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NDR


Se as últimas semanas indiciam a escalada no campo de batalha e a subida de tom de Zelensky e dos seus aliados europeus, a verdade é que dão igualmente sinais do progressivo esboroar dos alicerces do regime de Kiev. A rebelião de alguns, em lugares-chave, até há pouco considerados indefetíveis do presidente, o avolumar dos casos de corrupção envolvendo o seu círculo mais próximo e um descontentamento social cuja visibilidade desmente o que alguns estudos de opinião ainda deixam entender, tudo isso, ligado à imagem de destruição generalizada, contribui para a fadiga da guerra que, inexoravelmente, se vai instalando. Daí a urgência do apelo de Kiev para que se abram negociações de paz, enquanto, por outro lado, se faz adensar a cortina de fumo mediática, numa tentativa de passar a ideia de que a Ucrânia está a ganhar a guerra. Não está. Nem sequer há um impasse. Está a perder. Mas é necessário dizer o contrário de modo a criar a ilusão de poder negocial quer de Zelensky quer das lideranças europeias já confrontadas com os custos da vertigem armamentista. Até ver, o mais sério aviso veio da Alemanha. Outros virão.


 

Soldados russos da Akhmat Spetsnaz (Forças Especiais Akhmat) na região de Belgorod, perto da fronteira com a Ucrânia. Foto: Goran Tomasevic / The Globe and Mail /NEWSWEEK
Soldados russos da Akhmat Spetsnaz (Forças Especiais Akhmat) na região de Belgorod, perto da fronteira com a Ucrânia. Foto: Goran Tomasevic / The Globe and Mail /NEWSWEEK

 

Quando Zelensky subiu ao palco na Assembleia Geral da Nações Unidas, sabia, melhor do que ninguém, que enfrentava a possibilidade de estar a chegar a um ponto de não retorno. Não terá deixado Nova Iorque com melhores expectativas. Por mais que lhe alimentem a quimera de uma vitória militar e lhe prometam mísseis Patriot, que dificilmente alguma vez chegarão, a situação na Ucrânia aproxima-se do desastre. Até Merz, que promete tudo, após a visita de 4 de outubro de 2026 a Kiev, parece ter começado a entender que o abismo está ao virar da esquina.


Dito isto, uma nota prévia. Este texto reúne três blocos de apontamentos de leitura complementar. O primeiro faz o resumo de episódios recentes reveladores das tensões crescentes no interior do regime ucraniano. O segundo remete para o exacerbamento da visão nacionalista cuja influência, por razões de sobrevivência, é agora clara. O terceiro é uma incursão no universo mediático, indissociável da barragem informativa que constrói o senso comum. Pelo meio, há considerações sobre as posições que a União Europeia tem vindo a tomar, bem como a recuperação de um artigo de Owen Matthews com elas relacionado. Salvo raras exceções, o que se segue está habitualmente ausente dos debates sobre a guerra na Ucrânia por omissão de quem os promove.

 

Sinais que chegam de Kiev

 

Milhares de vidas ceifadas na frente de combate. Milhares de pessoas em fuga sem destino. Milhões no estrangeiro, sobretudo em países europeus, mas também na Rússia ou em lugares improváveis que a sorte ou a falta dela escolheram. Drasticamente reduzida, a população ucraniana será agora não muito mais do que metade da constante dos censos do início do século. Daí, uma parte das razões da dificuldade de recrutamento militar. A outra parte é mais complexa. O apregoado patriotismo que alimenta a vontade de resistir já conheceu melhores dias. Quem foi obrigado a fugir na sequência da invasão russa raramente se manifesta disponível para se alistar nas forças armadas. Os jogos de máscaras, as coreografias protocolares, terão ainda impacto nas coberturas noticiosas, sobretudo, nas televisões, mas estão cada vez mais longe do quotidiano de quem sofre o inferno da incerteza e da morte.

 

Ferido por dentro, o regime de Kiev vacila. Guerras intestinas no seio dos serviços secretos irrompem à luz do dia com violência nas ruas da capital. Surgem potenciais candidatos à presidência, como Mykhailo Fedoorov, ex-Ministro da Defesa, que reclamam eleições. Manifestantes saem à rua contra Zelensky. Apesar dos desmentidos, prossegue o recrutamento forçado de homens que são apanhados nas ruas, metidos à força em autocarros e transportados para unidades militares de onde seguem diretamente para a frente de combate. É a busificação, extremamente impopular, que todos os dias suscita protestos nos lugares e cidades da Ucrânia (a título de exemplo, ver aqui).

 

Busificação, grafado em inglês como busification (do ucraniano busyfikatsia) serve para descrever a ação violenta dos agentes dos Centros Territoriais de Recrutamento. A palavra resulta da junção de busik, termo coloquial que designa as carrinhas e miniautocarros de vidros fumados utilizados nas operações, e isification que denota procedimento. Qualquer homem entre os 18 e os 60 anos pode ser detido e, não tendo os documentos em dia, metido à força num veículo e transportado para um centro de mobilização. Circulam pelas redes sociais numerosos vídeos de denúncia que conseguem escapar ao controle das comunicações. Em 2024, o Myslovo, dicionário colaborativo da língua ucraniana moderna, escolheu busification como palavra do ano. Os media ucranianos parecem desconhecê-la. A foto é de julho 2026, em Bilhorod-Dnistrovky. Foto: ANTIKOR
Busificação, grafado em inglês como busification (do ucraniano busyfikatsia) serve para descrever a ação violenta dos agentes dos Centros Territoriais de Recrutamento. A palavra resulta da junção de busik, termo coloquial que designa as carrinhas e miniautocarros de vidros fumados utilizados nas operações, e isification que denota procedimento. Qualquer homem entre os 18 e os 60 anos pode ser detido e, não tendo os documentos em dia, metido à força num veículo e transportado para um centro de mobilização. Circulam pelas redes sociais numerosos vídeos de denúncia que conseguem escapar ao controle das comunicações. Em 2024, o Myslovo, dicionário colaborativo da língua ucraniana moderna, escolheu busification como palavra do ano. Os media ucranianos parecem desconhecê-la. A foto é de julho 2026, em Bilhorod-Dnistrovky. Foto: ANTIKOR

 

À semelhança do que sucede na Federação Russa, opositores à guerra são alvo de apertada vigilância. No dia 10 de agosto de 2026, o Yabloko, um pequeno partido contra a guerra, foi proibido pelo Kremlin de participar nas eleições. Ainda assim, em função do sistema eleitoral, os seus aderentes puderam participar em listas uninominais. No mesmo dia 10 de agosto, na Ucrânia, o jovem trotskista de 27 anos Bogdan Syrotiuk, apesar de opositor de Putin e crítico da invasão russa, foi condenado a 15 anos de prisão por “alta traição”. O seu crime foi criticar as autoridades ucranianas pela opção da guerra, em prejuízo das negociações de paz, em artigos publicados no World Socialist Web Site (ver aqui). 



Em 10 de agosto de 2026 um tribunal ucraniano condenou a 15 anos de prisão Bogdan Syrotiuk. Ordenou igualmente o confisco dos seus bens e de materiais da sua organização, a Jovem Guarda dos Bolcheviques-Leninistas (JGBL). A condenação por “alta traição” assentou numa única prova: seis artigos publicados no World Socialist Web Site, aos quais foi anexado o registo das interações com os editores. Syrotiuk, detido pela primeira vez pelos serviços de segurança ucranianos (SBU) em 25 de abril de 2024 sob alegação de ser um agente do governo russo, interpôs recurso da sentença. Na foto, de abril de 2023, exibe um exemplar de uma antiga edição soviética do livro de John Reed, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, em que aparece uma imagem de Trotsky. Foto: World Socialist Web Site
Em 10 de agosto de 2026 um tribunal ucraniano condenou a 15 anos de prisão Bogdan Syrotiuk. Ordenou igualmente o confisco dos seus bens e de materiais da sua organização, a Jovem Guarda dos Bolcheviques-Leninistas (JGBL). A condenação por “alta traição” assentou numa única prova: seis artigos publicados no World Socialist Web Site, aos quais foi anexado o registo das interações com os editores. Syrotiuk, detido pela primeira vez pelos serviços de segurança ucranianos (SBU) em 25 de abril de 2024 sob alegação de ser um agente do governo russo, interpôs recurso da sentença. Na foto, de abril de 2023, exibe um exemplar de uma antiga edição soviética do livro de John Reed, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, em que aparece uma imagem de Trotsky. Foto: World Socialist Web Site


Acossado por dentro e por fora, pouco tempo antes, o regime de Kiev dera outro passo arriscado. Com o intuito de reforçar o apoio junto do núcleo duro dos nacionalistas, cuja componente militar é decisiva, acelerou a recuperação da memória não só de nazis ucranianos da II Guerra Mundial, mas também de elementos de milícias da extrema-direita ligados à violência étnica, designadamente, pogroms antissemitas. Uns e outros, por se terem batido pela independência da Ucrânia contra a URSS, passarão a integrar o futuro panteão dos heróis nacionais. Em maio de 2026 teve lugar a cerimónia de reabilitação do comandante do chamado Exército Insurgente (OUN), Andriy Melnyk, um dos responsáveis pelo massacre de Volínia. Na altura, Zelensky anunciou estar em curso operação semelhante em relação a outras figuras:

 

“We have already begun work to bring Yevhen Konovalets home, along with many other such Ukrainians. It is highly symbolic that our Ukrainian heroes of today, who have torn Ukraine out of Russian hands in this full-scale war – who have taken it back forever – will rest alongside Ukrainians of previous generations who also worked to ensure that Ukraine would be what it is, that Ukraine would be itself, that Ukraine would be free.”

 

Zelensky cumpriu a promessa. Numa ação coordenada com os serviços de segurança chefiados por Kyrylo Budanov e com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Swibiha, os restos mortais de Konovalets foram exumados em Roterdão e transladados para Kiev. A 18 de agosto de 2026, foram formalmente sepultados com as honras militares devidas aos heróis no cemitério do Memorial Militar Nacional. (Ver a página oficial da Presidência da Ucrânia sobre a reabilitação de Andriy Melnyk, aqui).


 Em 25 de maio de 2026, a página oficial da Presidência da Ucrânia publicou um texto com o título: “The President Took Part in the Reburial Ceremony of Andriy Melnyk and His Wife Sofia Fedak-Melnyk at the National Military Memorial Cemetery”. Estiveram presentes, além de Zelensky, alguns dos mais destacados dirigentes ucranianos. Tal como com Melnyk, o panteão nacional, que ficará situado junto do Mosteiros das Cavernas em Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), vai receber os restos mortais de Yevhen Konovalets, que é considerado pioneiro e militar mártir da independência da Ucrânia. Assassinado em 1938, em Roterdão, alegadamente por um agente de Estaline, Konovalets foi um destacado comandante dos Atiradores de Sich, milícia militar etnonacionalista da efémera República Popular da Ucrânia (1917-1919), que esteve na origem do OUN. FOTOS: 1. President of Ukraine | Volodymyr Zelensky | Official website; 2. Democràta; 3. Ukrainian World Congress.
Em 25 de maio de 2026, a página oficial da Presidência da Ucrânia publicou um texto com o título: “The President Took Part in the Reburial Ceremony of Andriy Melnyk and His Wife Sofia Fedak-Melnyk at the National Military Memorial Cemetery”. Estiveram presentes, além de Zelensky, alguns dos mais destacados dirigentes ucranianos. Tal como com Melnyk, o panteão nacional, que ficará situado junto do Mosteiros das Cavernas em Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), vai receber os restos mortais de Yevhen Konovalets, que é considerado pioneiro e militar mártir da independência da Ucrânia. Assassinado em 1938, em Roterdão, alegadamente por um agente de Estaline, Konovalets foi um destacado comandante dos Atiradores de Sich, milícia militar etnonacionalista da efémera República Popular da Ucrânia (1917-1919), que esteve na origem do OUN. FOTOS: 1. President of Ukraine | Volodymyr Zelensky | Official website; 2. Democràta; 3. Ukrainian World Congress.


Em apontamentos anteriores, dei nota de como milhares de monumentos comemorativos da vitória sobre o nazi-fascismo ou foram destruídos ou passaram por uma metamorfose que os transformou, no âmbito do chamado “Renascimento Cultural Pós-Maidan”, em símbolos patrióticos representativos do “novo imaginário coletivo” da Ucrânia. Na mesma direção segue a exaltação da “bravura” e da “luta de libertação” omnipresente nas políticas culturais do regime com o intuito de legitimar a “identidade ucraniana” (Ver Partes IV e V).

 

Exemplos paradigmáticos de “bravura” na “luta de libertação” são Andriy Biletsky e Denys Prokopenko. Fundadores do Batalhão Azov, ligados à perseguição de russos étnicos no período pós-Maidan, distinguir-se-iam, mais tarde, nos combates em Mariupol e no Donbass. Prokopenko chegou a ser feito prisioneiro pelos russos, sendo libertado graças à intervenção diplomática da Turquia. Zelensky promoveu ambos a oficiais de alta patente, atribuindo-lhes novas responsabilidades tanto no campo operacional quanto no da guerra comunicacional.

 

Dado o simbolismo da decisão, é relevante introduzir, a propósito de Biletsky, uma adenda a referências em textos anteriores. Tem por base a investigação publicada na Perspectives of Terrorism (PT) de setembro de 2024 da autoria de Ivan Katchanovsky e Max Abrahams. A PT é uma revista académica trimestral com revisão por pares e de acesso aberto. Fundada em 2007 com o objetivo de estudar o terrorismo, contraterrorismo e a violência política, está, hoje, sob a alçada do International Center for Counter-Terrorism (ICCT) em parceria com as universidades de Leiden e St. Andrews. A investigação tem por título Far-Right Political Violence in Ukraine: Assessment of the Donbass War and the Odessa Massacre.

