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CULTURA

Ucrânia (Parte IV): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: Holodomor, laços de sangue e disputa territorial

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • há 2 horas
  • 18 min de leitura

Este texto e os seguintes estão construídos em torno de três questões fundamentais. A primeira convoca os chamados laços de sangue no seio do vasto mosaico etnolinguístico que é a Ucrânia. A segunda prende-se com o chamado Renascimento Cultural pós-Maidan, indissociável do Holodomor, mas, também, da “ucranização”, matéria incómoda e habitualmente negligenciada no espaço mediático. A terceira é uma questão de princípio, vital para a consolidação do nacionalismo de Kiev. Respeita à exaltação do martírio e heroísmo na luta de libertação. As três questões são complementares. Cada uma exige a presença das outras porque a batalha pela Cultura e pela História é existencial. Dela depende, com efeito, a legitimação da identidade através da lente nacionalista, as mais das vezes, através de uma estratégia de apropriação que fica desde já sinalizada nas duas imagens seguintes.


O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr
O autor da foto é o francês Emeric Lhuisset. Foi largamente publicitada por media considerados de referência como o Le Monde e o New York Times. O título, na versão inglesa, é "I can hear the Cossacks' response in the distance”. Data e local: “Ukraine, September 1, 2023". Numa entrevista a The Art Newspaper datada de 2 de outubro do mesmo ano, Lhuisset, apoiante da causa nacionalista, explicou como encenara a fotografia, com a participação de 40 soldados ucranianos da linha da frente, a partir do quadro do pintor russo Ilya Repin reproduzido abaixo. Este procedimento, em termos estéticos, é perfeitamente aceitável. Todavia, a apropriação foi muito além. Imagem: Le Monde.fr


Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA
Este óleo, do tempo do Império Russo, pintado por Ilya Repin tem por título, em tradução literal, "A Resposta dos Cossacos de Zaporígia (1880-1991)". Remete para o ato insurgente do Hetemanato contra o sultão turco no século XVII. Porém, a apropriação feita de Lhuisset alterou radicalmente o seu significado original. A foto passou a ser um “símbolo da resistência ucraniana” contra os russos. Há mais. Ilya Repin deveria ser considerado ucraniano, entre outras razões, por ter nascido em Kharkiv. Por outro lado, o quadro, pertencente à coleção do Museu de Arte Russa de São Petersburgo, é reclamado por Kiev dado ser um “símbolo da identidade da nação”. E ainda. Os curadores do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque reclassificaram Repin como ucraniano. Sorte idêntica tiveram outros dois artistas russos, Ivan Aivazovsky e Arkhyp Kuindzhi. Dizia Emeric Lhuisset na entrevista a The Art Newspaper: “Culture is a weapon in a vast battlefield, let’s not try to forget it.” (Ver artigo, aqui). Imagem: CEPA

4. Nacionalismo, identidade e raízes envenenadas


Laços de sangue. O caso da família Bibikov (ver a Parte III destes apontamentos), à qual pertence o jornalista e escritor Owen Mathews, autor de Passar das Marcas - Os Bastidores da Guerra de Putin contra a Ucrânia, é paradigmático. Tem raízes antigas. Remontam ao tempo do Hetemanato, um estado cossaco autónomo na região central da Ucrânia, a leste do Rio Dnipro, que existiu entre 1648 e 1764. No século XVIII, com Catarina, A Grande, o estreitamento das relações da Rússia com o Hetemanato permitiu consolidar a expansão territorial do Império e fez dos Bibikov um importante clã aristocrático. Na sua maioria militares, etnicamente russos ligados à nobreza fundiária, beneficiaram de generosas benesses de Moscovo. O general Alexandr Bibikov, por exemplo, recebeu como oferenda 25 mil “almas”, ou seja, servos da gleba adultos do sexo masculino, para trabalharem nas suas propriedades.


