CULTURA

  • Jorge Campos

Olhares sobre a cidade

Atualizado: 24 de Out de 2020



Uma iniciativa do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto (TCAV), da Alliance Française Portugal e do Goethe Institut Portugal no Porto no âmbito do Project Elysée com a colaboração do  Curtas de Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema e Solar Galeria de Arte Cinemática – Vila do Conde.


Projecto Elysée.

O Project Elysée resulta de uma parceria franco-alemã para efeito da organização de actividades culturais a desenvolver em países terceiros. Criado por ocasião do 40.° Aniversário do Tratado de Elysée pelos Ministérios das Relações Exteriores da Alemanha e da França tem por objectivo promover a visibilidade de ambos os países. O Project Elysée requer a colaboração de parceiros locais reconhecidamente qualificados, numa perspectiva de interacção criativa, por forma a tirar partido de sinergias existentes e garantir o sucesso das iniciativas programadas.

Olhares sobre a cidade


Cidades e cineastas. Países. Há países que antes de o serem são cinema. A América, diz Baudrillard, é um país cinematográfico. A cidade americana parece ter saído, viva, da sala de cinema: “Por isso, para aprender o segredo, não se deve ir da cidade ao ecrã, mas sim do ecrã à cidade”. Segredo é, portanto, a palavra chave do cinema. É impossível ficar-lhe indiferente porque dela se espera que em si mesma contenha o seu contrário: revelação. E o mesmo sucede com a fotografia, esse argumento sobre o mundo em pinceladas de luz convidando à viagem que, como diria Cartier-Bresson, viajante infatigável, põe na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.


Mas, atenção: a imagem, por natureza, é polissémica. E o discurso, sendo uma prática expressiva da linguagem com vista à produção e circulação social de sentido, tem uma pluralidade equivalente à de quem o produz. Por isso, a narrativa, ou seja, a criação de um universo imaginário apoiado em lugares, acontecimentos e personagens, porque resulta do discurso, faz a refracção do olhar de muitas e variadas maneiras. É esse o sentido destes Olhares sobre a Cidade.


Fição? Não-ficção? Dir-se-ia que a ficção inventa livremente acontecimentos e personagens de modo a construir um argumento e que a não-ficção produz asserções sobre acontecimentos e personagens do mundo histórico. Mas que importa? Em qualquer dos casos, no Cinema e na Fotografia a imaginação criadora tem um papel determinante na estruturação da narrativa, ou seja, no modo como o discurso procede à representação do real. Por alguma razão este ciclo se chama Imagens do Real Imaginado.


Quer a cidade cinemática, porque irrompendo do ecrã se revela outra, quer a cidade fotográfica, porque num instante parece fixar o limiar da transcendência, são exemplos das ilimitadas possibilidades combinatórias reguladas pelo olho que observando selecciona, seleccionando imagina, imaginando revela e revelando questiona. Da metamorfose do real pró-fílmico ou pró-fotográfico em algo organizado segundo um estilo e um ponto de vista podem, portanto, resultar muitas cidades. Nelas cabem avenidas, edifícios, perspectivas, movimento, máquinas, linhas de fuga, volumes, espaços, amor, mistérios, angústia, medo, violência, ritmos, sons, neblinas, o sol e a chuva, ordem e desordem, o dia e a noite, o sexo e a morte, tudo o que se queira e gente, sobretudo gente, pessoas, porque as cidades são habitadas, aliás, foram construídas para serem habitadas.


A pós-modernidade, é certo, deu corpo ao não-lugar. De certo modo é isso que está em Vacancy de Mathias Müller. Em Playtime Jacques Tati ironiza magistralmente com esses espaços de apagamento da memória, sem identidade e sem história, de serviços automáticos, despidos de espessura humana proclamando embora a singularidade e a individualidade dos seus protótipos e dos seus autómatos. De igual modo, o projecto fotográfico 8/2 de Olívia da Silva sobre “um dos mais fascinantes lugares do mundo: o mercado (...) onde bate o coração da cidade sem folclore nem cerimónia” propõe como oposição radical ao não-lugar esse mundo “que aguça os sentidos: os rostos, os pregões, os cheiros, as cores, o bulício, confundem-se e sobrepõem-se de forma estonteante.” São ainda lugares vivos de identidades e memórias a cidade do Porto que nos desafia em ambos os filmes de Manoel de Oliveira e a cidade de Lisboa tal como Fernando Lopes a viu em Belarmino.


