’ e outro chamado ‘Batalhão Azove’ (que seria depois o Regimento Azove).” (p. 128)
De um modo geral, estes combatentes, financiados por oligarcas próximos de Petro Poroshenko, bilionário conhecido como ‘o homem dos chocolates” e presidente da Ucrânia entre 2014 e 2019, eram extremistas de direita ou, simplesmente, neonazis, como o Batalhão Ucrânia sob o comando de Oleh Lyashko, o qual, segundo Matthews, seria posteriormente descontinuado. Lyashko tinha o hábito de colocar vídeos nas redes sociais exibindo os seus interrogatórios e “(...) tornara-se conhecido por percorrer as cidades orientais numa carrinha blindada para raptar os presidentes das câmaras e andar com eles às voltas até concordarem em assinar um compromisso de lealdade ao governo de Quíive.” (p. 12)

O exposto é o bastante para ilustrar o extremar das posições e a consequente radicalização da guerra das representações simbólicas. Resta acrescentar que Lviv, até pelo seu histórico colaboracionista durante a II Guerra Mundial, tornou-se o principal bastião nacionalista. Grupos extremistas como o Svoboda e o Pravy Sektor, bem como as milícias armadas a eles associadas, tiveram um papel determinante na cidade em termos da mobilização pela “identidade nacional” contra a “influência russa”.
Hoje em dia, os investigadores e académicos ucranianos alinhados com regime, entre os quais aqueles a que temos vindo a fazer referência – Serhii Plokhy, Serhy Yekelchyk e Owen Matthews – consideram os episódios de violência supremacista perpetrados por ucranianos étnicos como fenómenos marginais. No seu entendimento, bem como no do Instituto da Memória Nacional da Ucrânia, o essencial é o “desmantelamento da herança colonial” e recuperação da “memória que foi apagada”. (Ver, na perspetiva de Kiev, Como a Memória dos Ucranianos foi Apagada in Ukraїner, 14 de dezembro de 2024, aqui.
5. “Ucranização” / “Descomunização”
A partir da Euro Maidan de 2014, a Cultura entrou em força nas contas da “ucranização” ou “descomunização”, consoante o ponto de vista. Leia-se: “ucranização” = promover os valores nacionalistas a qualquer custo; “descomunização”, na terminologia oficial = liquidar a cultura russa associada ao passado comunista. Na prática, apesar do estatuto legal da “descomunização”, não haverá grandes diferenças, salvo no plano semântico. A “ucranização” deu lugar ao Renascimento Cultural pós-Maidan.
O campo dos media mereceu da parte do Renascimento atenção imediata. As autoridades baniram estações de televisão russas, séries, filmes, livros, artistas, exposições e espetáculos. Criou-se um vazio que foi necessário preencher dando resposta às premissas impostas pelo regime. Na rádio foram estabelecidas quotas para a música ucraniana, restringindo-se drasticamente a música russa e tornando obrigatório o uso da língua nacional. Abriram-se as portas à censura. Foram encerradas diversas publicações, mas a imprensa oficial ou oficiosa beneficiou do reforço de títulos já existentes. Outros surgiram com o apoio da agência USAID a qual, em anos subsequentes, haveria de financiar centenas de media digitais e milhares de jornalistas.
Cinema. A prioridade, porém, foi para a produção de filmes com fundos da Agência Ucraniana do Cinema que obedecessem a requisitos como desenvolver a “consciência nacional” e os “sentimentos patrióticos”. Em função das medidas protecionistas adotadas pelo governo de Kiev, entre 2014 e 2019, a percentagem de exibição em sala de filmes ucranianos saltou de 1,7% para 8%. Em simultâneo, foi lançada uma campanha para expandir a sua distribuição no estrangeiro, designadamente no circuito dos festivais.
Neste particular, a Academia obteve resultados relevantes, sobretudo após o início da invasão russa em 2022. Conseguiu, por um lado, boicotar os filmes russos em diversos festivais europeus, entre os quais o Festival de Cannes, e, por outro, levar os filmes ucranianos, frequentemente coproduzidos em parcerias europeias, às respetivas secções competitivas. Beneficiou, e beneficia, igualmente, da creditação de delegações que funcionam como embaixadores da causa nacionalista.