Ao contrário do que defende a maioria dos historiadores contemporâneos nacionalistas, o domínio russo, segundo Mathews, não foi de tipo colonial. Em Passar das Marcas, escreve: “Muitos membros da elite ucraniana seriam incorporados na elite do Império e, com o tempo, acabariam por governar.” (p. 57) Aponta, entre outros, já no período soviético, Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev, ambos nascidos na Ucrânia em famílias de camponeses russos, bem como o meio-ucraniano Mikhail Gorbachev. Na família dele próprio, Mathews sublinha a existência de onze generais que participaram em acontecimentos determinantes, entre 1760 e 1941, dando como exemplo as duas Guerras da Crimeia.


Os Bibikov não são caso único. Pelo contrário, há uma rede de relações urdida no seio do Império em função dos laços de sangue, aliás, igualmente invocada, em 2001, por Vladimir Putin no seu famoso ensaio de sete mil palavras onde afirma que a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia fazem parte do mesmo espaço histórico-cultural. Mathews sustenta ter sido esse o modelo ideológico do presidente russo que haveria de justificar o recurso à guerra. Por isso, está presente, transversalmente, nas 470 páginas do seu livro.


Passar das Marcas tem uma Introdução e um Prólogo, seguindo-se o corpo do texto em tês Partes: Sangue e Império, Em Pé de Guerra e Pirocinese. No essencial, tal como Plokhi e Yekelchyk (ver Partes I, II e III destes apontamentos), resgata a Ucrânia étnica e a sua identidade cultural, embora com algumas diferenças. Se aceita que ao longo dos tempos a Ucrânia esteve refém de forças não apenas russas, mas também polacas e alemães, as quais obstaram ao desenvolvimento de uma cultura própria minando a expansão da língua e impedindo a formação do estado-nação, também reconhece que as linhas de demarcação entre ucranianos e russos são bem mais complexas.


Talvez por isso, a Parte I do Capítulo 1 (Sangue e Império) tenha por título Raízes Envenenadas, cuja latência pulsa entre dois polos. Por um lado, não há nacionalismo sem afirmação permanente da diferença. Por outro, os movimentos nacionalistas só se definem por oposição a outras nacionalidades. São a cara e a coroa de uma mesma moeda. No caso específico, sendo ucranianos e russos os grupos mais importantes do conjunto etnolinguístico, Mathews, não iludindo a questão, tende a desvalorizar a diversidade, ainda que faça questão de lembrar que a “maior parte do que é hoje a Ucrânia moderna fez durante mais tempo parte do estado polaco-lituano do que do Império Russo.” (p.53) Avaliação diferente, quanto às nacionalidades, fazem outros observadores.


Um deles é Alexandr Markovsky, investigador sénior do London Center for Policy Research, um think tank de segurança nacional, energia e análise de riscos em políticas públicas. Em 27 de junho de 2025, Markovsky, que reside nos Estados Unidos em Houston, no Texas, mas é de origem soviética, publicou no site do RealClearDefense um artigo onde sustenta que, após o colapso da União Soviética, a Ucrânia, com as fronteiras desenhadas desde o tempo de Lenine, Estaline e Hitler, colocou milhões de russos, polacos, húngaros e romenos num impasse. A guerra, segundo ele, ao acentuar as incompatibilidades multiétnicas, poderá ter consequências dramáticas:


“Since Ukraine lacks historical roots in the real estate it inhabits, the inescapable conclusion is that Ukraine’s neighbors pursuing their own interests make Ukraine look like vulnerable prey amidst formidable predators. It is inevitable that, sooner rather than later, Ukraine will disintegrate, and its fragmented remains will gravitate toward the countries to which they truly belong.” (Artigo completo de Alexandre Markovsky, aqui)

Markovsky foi acusado de fazer propaganda russa. Porém, o seu artigo tanto deu origem às habituais partilhas nas redes sociais quanto desencadeou reações quer dos nacionalistas quer dos media ocidentais. É uma situação recorrente quando toca a apurar da legitimidade reivindicada por ambas as partes. A questão dos territórios tornou-se o epicentro das conversações recentemente encetadas visando um acordo de paz. Pelo meio, como era inevitável, há uma guerra de mapas.