 

Os autores consideram que a Federação Russa exagerou o papel dos grupos neonazis da Ucrânia com o objetivo de construir a narrativa que legitima a intervenção militar. Contudo, afirmam ser inequívoco o envolvimento desses grupos na guerra do Donbass e no Massacre de Odessa de 2 de maio de 2014: “Although the percentage of far-right supporters and fighters in Ukraine was relatively small, they exercised disproportionate influence in the country due to their greater reliance on violence and armed formations.” Isto é igualmente dito por historiadores ucranianos como Plokhy, Yekelchyk e Matthews. O problema é saber se a expressão eleitoral desses grupos, hoje, é proporcional à sua presença real na esfera político-militar. A resposta continua a ser não (ver Parte I). A influência que exercem através das suas principais figuras, que transitaram para formações políticas mais aceitáveis aos olhos dos aliados europeus, bem como as ideias que veiculam e as posições que ocupam, quer no aparelho de estado quer nas Forças Armadas, têm peso significativamente superior à expressão residual do seu eleitorado. De resto, só assim se justifica a razão de ser dos episódios mencionados.

 

Revisitemos o caso do Brigadeiro-General Andriy Biletsky, comandante do 3º Corpo do Exército, antes designado por 3º Corpo de Assalto. Biletsky tem um passado problemático. Foi dirigente dos Patriotas da Ucrânia e da Assembleia Social-Nacional (SNA) e não se limitou à ação nas investidas do Azov. Como referem Katchanovsky e Abrahams na investigação citada, também expressou o seu pensamento de forma inequívoca:

 

“He wrote that social nationalism is based on “Sociality, Racism, and Great Power.” Specifically, it is based on the ideas that the “white race” is “superior” to other races and is the foundation of the Aryan Ukrainian nation; the Ukrainian nation is a “blood-racial community”; and that “the historical mission of our Nation (…) is to head and lead the White Peoples of the world in the last crusade for their existence, a march against the Semitic-led subhumans.”

 

Biletsky continua a ser conhecido entre os ucranianos por “Líder Branco”. Tendo sido o primeiro comandante do Batalhão Azov, resultante da convergência dos Patriotas da Ucrânia e do SNA, defende hoje “uma Ucrânia militarizada para sempre” integrada, como “escudo protetor”, na União Europeia (ver Parte I). O símbolo do batalhão, agora parte da Guarda Nacional, é denominado “Ideia da Nação”, na verdade uma suástica estilizada com referências ao símbolo rúnico Wolfsangel das Waffen SS. Para quem qualifica o regime de Kiev como uma etnocracia, Biletsky surge como um dos seus rostos mais emblemáticos. Em setembro de 2026, veio a público assumir o comando da Operação Vivaldi, arquitetada pela Guarda Nacional e pelos serviços de inteligência com o objetivo de, por um lado, travar o avanço russo e, por outro, reforçar a guerra da comunicação. (O texto completo da revista Perspectives of Terrorism pode ser lido aqui).



 

Agora promovido a Brigadeiro-General, Andriy Biletsky voltou a ser objeto da atenção dos media ocidentais desde que assumiu o comando da Operação Vivaldi. Esta imagem de 7 de setembro de 2026 mostra-o em Sviatohirsk, na região de Donetsk, com a Igreja da Sagrada Assunção em fundo. Foi retirada de um vídeo divulgado pelos serviços de inteligência ucranianos com o intuito de desmentir a conquista da cidade anunciada pelo Kremlin. Foto: Kyiv Post
Agora promovido a Brigadeiro-General, Andriy Biletsky voltou a ser objeto da atenção dos media ocidentais desde que assumiu o comando da Operação Vivaldi. Esta imagem de 7 de setembro de 2026 mostra-o em Sviatohirsk, na região de Donetsk, com a Igreja da Sagrada Assunção em fundo. Foi retirada de um vídeo divulgado pelos serviços de inteligência ucranianos com o intuito de desmentir a conquista da cidade anunciada pelo Kremlin. Foto: Kyiv Post


O brigadeiro-General Denys Prokopenko, atual comandante do Agrupamento de Forças Azov, disse ao Ukrainska Pravda de 29 de fevereiro de 2025: "Whatever foreign politicians say, the front line should always have the last word." A declaração surgiu antes da promoção a oficial de alta patente. No novo posto tem manifestado reiteradamente a convicção de que a Rússia será derrotada militarmente. Não vê, aliás, outra solução. Licenciado em Filologia Românica, as suas raízes mergulham nos movimentos da extrema-direita de Kiev ligados ao sub-mundo das claques de futebol. Foi líder destacado dos White Boys Club do Dinamo de Kiev. Alto, atlético, louro e de olhos azuis, diversos grupos radicais europeus e dos Estados Unidos serviram-se da sua imagem estilizada – por vezes, sem conhecimento prévio dele próprio – como símbolo supremacista e ícone da estética Alt Right. Foto: 1st CORPS NGU “AZOV”
O brigadeiro-General Denys Prokopenko, atual comandante do Agrupamento de Forças Azov, disse ao Ukrainska Pravda de 29 de fevereiro de 2025: "Whatever foreign politicians say, the front line should always have the last word." A declaração surgiu antes da promoção a oficial de alta patente. No novo posto tem manifestado reiteradamente a convicção de que a Rússia será derrotada militarmente. Não vê, aliás, outra solução. Licenciado em Filologia Românica, as suas raízes mergulham nos movimentos da extrema-direita de Kiev ligados ao sub-mundo das claques de futebol. Foi líder destacado dos White Boys Club do Dinamo de Kiev. Alto, atlético, louro e de olhos azuis, diversos grupos radicais europeus e dos Estados Unidos serviram-se da sua imagem estilizada – por vezes, sem conhecimento prévio dele próprio – como símbolo supremacista e ícone da estética Alt Right. Foto: 1st CORPS NGU “AZOV”


Duplo pensar europeu. Nada disto parece afetar a liderança da UE. Tão pouco a generalidade dos media, quando muito disponíveis para uma nota de rodapé sobre um ou outro escândalo logo diluído no caudal de opinião em defesa de Kiev. Há assuntos tabu. Um deles, é o nacionalismo. Pertence ao passado. Contudo, se, por absurdo, os jornalistas se dessem ao trabalho de verificar, por exemplo, o que são as políticas culturais ucranianas, bem como os princípios em que se baseiam, teriam, certamente algumas surpresas desagradáveis. Para conforto das consciências, não se ouvirá falar de etnocracia.

 

Claro que os aliados de Zelensky sabem que a Ucrânia tem os seus problemas. De quando em vez, enquanto o fluxo do dinheiro escorre em quantidades inimagináveis, há um ou outro sobressalto, uma ou outra reprimenda. Já é impossível não falar em corrupção, posto que os colaboradores mais próximos de Zelensky vão caindo envolvidos em escândalos como peças de uma fileira de dominó. Um dos últimos, demitido a 14 de agosto de 2026, foi o Procurador-Geral Rusian Kravchenko, que se pôs em fuga. A norma europeia, porém, continua a ser varrer o lixo para debaixo do tapete. Há riscos? Haverá. É preocupante? Será. Mas o que é isso comparado com a “ameaça russa”?

 

Reféns da lógica transitada da Guerra Fria, convictos de uma pretensa “superioridade moral”, incapazes de lidar com a emergência de novos atores globais, confrontados, após a vassalagem prestada a Biden, com a imprevisibilidade de Trump, os líderes da União Europeia estão cada vez mais desunidos e desencontrados do mundo. Sem iniciativa diplomática, insistindo na via militar, revelam-se incapazes de, ao menos, refletirem sobre as consequências para a própria Europa do que seria, por exemplo, uma Rússia, com o seu gigantesco arsenal nuclear, fragmentada em repúblicas dominadas por máfias em guerras entre si, dando origem a sucessivas vagas de refugiados. Por sinal, Putin, após o descalabro da presidência de Boris Yeltisn, pôs travão a algo que ia nesse sentido abrindo caminho à estabilização das relações com a Europa, com vantagens recíprocas. Sabe-se o que aconteceu. Por pressão da administração americana, a questão da NATO viria evidenciar divergências geoestratégicas insanáveis, colocando a Ucrânia no epicentro de uma crise cujo desfecho se adivinha, a vários títulos, injusto e sombrio. 

 

Acresce que, ao assumir a retórica belicista em defesa dos princípios do direito internacional e dos direitos humanos, os dirigentes europeus caíram na situação paradoxal de negar ou relativizar esses mesmos princípios face às questões que mais ferem as consciências. Tratando-se da Palestina, do genocídio em Gaza e do Irão a dualidade de critérios é chocante. Tendo induzido a polarização afetiva, acriticamente amplificada pelo sistema mediático, Bruxelas conseguiu ganhar o senso comum e condicionar a opinião pública. Mas, acabará por beber do seu próprio veneno. Aliás, já está a beber. O avanço eleitoral das forças políticas que se opõem à guerra é notório. Parte é da extrema-direita, a qual, contando nalguns casos com o apoio de Moscovo, deve agradecer o seu sucesso, sobretudo, à EU pelas políticas neoliberais que implementa e se revelam incapazes de resolver os problemas dos cidadãos. Mas o descontentamento leva igualmente à gradual ascendência de movimentos e partidos pela paz, que agem em defesa dos serviços públicos e contra a deterioração das condições de vida que decorre dos gastos astronómicos em Defesa.

 

Para agravar a situação, onde não se vislumbram sinais de racional estratégico, abunda o recurso a incidentes. É o avião de Zelensky estacionado na Moldávia que, quando o presidente se preparava para viajar para a Noruega, ia sendo atingido por um drone russo. É o comboio onde Boris Johnson seguia de Kiev para a Polónia que foi bombardeado tendo o ex-primeiro ministro britânico escapado por pouco. Os exemplos são diários. Serão fake? Serão. Mas o que conta é a “ameaça russa”. À falência das lideranças, junta-se a falência do sistema mediático.

 


O avião de Zelensky foi “quase atingido” e o comboio de Boris Johnson foi atingido, mas o ex-primeiro ministro britânico foi “salvo” por uma mudança de horário. A primeira notícia é da CNN e a segunda do tablóide Sun. Com pequenas variantes, foram ambas replicadas em centenas de media ocidentais. Também foram objeto de escrutínio em plataformas alternativas. Le Média, por exemplo, é um canal independente de notícias online que, à semelhança de outros que vão surgindo, expõe a narrativa enviesada dos meios tradicionais.
O avião de Zelensky foi “quase atingido” e o comboio de Boris Johnson foi atingido, mas o ex-primeiro ministro britânico foi “salvo” por uma mudança de horário. A primeira notícia é da CNN e a segunda do tablóide Sun. Com pequenas variantes, foram ambas replicadas em centenas de media ocidentais. Também foram objeto de escrutínio em plataformas alternativas. Le Média, por exemplo, é um canal independente de notícias online que, à semelhança de outros que vão surgindo, expõe a narrativa enviesada dos meios tradicionais.

 


“A Ucrânia está a perder a Guerra”

 

O ponto de partida destas notas, foi a recensão de obras de historiadores ucranianos (ver as Partes I, II e III) em torno de um tópico central, o nacionalismo, com foco na Cultura, vista na Ucrânia como uma questão de segurança interna (ver Partes IV, V e VI). Um dos livros sobre os quais teci alguns comentários foi Overreach: The Inside Story of Putin and Russia’s War (Passar das Marcas: Os Bastidores da Guerra de Putin contra a Ucrânia) de Owen Matthews, jornalista e escritor britânico de origem ucraniana, que veio reiterar, nas páginas da revista semanal The Spectator, publicada em 7 de setembro 2026, que “A Ucrânia está a perder a guerra (Ukraine is losing the war”). O artigo, vindo de quem vem, constitui severo alerta.

 

Segundo diz, as visitas no início do mês dos emissários de Trump a Moscovo e Kiev, Jared Kushner e Steve Witkoff, poucos ou nenhuns resultados produziram. Putin tê-los-á recebido “sorridente”, mas o sorriso nada teria de amistoso. O líder do Kremlin simplesmente não iniciará negociações de paz enquanto o Donbass não for “libertado” e a Ucrânia “desmilitarizada” e “desnazificada”. Para Putin, “as razões profundas do conflito”, são históricas, portanto, não são negociáveis. Quanto à Crimeia, é um assunto encerrado.

 

É certo que a Ucrânia resiste. Desenvolveu sistemas de ataque na profundidade do território russo através da nova geração de drones Geran que podem destruir refinarias e uma parte das cadeias de distribuição como a Wildberries, a Amazon russa, o que, além dos danos causados, produz efeitos positivos na guerra comunicacional. Não inibem, porém, a ação militar de Moscovo. A Rússia incrementou o fabrico de sofisticados mísseis balísticos que podem ser lançados da terra e do ar. Na indústria militar atingiu níveis de produção nunca vistos. Longe de ser esmagada por sanções ou paralisada pelos ataques de longo alcance, a sua indústria de defesa expandiu-se ao ponto de 45% das receitas do estado serem destinados ao armamento. Ataques devastadores às infraestruturas das principais cidades ucranianas, como o de 8 de setembro de 2026, inviabilizaram numerosas vias de comunicação, bem como diversas redes de distribuição. Apesar de os ataques com drones em profundidade terem provocado uma crise de combustíveis na Rússia, Putin deixou claro que Moscovo suportará os custos de uma economia de guerra pelo tempo que for necessário. Matthews resume assim a situação:

 

“Para Putin, o conflito não trata de preservar a prosperidade, mas de defender a Rússia contra uma ameaça existencial. Ao mesmo tempo, Zelensky nutre ilusões semelhantes quanto às chances de a Ucrânia derrotar a Rússia – ou até mesmo, tragicamente, de deter os avanços lentos, mas imparáveis, do Kremlin. Mais importante ainda: à medida que Moscovo prossegue uma campanha implacável que torna as cidades ucranianas inabitáveis e destrói a economia do país roubando-lhe o futuro, a capacidade de Kiev de se defender suscita as mais sérias dúvidas.”