Se a prioridade foi dada ao cinema, nem por isso as políticas do Renascimento Cultural deixaram de ser aplicadas às diversas áreas artísticas. Aliás, isso mesmo é reconhecido com fervor patriótico. As palavras de Marina Pesanti, diretora do Instituto Ucraniano de Londres entre 2015 e 2019, jornalista e especialista em diplomacia cultural, são esclarecedoras. Num artigo intitulado “Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” publicado no Atlantic Council de 19 de janeiro de 2021, escreveu:
“In 2014, Ukraine banned a range of Russian TV channels, TV series, and books, with particular attention given to content that sought to glorify Russia’s imperial past or denigrate Ukraine. Three years later, Ukraine went further and blocked a number of Russian social media platforms. Many of Russia’s leading pop stars and celebrities are also no longer welcome in Ukraine, with entry bans imposed in response to anti-Ukrainian positions or unsanctioned visits to Russian-occupied Crimea.” (Ler artigo completo, aqui)
Cultura: uma questão de segurança nacional. O artigo de Pesanti, largamente reproduzido nos media pró-ucranianos, designadamente no Kyiv Post de 20 de janeiro de 2021, sustenta que o Renascimento Cultural é uma trave mestra da resistência indissociável da identidade nacional:
“Over the past seven years, one of the most striking features of Ukraine’s response to Russian hybrid warfare has been the country’s remarkable cultural revival. This renaissance of Ukrainian culture has helped defend against Russian soft power influence and provided a counterweight to damaging Kremlin narratives designed to undermine Ukraine’s social cohesion.” (Ver aqui)



“Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” está em linha com o extenso relatório publicado no âmbito das atividades do think tank Chatham House, em 16 de novembro de 2020, onde se saúda a ofensiva cultural anti-Rússia. Esta, segundo Pesanti, ganhou novo ímpeto, em 2015, através das políticas levadas a cabo pelo Instituto Ucraniano da Memória Nacional. Para tanto, a autora considera essenciais as leis aprovadas pela Verkhovna Rada sobre a “descomunização”, bem como a exaltação do heroísmo e a luta de libertação. No relatório, intitulado Cultural Revival and Social Transformation in Ukraine, e sub-título, The role of culture and the arts in supporting post-Euromaidan resilience, afirma:
“The new laws mandated the opening of all archives, the removal of Soviet-related place names, symbols and monuments from public spaces, and the promotion of a new discourse of national history with an emphasis on heroism and the struggle for liberation.”
Admitindo que essas políticas produziram “a very mixed reception”, tendo conduzido não só à polarização do discurso público, mas, também, a limitações à liberdade de expressão, a autora manifesta-se, em todo o caso, a favor do cancelamento da cultura russa por “imperativo de ordem moral”. Releva, por isso, a importância de levar a cabo a revisão da História da Ucrânia durante o período soviético:
“Ukrainian artists and intellectuals challenged Russia-backed historical narratives about Ukrainian identity as a subset of the ‘Russian world’. They also increasingly engaged in more nuanced treatment of their country’s own history, willing to explore its darker chapters, such as collaboration with the Nazis during the Second World War or Ukraine’s participation in the soviet Project.”

Se textos de historiadores ucranianos como Plokhy, Yekelchyk e Matthews (ver Partes I, II e III destes apontamentos) estão em linha com a primeira frase da citação, convergindo, igualmente, em maior ou menor grau, na abordagem revisionista da relação da Ucrânia com a União Soviética, só residualmente se ocupam da colaboração com os nazis durante a II Guerra Mundial. Menos ainda da ação dos grupos de extrema-direita no pós-Maidan que levaria à perseguição dos russos étnicos. E quem enveredou pela investigação do papel dos movimentos, partidos e milícias neonazis, correu o risco enfrentar ameaças de morte, como sucedeu com a historiadora Marta Havryshko. (Ver Parte III destes apontamentos).
Algo de semelhante, porventura, outro exemplo da “very mixed reception” de que fala Marina Pesanti, sucedeu com Sergei Loznitsa, o mais conhecido cineasta ucraniano da atualidade, acusado de “cosmopolitismo” pela Academia de Cinema.
O episódio Loznitsa. Nascido na Bielorússsia, mas com nacionalidade ucraniana, tradutor da língua japonesa e estudos em Matemática Aplicada, Sergei Loznitsa tornou-se investigador de Inteligência Artificial no Instituto de Cibernética de Kiev. Em 1997, concluiu o curso de realização cinematográfica no Instituto de Cinema de Moscovo, o famoso VGIK, construindo, a partir de então, uma obra documental diversificada, distinguida em festivais de todo o mundo. Tem mais de 60 prémios e cerca de 80 nomeações.
O ponto de vista dos seus filmes - a título de exemplo, Maidan (2014), Donbass (2018) e A Invasão (2025) - é revelador daquilo em que acredita. Em declarações públicas, referindo-se a Funeral de Estado (2019), um documentário sobre as exéquias de Estaline feito unicamente com imagens de arquivo, disse algo do género: “Enquanto não se fizer a descomunização e enquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a história se repetir.” Foi mais longe. Em setembro de 2022, durante o Festival Internacional de Cinema de Veneza, disse que deveria ter havido uma espécie de tribunal de Nuremberga para julgar “os crimes do comunismo.”
Contudo, em 19 de Março de 1922, Loznitsa, acusado de “cosmopolitismo”, foi expulso da Academia de Cinema da Ucrânia. A diretora, Anna Machukh, alegou que o cineasta traíra as orientações oficiais:
“Since the beginning of Russia’s full-scale invasion of Ukraine, we have tirelessly called on the global film community to boycott Russian cinema. But Sergei Loznitsa publicly opposes this, thus denying the Russians’ collective responsibility for the war their country unleashed in Ukraine.”
No comunicado da Academia, pode ler-se: “(...) the countries of Europe and the whole world should have a complete and unambiguous picture of what the aggressor country is doing in Ukraine. Therefore, every Ukrainian is now the ambassador of his country.” Para Anna Machukh, aos agentes das indústrias criativas com reputação internacional é exigida responsabilidade acrescida, devendo as suas posições ser claras e inequívocas. Loznitsa seria reincidente:
“(He) repeatedly stressed that he considers himself a cosmopolitan, ‘a man of the world’. However, now, when Ukraine is struggling to defend its independence, the key concept in the rhetoric of every Ukrainian should be his national identity.”