Mapas, fronteiras e “ucranização”. O Truthmeter, site que subscreve o Código de Princípios da International Fact-Checking Network, na sequência de um outro artigo de Markovsky de 31 de Março de 2024, publicou, em 24 de setembro do mesmo ano, um texto a denunciar a manipulação de mapas divulgados nas redes sociais. O título do artigo é Manipulation with historical maps of Ukraine. Um dos mapas reproduzidos pelo Truthmeter é o primeiro abaixo. Nele identificam-se territórios integrados pelos russos na Ucrânia, designadamente no tempo de Lenine, Estaline e Krushev. O segundo mapa, com texto em inglês para efeito de facilitação de leitura, é praticamente idêntico, mas acrescenta informação relativa a um período mais alargado de tempo.



Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética.  Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter
Territórios integrados na Ucrânia pela URSS. A imagem daria uma ideia distorcida da realidade uma vez que a Ucrânia moderna não deverá ser vista como uma criação soviética. Este mapa está reproduzido no Truthmeter como tendo sido recuperado de uma página do Facebook, sem especificar. Nota: na parte a azul, atribuída a uma iniciativa de Lenine, há, também, território conquistado por Catarina, a Grande. (Pouco difere de um outro publicado no final da Parte III destes apontamentos). Imagem: Truthmeter

Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf
Alterações históricas dos territórios da Ucrânia por ação da Rússia e da URSS. Imagem: Publicação de Eurasian Bookshelf


Em ambos os mapas, as informações são facilmente verificáveis. Podem, no entanto, ser objeto de diferentes interpretações. Esclareça-se, como ponto prévio, que a palavra “ucranização”, detestada por historiadores como Plokhi e Yekelchyk porque, como veremos, acentua o lado negro do nacionalismo, não é uma invenção do regime de Kiev. Vem do tempo de Lenine quando, no âmbito da atribuição de maior autonomia às diferentes repúblicas, foram implementadas medidas políticas e culturais com o intuito de reforçar a coesão no seio da URSS. Originalmente, portanto, a ucranização foi a versão das políticas soviéticas da Korenizatsiya (indigenização) aplicada à Ucrânia. Em consequência, os ucranianos étnicos foram incentivados a aderir ao Partido Comunista e numerosos intelectuais ocuparam postos no aparelho de estado. Houve um notável desenvolvimento da literatura, teatro e imprensa em língua ucraniana. Os funcionários russos foram obrigados a aprender o idioma.



Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck
Pintura de von Isaak Israilevich Brodsky - Vladimir Ilitch Lenine no Smolny, ca. 1925. Lenine foi o grande impulsionador da Korenizatsiya. Defendeu o direito à autodeterminação como uma forma de romper com o chauvinismo czarista grão-russo. Para ele, a coesão das repúblicas socialistas só seria possível se as minorias nacionais não se sentissem oprimidas. Com Estaline a situação mudou, agravando-se substancialmente, no início dos anos 30, com o Holodomor. Imagem: Meisterdruck


Em Passar das Marcas Owen Mathews não nega o efeito das políticas de Lenine, mas contesta a ideia defendida por Putin segundo a qual teriam sido os bolcheviques a criar a Ucrânia Moderna:


“Putin ignorou a razão fundamental que levou Lenine desde logo a criar uma república ucraniana distinta. As aspirações ucranianas à independência eram tão fortes no rescaldo da guerra civil pós-revolucionária que conceder um certo grau de autonomia e um estatuto de igual face à Rússia no seio da União Soviética era essencial para que os bolcheviques conseguissem manter a Ucrânia sob controle. Na verdade, durante a primeira década do poder soviético, o ucraniano tornou-se a língua oficial da administração e do ensino na República Socialista Soviética Ucraniana. Centenas de livros – incluindo livros de história – foram publicados em ucraniano, e a língua foi codificada e ganhou pela primeira vez uma gramática oficial.” (p. 61)

A Korenizatsiya ucraniana, portanto, segundo Mathews, só aconteceu porque Lenine percebeu a necessidade de apaziguar as crescentes reivindicações nacionalistas. Até certo ponto, o polígrafo do Truthmeter aponta no mesmo sentido. Criado pela Metamorphosis Foundation em 2011, o Truthmeter trabalha em rede com diversas organizações europeias e americanas. Por exemplo, a partir da Embaixada dos Países Baixos em Skopje, na Macedónia do Norte, desenvolveu um projeto intitulado “Western Balkans Anti-Disinformation Hub: Exposing Malign Influences through Data-Driven Watchdog Journalism”. O projeto teve a participação, além da citada Macedónia do Norte, de organizações da Albânia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Kosovo e Sérvia. Outras iniciativas semelhantes são referenciadas na página do site. A parceria de maior relevância, porém, é a colaboração com a Meta, proprietária de plataformas digitais como o Facebook, Instagram, Whatsapp e Threads. O foco é a desinformação russa.