 

A vida nas cidades ucranianas, particularmente em Kiev, é um inferno para os seus habitantes. A foto é de 6 de julho de 2026 e mostra uma mãe a proteger a filha após um ataque com mísseis à capital ucraniana na véspera de uma cimeira da NATO. Foto: Genya Savilov / AFP
A vida nas cidades ucranianas, particularmente em Kiev, é um inferno para os seus habitantes. A foto é de 6 de julho de 2026 e mostra uma mãe a proteger a filha após um ataque com mísseis à capital ucraniana na véspera de uma cimeira da NATO. Foto: Genya Savilov / AFP


No artigo lê-se que a Ucrânia está à beira do seu momento mais crítico.  O primeiro-ministro, Serhii Koretsky, anunciou que Kiev já gastou a maior parte dos recursos destinados à defesa para 2026, enfrentando um colossal défice orçamental estimado em 26 mil milhões de euros, apesar do empréstimo recente da UE de 90 mil milhões de euros. Segundo Matthews: “À medida que a Ucrânia entra no inverno mais rigoroso e penoso da guerra, o país está prestes a ficar não apenas sem mísseis Patriot e sem efetivos nas linhas da frente, mas também sem recursos financeiros para continuar la guerra.”
No artigo lê-se que a Ucrânia está à beira do seu momento mais crítico.  O primeiro-ministro, Serhii Koretsky, anunciou que Kiev já gastou a maior parte dos recursos destinados à defesa para 2026, enfrentando um colossal défice orçamental estimado em 26 mil milhões de euros, apesar do empréstimo recente da UE de 90 mil milhões de euros. Segundo Matthews: “À medida que a Ucrânia entra no inverno mais rigoroso e penoso da guerra, o país está prestes a ficar não apenas sem mísseis Patriot e sem efetivos nas linhas da frente, mas também sem recursos financeiros para continuar la guerra.”


O pesadelo ucraniano, de acordo com Matthews, é, em parte, de natureza tática. A título de exemplo, a continuar assim, diz ele, a desproporção de meios será tal que a Ucrânia dificilmente conseguirá obter mísseis em número suficiente para proteger as suas cidades no próximo inverno. No entanto, a derrota da Ucrânia a que se vai assistindo lentamente é, sobretudo, de natureza estratégica e remete para um triplo fracasso por parte dos aliados europeus.

 

Em primeiro lugar, “o Reino Unido e a Europa exaltaram as sanções, ao mesmo tempo em que, na prática, enviaram muito mais dinheiro a Moscovo pelo pagamento de petróleo e gás do que o que forneceram a Kiev em ajuda militar.” Em segundo lugar, temendo uma escalada do conflito, suspenderam o envio para a Ucrânia de mísseis ofensivos, como o Taurus alemão, e recusaram partilhar os intersectores antimísseis, como os Patriot, optando por reforçar a sua própria defesa. Mas, o terceiro e mais grave fracasso, escreve Matthews, “é a recusa em considerar seriamente o engajamento do Kremlin em negociações de paz, bem como a ideia obstinada de que incentivar a Ucrânia a lutar – e lutar indefinidamente – levará, em razão de alguma fórmula mágica, à vitória.”

 

Em suma, as promessas do início da guerra de fornecer à Ucrânia "o que fosse preciso" e "pelo tempo que fosse necessário", como disse o presidente Biden em junho e novembro de 2022, e reiteradas, em Kiev, quer pelas lideranças europeias quer por todos os primeiros-ministros britânicos desde o tempo de Boris Johnson até ao atual inquilino de Downing Street, Andrew Burnham, acabaram por resultar no pior cenário possível. O Kremlin, “já propenso à paranoia, convenceu-se de que estava em guerra contra o "Ocidente coletivo."

 

Reiterando o que vai sendo do conhecimento geral sobre a situação interna da Ucrânia, Matthews recupera dados avançados por um medium que, na perceção ocidental, está acima de qualquer suspeita:

 

“... uma investigação do New York Times revelou que o sistema de compras militares da Ucrânia tem sido marcado por fraudes graves, desperdício e má gestão durante a guerra. Auditorias sigilosas indicam que, apenas em 2024, cerca de 1,2 mil milhões de dólares (900 milhões de libras) foram perdidos devido a pagamentos excessivos e contratos corruptos.”  

 

Na mesma linha de raciocínio, acrescenta:

 

“Como era de se esperar, pesquisas realizadas pelo SOCIS em agosto mostram que a maioria dos ucranianos considera a corrupção uma ameaça ao Estado mais grave do que a Rússia – e que quase 57% dos ucranianos responsabilizam Zelensky pela prevalência da corrupção, um índice quase duas vezes maior do que o registado em pesquisa semelhante realizada em abril de 2025.”

 

O SOCIS - Centro de Estudos Sociais e de Mercado - com sede em Kiev, o mais antigo e prestigiado centro de sondagens da Ucrânia, não está isolado nos estudos de opinião desfavoráveis a Zelensky. O SOCIOPOLIS – Centro de Tecnologias Sociais, igualmente com sede na capital, num estudo realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026, mostra que na eventualidade de uma segunda volta em eleições presidenciais, o General Valerii Zaluzhnyi, antigo Comandante-em-Chefe das Forças Armadas e atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido, venceria por larga vantagem qualquer outro candidato, incluindo Zelensky. Zaluzhnyi é visto como um homem próximo do MI 6, os serviços secretos britânicos.



SOCIOPOLIS. Estudo de opinião realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026. FOTO: SOCIOPOLIS
SOCIOPOLIS. Estudo de opinião realizado entre 16 e 21 de setembro de 2026. FOTO: SOCIOPOLIS

 


Sondagem do Kyiv International Institute of Sociology (KIIS) realizada entre 11 e 21 de setembro 2026 pulicada no Kyiv Post. Foto: Kyiv Post
Sondagem do Kyiv International Institute of Sociology (KIIS) realizada entre 11 e 21 de setembro 2026 pulicada no Kyiv Post. Foto: Kyiv Post


Televisão | media na linha da frente | crise do senso comum

 

Creio ser consensual que a opinião maioritária veiculada pelos media ocidentais está alinhada com a NATO, a União Europeia e o regime de Kiev. Pela veemência argumentativa, em grande parte determinada por uma visão pré-concebida do mundo, Portugal ocupa um lugar na linha da frente desse combate simbólico. Nos canais de notícias das televisões sucedem-se os comentadores afinados pelo mesmo diapasão. Há, contudo, à margem do coro, as exceções que, sendo necessárias à legitimação do sistema, evitam a cartilha e procuram fazer uma análise mais abrangente, introduzindo variáveis menos habituais. Se bem que minoritário, esse outro comentário é útil, posto que permite equacionar perspetivas diferenciadas. Afasta-se do dogma que tanto cristaliza o pensamento para alimentar o determinismo moral quanto promove a cegueira das indignações.

 

O comentário reiterativo. Na prática, o comentário dominante é, essencialmente, uma peça do xadrez da guerra da comunicação. Para desviar as atenções do desastre anunciado, dando asas à efabulação, recorre frequentemente à hipérbole. Constrói realidades paralelas reciclando em looping a fórmula do “agressor” e do “agredido”. Exalta, na persona de Zelensky, o combate pela “independência”, “democracia” e “liberdade”, em suma, o “modo de vida ocidental”. Nem sequer pode dizer-se que ignora a perceção russa da guerra porque, simplesmente, olha para ela em função de um enviesamento há muito interiorizado. A Rússia é o mal. Ponto. Por via de derivas especulativas e considerações abonatórias envereda, sem travão, por aquilo a que chamo o comentário reiterativo, do qual se espera o efeito de bola de neve, ou seja, o processo dinâmico de fazer crescer a mensagem de forma exponencial convocando a repetição e promovendo a partilha.

 

Ainda assim, sob pena de deixar cair a máscara, não pode ficar totalmente indiferente aos sinais que chegam da Ucrânia. Como procede? Levanta biombos. Valoriza o acessório e desqualifica o essencial. Acantonado na trincheira da “ameaça russa”, coloca, por um lado, o ponto de mira nas dificuldades do inimigo, sejam elas o problema dos combustíveis nas grandes cidades da Federação, o descontentamento “crescente” da população, “a farsa das eleições” ou os bastidores conspirativos do Kremlin, enquanto glosa, por outro lado, em diferentes escalas, a partitura da “extraordinária resiliência do povo”, bem como os feitos no campo militar, sejam os ataques em profundidade com drones no território russo, seja a reconquista de posições no Donbass como sucede, agora, com a Operação Vivaldi. Descodificando, quer isto dizer que se os centros de decisão político-militar da Ucrânia e dos seus aliados avançam com construções mediáticas destinados a reforçar as ilusões necessárias, o comentário televisivo acompanha e inflaciona essas mesmas informações. Trata-se de manter o indispensável exército do senso comum sem o qual é impossível respaldar a justeza da guerra. Face ao evidente esboroamento da situação, o comentário dominante torna-se proclamatório.

 

Vejamos dois exemplos, muito diferentes, do efeito bola de neve no espaço mediático. O primeiro, respeita a Portugal na linha do que tem sido dito a propósito do comentário televisivo. O segundo, no plano global, tomando como referência os jornais. Ambos resultam daquilo a que se chama agenda-setting, a qual determina os temas da ordem do dia destinados a fazer caminho na formação da opinião pública, seja através das notícias selecionadas seja pela delimitação do espaço do debate. O primeiro obedece a um princípio básico do condicionamento cognitivo segundo o qual, observada a garantia de um casting adequado, uma notícia é tanto mais notícia quanto mais é comentada. O segundo, remete para o chamado efeito de ondulação, o ripple effect, por vezes, também, chamado efeito de contágio. São coisas diferentes, em todo o caso, compreensíveis através de uma analogia que serve a ambos. Quando se observa o impacto de uma pedra num lençol de água surgem pequenas ondas que vão alastrando em círculos concêntricos. Assim sucede, também, com informações plantadas nos media, incluindo as redes sociais.

 

O primeiro exemplo remete para o uso retórico da mencionada Operação Vivaldi. Lançada em setembro de 2026, alegadamente com o objetivo de suster o avanço russo e reconquistar território, designadamente no Donbass, foi pensada para ser o novo mantra televisivo. Quem, como eu, tiver o hábito de frequentar os media ucranianos ficará com a sensação de ter sido preparada uma ação discreta, todavia, desconcertante e, por isso, eficaz. Leiam-se o Kyiv Independent ou o New Voice of Ukraine. Do que se lê – e vê em diversos vídeos – resulta que a tropa ucraniana impôs no terreno uma nova forma de guerra. Destruiu a “pinça norte” com a qual a Rússia procurava fechar o cerco às cidades fortaleza de Sloviansk e Kramatorsk, abateu dois mil soldados russos, recuperou 125 km2 de território e fez 250 prisioneiros, uma proeza tanto mais notável quanto é dito que os grupos de combate envolvidos atuam com apenas quatro ou cinco elementos cada um. Outro feito de enorme ressonância – “uma estreia mundial” – foi a introdução de drones pesados que lançaram robôs kamikazes atrás das linhas russas, fazendo prova da superioridade da Ucrânia na guerra tecnológica - este é já o campo da ficção científica do qual o programa dominical “Correspondente de Guerra” do jornalista da CNN Sérgio Furtado se fez eco. No conjunto, assevera-se, até os bloggers russos, habitualmente pró-guerra e pró-Putin, carregaram nas tintas verberando a incompetência das suas forças armadas. Tudo isto é replicado em crescendo pelos praticantes do comentário reiterativo.  

 

 

Nuno Rogeiro, ao princípio da tarde, domingo, 20 de setembro de 2026, explica na SIC os contornos da Operação Vivaldi sob o comando do Brigadeiro-General Andriy Biletsky. Depois disso, a SIC voltou ao assunto por diversas vezes.
Nuno Rogeiro, ao princípio da tarde, domingo, 20 de setembro de 2026, explica na SIC os contornos da Operação Vivaldi sob o comando do Brigadeiro-General Andriy Biletsky. Depois disso, a SIC voltou ao assunto por diversas vezes.

 

Segunda-feira, 28 de setembro, Germano Almeida, “especialista NOW em Geopolítica”, depois de condenar mais um ataque russo a Kiev, garante ventos de feição para a Operação Vivaldi. O canal tem diversos comentadores residentes a declinar o tema, entre eles o “analista internacional” Ireneu Teixeira, figura de um programa de informação sui generis no panorama audiovisual.
Segunda-feira, 28 de setembro, Germano Almeida, “especialista NOW em Geopolítica”, depois de condenar mais um ataque russo a Kiev, garante ventos de feição para a Operação Vivaldi. O canal tem diversos comentadores residentes a declinar o tema, entre eles o “analista internacional” Ireneu Teixeira, figura de um programa de informação sui generis no panorama audiovisual.

 

Terça-feira, 29 de setembro, o Major-General Isidro de Morais Pereira, outro “especialista NOW em Geopolítica”, comenta lacónica, mas indignadamente, mais um dia de ataques devastadores das forças armadas russas a diversas cidades ucranianas, entre as quais a capital, Kiev. Em contrapartida, responde elaboradamente, com base em “informações ucranianas”, à pergunta: a Operação Vivaldi pode mudar o rumo da guerra? Ouvindo-o, tudo leva a crer que sim.
Terça-feira, 29 de setembro, o Major-General Isidro de Morais Pereira, outro “especialista NOW em Geopolítica”, comenta lacónica, mas indignadamente, mais um dia de ataques devastadores das forças armadas russas a diversas cidades ucranianas, entre as quais a capital, Kiev. Em contrapartida, responde elaboradamente, com base em “informações ucranianas”, à pergunta: a Operação Vivaldi pode mudar o rumo da guerra? Ouvindo-o, tudo leva a crer que sim.
Nuno Rogeiro na SIC, ao princípio da tarde, domingo, 11 de outubro 2026 declara que a Operação Vivaldi, “para surpresa dos próprios ucranianos”, está a ultrapassar todas as expetativas. Segundo ele, “a Ucrânia sob pressão... avança”.
Nuno Rogeiro na SIC, ao princípio da tarde, domingo, 11 de outubro 2026 declara que a Operação Vivaldi, “para surpresa dos próprios ucranianos”, está a ultrapassar todas as expetativas. Segundo ele, “a Ucrânia sob pressão... avança”.