Cidades imaginadas. Cidades imaginárias. Partindo do espaço e do tempo do ecrã ou do instante decisivo fixado na imagem fotográfica, em qualquer dos casos, a aventura do olhar resulta de possibilidades combinatórias indutoras de metamorfoses praticamente ilimitadas. Assim, a cidade de Berlim (1926) de Walter Ruttman não é a cidade de Berlim (1998) de Manfred Wilhelms, como a cidade de Paris de Jean Rouch em Petit a Petit (1971) não é nem é a cidade de Paris de René Clair em Paris qui dort (1925), nem a cidade de Paris de Joris Ivens de La Seine à rencontré Paris (1958).  Tão pouco a cidade de Lisboa de Lisbon Story (1994) de Wim Wenders é a cidade de Lisboa de Berlarmino (1964) de Fernando Lopes. Nem sequer a cidade do Porto de Douro, Faina Fluvial (1931) de Manoel de Oliveira é a mesma cidade do Porto de O Porto da Minha Infância (2001) do mesmo Manoel de Oliveira. E, contudo: quanto mais amplo é o escopo das narrativas, tanto mais expressivo é o perfil dessas cidades imaginadas nas quais a presença da memória, dos traços de um determinado presente e de um ponto de vista confere o sentido prospectivo da incursão em cidades imaginárias.


Uma nota final sobre estes Olhares sobre a Cidade. Os filmes seleccionados inscrevem-se em diversos episódios da História do Cinema. Os mais antigos remetem para as vanguardas artísticas dos anos 20 e 30 do século passado, os mais recentes entram pelo século XXI, como sucede com a obra do canadiano Mike Hoolboom, que tem vindo a desenvolver um conjunto de instalações nas quais utiliza o cinema e os media enquanto espelho dos indivíduos na sua relação com o mundo numa visão crítica dos paradigmas emergentes da voragem da mediatização. Todos obedecem, porém, a um denominador comum: são exemplarmente modernos porque, enquanto propostas, respeitam a transparência do olhar, rejeitando o caos das imagens. O mesmo sucede com a obra dos fotógrafos convidados, neste caso, reflectindo a diversidade da fotografia actual.


Em suma, como resulta da selecção de filmes e dos projectos fotográficos, bem como do painel dos convidados, procurou-se abrir espaço a um olhar transversal fundado em saberes multidisciplinares, cujo denominador comum reside, porventura, nessa razão utópica de sonhar infinitamente o lugar da Cidade e de quem a habita.


Jorge Campos

Dia 5 de Novembro 2007

14.30 – BMAG

Sessão de Abertura

Presença de representantes de todas as instituições envolvidas:

Instituto Politécnico do Porto

Alliance Française Portugal

. Goethe Institut Portugal Porto

. Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de cinema e Solar Galeria de Arte Cinemática – Vila do Conde

. Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo

. Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do IPP


Filme de escola (CTCAV):

Latitudes (2007, 12’, DVD) de Andreia Teixeira do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto


15.30– BMAG

Apresentação de Mike Hoolboom por Nuno Rodrigues do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde.

Filme:

Public Lighting (76’, Beta SP) de Mike Hoolboom

Apresentação de Mike Hoolboom



17.30 – BMAG

Masterclass

Mike Hoolboom

Mike Hoolboom é um cineasta canadiano com enorme prestígio internacional na área do cinema experimental e de projectos transdisciplinares, tanto do ponto de vista da criação como da crítica, que tem vindo a desenvolver um conjunto de instalações nas quais utiliza o cinema e os media enquanto espelho dos indivíduos e da sua vida no mundo, propondo, numa visão acutilante e crítica, os paradigmas emergentes da voragem da mediatização da Arte e da Cultura e, sobretudo, do Cinema e dos Audiovisuais.


21.45 – PM

Filme:

Imitations of Life (75’ Beta SP) de Mike Hoolboom

Apresentação de Mike Hoolboom

Dia 6 de Novembro 2007

14.30 - BMAG

Filme:

Berlin, Sinfonie einer GroßstadtBerlim, Sinfonia de uma Grande Cidade (1927, 65’, 16 mm) de Walter Ruttmann



Apresentação de Helmut Färber

Helmut Färber


Helmut Färber é um dos mais influentes críticos de cinema da Alemanha. Nascido em Munique em 1937 estudou Literatura Alemã e História de Arte. Em 1962 começou a escrever para o jornal diário alemão Süddeutsche Zeitung e, pouco depois, para a revista Filmkritik. É professor em Berlim na DFFB (Academia Alemã de Filme e Televisão), bem como em Munique na HFF (Escola de Ensino Superior de Filme) e no Instituto da História de Arte da Universidade de Munique. Tem uma vasta obra publicada. Continua a escrever para Filmkritik e, também, para a revista francesa Trafic.