Insere-se nesse contexto a denúncia da manipulação dos mapas com base em alegado enviesamento histórico. Resulta, neste caso, que o Truthmeter faz prevalecer a ideia de nada haver para discutir em matéria de territórios. Exemplo: “Moscow gave territories to the Ukrainians, for which they were deemed ungrateful. However, what is overlooked is the fact that the Ukrainians themselves fought for those territories (...)”. Ou seja, se os russos acusam os ucranianos de ingratidão é porque não reconhecem a luta travada pelos patriotas nacionalistas pela posse dos territórios em apreço. (Ler o texto completo, aqui)


De qualquer modo, transitando do debate da História, há, na atualidade, dois termos que são frequentemente utilizados, ainda que postos em causa pelo regime de Kiev, quando se trata de definir territorialmente a Ucrânia. Um é Malorossiya ou Pequena Rússia. Corresponde, basicamente, ao antigo Hetemanato Cossaco, na zona central, abrangendo essencialmente as províncias de Kiev, Chernihiv e Poltava. O outro é Novorossiya ou Nova Rússia. Grosso modo, aplica-se ao sul e a parte do Este, por um lado conquistados pelo império russo ao império otomano, por outro integrados por Lenine após a revolução bolchevique. Na Novorossiya cabem, designadamente, Dnipro, Odessa, Kherson e o Donbass. É em função das especificidades da Malorossiya e Novorossiya que melhor se identificam as clivagens da atualidade.



A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War
A Nova Rússia (Novorrosiya) aparece no mapa a cor de rosa. A tracejado, a área agora controlada pela Federação Russa. Foi esta região que, sobretudo a partir de 2014, mais se insurgiu contra a “ucranização”. Surgiram numerosos focos de resistência. O Kremlin, bem como os secessionistas do Donbass, consideram que a Nova Rússia integra os oblasts de Odessa, Mykolayiv, Kherson, Dnipropetrovsk, Zaporizhya, Kharkiv, Donetsk e Luhansk. Será este o território reivindicado por Moscovo em negociações de paz. Imagem: Institute for the Study of War


Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress
Mapa elaborado pelas autoridades ucranianas referente aos protestos das populações russas contra a “ucranização” no período compreendido entre 23 de fevereiro e 6 de abril de 2014. A área assinalada corresponde basicamente à da Novorrosiya, tal como o Kremlin a entende. No entanto, os protestos também se fizeram sentir noutras zonas. Imagem: EuromaidanPress

Na leitura do Kremlin, a Novorrosiya é, simplesmente, russa. Para a maioria dos habitantes, porventura, também. Para Kiev, os territórios saídos de 1991 são todos ucranianos. Seja como for, sempre houve alterações de fronteiras ao longo do tempo, designadamente nos períodos soviético e da II Guerra Mundial. Em Passar das Marcas, Mathews não ilude estas questões. Privilegia, no entanto, os dados nacionalistas encontrando neles o conforto bastante para expor a sem razão do Kremlin. Esses dados tanto passam por referências a estudos de opinião feitos ao tempo da desagregação da URSS, favoráveis à autodeterminação, quanto, de modo mais fundamentado, por narrativas que conferem legitimidade à existência da nação. Nesse sentido, utiliza dois poderosos elementos retóricos de ordem pessoal. Por um lado, associa o processo de libertação à gradual – e dramática – tomada de consciência do independentismo no seio da própria família. Por outro, recorre à primeira pessoa para relatar a sua longa experiência pessoal e profissional.