Numa carta aberta à comunidade cinematográfica, a resposta do cineasta foi contundente:
“Speaking against ‘cosmopolitanism’, Ukrainian ‘academicians’ now use this Stalinist discourse, which is based on hatred, the denial of dissent, the assertion of colective guilt and a ban of any manifestation of free individual choice. Or are they against the philosophical tradition of Diogenes, Zeno, Kant and Voltaire? Are they against the values that uderline the culture and society of modern Europe, which they say they long for? I am compelled to speak in detail about the semantics of the term ‘cosmopolitan’ because, outside the former Soviet empire, the arguments given by ‘academicians’ are intelligible only to Sovietologists.” (mais dados sobre a polémica entre Loznitsa e a Academia, aqui)
O caso de Loznitsa - que continua a participar em iniciativas de apoio à causa nacionalista fazendo, inclusivamente, sessões especiais com os seus filmes - é apenas um entre muitos da vida cultural ucraniana. Em 2020, a nomeação de Marina Kuderchuck para dirigir a DerzhKino, agência estatal responsável por regular, apoiar e implementar as políticas do cinema foi particularmente controversa. Sem experiência comparável à de outros candidatos, Kuderchuck terá beneficiado da proximidade com o círculo do Presidente Zelensky. Durante o seu mandato enfrentou acusações de cineastas e outros agentes do setor por, alegadamente, dar prioridade aos “projetos patrióticos” relegando para segundo plano propostas com critérios mais artísticos.
Nos primeiros meses deste ano de 2026, a Academia de Cinema da Ucrânia voltou a estar em foco. Para além da já habitual pressão sobre a sua congénere americana no sentido de permitir uma alocução de Zelensky durante a cerimónia da entrega dos Óscares, insurgiu-se contra filmes que, em seu entender, fazem a apologia de Putin. À cabeça, está, surpreendentemente, O Mago do Kremlin (2025) de Olivier Assayas (recensão crítica do filme e reações, aqui). De seguida, foi o vencedor da estatueta para o Melhor Documentário de longa-metragem, Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin, a ser alvo da reprovação. Ambos os filmes são, em abono da verdade, críticos do líder russo. Finalmente, a Academia manifestou-se inconformada por quer o prémio para melhor documentário quer para melhor filme internacional não ter sido atribuído a 2000 Meters to Andriivka (2025) de Mstyslav Chernov, esse, sim, “um testemunho do heroísmo” do povo ucraniano. O realizador é o mesmo de 20 Dias em Mariupol.


O que se aplica ao cinema é igualmente recorrente em outras áreas artísticas. O denominador comum é sempre o mesmo, ou seja, o patriotismo vem primeiro. Nos próximos apontamentos far-se-á um apanhado das linhas gerais das políticas para a Cultura do regime de Kiev, nas quais o eixo da exaltação do heroísmo e da luta de libertação tem um papel central.
Continua com Ucrânia (Parte VI): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Exaltação do heroísmo e apropriação cultural.





















































