CULTURA

  • Jorge Campos

Cinema e fascismo 17

Atualizado: 14 de Nov de 2020



O Triunfo da Vontade (1936) de Leni Riefenstahl. Este todos deviam ver. É um dos raríssimos filmes fascistas com qualidade cinematográfica. Leva-nos até à celebração do ditador, enquanto enviado do céu e salvador da Alemanha, nos famosos rituais do partido nazi em Nuremberga. Riefenstahl era uma mulher de muito talento e completa ausência de escrúpulos. Escrevi muito sobre ela, fui obrigado a ver este filme muitas vezes e, por isso, custa-me voltar a fazê-lo. Direi apenas que ela própria chegou a reconhecer ter feito um pacto com o diabo, embora, pasme-se, se tenha sempre refugiado no primado da arte como justificação desta glorificação de uma monstruosidade sem paralelo. O filme tem pano para mangas em termos cinematográficos, uma montagem primorosa, subtextos diversificados e muitas vezes sinistros, e é o retrato de uma sociedade totalmente militarizada e hipnotizada pelo líder. Adianto só mais uma nota. Riefenstahl negou sempre ter conhecimento das atrocidades dos comparsas, cujos círculos restritos frequentava e conseguiu não só safar-se depois da guerra sem ser julgada como viveu mais de 100 anos... sorte a dela. Como todo o fascista, dizia não ser fascista e obviamente nunca soubera de quaisquer malfeitorias. Pena ter feito um filme anterior chamado O Triunfo da Fé (1934), o qual desapareceu da circulação, porque nele, Rhom, o chefe SA, aparecia em pé de igualdade com Hitler. Como, entretanto, Hitler mandara matar Rhom na famosa noite das facas longas, o filme teve de sumir. Ela nunca se pronunciou a respeito. Ou melhor, disse que O Triunfo da Fé não tinha qualidade artística bastante.

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