Durante 27 anos fez jornalismo na Federação Russa, quer para o Moscow Times quer para a Newsweek, da qual foi diretor na secção de Moscovo. Poucos foram, nesse período, os que lhe recusaram um pedido de entrevista ou um encontro. Porém, após a invasão da Ucrânia, a situação mudou radicalmente. A guerra trouxe maior controle sobre os meios de comunicação social, bem como o recrudescimento da repressão política, daí resultando um clima de medo que teria levado alguns dos seus amigos e contactos a afastarem-se.


Entre outros, Mathews refere Zakhar Prilepin. Figura proeminente do meio literário, com vários livros publicados, Prilepin combateu como voluntário no Donbass ao lado dos separatistas. Durante 20 anos destacado dirigente do ultraconservador Partido Nacional Bolchevique, entretanto, extinto, transitou para outras formações políticas da oposição sistémica a Putin. Ex-deputado na Duma, favorável à recuperação integral da Ucrânia para a esfera de Moscovo, é conhecido pelo radicalismo das suas posições. Vê na destruição dos símbolos soviéticos, como sucedeu, por exemplo, na Leninopad – vandalização das estátuas de Lenine –, bem como na perseguição aos russos étnicos da Ucrânia uma afronta à Mãe Pátria. A introdução de Passar das Marcas abre com uma declaração sua de abril de 2022:


“Toda a gente tem de compreender: aproxima-se a mobilização e uma guerra global pela sobrevivência, para destruir todos os nossos inimigos. A guerra é a nossa ideologia nacional. É a única tarefa, a única tarefa do nosso líder, é explicar ao povo russo que este é o nosso futuro heroico, e convencê-lo.” (p. 13)

Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna
Zakhar Prilepin, muito popular na Federação Russa, é titular da Ordem da Coragem atribuída pelo Kremlin. Foi alvo de um atentado, do qual saiu ferido com gravidade, quando o seu automóvel explodiu perto de Nizhny Novgorod, a sua terra natal. Prilepin considera Putin um líder demasiado moderado, mas, na atual conjuntura, vê nele a pessoa certa para iniciar a restauração da grandeza do império. Imagem: RusVesna

Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13
Leninopad é o termo utilizado para descrever a onda de destruição, decapitação e remoção de estátuas de Lenine na Ucrânia. Durante os protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013, os manifestantes derrubaram a principal estátua do líder soviético na capital. A partir de então, a par do cancelamento da cultura russa e da perseguição aos russos étnicos que levaria à sublevação dos separatistas no Donbass, gerou-se uma onda de vandalismo instigada pelas milícias e partidos da extrema-direita. Em 2015, a Rada, através da Lei de Descomunização, legitimou-a. As 5.500 estátuas de Lenine, na sua maioria na Malorossiya, desapareceram do espaço público. A cabeça da foto encontra-se num armazém do Museu de Dnipro. Destina-se a ser exposta. Leninopad vem do ucraniano Ленінопад, literalmente “a queda de Lenine”. (Ver o mapa que ilustra a destruição das estátuas na Parte II destes apontamentos). Imagem: National Geographic, Niels Ackerman, Lundi13


Holodomor: martírio e consciência. A escolha da citação de Zakhar Prilepin para a entrada de Passar das Marcas não é aleatória. Pelo contrário, tem por finalidade a separação radical das águas. O ponto sem retorno é, justamente, o Holodomor (1932-1933). É nele que o nacionalismo ucraniano assenta a trave mestra. Também com Mathews assim acontece. Apesar dos laços de sangue, o autor considera a morte pela fome - ou fome vermelha - o elemento determinante da identidade, a qual, por sua vez, num sentido mais lato, é inerente à contingência e vicissitudes da História. No caso da sua família, a tomada de consciência, passa pelo martírio dos seus membros a partir do final do primeiro quartel do século XX. Vai nesse sentido, na página 60 e seguintes, o relato da experiência de vida do seu avô, Boris Bibikov:


“Apesar de ter nascido numa proeminente família nobre russa – ou talvez numa atitude de deliberada rebeldia – Boris Bibikov tornou-se um comunista fervoroso. Não é claro por que razão exatamente Bibikov e os dois irmãos mais novos se juntaram aos bolcheviques, ainda que não fossem os únicos elementos da sua classe e geração a fazê-lo. (...) Filiou-se no Partido Comunista em 1924. Designado Comissário do Exército Vermelho em 1926-1928, tornou-se organizador do Partido. Como tal, esteve presente na linha da frente do mais urgente problema do novo governo soviético, problema esse que ameaçava a sua existência.” (p.61)

A Ucrânia era vista como o grande celeiro da URSS. Nomeado para dirigir a construção de uma fábrica em Kharkiv como intuito de acelerar a produção dos tratores necessários à coletivização da terra, Boris Bibikov “usava camisa de listas do exército e apresentava-se como se fosse do proletariado”, mas vivia num apartamento de luxo, com empregada interna e fazia-se transportar pela cidade “numa gigantesca berlinda americana da Packard.” (p.62) De qualquer modo, as suas convicções eram tão arreigadas que quando a sua primeira filha nasceu, em 1925, deu-lhe o nome de Lenina, tia de Owen Mathews. Para Bibikov, diz o autor de Passar das Marcas, os enormes campos da Ucrânia, bem como as fábricas de tratores, eram as bigornas onde um novo tipo de sociedade ira ser forjada:


“Os tratores (...) libertariam milhões de pessoas do trabalho servil, da ignorância, da bebedeira e da depravação da vida de vilarejo. Boris teria esperneado com a comparação, mas a verdade é que se tornara o último de uma longa linha de Bibikovs a impor a visão de progresso e civilização de Moscovo às terras da Ucrânia.” (p. 63)

Para ele, o princípio do fim começou ao aperceber-se que “as novas fábricas coletivas não funcionavam, e os camponeses resistiram ferozmente aos novos senhores soviéticos. As terras, os cereais e o gado tinham de ser confiscados à força e ao poder da bala.” (p.63) Escreve Mathews:


“O resultado foi o mais horrível dos crimes de Estaline – o Holodomor, ou ‘morte pela fome’, que na moderna Ucrânia é recordado como um genocídio análogo ao Holocausto (...) Os camiões faziam rondas pelas ruas de Carquive, Quíive e Dnipropetrovsque recolhendo cadáveres de camponeses mortos de fome que se tinham arrastado até às cidades à procura de comida. No Inverno de 1933, entre quatro e sete milhões de camponeses ucranianos morreram à fome.” (p. 64)

Ganhando consciência da situação, Boris Bibikov opôs-se às políticas de Estaline. Em 1934 esteve em Moscovo no 17º Congresso do Partido – o “Congresso dos Vencedores” – onde, chefiada por Sergei Kirov, a oposição defendeu o abrandamento do processo de coletivização. Em dezembro desse ano, Kirov foi assassinado. Começou a “Grande Purga”. Entre janeiro de 1937 e Maio de 1938 foram presos 167 mil comunistas ucranianos. Boris Bibikov caiu em desgraça. A mulher, Marfa, presa pouco depois da morte do marido, foi enviada para um Gulag no Cazaquistão “por ser casada com um inimigo do povo. Aí passou 15 anos e enlouqueceu.” (p. 65)


“As filhas de Bibikov, a minha mãe Lyudmila e a sua irmã mais velha, Lenina, de início, foram enviadas para uma prisão infantil e, seguidamente, para um orfanato em Verhne-Dniprovk, onde Lyudmila quase morreu de tuberculose óssea. ‘Obrigado, camarada Estaline, pela nossa infância feliz’, foi uma das canções que a minha mãe aprendeu no orfanato.” (p. 65)

Para Mathews, na esteira do advogado polaco judeu Raphael Lemkin o Holodomor “é um caso de genocídio, de destruição de indivíduos, mas também de uma cultura e de uma nação.” Essa seria a razão pela qual, quando a Wehrmacht invadiu a URSS na II Guerra Mundial, “alguns ucranianos tinham a esperança de que a ocupação alemã seria tão benigna como a de 1918.” (p.67)