Berlim, Sinfonia de um Cidade (1927) de Walter Rutmann é um filme que exalta o movimento e o dinamismo de uma grande cidade. Numa altura em que a capital alemã era um verdadeiro laboratório das artes, Ruttmann, um pintor vanguardista, faz esta sua primeira grande incursão no cinema deixando como legado um filme intemporal, cuja modernidade continua inquestionável. 


Intervalo


Filme:

Berlin, Im Lichtbild der GrossstadtBerlim, Imagens de uma Cidade (1998, 82’, 16mm) de Manfred Wilhelms



O filme de Manfred Wilhelms, pintor, fotógrafo e cineasta, estabelece o contraponto como o filme de Ruttmann. Realizado em 1995, num momento de acelerada transformação devido à queda do muro de Berlim, quando grandes obras começaram a alterar profundamente a imagem da cidade, Wilhelms procurou dar a medida do que estava a acontecer. Fê-lo, no entanto, permitindo que a cidade se fosse revelando por si mesma. Não se serve da autoridade de uma voz em off. Limita-se ao registo de sons e imagens sobre os quais exerce o seu ponto de vista. 

Apresentação de Helmut Färber


17.30 – BMAG

Painel

O Cinema e as Cidades: perspectivas


Filme:

Vacancy (2001, 13’, 16mm) de Mathias Müller

Brasília a cidade de superlativos, a cidade moderna, a capital do Brasil. Mas também a cidade anónima de arquitectura sobredimensional, cujos habitantes parecem perdidos. Matthias Müller constrói o seu filme a partir de imagens de arquivo e de cineastas amadores respeitantes à construção de Brasília, às quais sobrepõe textos de Italo Calvino, Samuel Beckett e David Wojnarowicz sobre a relação do homem com a cidade.


Participantes:

Paulo Cunha e Silva

Helmut FärberLuís Urbano

Jean-Luc Antonucci

Arquitecto, Mestre de Conferências na École Supérieure d'Audiovisuel (ESAV - Université Toulouse-Le Mirail) e membro do Laboratoire de Recherche en Audiovisuel (LARA). Especialista em Cinema e Arquitectura é autor de uma tese de doutoramento sobre a perspectiva e o décor no cinema e tem publicação dispersa por diversas publicações. Faz parte do corpo redactorial da Cadrage, a primeira revista universitária on line de cinema. 

Conversador: Jorge Campos

21.45 – PM

Filme :

Paris qui dort (1925, 35’, 35 mm) de René Clair



É o primeiro filme avant-garde de René Clair e o primeiro grande filme dadaísta sobre Paris. Albert, o guarda nocturno da Tour Eiffel, assiste ao espectáculo de uma grande cidade adormecida por acção de um raio mágico, invenção de um cientista louco. Cinco personagens, que chegam de avião escapando ao efeito do raio, exploram a cidade e instalam-se na Tour Eiffel. O conceito de tempo, fundamental na arte Dada, é aqui sabiamente explorado. Os relógios de Paris pararam às 3.25h. Manipulando o tempo através dos dispositivos do cinema Clair suspende ou acelera a acção para expor uma outra imagem da cidade e dos seus habitantes. 

Apresentação de Jean-Luc Antonucci


Intervalo


Filme:

Playtime (1967, 115’, 35mm) de Jacques Tati



A obra-prima de Tati é uma reflexão bem humorada sobre o nosso tempo, o nosso espaço habitado e o nosso espaço interior em função desse mesmo espaço habitado. Turistas americanos aproveitam as vantagens dos vôos económicos para visitar diversas cidades europeias. Quando desembarcam em Paris constatam que o aeroporto é exactamente igual do de Roma, as ruas são semelhantes às de Hamburgo e até os candeeiros são estranhamente parecidos com os de Nova Iorque. Começam a ter contactos com franceses, entre os quais, evidentemente, o Sr. Hulot.