A Operação Vivaldi, como é óbvio, combina o âmbito militar com o domínio da narrativa. Ao observá-la de diferentes ângulos, introduzindo, designadamente, a variável do contexto, a análise do conteúdo manifesto das mensagens que lhe estão associadas deixa perceber que o conteúdo latente remete, essencialmente, para uma ação de propaganda. É disso que se trata. Lançada num momento em que a Ucrânia se encontra numa fase crítica, seja do ponto de vista da defesa, com as cidades devastadas e as populações aterrorizadas, seja por se encontrar numa situação financeira que não lhe permite sequer fazer face às despesas correntes do estado, a Operação Vivaldi foi feita coincidir, não por acaso, com a Assembleia Geral da ONU onde Zelensky discursou a 23 de setembro. Com encontro agendado com Trump, Zelensky utilizou o palco das Nações Unidas para coreografar uma posição negocial reforçada pelos resultados na frente militar, dando a entender estar em condições de recuperar os territórios do Donbass já reconhecidos pela Federação Russa como repúblicas independentes. Simultaneamente, tratou de reclamar novos empréstimos junto dos aliados, posto que, em seu entender, a luta da Ucrânia é a chave da defesa do ocidente. Pelo meio, não deixou de fazer um apelo dramático em nome da paz que só ainda não se concretizou, segundo disse, por causa de Putin.

 

Entretanto, continuou – e continua – a fazer-se o elogio da ação miliar de Andriy Biletsky, ele próprio exibido nas televisões. Ícone nacionalista, aparece confiante, exalando uma bravura serena e fazendo passar a ideia de que a Operação, sendo discreta, é contundente. Longe de observar a distância prudente, o comentário reiterativo tratou de proclamar uma ação militar inovadora, baseada no efeito de surpresa, tecnologicamente inédita, eventualmente, delineada pelo próprio Biletsky, portanto, com marca de autor. Tal como a famosa composição As Quatro Estações do veneziano António Vivaldi, mestre do barroco italiano, também a operação seria desenvolvida em quatro fases distintas consoante a época do ano. Sabendo-se o quanto as políticas culturais identitárias, com pontes reais ou imaginárias para o cosmopolitismo, são uma questão de vida ou de morte para o nacionalismo ucraniano (ver Parte VI destes apontamentos), a designação quadra bem com os requisitos de uma peça de guerra comunicacional sofisticada dirigida, essencialmente, a líderes de opinião. Serão eles os portadores da boa nova procurando contrariar a inflexão negativa das perceções que vai surgindo na batalha pelo senso comum.



Zelensky com militares da Operação Vivaldi algures na periferia de Lyman em 30 de setembro. Foto: AFP
Zelensky com militares da Operação Vivaldi algures na periferia de Lyman em 30 de setembro. Foto: AFP

 

Outro exemplo do efeito de bola de neve, diferente do anterior quer pelo método quer pelo modo de propagação, remete para a edição do NYT de domingo, dia 6 de Setembro de 2026. Nesse dia há um artigo intitulado Putin Denies a Draft is Coming, but Some Russian Men Are Taking no Chances da autoria do correspondente em Moscovo Ivan Nechepurenko, antigo jornalista do Moscow Times, hoje, por sinal, com sede em Amesterdão. O artigo refere dificuldades de recrutamento na Rússia, associadas à oposição à guerra, e sugere a possibilidade de uma mobilização geral. Como se sabe, a norma na Federação Russa é os soldados serem contratados em regime de voluntariado. Sentindo-se ameaçado, Putin, segundo Nechepurenko, estaria a equacionar medidas drásticas, o que, em tese, será uma possibilidade real (ver o artigo completo do NYT, aqui).

 

Na verdade, como também será do conhecimento geral, é a Ucrânia, não a Rússia, que tem problemas de recrutamento. Com a população reduzida a pouco mais de metade da de 2022 e mais de oito milhões de pessoas na diáspora, por mais que recorra à busificação, não encontra soluções satisfatórias. Apesar do patriotismo e resiliência apregoados, poucos são os que vindos de fora se apresentam para combater. Acresce que há deserções em números preocupantes e que o recurso a tropa mercenária é cada vez mais frequente. São factos reconhecidos pelas autoridades como, de resto, provam os acordos celebrados com a União Europeia com vista à devolução, em determinadas circunstâncias, de cidadãos ucranianos a viver no exterior para servirem na Guarda Nacional.

 

Em todo o caso, o artigo do NYT prossegue uma linha argumentativa cuja intenção é calibrar as perceções. Ao atribuir a uma das partes aquilo que é, afinal, uma das preocupações mais dramáticas da outra, equilibra os pratos da balança. Dito de outro modo, se a Ucrânia tem problemas, a Rússia também os tem, porventura, até em maior escala. Publicado num jornal de referência, o artigo foi declinado de múltiplas formas. Entrando na agenda, o tema tornou-se obrigatório. Como sempre acontece, as ondas de difusão chegaram longe. Um exemplo entre centenas respeita ao Winnipeg Free Press, quotidiano da cidade de Winnipeg, em Manitoba, Canadá, que na sua edição de 13 de setembro de 2026, deu à estampa um texto de Dasha Litvinova, da Associated Press, intitulado Some Russians are fleeing abroad, citing draft fears and a loss of freedom (ver aqui). O artigo, dando voz a um protagonista, valoriza o chamado fator humano. Foi ilustrado com a foto abaixo. A legenda é a original em inglês.

 


“A 28-year-old digital content marketer who decided to leave Russia stands near his packed belongings at the railway station in Krasnodar, Russia, on Saturday, Aug. 29, 2026. He asked not to be identified because of security concerns.” Foto: AP
“A 28-year-old digital content marketer who decided to leave Russia stands near his packed belongings at the railway station in Krasnodar, Russia, on Saturday, Aug. 29, 2026. He asked not to be identified because of security concerns.” Foto: AP

Condicionamento e senso comum. No processo de comunicação, após fases mais ou menos prolongadas de aceitação de um ponto de vista, inclusivamente, abrindo lugar à crença, há sempre lugar, em maior ou menor grau, para a mudança de opinião. É um processo lento que obedece a razões complexas de vária ordem. São, todavia, razões compagináveis numa equação simples. Reportando à guerra na Ucrânia, ainda que genuinamente indignadas, afetivamente condicionadas ou intelectualmente motivadas, as pessoas entrarão, cedo ou tarde, em rota de colisão com construções mediáticas da realidade que não colam com o que vai ganhando contornos de evidência. Instalada a dúvida, são necessários ajustamentos não só na agenda, compelida a lidar com situações não desejadas, mas também no domínio da narrativa. Não é uma tarefa fácil e, diga-se em abono da verdade, vale para ambos os lados do conflito.

 

Em 2 de junho de 2026, Moscovo lançou sobre a capital ucraniana uma ofensiva aérea de uma escala sem precedentes. Visando, sobretudo, instalações militares, depósitos de armamento, sistemas de defesa aérea e infraestruturas energéticas, o ataque deu lugar a uma destruição massiva e causou um elevado número de baixas civis. Os comentadores reiterativos das televisões reagiram com um coro de indignações, sem perceberem que a guerra tinha entrado numa nova fase. Mais disponíveis e menos entrincheirados teriam levado a sério as declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Com efeito, na sequência do ataque com drones ao Colégio de Starobilsk da Universidade Pedagógica de Luhansk que vitimou 21 jovens com idades compreendidas entre os 14 e 22 anos e fez mais de 60 feridos, Moscovo avisou que o morticínio de 22 de maio 2026, considerado deliberado, teria uma resposta contundente. E teve. Não descurando nem a linha da frente – onde se desenvolve a Operação Vivaldi – nem a defesa do território anexado, apesar das perdas em vidas humanas, enveredou por violentos bombardeamentos a pontos nevrálgicos das principais cidades com a destruição sistemática das infraestruturas necessárias à vida quotidiana.

 


Vítimas do ataque ucraniano ao Colégio de Starobilsk. Este memorial foi amplamente reproduzido na Federação Russa e em países alinhados como alerta para um crime de guerra. Nos países da União Europeia a maior parte das parcas referências sugeriam a possibilidade de uma ação de propaganda russa. Foto: Russian Embassy in India
Vítimas do ataque ucraniano ao Colégio de Starobilsk. Este memorial foi amplamente reproduzido na Federação Russa e em países alinhados como alerta para um crime de guerra. Nos países da União Europeia a maior parte das parcas referências sugeriam a possibilidade de uma ação de propaganda russa. Foto: Russian Embassy in India


Na madrugada de 2 de Junho, durante o bombardeamento de Kiev, milhares de pessoas de Kiev buscaram refúgio nos subterrâneos do metropolitano. Desde então, é uma situação que se repete diariamente. Foto: Reuters
Na madrugada de 2 de Junho, durante o bombardeamento de Kiev, milhares de pessoas de Kiev buscaram refúgio nos subterrâneos do metropolitano. Desde então, é uma situação que se repete diariamente. Foto: Reuters

 

É este o cenário atual, antecipado por Owen Matthews, que potencia a eventualidade da mudança de opinião. Não porque se mude de lado, mas porque se começam a perceber contornos mais realistas da situação. Os termos de um acordo de paz inclinam-se cada vez mais para as condições que a Federação Russa quiser impor. Como escreveu o escritor e jornalista britânico, cada nova proposta tem sido pior para Kiev do que a anterior. É isso a que temos assistido. A intenção de Putin parece clara, desferir um golpe final brutal contra as cidades ucranianas antes de encerrar a guerra nos seus próprios termos. Planeada para ser o leitmotiv do comentário durante quatro estações, dificilmente a Operação Vivaldi, dadas as novas características da guerra, voltará a ter a centralidade comunicacional pretendida. Para agravar a situação, Trump veio dizer sem meias palavras que Zelensky deve ser substituído. De imediato, responsáveis da NATO apareceram “de surpresa” em Kiev. Para quê?     

 

Colocam-se numerosas outras interrogações. Estou em crer que o comentário televisivo dominante, reiterativo, irá resvalar para uma nova fase de radicalização proclamatória. Como sempre, fará por desviar as atenções das dificuldades e alimentar fantasias do tipo “até ao último ucraniano”. Poderá alterar o modo de dizer, mas observando o ponto de vista estratégico da ordem velha. Poderá recorrer ao casting de novos intérpretes, porventura mais jovens, mas nem por isso criará a ilusão de novas dinâmicas. A história será a mesma de sempre. Como dizia o sobrinho do Príncipe de Salina em Il Gattopardo de Tomasi di Lampedusa, Tancredi Falconeri: "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."


A tragédia segue dentro de momentos. O senso comum, não sabemos. E pur si muove.

 


Kiev, 6 de Julho 2026. Foto: Canberra Times.
Kiev, 6 de Julho 2026. Foto: Canberra Times.

 

 

CONTINUA

 

 

 
 
 

 

O nacionalismo é uma questão de vida ou de morte para o regime de Kiev. Na sequência da lei da descomunização aprovado pela Rada em 9 de abril de 2015, a seguir à chamada Revolução da Dignidade, a Ucrânia iniciou um conjunto de práticas com vista a eliminar os sinais da cultura russa. Proibiu ou limitou o uso da língua e demoliu ou alterou o significado de milhares de monumentos históricos. Milícias e grupos de extrema-direita envolveram-se em perseguições que culminaram, frequentemente, em episódios sangrentos. O massacre de Odessa foi um deles. Com o apoio da Federação Russa, os movimentos separatistas ganharam força. Surgiram as repúblicas autónomas no Donbass. A partir de 2022, a questão da identidade tornou-se o epicentro da batalha ideológica. Exaltando o heroísmo e o passado mítico através da lente de um revisionismo histórico sem precedentes, a chamada Revolução Cultural pós-Maidan, quando não destruiu, tratou de proceder à apropriação conveniente da cultura russa ou soviética. Começou uma corrida contra o tempo.

 

Em apontamentos anteriores, cujo ponto de partida foi a obra de historiadores nacionalistas ucranianos – A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História (2023) de Serhii Plokhi; Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber (2020) de Serhy Yekelchyk; Passar das Marcas (2022) de Owen Matthews –, há ampla informação adicional sobre a questão cultural, as mais das vezes de origem oficial ou oficiosa. (Ver aqui)

 

Acrescentaria o seguinte. Entre 2024 e 2026 o governo de Kiev introduziu medidas drásticas visando a “desrussificação” ou “descolonização” do imaginário coletivo. Foi dada prioridade à Educação como arma contra a ocupação ideológica. Em setembro de 2025, a língua e literatura russas ou foram liminarmente banidas das escolas ou reduzidas a atividades extracurriculares residuais. Falar ucraniano nos estabelecimentos de ensino passou a ser não só obrigatório, mas também um sinal de lealdade cívica e patriótica. Hoje, as autoridades sustentam que 48 por cento da população escolar já se exprime exclusivamente em ucraniano, apesar da resistência em alguns lugares, entre os quais, Kiev. Dos novos manuais escolares foram eliminadas as referências à ideia de fraternidade entre os povos do período anterior e, em seu lugar, surgiu a glorificação dos heróis da resistência à ocupação soviética. O treino militar para crianças, à semelhança do que, de resto, também existe em escolas da Federação Russa, passou a fazer parte dos planos curriculares. Todavia, esta prática, nem sempre divulgada, é anterior à invasão de 2022. Do lado ucraniano, ficaram célebres os campos de férias do Batalhão Azov. Do lado russo, no seguimento das perseguições étnicas pós-Maidan, os separatistas do Donbass deram início a algo de semelhante. Uma peça de 2017 da insuspeita Radio Free Europe - Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, é reveladora. A primeira parte é sobre a participação de crianças em campos de Verão do Batalhão Azov. A segundo, a servir de contraponto, é sobre treino militar dado a crianças russas. Se fosse feita hoje seria, por certo, bastante diferente. (Ver, aqui)

 

Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  
Até agosto de 2017 mais de 850 crianças ucranianas participaram em campos de Verão do Batalhão Azov onde receberam treino militar. Dada a orientação neo-nazi do Azov - na altura já integrado na Guarda Nacional - a cobertura levada a cabo por jornais como The Guardian levantou uma onda de preocupações na Europa. Hoje em dia, as crianças aprendem nas escolas a identificar explosivos, manusear armas, pilotar drones e técnicas de primeiros socorros. Por razões patrióticas, o treino militar faz parte dos planos curriculares. Foto: Efrem Lukatsky / AP  

 

 

A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 
A doutrinação de crianças russas numa escola da pequena localidade de Karabash, nos Montes Urais, é o tema de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. Apesar de ser crítico de Putin e da sua “educação patriótica”, o filme foi recebido com reservas pela generalidade dos media ucranianos. Aponta-se-lhe simpatia pela situação dos russos comuns quando se deveria responsabilizá-los por cumplicidade com a guerra de agressão. O Kyiv Independent, por exemplo, considerou o vencedor do Oscar e do Bafta para o documentário de 2016, analiticamente evasivo. Imagem: Still de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin. 