O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector
O Holodomor (1932-1933) por artistas ucranianos. À esquerda, A Estrada da Dor (anos 90) de Nina Marchenko. À direita, Genocídio da Cultura ou Genocídio da Nação (1983) de Bily Oleh. Quer os números quer as motivações do Holodomor têm servido de arma de arremesso para efeito de legitimação da luta da Ucrânia contra a Rússia. Em documentos políticos, designadamente da União Europeia, é frequente apontar para 10 milhões de mortos. Alguns autores, como Robert Conquest, em textos académicos, andam lá perto. Anne Applebaum (Red Famine), por seu turno, fala em 5 milhões para o conjunto da União Soviética, dos quais, 3,9 milhões seriam ucranianos. Timothy Snyder (Bloodlands) avança com uma estimativa situada entre 3,3 e 3,9 milhões e Emmanuel Todd (La Défaite de L’Occident) fala em 2,4 milhões. Sejam quais forem os números, mesmo sabendo que não são inocentes, até em função das metodologias utilizadas nos cálculos, o efeito das políticas agrícolas de Estaline, no âmbito do Plano Quinquenal iniciado em 1929, foi desastroso para os camponeses da URSS e, especialmente, para os da Ucrânia O Holodomor tornou-se um dos temas centrais da arte e cultura do regime de Kiev. Imagem: The Collector

Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine
Zelensky assume a memória do Holodomor como um pilar da identidade nacional e bússola da resistência à invasão russa. Todos os anos, na companhia da mulher, Olena Zelenska, presta homenagem às vítimas. Segundo ele, o Holodomor de 1932-1933 foi um genocídio programado. Entretanto, a Ucrânia passou a homenagear, em simultâneo, as vítimas daquilo a que chama o Holodomor de 1921-1923 e o Holodomor de 1946-1947. Imagem: President of Ukraine

Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ
Putin rejeita a classificação do Holodomor como um genocídio planeado contra o povo ucraniano. Na narrativa do Kremlin a fome resultou das más colheitas, consequência das políticas de coletivização forçada de Estaline, que causaram sofrimento em toda a URSS. A fome teria sido uma "tragédia comum" que afetou, além da Ucrânia, regiões como o Cazaquistão, o Cáucaso e partes da própria Rússia. Imagem: RNZ


O Massacre de Volínia. Se o Holodomor justifica o desejo de independência dos ucranianos étnicos, a verdade é que, ao contrário do que Mathews dá a entender, a adesão entusiástica dos nacionalistas à invasão nazi foi algo mais do que meramente residual. Este é o calcanhar de Aquiles de Passar das Marcas, à semelhança, aliás, do que sucede com boa parte dos historiadores ucranianos empenhados em veicular a ideia de um “nacionalismo moderado”. Desde logo, quando, no âmbito da Operação Barbarrossa, os alemães entraram em território soviético por regiões da Ucrânia com forte presença de radicais, regra geral, foram recebidos como salvadores. Só assim se explica que os grupos de extrema-direita ucranianos já existentes tivessem crescido exponencialmente, e que outros, abertamente nazis, tenham surgido. O mais importante foi a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) que viria a dividir-se em duas fações: a OUN-B, liderada por Stepan Bandera, e a OUN-A de Andriy Melnyk. Bandera criou igualmente o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), braço armado da sua facção, para combater o Exército Vermelho. Proclamou a independência em Lviv, a 30 de junho de 1941, através do Ato de Restauração do Estado Ucraniano. Hitler recusou-a. O UPA voltou-se então contra a Wehrmacht, mas sem abrandar o confronto com os russos. Outras unidades militares criadas após a invasão alemã deram apoio incondicional aos nazis, caso da Divisão SS Galizien (14ª Divisão de Granadeiros SS), bem como dos Legionários Ucranianos (Batalhões Nachtigall e Roland). (Sobre estas matérias ver as Partes I, II e III destes apontamentos).