Apresentação de Jean-Luc Antonucci


Dia 7 de Novembro 2007

14.30 – BMAG

Masterclass

O olhar cinematográfico sobre a cidade: metamorfoses


Gerard Collas

Foi uma das presenças regulares na Programação de Cinema da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura. Produtor, crítico cinematográfico com textos publicados em diversas publicações, especialista do filme documentário Gerard Collas é igualmente o principal responsável pelo Festival de Cinema Documental de Marselha, um dos mais importantes da Europa.


Filme:

Aurora (1927, 91’, 35mm) de F. W. Murnau


Em toda a história dos Óscares da Academia houve um prémio atribuído uma única vez: “Unique and Artistic Picture”. A distinção foi para Aurora (1927) o primeiro filme americano do alemão F.W. Murnau. Em 1967, os Cahiers du Cinema consideravam-no “a maior obra-prima de toda a história do cinema”. Para François Truffaut era “o mais belo filme de todos os tempos”. Aurora começa por ser a história de um triângulo amoroso, mas é igualmente a história do contraste de dois mundos, a cidade e o campo. A vida tranquila de uma família do campo é posta em causa pela chegada de uma provocante mulher da cidade. Incapaz de lhe resistir, o pai de família decide matar a sua mulher a troco da promessa de uma vida cheia de paixão e aventura. Sendo um thriller psicológico o filme mergulha na tradição das sinfonias das cidades, de que Berlin de Ruttman e Douro, Faina Fluvial de Oliveira, de distintas maneiras, são exemplos, proporcionando uma série de sequências cinematográficas sem paralelo no modo de traduzir quer a vida do campo quer a vida citadina.

Apresentação de Gerard Collas


17.30 – BMAG

Filme :

Petit à petit (1971, 96’, DVD) de Jean Rouch



Este filme é visto habitualmente como a continuação do filme anterior de Jean Rouch Jaguar. Inicialmente com uma duração de cerca de quatro horas conheceu diversas alterações até chegar à versão que hoje circula. A história é como segue. Damouré, que dirige com Lam e Illo a sociedade de importação e exportação Petit à petit, decide construir um grande edifício na sua aldeia do Niger. Parte para Paris para ver “como se vive numa casa com andares”. Na capital francesa descobre o curioso modo de viver e de pensar dos parisienses, que descreve em cartas enviadas regularmente aos seus conterrâneos. Estes julgam que Damouré está a ficar louco e resolvem enviar Lam ao seu encontro para se certificar do seu estado de saúde.

Apresentação de Manoel de Oliveira


21.30 – PM

Filme:

Lisbon Story (1994, 100’, 35 mm) de Wim Wenders


Lisbon Story resultou de uma encomenda a Wim Wenders de Lisboa 1994 - Capital Europeia da Cultura. O engenheiro de som Philip Winter recebe um postal dum amigo cineasta com o pedido urgente de vir a Lisboa para fazer um filme. Winter descobre que o amigo habita a casa onde os Madredeus ensaiam, mas não há sinal dele. Vendo os rolos de filme que encontra pela casa começa a gravar os sons da cidade que eventualmente possam vir a servir o filme. Finalmente, descobre o amigo, que lhe comunica ter perdido a fé nas imagens. Feito por ocasião do centenário do cinema, contando com a participação de Manoel de Oliveira, este é um filme no qual o cinema se resgata a si mesmo. No mundo do mercantilismo e da banalização das imagens, onde tudo se vende há, ainda, lugar para um final feliz: ao cinema cabe introduzir, lá onde predomina o caos, uma certa ordem do mundo. Wenders tem, aliás, um livro intitulado  A Lógica das Imagens

Apresentação de Helmut Färber


Dia 8 de Novembro 2007


14.30 – BMAG

Painel

Fotografar Cidades

Participantes:

Olívia da Silva

Luis Carvalho

Cláudia Fischer

Georges Dussaud


Dussaud é natural de Brou, próximo de Chartres, onde nasceu em 1934. A fotografia sempre foi um dos seus principais interesses, mas a sua primeira exposição como profissional só se verificou em Nantes, em 1978. Tem trabalhado com frequência em Portugal onde concretizou projectos, por exemplo, sobre as vindimas do Douro, a propósito das quais publicou um livro, e, mais tarde, sobre a cidade de Lisboa. Em 1986 aderiu à agência Rapho. Nos últimos anos tem feito incidir a sua atenção sobre o mundo rural europeu e sobre a Índia.