 

Dito isto, vejamos como o nacionalismo ocupa um lugar central nas políticas culturais da Ucrânia, com destaque, mais à frente, para as questões relativas à apropriação de autores e obras russas que passaram a ser considerados como património ucraniano. Começamos por recuperar Marina Pesanti (Ver, aqui), a especialista em diplomacia cultural citada nos apontamentos anteriores:

 

“In response to Russia’s military interventions in 2014, Uktraine’s cultural and creative sectors promoted national unity and sought to counteract the divise effects of Russian cultural influence in the country. Legislative reforms and policy initiatives included the establishment of state agencies such as the Ukrainian Cultural Foundation, The Ukrainian Institute and the Ukrainian Book Institute, as well as the restructuring of pre-existing innstitutions such as the Ukranian State Film Agency. These four bodies, in particular, became key providers of the cultural sector.”

 

 

6. Um novo imaginário coletivo: Heroísmo e Luta de Libertação 

 

Ponto prévio: em termos formais, o modelo cultural ucraniano identifica-se com o que existe, grosso modo, na União Europeia. Nesse aspeto, o texto de Marina Pesanti, até por ser de carácter institucional, é muito claro. Desde logo, para além das questões ideológicas, releva-se a dimensão económica. Em 2014, diz Pesanti, a Cultura terá sido responsável por quatro por cento do PIB ucraniano, bem como pela criação de 3,2 por cento dos empregos em setores como o cinema, radiodifusão, tecnologias da informação e comunicação, moda, design, fotografia, publicidade e relações públicas. A partir desse ano, sobretudo com o apoio de programas e especialistas europeus, surgiram empresários que desenvolvem parcerias com o intuito de fomentar as indústrias criativas. Em 2018, foi promulgada a Lei para a Cultura vista como uma atividade económica capaz de gerar valor acrescentado através da expressão artística. Assim, segundo Pesanti:


“The concept of a ‘national cultural product’, defined as the totality of ‘goods and services’ produced ‘to cater to citizens’ cultural needs’, has gained traction in the national cultural policy discourse. This has been accompanied by growing consumption of Ukraine-made clothes, furniture, souvenirs, books and films, as well as by increased popular attendance at cultural events.”


Lviv, na região da Galicia, a mais nacionalista das grandes cidades ucranianas, foi o laboratório natural para implementar experiências que pudessem ser replicadas noutros locais. Com passado de colaboração nazi, bem como de feroz resistência anti-soviética, Lviv tem uma intensa vida cultural ligada aos valores mais tradicionais. Em 2020, as autoridades da cidade criaram um programa que arrancou com 20 projetos em áreas cobrindo tópicos diversificados. Entre eles, a Educação, a Memória e a História Urbana:


“The city (...) established the Lviv City Culture Fund, a vehicle to support culture projects via funding from a variety of sources, including municipal budgets and local business as well national bodies such as the UCF. This initiative set a precedent for other Ukrainian cities, including Kyiv.” (O artigo de Marina Pesenti está reproduzido na íntegra, aqui)


Os programas de Lviv pretendem fomentar o imaginário coletivo do qual deverá sair reforçada a identidade cultural. Todavia, por razões históricas, é justamente nesse âmbito que se inscrevem as contradições mais profundas, porventura, insanáveis, com a Federação Russa. Onde a Ucrânia fala de resistência ao comunismo, o Kremlin contrapõe a colaboração dos nacionalistas ucranianos com o nazismo. Daí o objetivo da “desnazificação”. A palavra não é uma invenção recente. Foi largamente utilizada no pós-guerra significando o esforço coordenado dos Aliados para purgar a ideologia nazi da vida pública, prioritariamente na Alemanha e na Áustria. No contexto atual, se para o regime de Kiev a resiliência anticomunista é uma prática de libertação nacional, para Moscovo o que está em causa são as raízes envenenadas sobreviventes ao efeito purificador da guerra da Mãe Pátria.

 

Um número significativo de nacionalistas, com efeito, não só apoiou a tropa hitleriana, como se distinguiu por excesso de zelo na perseguição a soviéticos, judeus e ciganos. Durante a II Guerra Mundial, criminosos de guerra como Stepan Bandera e Roman Shukhevych, hoje, celebrados como heróis nacionais, eram figuras de Lviv. Por essa razão, em datas simbólicas, os russos atacam os monumentos erguidos em sua memória. Foi o que aconteceu com uma ofensiva de drones em 1 de Janeiro de 2024, dia do aniversário de Bandera. Não houve vítimas a lamentar e a estátua de Tarás Shevchenko (1814-1861), o bardo da Ucrânia, foi poupada. Os meios de comunicação ocidentais fizeram referência ao ataque, mas sem especificar a natureza dos alvos. Para Kiev tratou-se de um ato de “terrorismo cultural” contra símbolos como o Memorial e Museu de Roman Shukhevych, no bairro de Bilohorshcha, e a Universidade Nacional Agrária de Dubliany, onde estudou Bandera. O Euromaidan Press de 1 de janeiro de 2024, considerou ter sido um ultraje à memória dos “combatentes da liberdade”. Ver a notícia completa, aqui.


 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine
 O Museu Memorial de Roman Shukhevych em chamas após ter sido atingido por drones Shahed. Ficou praticamente destruído. Nos primeiros dias de Março de 2026, o município de Lviv iniciou obras de reconstrução do edifício e de reabilitação do espaço envolvente. Se tudo correr consoante as previsões, a primeira fase das obras estará concluída em 30 de junho de 2026. (Notícia do ataque russo, aqui). Imagem: State Emergency Service of Ukraine

A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.
A foto, de 1942, mostra nazis ucranianos do Batalhão Schutzmannchaft 201. Roman Shukhevych é o segundo a contar da esquerda, na primeira fila. Figura chave da OUN-B e, nos anos de 1941/42, Comandante em Chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), foi oficial do Batalhão Nachtigall e do 201.º Batalhão Schutzmannschaft, unidades sob comando alemão. Apesar de associado a crimes de guerra, entre os quais o de extermínio étnico de populações judaicas, o Presidente Viktor Yushchenko atribuiu-lhe, postumamente, em 2007, o título de Herói Nacional da Ucrânia pela luta travada em prol da independência. Shukhevych, que fez guerra de guerrilha contra a URSS mesmo após a II Guerra Mundial, ter-se-á suicidado quando forças de segurança soviéticas cercaram o seu bunker, na aldeia de Bilohorshcha, perto de Lviv, em 5 de março de 1950.  Imagem: The Times of Israel.

 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine
 O Batalhão Nachtigall foi das primeiras unidades a entrar em Lviv, em 30 de Junho de 1941, após a retirada a soviética. Era composto maioritariamente por voluntários nacionalistas ligados à OUN-B de Stepan Bandera e estava sob o comando de Roman Shukhevych.  Imagem: Internet Encyclopedia of Ukraine

 

A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 
A memória de Roman Shukhevych está profusamente perpetuada em nomes de ruas, estátuas, bustos, placas e selos dos correios (como os da foto), bem como em iniciativas culturais, sobretudo, em Lviv. Imagem: BoUkraina 

 

Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine
Monumento de Tarás Shevchenko no centro histórico de Lviv. Tem duas componentes. Uma, é a estátua de bronze do poeta, com cerca de cinco metros de altura. Foi inaugurada em 1992. A outra, uma estela de bronze de 12 metros, é de 1996. O conjunto da obra resulta da colaboração dos escultores Volodymyr Sukhorsky e Andriy Sukhorsky com os arquitetos Yuriy Dyba e Yuriy Krimevych. A estela tem diversos baixos-relevos aludindo à Histórica da Ucrânia, segundo o ponto de vista nacionalista. Imagem: Discover Ukraine

 

O monumento do poeta Tarás Shevchenko (imagem acima) é exemplar no que respeita à restauração do passado mítico. Na estela, conhecida por Onda do Renascimento Nacional, a onda representa o ressurgimento imparável do espírito nacional. Os baixos-relevos remetem para a era histórica de Kiev, bem como para a tradição guerreira dos cossacos. Legitimam o heroísmo do qual os atuais combatentes são depositários na defesa do povo, cujo sofrimento, por outro lado, é um dos temas centrais da poesia de Shevchenko. No topo da estela está representado o futuro. A Ucrânia libertada, moderna e soberana.

 

Como facilmente se constata, a par da destruição de milhares de monumentos soviéticos, caso da Leninopad (ver a Parte IV destes apontamentos), ou da alteração simbólica que deles se fez por forma a atribuir-lhes um sentido oposto ao original, caso da estátua da Mãe Pátria, em Kiev, comemorativa da vitória sobre o nazi-fascismo e transformada em símbolo da luta contra o comunismo (ver a Parte II dos apontamentos), as políticas culturais de Kiev fazem do mito um elemento da afirmação identitária. Mas há outros elementos, igualmente arrojados. Desde logo, nem tudo herdado do tempo soviético é necessariamente mau. Pelo contrário, após ponderada avaliação, considera-se até que deve ocupar um lugar de destaque na nova cultura ucraniana. Foi assim que diversos artistas da URSS – e respetivas obras –, uma vez filtrados através da lente nacionalista, passaram a integrar o panteão dos notáveis.

 

Avant-Garde. O caso das vanguardas artísticas dos anos 20 do século passado é paradigmático. Bohdan Ben, que se apresenta como cientista político e investigador étnico, revelou num artigo publicado a 8 de maio de 2019, em Euromaidan Press, novos dados sobre a importância da Ucrânia para a arte de vanguarda. O título do artigo é Recovering the forgotten names of the Ukrainian avant-garde. No corpo do texto pode ler-se:

 

“Against the backdrop of new discoveries, the avant-garde movement in art emerged, with Futurism and Constructivism as the most radical. Artists everywhere expressed the desire for a complete break with the past and the creation of a "new man." The avant-garde on the territory of the Russian Empire and the early Soviet Union is often affiliated either with communist ideology or with Russian nationality. However, the reality is different. Ukrainians and their ethnic culture influenced this exciting new genre of art immensely – yet are still overlooked.” (Ler o artigo completo de Bohdan Ben, aqui)

 

Fazendo fé no autor, os artistas ucranianos influenciaram enormemente novas formas de arte a partir do momento em que introduziram elementos da cultura popular do campesinato nas suas obras. Entre esses elementos destacam-se as pinturas decorativas, os famosos ovos pintados à mão, os bordados, a cerâmica, o artesanato têxtil e os trabalhos em madeira. Serão estes alguns dos principais traços identitários em função dos quais se opera a metamorfose quer da cultura russa em avant-garde ucraniana, quer de artistas soviéticos em artistas ucranianos. Há, naturalmente, outros fatores, de importância varável, que vão do uso da língua até ao facto de se ter nascido, vivido ou trabalhado em território da atual Ucrânia, teses com a chancela de diversos grupos especializados.

 

David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press
David Burliuk, Kazimir Malevich, Aleksandra Ekster, Aleksandr Bogomazov, e o escultor Aleksandr Archipenko seriam os principais artistas a viver no território da atual Ucrânia no período de afirmação das vanguardas artísticas, devendo, portanto, ser considerados artistas ucranianos. Imagem: EUROMAIDAN Press

 

É o caso da PEN Ukraine, um ramo da PEN International, associação de escritores fundada em Londres em 1921, hoje com mais de centena e meia de centros autónomos em todo o mundo. A PEN Ukraine elaborou uma lista de 40 artistas que, de acordo com o parecer dos seus membros, devem ser considerados representantes da arte e cultura ucranianas. Entre outros, constam da lista o escritor Nikolai Gogol, os cineastas Sergei Paradzanov, Aleksandr Dovjenko e Dziga Vertov, bem como o pai do suprematismo russso, Kazimir Malevich. Em relação a alguns dos nomes estabelece-se um vínculo de pertença com base em perseguições sofridas durante o período soviético, como sucedeu com Malevich.