Mathews tende a relativizar o papel de Bandera enquanto colaboracionista. Invoca até o episódio, historicamente controverso, de o líder da OUN-B ter sido enviado para um campo de concentração. E, de forma algo confusa, atribui aos russos parte da responsabilidade pela imagem negativa do líder nacionalista:


“(Bandera) ficaria sempre associado na propaganda soviética e russa à facção da OrNU que constituiu o núcleo antissoviético do Exército Ucraniano Insurgente, ou UPA. Apesar de alguns dos seus mais proeminentes comandantes terem combatido anteriormente no batalhão Nachtigall, o UPA considerava que os seus principais inimigos eram os alemães. Na prática, contudo, passaram a maior parte do tempo a combater os soviéticos.” (p. 68)

Com efeito, escreve Mathews, “(...) no Verão de 1944, os 100 mil soldados da UPA combatiam como unidades irregulares na retaguarda das linhas soviéticas, dificultando as comunicações do Exército Vermelho e atacando alvos militares soviéticos, combatentes da resistência polaca e civis polacos e judeus.” (p. 68). Na mesma página, pode ler-se que os “apoiantes indefetíveis da UPA continuaram a resistência de guerrilha ao poder soviético nas florestas da Bielorrússia e da Ucrânia até à década de 1950.”


Por outro lado, pouco diz sobre o extermínio de dezenas de milhares de judeus polacos levado a cabo pela OUN-B e pela UPA na Volínia e Galícia Oriental, um ato de brutalidade inaudita. Para se ter uma ideia, só no chamado Domingo Sangrento, em 11 de julho de 1943, o Exército Insurgente atacou e martirizou uma centena de aldeias polacas em simultâneo. No período de 1943-1945 matou cerca de 150 mil judeus. O objetivo era erradicar a presença polaca na região para garantir que, após a guerra, o território (então parte da Polónia ocupada) ficasse exclusivamente sob controlo ucraniano. A ser assim, fica no ar a hipótese de a detenção de Bandera ter sido feita no sentido de o preservar para um eventual regresso no futuro.


Hoje, apesar das tentativas dos governos da Ucrânia e da Polónia no sentido de sanar as divergências, o assunto está longe de encerrado. Na Polónia, o Massacre de Volínia continua a ser visto como uma tentativa de limpeza étnica. Em 2016, o Parlamento classificou-o formalmente como genocídio. Em 2025, o anterior Presidente polaco Andrzej Duda, já em final de mandato, promulgou a lei em função da qual o 11 de Julho passou a ser considerado Dia da Memória das Vítimas do Genocídio. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia criticou asperamente a decisão considerando-a contrária ao espírito das relações de boa vizinhança. Para agravar a situação, no mesmo ano, o novo Presidente, o historiador Karol Nawrocki, durante a campanha eleitoral, explorou a tragédia de Volínia para atrair eleitores. E, uma vez eleito, declarou que “he would block Ukraineʼs European integration until Kyiv makes an official statement about ‘atonement’ for the "Volyn massacre". Ou seja, a Polónia exigiu a expiação e reparação do crime.


Entretanto, voltaram a surgir sinais de desanuviamento com a criação de equipas de especialistas de ambos os países, tal como documenta o artigo de 8 de setembro de 2025 do site de notícias Babel, considerado um dos meios de comunicação mais fiáveis da Ucrânia, assinado por Yuliia Hyra e Glib Gusiev. O título é: “For the first time in 10 years, Ukraine and Poland exhumed and reburied the victims of the Volyn tragedy.” (ver notícia completa do site Babel, aqui)


O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel
O Monumento do Massacre de Volínia (Domostawa) é uma escultura de bronze com 14 metros de altura da autoria do escultor Andrzej Pityński. Foi inaugurada em julho de 2024. Financiada pela Associação Americana dos Veteranos do Exército Polaco, bem como através de donativos, pelas suas características, foi objeto de longa polémica. Representa a águia polaca com uma cruz recortada no peito e uma criança atravessada pelo tridente ucraniano. Apesar da existência de outras estátuas alusivas ao massacre em diversos locais da Polónia, esta, devido a pressões de vária ordem, só teve acolhimento ao cabo sete anos. Na foto, o candidato presidencial que viria a ser eleito, Karol Nawrocki, em campanha eleitoral numa cerimónia evocativa em 30 de maio de 2025. Imagem: Babel


Continua com Ucrânia (Parte V): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros: O Renascimento Cultural Pós-Maidan

 

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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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