Conversador: Eric Many


17.30 – BMAG

Filme:

On a Wednesday night in Tokio (2204, 5’ 35’’ DVD) de Jan Verbeek

Jan Verbbeek coloca uma câmara de vídeo fixa diante de uma carruagem do metro de Tóquio. Quando o metro pára na estação, já a carruagem estava superlotada.  Durante 5’ 35’’, o tempo de chegada e o tempo de partida da carruagem, as pessoas vão entrando.


Filme:

Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten – Notebook on Cities & Clothes (1989, 79’, 16 mm) de Wim Wenders


Yohji Yamamoto é um dos mais célebres designers de moda japoneses, cujo génio criativo se exerce no intercâmbio entre duas metrópoles: Paris e Tóquio. A câmara de filmar de Wim Wenders acompanha Yamamoto agindo como criador, trabalhando com modelos, estúdios e passarelles. Mas mostra igualmente a relação que se estabelece entre os dois homens em momentos de convívio e descontracção. Daí que neste documentário, a arte de vestir reverta, de certo modo, num retrato das cidades e suscite uma reflexão sobre o que possa haver em comum entre a arquitectura, a moda e o cinema.

Apresentação de Helmut Färber


21.45 – PM

Filme :

La Seine à rencontré Paris de Joris Ivens (1958, 31’, 35 mm)



Palma de Ouro do Documentário no Festival de Cannes de 1958 La Seine a rencontré Paris tem argumento de Jacques Prévert, narração de Serge Reggiani e realização de Joris Ivens. Este elenco, só por si, dispensaria qualquer outro comentário. Seja como for: há um barco que percorre os cais do Sena, artistas que pintam, freiras que se abraçam, amantes que se beijam, um mergulhador que recupera ao rio a bicicleta de um rapazinho, gente que pesca, música de acordeão, enfim, é Paris, c’est la vie.


Apresentação de Gerard Collas


Intervalo


Filme:

Belarmino (1964, 72’, 35 mm) de Fernando Lopes



Com Belarmino Fernando Lopes terá sido o único cineasta português dos anos 60 a aventurar-se por caminhos próximos do cinema directo. O filme não é, com efeito, cinema directo, mas adopta alguns dos seus procedimentos, o que lhe confere uma singularidade sem paralelo no panorama do Novo Cinema Português. É um corpo a corpo com o antigo boxeur Belarmino Fragoso, homem humilde encadeado pelo sucesso, até resvalar para a marginalidade da cidade em que sempre viveu, Lisboa. No seu rosto marcado pelo estigma da pobreza e pelas luvas dos adversários, ele que, noutro país, até poderia ter sido um grande campeão, acaba em saco de pancada, figura de tragédia, a ter de viver dos biscates da Lisboa vadia dos anos 60. Belarmino, como diz Bénard da Costa “é um filme construído sobre o combate de um personagem com um décor, essa portentosa Lisboa do filme que só pode levá-lo ao K.O. em qualquer round”.

Apresentação de Fernando Lopes


Dia 9 de Novembro 2007


14.30 – BMAG

4 filmes CTCAV do IPP 

Selecção de José Quinta Ferreira

Filme:

The Dead Flag Blues de Jorge Oliveira

Duração: 7’


Quando as bandeiras morrem, para onde vão? Imagética urbana, estruturas verticais que irrompem os céus, bandeiras nos seus postes, postes de electricidade e a música de Godspeed You! Black Emperor que deu o nome à curta.

Filme:

Noite Cão de Carlos Amaral

Duração: 17’

Mauro sai para uma festa para fazer a vontade aos amigos que o tentam animar, mas descobre que há noites em que mais vale ficar em casa.

Filme :

La Valse de Lumière de Ana Maia

Duração: 4’12’’

Um sexagenário solitário vagueia pela noite de uma feira de divertimentos. A feira está vazia, mas por entre girândolas de cor tudo funciona, absurdamente.

Filme:

Miguel Bombarda nº 588 de Cláudia Santos

Duração: 8’22’’

Situada no centro da cidade do Porto, a rua de Miguel Bombarda é muito conhecida principalmente pelas suas galerias de arte. No entanto, existe muito mais para além disso. Existem vidas e ofícios que perduram mesmo depois de surgirem as galerias. É um desses ofícios, e uma dessas vidas que vamos visitar.