 

Nascido em Kiev de uma família polaco-ucraniana, Malevich é mencionado pela curadora e diretora do Instituto Malevich de Kiev, Tetyana Filevska, como tendo sido profundamente influenciado pela arte popular, designadamente pelas composições geométricas que se encontram em manifestações artísticas no mundo rural. Filevska admite só tardiamente se ter apercebido da situação, uma vez que, segundo ela: “Russia as an empire regularly rewrote history, destroyed people’s lives and appropriated the names of hundreds of artists.” Assim, aos ucranianos modernos, como ela, não restou alternativa: “(...) it is our duty to investigate and learn the lessons of their experience.” A prioridade é, portanto, “descolonizar a História da Arte” e “redefinir a identidade de Malevich”. A operação resultou em pleno. Levada a cabo com o apoio dos Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, teve repercussão internacional. De tal modo que museus como o Stedelijk Museum, em Amesterdão, o Metropolitan Museum of Art e o MoMA, ambos em Nova Iorque, deram acolhimento à reclassificação de obras e artistas. (Ver, aqui e aqui)

 

Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.
Kazimir Malevich - Ceifeiras, 1929. Pintura da segunda série do pintor sobre camponeses (1928-1932), chamando a atenção para a vida no campo, sobretudo na Ucrânia. Esta fase da obra de Malevich, parcialmente coincidente com os anos do Holodomor, é associada quer à coletivização de terras levada a cabo pelo poder soviético, quer aos costumes e tradições do campo encarados como forma de resistência.

 

Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Kazimir Malevich, detido para interrogatório pelas autoridades soviéticas, segundo Tetyana Filevska, ter-se-ia declarado de nacionalidade ucraniana. Assim sendo, não haveria dúvidas quanto ao seu sentido de pertença. Imagem: RBC-UKRAINE 
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.
Tetyana Filevska, diretora do Instituto Malevich, publicou nas suas redes sociais, no dia do seu aniversário, 28 de Março, esta foto na companhia de elementos da 13ª unidade de defesa aérea de Kiev. Num texto emotivo, exalta a bravura dos heróis. Autora de uma obra intitulada Kazimir Malevich: Kyiv Period 1928-1930, assegura ter recuperado de arquivos 70 páginas de textos inéditos do pintor que comprovam as suas teses. Filevska é uma das principais agentes de propaganda do regime nacionalista no plano cultural. Encabeçou a delegação ucraniana à última Bienal de Veneza.

 

 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA
 Em novembro de 2025, Lavka Tradytsii (A Loja das Tradições), uma empresa de Kiev, lançou um projeto de intervenção no espaço urbano que visa resgatar a memória de Malevich para a Ucrânia. É um bom exemplo das políticas culturais do regime. O projeto combina duas vertentes: a reformulação de embalagens de produtos artesanais inspirados em obras de Malevich e uma campanha educativa, com recurso a novos media, que permite visualizar a biografia do artista em conexão com a cidade. Painéis informativos foram instalados em locais associados a Malevich. Imagem: PRAGMATIKA

 

 

O espírito da PEN Ukraine é o da maioria dos historiadores ucranianos, segundo os quais, a História, até agora vista pelo prisma dos russos, tem sido manipulada. Impõe-se, por isso, atualizá-la, conferindo-lhe rigor e sentido prospetivo. Contudo, essa atualização, devido aos constrangimentos da guerra, exige ajustamentos consoante as orientações do momento. Na sua página oficial, o grupo informa que, a partir da invasão russa de 2022, foram estipulados novos objetivos, a saber: informar o público internacional sobre a guerra da Rússia movida contra a Ucrânia; documentar os crimes da Rússia contra os media e a cultura ucranianos; preservar a memória dos jornalistas e ativistas culturais caídos em combate; documentar as experiências do povo da Ucrânia em tempo de guerra; restaurar a vida cultural na Ucrânia; apoiar as livrarias ucranianas vandalizadas pelos russos. (Ver, aqui)

 

Grosso modo, são os enunciados extensivos a todos os organismos da vida cultural ucraniana. Devem observar quer o modelo de criação do “novo imaginário coletivo”, quer a identidade do “nacionalismo moderado” tal como o regime de Kiev a entende. Não será uma equação fácil. Nem em tempo de guerra, nem em tempo de paz, qualquer que ele venha a ser. E por uma simples razão. As mais das vezes, as premissas das quais se parte são problemáticas.  Em consequência, a maioria das conclusões é afetada pela debilidade da sustentação. Na lista elaborada pelos 170 elementos da PEN Ukraine – ativistas de direitos humanos, tradutores, jornalistas, académicos, gestores culturais, dramaturgos e argumentistas – há casos incompreensíveis. Um deles é o do cineasta Dziga Vertov:



“Dziga Vertov (born David Kaufman in 1896), was a brilliant avant-garde cinema director, and was considered a key film theorist of the documentary genre. Born in Białystok, Vertov worked in different parts of the Soviet Union, but it was in Ukraine where he filmed his masterpiece, Man With a Movie Camera (1929). The film was named Best Documentary of all time by the British Film Institute for its exploration of a day in the life of a major European city. Enthusiasm: The Symphony of Donbas (1930), also filmed in Ukraine, is a more brutal examination, and incorporates an experimental soundtrack of industrial sounds known as "concrete music". (Artigo completo, aqui)

 

Vertov foi um dos maiores e mais empenhados cineastas soviéticos das vanguardas contemporâneas da Revolução de Outubro. Inclusivamente, dedicou um filme ao líder bolchevique, o famoso Três Cânticos para Lenine (1934). É certo que, sendo um artista experimental, sofreu com o realismo socialista, a política cultural do período estalinista. Não se lhe conhece, porém, nenhuma inclinação anticomunista e, muito menos, nacionalista. O Homem da Câmara de Filmar é seguramente o pináculo cinematográfico de uma revolução artística, mas, como veremos no próximo episódio destes apontamentos, nada tem a ver com a Ucrânia de hoje, salvo a circunstância de ter sido parcialmente realizado no seu território atual. O mesmo sucede com Entusiamo: A Sinfonia do Donbass, elegia da industrialização de uma região integrada por Lenine na República Socialista Soviética da Ucrânia no quadro das políticas bolcheviques para as regiões. O filme, com a sua excecional banda som, é, na verdade, uma celebração comunista em tudo contrária à “descomunização” da atualidade.

 

Em suma, o processo de construção da identidade ucraniana no domínio das artes, e não só no cinema, ou parece ser excesso de zelo nacionalista – o que acaba por dar razão a quem considera a Ucrânia uma etnocracia - ou é, simplesmente, passar das marcas, para utilizar a expressão do reiteradamente citado Owen Matthews. Ou ambas as coisas explicadas, porventura, com a corrida contra o tempo inerente à urgência de uma legitimação identitária, de facto, extremamente problemática. Assim é a Revolução Cultural Pós-Maidan. É o que veremos de seguida a partir de Dziga Vertov (Ver mais informação sobre Vertov, aqui)


 

Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.
Dziga Vertov, cineasta construtivista do Cine-Olho, e a câmara de filmar: “Eu sou a máquina que vos revela o mundo porque o que eu vejo só eu posso vê-lo.” Imagem: MUBI.

 

 

Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z
Cartaz de Entusiasmo: Sinfonia do Donbass (1930) de DzigaVerov. Este documentário foi o primeiro filme da produtora Ukrainfilm. Tem uma banda sonora elaborada a partir de sons registados nos locais de rodagem por forma a construir uma sinfonia sem recurso a instrumentos musicais. A Ucrânia assume este filme como seu. Apresenta-o como o primeiro filme sonoro ucraniano. Desconhece-se o artista gráfico do cartaz. O construtivismo soviético, valorizando o coletivo, nem sempre atribuía um autor às suas produções. Imagem: Le Cinema Documentaire de A À Z



Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

Este texto aborda um outro tipo de guerra, a guerra cultural. O início, porém, remete para a política. Política e guerra cultural são, na verdade, indissociáveis. Vejamos. Por alegada ameaça à soberania nacional, em março de 2022, o Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia suspendeu a atividade de 11 partidos políticos. O mais importante era a Plataforma - Pela Vida, anti-NATO e eurocético. O seu património seria confiscado e passaria para as mãos do estado. Sorte idêntica tiveram os demais partidos suspensos, fossem eles de maior ou menor expressão. Entre os primeiros estavam o Bloco de Oposição, o Partido de Shariy e o Nashi (Os Nossos). Entre os segundos, igualmente proibidos, contavam-se o Partido Socialista da Ucrânia, o Bloco de Esquerda, a União de Forças de Esquerda, o Estado, o Partido Progressista Socialista da Ucrânia, Os Socialistas e o Bloco de Volodymyr Saldo. Segundo as autoridades ucranianas, estas formações tinham um denominador comum: eram pró-russas. Logo, antipatrióticas.

 

A lista tem antecedentes. A Ucrânia aprovou legislação na Verkhovna Rada, em 2015, banindo quer os símbolos comunistas, como a foice e o martelo, quer os símbolos nazis, como a suástica e a iconografia das Wafen SS e da Wehrmatch, comuns a vários grupos e milícias armadas, entre os quais o famoso Batalhão Azov. Na sequência da aprovação da Lei da Descomunização foram proibidos o Partido Comunista da Ucrânia (KPU), o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses Ucranianos e o Partido Comunista da Ucrânia Reconstruído. As restrições impostas à extrema-direita nunca saíram do papel, salvo numa ou outra operação cosmética do agrado da União Europeia.


A proibição de “partidos políticos pró-russos” é do âmbito de um processo mais vasto ao qual, habitualmente, se chama “ucranização”, uma tentativa de criar um “novo imaginário coletivo” consonante com a identidade necessária à ideia de Nação. Os “nacionalistas moderados” de Kiev, bem como os seus historiadores de maior notoriedade, não gostam da palavra. A razão é simples. Está associada à onda de violência da extrema-direita contra os russos étnicos, sobretudo, a partir da Euromaidan 2014, à qual se costuma chamar a Revolução da Dignidade. Foi ela, em larga medida, que levou aos movimentos autonomistas no Donbass e, posteriormente, à “operação militar especial de Putin”. A anexação da Crimeia foi justificada por motivos semelhantes, ou seja, o artigo 61º da Constituição da Federação Russa que garante aos seus cidadãos defesa e proteção fora das suas fronteiras. Há, naturalmente, um elemento adicional, que será abordado em novos apontamentos, e que é a ameaça existencial representada pela NATO.


Levada ao extremo, para já, dir-se-á que a conflitualidade étnico-linguística tem levado a Ucrânia a trilhar os caminhos da etnocracia. Abriu a frente de uma guerra cultural sem quartel vista por Kiev como um elemento primordial da sua identidade nacional.



Odessa, Março de 2022. Apesar de ter sido fundada oficialmente por Catarina, a Grande, em 1794, os ucranianos atribuem a paternidade da cidade ao Duque de Richelieu devido ao papel visionário que teve no seu desenvolvimento. O monumento protegido é de homenagem ao Duque. A Ucrânia acusa a Rússia de destruir os seus símbolos como forma de negação da sua identidade. Imagem: NBC News
Odessa, Março de 2022. Apesar de ter sido fundada oficialmente por Catarina, a Grande, em 1794, os ucranianos atribuem a paternidade da cidade ao Duque de Richelieu devido ao papel visionário que teve no seu desenvolvimento. O monumento protegido é de homenagem ao Duque. A Ucrânia acusa a Rússia de destruir os seus símbolos como forma de negação da sua identidade. Imagem: NBC News

 A demonização de Putin é um elemento central da propaganda de Kiev. O líder russo, muitas vezes associado a Estaline, é representado como uma ameaça para a Ucrânia. Abundam as caricaturas, montagens fotográficas e imagens de Putin produzidas por IA. Imagem: Ukraїner 
A demonização de Putin é um elemento central da propaganda de Kiev. O líder russo, muitas vezes associado a Estaline, é representado como uma ameaça para a Ucrânia. Abundam as caricaturas, montagens fotográficas e imagens de Putin produzidas por IA. Imagem: Ukraїner 


Retrospetiva. Num importante livro de iniciação à geopolítica moderna, intitulado Prisioneiros da Geografia, o historiador e geógrafo Tim Marshal recorda que após a Revolução da Dignidade, em Maidan, 2014, “os tumultos rebentaram nas ruas de Kiev e as manifestações cresceram em todo o país” (p. 41), o que levaria à fuga do presidente Yanukovych. Marshall, acrescenta:


“Radiante com a vitória, o novo governo interino da Ucrânia fez, de imediato, algumas afirmações insensatas, uma das quais foi a intenção de abolir o russo como segunda língua oficial em várias regiões. Como essas regiões eram as que tinham mais falantes da língua russa e partidários pró-russos, e incluíam a Crimeia, era inevitável que esta atitude desencadeasse uma reação adversa,” (p. 41)

Isso mesmo é confirmado em Passar das Marcas de Owen Matthews, livro cuja recensão temos vindo a fazer. Segundo ele, a queda de Yanukovych deixou as populações russas iradas. Surgiram revoltas e levantamentos populares. Multidões saíram à rua em Lugansk, Kharkov, Odessa e Dnipropetrovsk ostentando cartazes onde se lia “Berkut-Sim!” (Berkut é a águia-dourada russa) e “Não ao fascismo!” Na Universidade de Donetsk proclamava-se: “Vocês tiveram a vossa Maidan em Quiive, esta é a nossa” (p. 125). No início de abril de 2014, “era claro que a autodeterminação local – se não o próprio separatismo e a guerra – tinha um forte apoio na Ucrânia Oriental e meridional” (p. 125). A seguir, Matthews dá exemplos de episódios envolvendo o crescente movimento independentista, cujos líderes são comparados, em testemunhos recolhidos no Donbass, a “bandidos” à frente de soldados do exército russo infiltrados. O mais conhecido, envergando sempre um uniforme impecável, era Igor Girkin, também conhecido por Igor Strelkov, “que se apresentava como um oficial czarista pré-revolucionário” (p. 127).


Girkin “baniu os palavrões da sua autointitulada ‘força de defesa local’ de mil homens e mandou executar dois dos seus próprios homens por terem feito pilhagens” (p. 127). Designou-se a si mesmo Ministro da Defesa da República Popular de Donetsk enquanto, de um lado e do outro, no Donbass,


“uma série de escaramuças militares inconclusivas entre rebeldes e as milícias ucranianas autónomas tornou cada vez mais óbvio que as áreas separatistas de Donestsque e Lugansque só seriam reconduzidas ao domínio de Quíive com uma intervenção militar integral” (p. 127).


