CULTURA

  • Jorge Campos

Memória e esquecimento

Atualizado: 23 de Set de 2020

Time present and time past Are both perhaps present in time future, And time future contained in time past.

T. S. Eliot



A memória é o espelho onde observamos os ausentes. A frase é de Joubert e ocorreu-me diante de uma plateia de 30 estudantes do ensino superior no dia seguinte ao da morte do ditador chileno Augusto Pinochet em 2006. Nesse dia, numa das minhas aulas de cinema, era suposto tratar da encenação do poder em Ivan, o Terrível de Sergei Eisenstein, mas pareceu-me oportuno falar de Salvador Allende de quem a maioria dos estudantes desconhecia o nome e de Augusto Pinochet de quem tinham um conhecimento sincrético proporcionado por informações avulsas obtidas através da televisão.


Conheço bem o mundo dos telejornais. Sei bem como se faz televisão. Estou a par dos argumentos segundo os quais as coisas têm de ser como são ou não fosse a “especificidade” da televisão uma espécie de guarda-chuva debaixo do qual cabe tudo quanto possa ser legitimado ou proscrito por uma tabela de audiências. Na televisão pública ou na privada? Em ambas. Perdi a conta aos responsáveis pela tutela do serviço público ao longo dos anos. De um ouvi defender uma mistura de serviço público e televisão comercial, consoante a oportunidade e a hora do dia. A um outro ouvi um argumento de peso em sua defesa: não ia tão longe no abuso quanto a televisão privada. Pública ou privada, a televisão é o que é: angaria eleitores oferecendo produtos; programa consumidores alienando cidadãos. É o espetáculo pós-moderno por excelência, cujo paradigma reside na emancipação do significado face ao real. É o reino do efémero a troco da ilusão da ubiquidade. É o mundo da rarefacção simbólica a coberto da dramatização sem espessura, do simulacro festivo equivalente da celebração ritual do aforismo de McLuhan: a mensagem é massagem. Naturalmente, para ser o que é a televisão necessita de parecer outra coisa. Não é a preto e branco. É a cores.


Também já vou conhecendo por dentro o mundo do ensino. Trabalhei numa excelente equipa na reconversão e criação de cursos ajustados ao horizonte de Bolonha, meses a fio, numa tentativa de encontrar soluções para problemas agravados, ano após ano, apesar da solene e reiterada proclamação de princípio da ligação da escola à sociedade e ao mercado de trabalho numa lógica de educação para a cidadania. Tecnologia: o novo deus ex machina. De acordo. Avaliação, competitividade, investigação, internacionalização. Quem poderá discordar? O único pequeno problema está na resistência do dia a dia, no somatório de práticas acumuladas que deram lugar a uma cultura escolar que penaliza mais do que gratifica, num ensino que obrigando a memorizar mais do que a pensar atribui ao sentido prospetivo da memória, que é plural, um papel meramente residual. Qual a margem de possibilidades de uma pedagogia para a cidadania, socialmente útil, no espaço que sobra entre a reserva de interesses acomodados e a exigência pragmática da obtenção de resultados com carácter de urgência? Ou de emergência?


Troquei, portanto, o filme de Eisenstein por um outro de Patrício Guzmán, um documentário ainda não estreado em Portugal intitulado Salvador Allende. Guzmán tem uma curiosa definição do documentário. Chama-lhe o álbum de família dos povos. O filme que o tornou famoso, A Batalha do Chile, foi parcialmente rodado durante o golpe militar de Pinochet. Se não tivesse conseguido fazer sair do país essas imagens, certamente saberíamos hoje menos sobre o que então aconteceu e o mundo, ou melhor, parte dele, não se teria indignado como então se indignou. A Batalha do Chile converteu-se, assim, para uns numa peça de resistência ao fascismo e numa alavanca para a restauração da democracia, para outros num filme maldito por atentar contra a ordem negra, ritual e paramentada, imposta pela força bruta das baionetas. Quando após muitos anos de exílio Patrício Guzmán regressou ao Chile para fazer Salvador Allende deparou com uma situação dolorosa, mas previsível: a dificuldade dos chilenos acertarem as contas com o seu próprio passado. Digo previsível, porque o apagamento da memória, no Chile ou em qualquer lugar, parece ser um sinal dos tempos.


O mundo, mais do que a coisa em si é a imagem que fazemos dele. A imagem é uma máscara. A máscara, construção. Nessa medida, ensinar é desconstruir. O mundo, pelas melhores razões, é a cores, não é a preto e branco. Por isso, uma das formas mais eficazes de fazer pedagogia na escola talvez corresponda a uma escolha estratégica de sobressaltos de modo a colocar os estudantes perante a evidência lúdica da sua própria ignorância. O método é duplamente vantajoso. Rejeita o estigma e propõe o prazer. E assim sendo permite estruturar novos desafios numa lógica de fruição e de confrontação criativa de cada um consigo mesmo e com os outros, o professor incluído. Ensinar é, aliás, aprender duas vezes. Mas, tal como sucede com a programação cultural, cujo maior equívoco pode resultar da aceitação acrítica de um saber institucional avesso à mudança, o ensino não deve enjeitar o risco da transgressão. Como em tudo, o risco tem sempre algum grau de imprevisibilidade, mas não ser capaz de o assumir é como olhar o mundo pelo retrovisor.


Pois bem, cinematograficamente Salvador Allende não terá o fôlego de outros filmes que igualmente interpelam a memória como Nuit et Brouillard de Alain Resnais, sobre os campos de concentração nazis, ou Le Chagrin et la Pitié de Marcel Ophuls, sobre o colaboracionismo na França de Vichy. Mas é uma narrativa construída a partir de argumentos coerentes, interroga-se mais do que afirma, pondo em evidência a singularidade do homem que acossado pela barbárie no palácio de La Moneda preferiu o suicídio à rendição. Se confrontado com a informação incoerente e fragmentada de um telejornal e se a informação do telejornal constituir o paradigma do que toda a gente deve saber, então Salvador Allende é transgressor porque assumindo um ponto de vista, mas não o impondo, está, afinal a dizer: vejo as coisas desta maneira, e vocês?


Dizia Godard que o cinema é a memória, a televisão o esquecimento. Tratando-se de um aforismo a prova fica dispensada. Observemos então atentamente os ausentes.

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