Intervalo


Visões Úteis: A Caminho do Resto do Mundo

Apresentação de Catarina Martins


A partir de Heart of Darkness de Joseph Conrad a companhia Visões Úteis realizou a peça Resto do Mundo, um espectáculo que atravessa o Porto. O filme documentário A Caminho do Resto do Mundo (2007) parte do cruzamento entre o registo da peça e o resultado de um workshop realizado na Fundação de Serralves com oito jovens dos bairros de S.João de Deus, Lagarteiro e Cerco do Porto, durante o qual os participantes foram desafiados a filmar, em formato em Super 8, a sua visão pessoal dos seus bairros de pertença. O actor Pedro Carreira interpreta um trecho do texto do espectáculo: o início da descida de Marlow, a perturbante personagem de Joseph Conrad, à profundeza das trevas. Uma introdução ao vivo para o filme de Pedro Maia.


Filme (ante-estreia nacional):

A Caminho do Resto do Mundo (2007, 25’,Vídeo) de Pedro Maia 


Marlow relata a sua viagem, rio acima, na direcção do mais remoto dos entrepostos comerciais. À medida que sobe o rio confronta-se, de forma violenta, não só com as trevas que pressente para lá das margens, mas, sobretudo com aquelas que vai cartografando no coração dos homens. Evocando a recordação de Marlow, um taxista erra pela cidade ao encontro das suas trevas.

Apresentação de Pedro Maia


17.30 – BMAG

Painel

Cinefotografia do Porto: olhares cruzados

Participantes:

Sérgio C. Andrade

Abi Feijó

Virgílio Ferreira

Maria do Carmo Serén

Conversador: Miguel von Hafe Pérez


Filme:

História Trágica com Final Feliz (2006) de Regina Pessoa



Este é o filme português mais premiado de todos os tempos. Já leva mais de 50 prémios muitos dos quais obtidos nos melhores festivais do mundo. Sobre História Trágica com Final Feliz diz Regina Pessoa: “Seguimos uma menina e descobrimos que ela não é igual às outras pessoas, é “diferente”. O traço que a faz diferir não só incomoda a comunidade a que pertence, como se traduz por um profundo sofrimento individual. A comunidade e a menina reagem à diferença, a primeira manifestando a sua intolerância, a segunda isolando-se. Com o tempo, a comunidade acaba por habituar-se insensivelmente à presença da diferença, distanciando-a, mas ao mesmo tempo integrando-a na voragem do seu quotidiano. Porém as diferenças existem, persistem e são irredutíveis. Certas vezes possuem razão de ser e correspondem a estados temporários de trânsito para outros estados de existência, certas vezes são fatais... Seja como for, devem ser assumidas por quem as vive para a levarem a um melhor conhecimento de si própria e a uma mais intensa consciência do mundo. Um dia partirá e deixará a comunidade, que compreenderá, demasiado tarde, que o tal ser estranho que sempre mantivera à distância, tinha acabado por fazer misteriosamente parte da sua vida...”


Douro, Faina Fluvial de Manoel de Oliveira opera a metamorfose do material pró-fílmico do quotidiano da zona ribeirinha do Porto numa obra de vanguarda sem equivalente no cinema português. O filme inscreve-se na tradição das sinfonias das cidades de que Rien que les Heures de Cavalcanti, Berlim de Ruttmann e O Homem da Câmara de Filmar de Vertov são paradigmáticos, e reverte numa reflexão sobre o próprio cinema. O filme começa e acaba, aliás, com a luz de um projector, que se verifica depois ser um farol à entrada do rio, o qual evoca metaforicamente os mecanismos cinematográficos. Esse artifício seria retomado 70 anos mais tarde em O Porto da Minha Infância (2001). Oliveira, então com 23 anos, viu o seu filme ser elogiado por Lopes Ribeiro, pateado pelo público, demolido por parte da crítica e proclamado obra-prima por alguns críticos estrangeiros. Hoje, Douro, Faina Fluvial é um filme de carácter monumental, indissociável da memória da cidade do Porto. 