 Igor Girkin esteve envolvido no abate do voo MH17 da Malaysia Airlines em 2014, que matou 298 pessoas. Ultranacionalista, considera Putin um líder fraco e incompetente. Foi detido pelas autoridades russas em julho de 2023 após intensificar as críticas nas redes sociais à liderança do país. Em janeiro de 2024, um tribunal de Moscovo condenou-o a quatro anos de prisão sob a acusação de "incitamento ao extremismo" através da internet. A Ucrânia ofereceu uma recompensa de 100 mil dólares pela sua entrega, vivo ou morto. Na foto, Girkin com a sua terceira mulher, Miroslava Reginskaya, que é membro do movimento social Novorossiya e muito ativa na defesa do marido. Imagem: Euromaidan
 Igor Girkin esteve envolvido no abate do voo MH17 da Malaysia Airlines em 2014, que matou 298 pessoas. Ultranacionalista, considera Putin um líder fraco e incompetente. Foi detido pelas autoridades russas em julho de 2023 após intensificar as críticas nas redes sociais à liderança do país. Em janeiro de 2024, um tribunal de Moscovo condenou-o a quatro anos de prisão sob a acusação de "incitamento ao extremismo" através da internet. A Ucrânia ofereceu uma recompensa de 100 mil dólares pela sua entrega, vivo ou morto. Na foto, Girkin com a sua terceira mulher, Miroslava Reginskaya, que é membro do movimento social Novorossiya e muito ativa na defesa do marido. Imagem: Euromaidan


Entre as “escaramuças” Matthews faz referência ao massacre de Odessa de 2 de maio de 2014. Evita, no entanto, utilizar a palavra massacre, fazendo prevalecer a ideia de um limbo de responsabilidades repartidas. Nas páginas seguintes, dá exemplos da composição das forças ucranianas:


“Combatendo lado a lado com o exército ucraniano oficial estava uma série de ‘batalhões de milícias do povo patriótico’ formados à pressa, que vinham de combatentes nacionalistas que tinha tido a sua primeira experiência em Maidan. Os ‘Batalhões’, como eram conhecidos, entraram em alguns dos primeiros e mais difíceis combates. Eram, em essência, exércitos privados. Alguns eram financiados por homens de negócios ucranianos como Ihor Kolomoisky, um prominente oligarca (e ativista judaico) de Dnipropetrovsque que apoiava um batalhão chamado ‘Dnipro 1’ e outro chamado ‘Batalhão Azove’ (que seria depois o Regimento Azove).” (p. 128)

De um modo geral, estes combatentes, financiados por oligarcas próximos de Petro Poroshenko, bilionário conhecido como ‘o homem dos chocolates” e presidente da Ucrânia entre 2014 e 2019, eram extremistas de direita ou, simplesmente, neonazis, como o Batalhão Ucrânia sob o comando de Oleh Lyashko, o qual, segundo Matthews, seria posteriormente descontinuado. Lyashko tinha o hábito de colocar vídeos nas redes sociais exibindo os seus interrogatórios e “(...) tornara-se conhecido por percorrer as cidades orientais numa carrinha blindada para raptar os presidentes das câmaras e andar com eles às voltas até concordarem em assinar um compromisso de lealdade ao governo de Quíive.” (p. 12)



Tal como sucedeu com a maioria dos líderes ultranacionalistas, também Oleh Lyashko passou por uma metamorfose. Tornou-se um ativista anticorrupção. Em período de eleições, ficou famoso por levar uma forquilha para os comícios que simbolizava o propósito de “limpar” os corruptos do poder. Deputado na Verkhovna Rada, onde exerceu diversos mandatos, envolveu-se repetidamente em confrontos físicos com opositores. Em janeiro de 2026 recebeu das mãos de Zelensky – com quem chegou a estar incompatibilizado - a Medalha de Mérito de III Grau pelo seu desempenho na unidade de drones atualmente sob o seu comando. Imagem: Babel
Tal como sucedeu com a maioria dos líderes ultranacionalistas, também Oleh Lyashko passou por uma metamorfose. Tornou-se um ativista anticorrupção. Em período de eleições, ficou famoso por levar uma forquilha para os comícios que simbolizava o propósito de “limpar” os corruptos do poder. Deputado na Verkhovna Rada, onde exerceu diversos mandatos, envolveu-se repetidamente em confrontos físicos com opositores. Em janeiro de 2026 recebeu das mãos de Zelensky – com quem chegou a estar incompatibilizado - a Medalha de Mérito de III Grau pelo seu desempenho na unidade de drones atualmente sob o seu comando. Imagem: Babel

O exposto é o bastante para ilustrar o extremar das posições e a consequente radicalização da guerra das representações simbólicas. Resta acrescentar que Lviv, até pelo seu histórico colaboracionista durante a II Guerra Mundial, tornou-se o principal bastião nacionalista. Grupos extremistas como o Svoboda e o Pravy Sektor, bem como as milícias armadas a eles associadas, tiveram um papel determinante na cidade em termos da mobilização pela “identidade nacional” contra a “influência russa”.


Hoje em dia, os investigadores e académicos ucranianos alinhados com regime, entre os quais aqueles a que temos vindo a fazer referência – Serhii Plokhy, Serhy Yekelchyk e Owen Matthews – consideram os episódios de violência supremacista perpetrados por ucranianos étnicos como fenómenos marginais. No seu entendimento, bem como no do Instituto da Memória Nacional da Ucrânia, o essencial é o “desmantelamento da herança colonial” e recuperação da “memória que foi apagada”. (Ver, na perspetiva de Kiev, Como a Memória dos Ucranianos foi Apagada in Ukraїner, 14 de dezembro de 2024, aqui.

 

5. “Ucranização” / “Descomunização” 


A partir da Euro Maidan de 2014, a Cultura entrou em força nas contas da “ucranização” ou “descomunização”, consoante o ponto de vista. Leia-se: “ucranização” = promover os valores nacionalistas a qualquer custo; “descomunização”, na terminologia oficial = liquidar a cultura russa associada ao passado comunista. Na prática, apesar do estatuto legal da “descomunização”, não haverá grandes diferenças, salvo no plano semântico. A “ucranização” deu lugar ao Renascimento Cultural pós-Maidan.


O campo dos media mereceu da parte do Renascimento atenção imediata. As autoridades baniram estações de televisão russas, séries, filmes, livros, artistas, exposições e espetáculos. Criou-se um vazio que foi necessário preencher dando resposta às premissas impostas pelo regime. Na rádio foram estabelecidas quotas para a música ucraniana, restringindo-se drasticamente a música russa e tornando obrigatório o uso da língua nacional. Abriram-se as portas à censura. Foram encerradas diversas publicações, mas a imprensa oficial ou oficiosa beneficiou do reforço de títulos já existentes. Outros surgiram com o apoio da agência USAID a qual, em anos subsequentes, haveria de financiar centenas de media digitais e milhares de jornalistas.


Cinema. A prioridade, porém, foi para a produção de filmes com fundos da Agência Ucraniana do Cinema que obedecessem a requisitos como desenvolver a “consciência nacional” e os “sentimentos patrióticos”. Em função das medidas protecionistas adotadas pelo governo de Kiev, entre 2014 e 2019, a percentagem de exibição em sala de filmes ucranianos saltou de 1,7% para 8%. Em simultâneo, foi lançada uma campanha para expandir a sua distribuição no estrangeiro, designadamente no circuito dos festivais.

 

Neste particular, a Academia obteve resultados relevantes, sobretudo após o início da invasão russa em 2022. Conseguiu, por um lado, boicotar os filmes russos em diversos festivais europeus, entre os quais o Festival de Cannes, e, por outro, levar os filmes ucranianos, frequentemente coproduzidos em parcerias europeias, às respetivas secções competitivas. Beneficiou, e beneficia, igualmente, da creditação de delegações que funcionam como embaixadores da causa nacionalista.

 

20 Dias em Mariupol (2023) do jornalista Mstylav Chernov venceu o Óscar para Melhor Documentário de longa-metragem em 2024. O filme retrata os primeiros 20 dias do cerco do exército russo à cidade e o impacto devastador que teve na população civil. 20 Dias em Mariupol não é bem um documentário, é mais uma reportagem feita por uma equipa da Associated Press com um ponto de vista pró-ucraniano inequívoco. Apesar dos comentários sobre o carácter político do prémio, a Academia de Cinema da Ucrânia, responsável pela nomeação, exultou com a atribuição do primeiro Óscar atribuído ao país. 20 Dias em Mariupol continua presente em numerosas plataformas de streaming e canais de televisão. Imagem: Prime Vídeo
20 Dias em Mariupol (2023) do jornalista Mstylav Chernov venceu o Óscar para Melhor Documentário de longa-metragem em 2024. O filme retrata os primeiros 20 dias do cerco do exército russo à cidade e o impacto devastador que teve na população civil. 20 Dias em Mariupol não é bem um documentário, é mais uma reportagem feita por uma equipa da Associated Press com um ponto de vista pró-ucraniano inequívoco. Apesar dos comentários sobre o carácter político do prémio, a Academia de Cinema da Ucrânia, responsável pela nomeação, exultou com a atribuição do primeiro Óscar atribuído ao país. 20 Dias em Mariupol continua presente em numerosas plataformas de streaming e canais de televisão. Imagem: Prime Vídeo

Se a prioridade foi dada ao cinema, nem por isso as políticas do Renascimento Cultural deixaram de ser aplicadas às diversas áreas artísticas. Aliás, isso mesmo é reconhecido com fervor patriótico. As palavras de Marina Pesanti, diretora do Instituto Ucraniano de Londres entre 2015 e 2019, jornalista e especialista em diplomacia cultural, são esclarecedoras. Num artigo intitulado “Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” publicado no Atlantic Council de 19 de janeiro de 2021, escreveu:

 

“In 2014, Ukraine banned a range of Russian TV channels, TV series, and books, with particular attention given to content that sought to glorify Russia’s imperial past or denigrate Ukraine. Three years later, Ukraine went further and blocked a number of Russian social media platforms. Many of Russia’s leading pop stars and celebrities are also no longer welcome in Ukraine, with entry bans imposed in response to anti-Ukrainian positions or unsanctioned visits to Russian-occupied Crimea.” (Ler artigo completo, aqui)


Cultura: uma questão de segurança nacional. O artigo de Pesanti, largamente reproduzido nos media pró-ucranianos, designadamente no Kyiv Post de 20 de janeiro de 2021, sustenta que o Renascimento Cultural é uma trave mestra da resistência indissociável da identidade nacional:

 

“Over the past seven years, one of the most striking features of Ukraine’s response to Russian hybrid warfare has been the country’s remarkable cultural revival. This renaissance of Ukrainian culture has helped defend against Russian soft power influence and provided a counterweight to damaging Kremlin narratives designed to undermine Ukraine’s social cohesion.” (Ver aqui)

 Marina Pesenti, uma das responsáveis pelos serviços da BBC em ucraniano durante dez anos, contribuiu significativamente para o incremento da atividade do Ukranian Institute of London. Com experiência no campo da Cultura, soft-power e media contribuiu de forma decisiva para afirmar a narrativa de Kiev no Reino Unido. Especialista em diplomacia cultural, integra órgãos consultivos de diversas instituições, entre os quais o Conselho de Supervisão do Ukranian Institute. Imagem: Ukranian Institute of London
 Marina Pesenti, uma das responsáveis pelos serviços da BBC em ucraniano durante dez anos, contribuiu significativamente para o incremento da atividade do Ukranian Institute of London. Com experiência no campo da Cultura, soft-power e media contribuiu de forma decisiva para afirmar a narrativa de Kiev no Reino Unido. Especialista em diplomacia cultural, integra órgãos consultivos de diversas instituições, entre os quais o Conselho de Supervisão do Ukranian Institute. Imagem: Ukranian Institute of London

 

Marcha do Dia da Independência, em Kiev, a 24 de agosto de 2020.  A cultura ucraniana, raiz da identidade reivindicada pelo nacionalismo, é uma combinação de antigas tradições eslavas, cristianismo ortodoxo e vida agrária. Tem expressão em diversas expressões da arte popular, bem como nos costumes dos camponeses ligados à natureza, do nascimento à morte. O vestuário e o artesanato são dos traços mais vincados desta cultura. Imagem: Kyiv Post
Marcha do Dia da Independência, em Kiev, a 24 de agosto de 2020.  A cultura ucraniana, raiz da identidade reivindicada pelo nacionalismo, é uma combinação de antigas tradições eslavas, cristianismo ortodoxo e vida agrária. Tem expressão em diversas expressões da arte popular, bem como nos costumes dos camponeses ligados à natureza, do nascimento à morte. O vestuário e o artesanato são dos traços mais vincados desta cultura. Imagem: Kyiv Post

O Ballet Nacional da Ucrânia em digressão pelos Estados Unidos em 2024. Apresentado pela antiga embaixadora em Washington Oksana Markarova como um símbolo da resiliência, a companhia tem uma parceria com a Fundação da primeira dama Olena Zelensky e faz digressões com o intuito de angariar fundos para o esforço de guerra. A exaltação do patriotismo é a nota dominante dos espetáculos. Imagem: KWGS Public Radio Tulsa
O Ballet Nacional da Ucrânia em digressão pelos Estados Unidos em 2024. Apresentado pela antiga embaixadora em Washington Oksana Markarova como um símbolo da resiliência, a companhia tem uma parceria com a Fundação da primeira dama Olena Zelensky e faz digressões com o intuito de angariar fundos para o esforço de guerra. A exaltação do patriotismo é a nota dominante dos espetáculos. Imagem: KWGS Public Radio Tulsa

 


“Ukraine’s cultural revival is a matter of national security” está em linha com o extenso relatório publicado no âmbito das atividades do think tank Chatham House, em 16 de novembro de 2020, onde se saúda a ofensiva cultural anti-Rússia. Esta, segundo Pesanti, ganhou novo ímpeto, em 2015, através das políticas levadas a cabo pelo Instituto Ucraniano da Memória Nacional. Para tanto, a autora considera essenciais as leis aprovadas pela Verkhovna Rada sobre a “descomunização”, bem como a exaltação do heroísmo e a luta de libertação. No relatório, intitulado Cultural Revival and Social Transformation in Ukraine, e sub-título, The role of culture and the arts in supporting post-Euromaidan resilience, afirma:

 

“The new laws mandated the opening of all archives, the removal of Soviet-related place names, symbols and monuments from public spaces, and the promotion of a new discourse of national history with an emphasis on heroism and the struggle for liberation.”

