CULTURA

  • Jorge Campos

Funeral de Estado (2019) de Sergei Loznitsa



Estaline morreu a 5 de Março de 1953. A sua morte suscitou uma onda de comoção não apenas na União Soviética mas em todo o mundo. O que veio a seguir foi a chamada desestalinização, impulsionada por Krushev. As consequências estão plasmadas no enunciado das resoluções do XX Congresso do PCUS, de 1956. Ao terminar este filme, Sergei Loznitsa disse ser quase impensável a veneração de milhões de pessoas por um tirano. O cineasta pôde constatá-lo ao trabalhar sobre mais de 40 horas de imagens de arquivo feitas durante os quatro dias do velório e do funeral de Estaline, imagens essas recolhidas quer em Moscovo quer na imensidão de todas as repúblicas soviéticas. O documentário de 2h15 daí resultante é simplesmente um assombro. Um assombro de montagem, de como lidar com arquivos, de como estabelecer o diálogo com as imagens reconhecendo a sua polissemia, de como exercer um ponto de vista inequívoco dando ao destinatário, mesmo assim, a possibilidade de observar e decidir. Funeral de Estado está nos antípodas da facilidade. trata o que é complexo respeitando essa complexidade. Mostra o absurdo do cerimonial sem uma única vez recorrer à voz off, sem retórica moralista, sem identificar sequer as figuras do movimento comunista internacional que lá estiveram. Só no final, em legenda, faz a contabilidade trágica do exercício do poder de Estaline. Dos seus crimes. tal como Esfir Shub fizera em A Queda da Dinastia Romanov (1927), Loznitsa, procedendo de modo semelhante, demonstra o quanto ética e estética devem andar de mãos dadas.

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