Filme:

Porto da Minha Infância (2001, 62’, 35 mm) de Manoel de Oliveira


21.30 – PM

Dois Filmes de Manoel de Oliveira:

Douro, Faina Fluvial (1931, 18’, 35 mm)

Porto da Minha Infância (2001, 62’, 35 mm) de Manoel de Oliveira

Apresentação de Manoel de Oliveira

Filme:

Douro, Faina Fluvial (1931, 18’, 35 mm)



Este filme resultou de uma encomenda a Manoel de Oliveira por parte da Odisseia nas Imagens do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Ao nome de Manoel de Oliveira está associada toda a história do cinema português e, em particular, a história do cinema feito no Porto, cuja memória a Odisseia das Imagens pretendeu recuperar, conferindo-lhe um sentido prospectivo. A encomenda, para além da homenagem ao cineasta, tinha o papel simbólico de representar o renascimento da produção do filme documentário feito a partir da cidade. O Porto da Minha Infância foi a obra de maior relevância produzida no âmbito da Programação de Cinema da Capital Europeia da Cultura. No filme, Oliveira regressa à sua cidade natal 70 anos depois de Douro, Faina Fluvial. Mas, desta vez, filma uma cidade que apenas existe na sua memória. O assombroso plano inicial de um maestro de costas para o público dirigindo uma orquestra invisível anuncia isso mesmo. Depois é um mergulho na memória e a descoberta de uma cidade mágica, porque é a cidade revelada da infância e juventude de Oliveira, como ele e viveu e como ele a viu.  Dia 10 de Novembro 2007 21.30 – PM Filme Concerto: Lisboa, Crónica Anedótica de Leitão de Barros

Flak Ensemble Flak (Programações e teclados), Filipe Valentim (Piano), Viviena Tupikova (Violino), Abel Gomes (violoncelo), e Diogo Faro (Clarinete)

Filme: Lisboa, Crónica Anedótica (1930, 85’, 35 mm) de Leitão de Barros Este filme concerto foi comissionado pelo Lisbon Village Festival, tendo tido a sua estreia no Forum Lisboa dia 22 de junho de 2007. A obra teve a sua estreia oficial em 1930 e oferece ao público uma visão da cidade que se respirava na altura. Apesar de este ser o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital é também uma fita onde aparecem os maiores actores da época do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Eurico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha…). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade. Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação. Lisboa, Crónica Anedótica faz-nos respirar e sentir o pulsar de capital portuguesa no final dos anos 20. Exposição de Fotografia BMAG 5 a 10 de Novembro Fragmentos da rodagem de Lisbon Story (1994) de Cesário Alves Cesário Alves Master em Art & Design, especialização em fotografia da University of Derby (Reino Unido), 1998-2001. É docente (disciplina de fotografia) no Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto desde 2001. Produz e expõe regularmente fotografia documental desde 1994. Entre as suas exposições mais recentes, contam-se: "1999", exposição individual, Muuda, Porto, 2007; "Adriano, Ensaio Fotobiográfico", exposição individual, Solar, Galeria de arte cinemática, Vila do Conde, 2006; "Superturismo", exposição individual, Galeria Imagolucis, Porto 2004; . "Superturismo", exposição individual, Casa das Artes de Famalicão, 2004; "Passageira mente" exposição colectiva na sala museu do ISEP, integrada no fórum Tecnologia Arte e Consciência, 2004.  

Wenders estava a rodar Lisbon Story tendo, por isso, recusado um convite do festival de Vila do Conde para estar presente numa retrospectiva do seu trabalho. Aproveitei a oportunidade para ir até Lisboa capturar o ambiente das filmagens com o intuito de o poder mostrar em Vila do Conde. Fui bem recebido, mas Wim Wenders não me deu acesso ao coração da rodagem, os interiores do palácio de Belmonte, no pátio de D. Fradique, colina do Castelo de S. Jorge. Ele e a mulher, Donata Wenders, fazem todas as fotografias de rodagem, de sets e de réperages e publicam-nas frequentemente. Daí as suas reservas. Em todo o caso, houve espaço para estes fragmentos. Cesário Alves Tema da Comunicação de Olívia Silva no Painel Fotografar Cidades 8/2 Olívia da Silva Doutorada em Fotografia pela Faculdade de Arte e Design da Universidade de Derby, no Reino Unido, Olívia da Silva é Coordenadora do Mestrado de Comunicação Audiovisual e das Licenciaturas de Audiovisual e Mutimédia do Instituto Politécnico do Porto. Expõe regularmente em Portugal e no Estrangeiro. Entre os seus projectos fotográficos de retrato contam-se 8/2, Cabbage and Kings, Trace and Memory; Vai à Janela, Niort Marketplace e In the net. É autora e co-autora de obras de Investigação sobre Representação Fotográfica e Identidades Pessoais e Profissionais. Desenvolve actualmente um projecto académico no Departamento de Investigação de Newport, Reino Unido e em Portugal. 8/2 de Olívia da Silva Ano: 1997 Locais: Portugal e Reino Unido Exposto em 1997