 

Admitindo que essas políticas produziram “a very mixed reception”, tendo conduzido não só à polarização do discurso público, mas, também, a limitações à liberdade de expressão, a autora manifesta-se, em todo o caso, a favor do cancelamento da cultura russa por “imperativo de ordem moral”. Releva, por isso, a importância de levar a cabo a revisão da História da Ucrânia durante o período soviético:

 

“Ukrainian artists and intellectuals challenged Russia-backed historical narratives about Ukrainian identity as a subset of the ‘Russian world’. They also increasingly engaged in more nuanced treatment of their country’s own history, willing to explore its darker chapters, such as collaboration with the Nazis during the Second World War or Ukraine’s participation in the soviet Project.”

Em 14 de Junho de 2018 a Radio Free Europe / Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, publicou esta foto de elementos do grupo neonazi C 14. Em 20 de abril de 2018, coincidindo com o aniversário de Adolf Hitler, o grupo atacou brutalmente um acampamento de ciganos na reserva natural de Lysa Hora, em Kiev. A polícia não interveio. O essencial da notícia da Radio Free Europe, porém, era outro. O Ministério da Juventude e do Desporto, pelos vistos, financiava projetos culturais apresentados por este e outros grupos de extrema-direita, o que, suscitando dúvidas sobre a bondade das suas políticas, estaria a causar grande incómodo junto dos aliados da Ucrânia. (ler a notícia na íntegra, aqui). Imagem: RadioFreeEurope / Radio Liberty
Em 14 de Junho de 2018 a Radio Free Europe / Radio Liberty, ligada aos serviços de inteligência americanos, publicou esta foto de elementos do grupo neonazi C 14. Em 20 de abril de 2018, coincidindo com o aniversário de Adolf Hitler, o grupo atacou brutalmente um acampamento de ciganos na reserva natural de Lysa Hora, em Kiev. A polícia não interveio. O essencial da notícia da Radio Free Europe, porém, era outro. O Ministério da Juventude e do Desporto, pelos vistos, financiava projetos culturais apresentados por este e outros grupos de extrema-direita, o que, suscitando dúvidas sobre a bondade das suas políticas, estaria a causar grande incómodo junto dos aliados da Ucrânia. (ler a notícia na íntegra, aqui). Imagem: RadioFreeEurope / Radio Liberty

 

 

Se textos de historiadores ucranianos como Plokhy, Yekelchyk e Matthews (ver Partes I, II e III destes apontamentos) estão em linha com a primeira frase da citação, convergindo, igualmente, em maior ou menor grau, na abordagem revisionista da relação da Ucrânia com a União Soviética, só residualmente se ocupam da colaboração com os nazis durante a II Guerra Mundial. Menos ainda da ação dos grupos de extrema-direita no pós-Maidan que levaria à perseguição dos russos étnicos. E quem enveredou pela investigação do papel dos movimentos, partidos e milícias neonazis, correu o risco enfrentar ameaças de morte, como sucedeu com a historiadora Marta Havryshko. (Ver Parte III destes apontamentos).

 

Algo de semelhante, porventura, outro exemplo da “very mixed reception” de que fala Marina Pesanti, sucedeu com Sergei Loznitsa, o mais conhecido cineasta ucraniano da atualidade, acusado de “cosmopolitismo” pela Academia de Cinema.


O episódio Loznitsa. Nascido na Bielorússsia, mas com nacionalidade ucraniana, tradutor da língua japonesa e estudos em Matemática Aplicada, Sergei Loznitsa tornou-se investigador de Inteligência Artificial no Instituto de Cibernética de Kiev. Em 1997, concluiu o curso de realização cinematográfica no Instituto de Cinema de Moscovo, o famoso VGIK, construindo, a partir de então, uma obra documental diversificada, distinguida em festivais de todo o mundo. Tem mais de 60 prémios e cerca de 80 nomeações.


O ponto de vista dos seus filmes - a título de exemplo, Maidan (2014), Donbass (2018) e A Invasão (2025) - é revelador daquilo em que acredita. Em declarações públicas, referindo-se a Funeral de Estado (2019), um documentário sobre as exéquias de Estaline feito unicamente com imagens de arquivo, disse algo do género: “Enquanto não se fizer a descomunização e enquanto a verdade não for dita, há sempre o perigo de a história se repetir.” Foi mais longe. Em setembro de 2022, durante o Festival Internacional de Cinema de Veneza, disse que deveria ter havido uma espécie de tribunal de Nuremberga para julgar “os crimes do comunismo.”


Contudo, em 19 de Março de 1922, Loznitsa, acusado de “cosmopolitismo”, foi expulso da Academia de Cinema da Ucrânia. A diretora, Anna Machukh, alegou que o cineasta traíra as orientações oficiais:


“Since the beginning of Russia’s full-scale invasion of Ukraine, we have tirelessly called on the global film community to boycott Russian cinema. But Sergei Loznitsa publicly opposes this, thus denying the Russians’ collective responsibility for the war their country unleashed in Ukraine.”

No comunicado da Academia, pode ler-se: “(...) the countries of Europe and the whole world should have a complete and unambiguous picture of what the aggressor country is doing in Ukraine. Therefore, every Ukrainian is now the ambassador of his country.” Para Anna Machukh, aos agentes das indústrias criativas com reputação internacional é exigida responsabilidade acrescida, devendo as suas posições ser claras e inequívocas. Loznitsa seria reincidente:


“(He) repeatedly stressed that he considers himself a cosmopolitan, ‘a man of the world’. However, now, when Ukraine is struggling to defend its independence, the key concept in the rhetoric of every Ukrainian should be his national identity.”


Sergei Loznitsa. Excerto da sua intervenção, em ucraniano, no Festival de Cannes, em 21 de maio de 2022: “Contemporary Ukraine is a multinational and a multicultural country. A call for a boycott of Russian-language culture, which constitutes an indispensable part of the heritage and cultural wealth of modern Ukraine, is deeply archaic and destructive in its nature.” (Para cabal esclarecimento do pensamento de Loznitsa ler o seu discurso de aceitação do prémio que lhe foi atribuído em França, aqui). Imagem: Festival de Sevilla
Sergei Loznitsa. Excerto da sua intervenção, em ucraniano, no Festival de Cannes, em 21 de maio de 2022: “Contemporary Ukraine is a multinational and a multicultural country. A call for a boycott of Russian-language culture, which constitutes an indispensable part of the heritage and cultural wealth of modern Ukraine, is deeply archaic and destructive in its nature.” (Para cabal esclarecimento do pensamento de Loznitsa ler o seu discurso de aceitação do prémio que lhe foi atribuído em França, aqui). Imagem: Festival de Sevilla

Donbass (2018) de Sergei Loznitsa estreou no Festival de Cannes em 2018. O cineasta inspirou-se em O Fantasma da Liberdade (1974) de Luis Buñuel. Faz um retrato caricatural da região separatista através de um conjunto de quadros alegóricos dando a entender que os acontecimentos vistos pelo prisma dos russos são o equivalente de uma encenação grotesca. Imagem: Clip de Donbass (2018) de Sergei Loznitsa.
Donbass (2018) de Sergei Loznitsa estreou no Festival de Cannes em 2018. O cineasta inspirou-se em O Fantasma da Liberdade (1974) de Luis Buñuel. Faz um retrato caricatural da região separatista através de um conjunto de quadros alegóricos dando a entender que os acontecimentos vistos pelo prisma dos russos são o equivalente de uma encenação grotesca. Imagem: Clip de Donbass (2018) de Sergei Loznitsa.

 

Anna Machuck, Diretora Executiva da Academia de Cinema da Ucrânia e Diretora Geral dos Festival Internacional de Cinema de Odessa, agora deslocado para lugares mais seguros, como Kiev, é a principal voz da indústria cinematográfica ucraniana a defender no estrangeiro o boicote aos filmes russos. É cofundadora da plataforma DzygaMDB que surgiu para apoiar o mercado audiovisual da Ucrânia. Considera o cineasta soviético Dziga Vertov um expoente do cinema ucraniano, criando inclusivamente um prémio com o seu nome. É, seguramente, uma das apropriações da cultura russa mais arrojadas das muitas que têm vindo a ser feitas. Imagem: Ukraine Media Centre.
Anna Machuck, Diretora Executiva da Academia de Cinema da Ucrânia e Diretora Geral dos Festival Internacional de Cinema de Odessa, agora deslocado para lugares mais seguros, como Kiev, é a principal voz da indústria cinematográfica ucraniana a defender no estrangeiro o boicote aos filmes russos. É cofundadora da plataforma DzygaMDB que surgiu para apoiar o mercado audiovisual da Ucrânia. Considera o cineasta soviético Dziga Vertov um expoente do cinema ucraniano, criando inclusivamente um prémio com o seu nome. É, seguramente, uma das apropriações da cultura russa mais arrojadas das muitas que têm vindo a ser feitas. Imagem: Ukraine Media Centre.


Numa carta aberta à comunidade cinematográfica, a resposta do cineasta foi contundente:


“Speaking against ‘cosmopolitanism’, Ukrainian ‘academicians’ now use this Stalinist discourse, which is based on hatred, the denial of dissent, the assertion of colective guilt and a ban of any manifestation of free individual choice. Or are they against the philosophical tradition of Diogenes, Zeno, Kant and Voltaire? Are they against the values that uderline the culture and society of modern Europe, which they say they long for? I am compelled to speak in detail about the semantics of the term ‘cosmopolitan’ because, outside the former Soviet empire, the arguments given by ‘academicians’ are intelligible only to Sovietologists.” (mais dados sobre a polémica entre Loznitsa e a Academia, aqui)

O caso de Loznitsa - que continua a participar em iniciativas de apoio à causa nacionalista fazendo, inclusivamente, sessões especiais com os seus filmes - é apenas um entre muitos da vida cultural ucraniana. Em 2020, a nomeação de Marina Kuderchuck para dirigir a DerzhKino, agência estatal responsável por regular, apoiar e implementar as políticas do cinema foi particularmente controversa. Sem experiência comparável à de outros candidatos, Kuderchuck terá beneficiado da proximidade com o círculo do Presidente Zelensky. Durante o seu mandato enfrentou acusações de cineastas e outros agentes do setor por, alegadamente, dar prioridade aos “projetos patrióticos” relegando para segundo plano propostas com critérios mais artísticos.


Nos primeiros meses deste ano de 2026, a Academia de Cinema da Ucrânia voltou a estar em foco. Para além da já habitual pressão sobre a sua congénere americana no sentido de permitir uma alocução de Zelensky durante a cerimónia da entrega dos Óscares, insurgiu-se contra filmes que, em seu entender, fazem a apologia de Putin. À cabeça, está, surpreendentemente, O Mago do Kremlin (2025) de Olivier Assayas (recensão crítica do filme e reações, aqui). De seguida, foi o vencedor da estatueta para o Melhor Documentário de longa-metragem, Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin, a ser alvo da reprovação. Ambos os filmes são, em abono da verdade, críticos do líder russo. Finalmente, a Academia manifestou-se inconformada por quer o prémio para melhor documentário quer para melhor filme internacional não ter sido atribuído a 2000 Meters to Andriivka (2025) de Mstyslav Chernov, esse, sim, “um testemunho do heroísmo” do povo ucraniano. O realizador é o mesmo de 20 Dias em Mariupol.


 

Jude Law no papel de Putin e Paul Dano no de Baranov em The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas. Recebido com severas críticas na Ucrânia, o filme foi visto, regra geral, como uma ferramenta involuntária da guerra híbrida russa por validar e perpetuar mitos da propaganda do Kremlin ao invés de os desconstruir. Imagem: Revista de Cinema.
Jude Law no papel de Putin e Paul Dano no de Baranov em The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas. Recebido com severas críticas na Ucrânia, o filme foi visto, regra geral, como uma ferramenta involuntária da guerra híbrida russa por validar e perpetuar mitos da propaganda do Kremlin ao invés de os desconstruir. Imagem: Revista de Cinema.

 

A equipa de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin na noite dos Óscares de Hollywood. A Academia de Cinema de Kiev manifestou-se desapontada com o discurso de aceitação dos vencedores por ter usado uma mensagem antiguerra genérica, sem menção explícita à Ucrânia. Numa deriva mais assertiva, condenou a tentativa de equiparar a dissidência russa ao sofrimento dos ucranianos, cujas casas são destruídas e cujas vidas são diariamente ceifadas. Mr. Nobody Against Putin foi banido na Federação Russa. Imagem: Euronews.com
A equipa de Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein e Pavel Talankin na noite dos Óscares de Hollywood. A Academia de Cinema de Kiev manifestou-se desapontada com o discurso de aceitação dos vencedores por ter usado uma mensagem antiguerra genérica, sem menção explícita à Ucrânia. Numa deriva mais assertiva, condenou a tentativa de equiparar a dissidência russa ao sofrimento dos ucranianos, cujas casas são destruídas e cujas vidas são diariamente ceifadas. Mr. Nobody Against Putin foi banido na Federação Russa. Imagem: Euronews.com

 

O que se aplica ao cinema é igualmente recorrente em outras áreas artísticas. O denominador comum é sempre o mesmo, ou seja, o patriotismo vem primeiro. Nos próximos apontamentos far-se-á um apanhado das linhas gerais das políticas para a Cultura do regime de Kiev, nas quais o eixo da exaltação do heroísmo e da luta de libertação tem um papel central.

 

Continua com Ucrânia (Parte VI): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Exaltação do heroísmo e apropriação cultural.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

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