De repente, encontramo-nos frente a frente com os personagens principais de um dos mais fascinantes lugares do mundo, em qualquer contexto cultural: o mercado. Lugar que aguça os sentidos : os rostos, os pregões, os cheiros, as cores, o bulício, confundem-se e sobrepõem-se de forma estonteante.

A pós-modernidade fabrica não-lugares, como define Marc Augé, lugares sem identidade e sem história dos serviços automáticos e dos cartões de crédito, lugares de comércio mudo, de intermediações anónimas paradoxalmente rotuladas de serviço personalizado.

Não há nada mais radicalmente oposto a estes não lugares que os mercados. Fazedores de cidades e de rotas, ocupando cruzamentos e praças, lugares em que os homens se encontram, se misturam, trocam.

No mercado bate o coração da cidade sem folclore nem cerimónia. No não-lugar é preciso meter o cartão ou comprar o bilhete para pagar o serviço e receber o respectivo sorriso contido.

Ao isolar as vendedeiras num cenário despojado, Olívia da Silva fixa rostos, indumentárias, mas também o vinco do carácter. Faz delas personagens centrais, desta representação diariamente reposta. Lembra-nos que são as pessoas que fazem os lugares, as identidades e as memórias. Os não - lugares são outros. DIAPORAMA BMAG 5 a 10 de Novembro 25 Frames # 1 Segundo Alunos do 2º ano de TCAV Coordenador: João Leal FORA de HORAS Dia 9 de Novembro 2007 24.00 – PM A Cidade DiscJockey: Alex The Fool ( PsP_Progressive Sounds of Porto) VideoJockey: Playgirl O tema A Cidade remete-nos para uma infinita possibilidade sonora e visual que todos nós inconscientemente identificamos facilmente, transpondo-nos de imediato para uma realidade urbana que nos pertence e que da qual fazemos parte. O conceito é tentar passar por essa realidade, transpondo para dentro de um espaço fechado esse despertar inconsciente do público, a partir da desconstrução sonora e visual do que é a vida frenética e atordoada de uma Cidade, do seu passado e do seu presente, contando, para o efeito, com uma instalação de vídeo a partir de duas telas de projecção e dois plasmas. Dia 10 de Novembro 2007 24.00 - Pitch Club Phil Stumpf   Phil Stumpf é um artista de rara e intensa dinâmica, merecendo o destaque e atenção de todos os amantes da música. Nascido em Berlim no início da década de 70 optou por viver estes últimos anos na cidade de Paris. Durante o curso de Medicina que tirou na Alemanha, deu início à experimentação como DJ e produtor, mas foi já em Paris, através das lendárias festas MINIMAL DANCING no Nouveau Casino, organizadas em conjunto com Sam Rouane - com quem partilha também o projecto DUPLEX 100 - que Phil Stumpf abriu portas à sua brilhante carreira. A sua actividade musical não se esgota, contudo, na cena clubbing, já que integra o elenco de várias bandas, de entre as quais se destaca a banda electrónica alemã OH!, na qual concentra actualmente toda a sua criatividade e energia. No entanto, a ambição como músico ultrapassa os parâmetros criativos, encetando uma empenhada actividade na qualidade de organizador de eventos, como é o caso do FESTIVAL MUSIC-ALLEMAND, um festival de música alemã realizado anualmente em Paris, e do DEUTSCH MINIMAL, um programa criado pelo Goethe Institute para a divulgação da sonoridade minimal fora da Alemanha no qual colabora enquanto director artístico. Associado às editoras OUT OF ORBIT, FROZEN NORTH, MOON HARBOUR, TRENTON, FRANKIE REC, nos seus DJ-sets revela uma apaixonada atitude funk, entendida na sua perspectiva mais minimal. Ninguém fica indiferente à sua estética, uma inteligente combinação de funk com minimal, responsável pelas noites de dança mais memoráveis. Contactos:

IPP Goethe Institut Alliance Française Portugal


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