top of page

viagem pelas imagens e palavras do quotidiano
NDR


Jorge Campos
25 de ago.17 min de leitura




Jorge Campos
5 de ago.1 min de leitura


Jorge Campos
23 de mai.14 min de leitura

Jorge Campos
arquivo
"O mundo, mais do que a coisa em si, é a imagem que fazemos dele. A imagem é uma máscara. A máscara, construção. Nessa medida, ensinar é também desconstruir. E aprender."

Receba a Newsletter de NDR diretamente na sua caixa de email
Todo o conteúdo © Jorge Campos
exceto o devidamente especificado.
Criado por Isabel Campos
Ouvir
Ver, Ouvir & Ler
Ler

Woody Allen
farto de ler a desgraça dos dias e, para mais, com um dia de chuva, fui tratar de lavar os olhos e a alma. no cinema. não me lembro de alguma vez ter ficado desapontado com uma fita de woody allen, apesar de volta e meia o nome dele aparecer no obituário da crítica. evidentemente, gosto mais de uns filmes do que de outros, mas encontro sempre, mesmo nos de que gosto menos, alguma coisa que me faz pensar, tantas vezes a rir. este roma será menos articulado que o anterior sobre paris, mas tem cenas hilariantes e um agudíssimo sentido crítico e autocrítico. fiquei muito bem disposto. sucede que ao chegr a casa, deparo com um tipo de fato cinzento na televisão a insultar-me. sugere que sou preguiçoso e malandro porque sou culpado de viver num país onde há muitas cigarras e poucas formigas. como estou farto de ser insultado, apeteceu-me obrigá-lo a ir ver o woody allen. depois caí em mim: dificilmente o tipo entenderia. marquei então encontro na rua.

Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom de Evgeny Afineevsky
este filme (2015) é um relato dos 94 dias de ocupação da Praça Maidan, em Kiev, cuja consequência imediata foi a fuga do presidente eleito da Ucrânia Yanukovych para a Rússia. consiste de um conjunto alargado de testemunhos de manifestantes cruzado com uma notável montagem cronológica dos acontecimentos levada a cabo por Will Znidaric. Znidaric trabalhou com centenas de horas de imagens captadas através dos mais diversos dispositivos, designadamente telemóveis. obedecendo a uma eficaz estética televisiva, portanto, de fácil assimilação, deixa-nos perfeitamente elucidados sobre a bondade da revolta. por isso, recomendo-o vivamente a quem, perturbado pela entropia informativa que por aí anda, possa sentir vacilar as suas convicções democráticas. Winter on Fire não deixa dúvidas. até porque, inclusivamente, resulta de uma co-produção da Ucrãnia com os Estados Unidos e o Reino Unido, fez um bem sucedido circuito de festivais em 2015/16 e o seu realizador, o russo-israelita Evgeny Afineevsky, tornou-se - ou foi tornado - muito popular. está disponível na Netflix. só deixo mais um conselho. não se ponham a ler críticas antes de ver o filme. ele é flat o bastante para reforçar tudo aquilo que as televisões despejam diariamente. é do tipo zona de conforto. quem estiver necessitado, é aproveitar.

William S. Burroughs
"Happiness is a byproduct of function, purpose, and conflict; those who seek happiness for itself seek victory without war."
William S. Burroughs
Foto: Robert Mapplethorpe
William S. Burroughs
Foto: Robert Mapplethorpe

William Klein, o iconoclasta
quando William Klein chegou ao Porto em 2001 para participar na Odisseia nas Imagens da Capital Europeia da Cultura quis ir até à Ribeira. depois de uma rápida passagem pelo hotel, fomos jantar, já tarde, a um dos restaurantes à beira rio. a seguir passamos para o lado de Gaia e ele ficou por ali, sempre ao lado da mulher, a tirar fotografias durante muito tempo. não sei se alguma vez as publicou. eu, pelo menos, nunca as vi. o que vi e ouvi durante esses dias permitiu-me guardar dele a memória de alguém que não guarda o que tem para dizer, sempre com um sorriso, o olho vivo, a espreitar o desassossego das almas. foi cabeça de cartaz com uma retrospectiva integral dos seus filmes inserida num ciclo que programei chamado Como Salvar o Capitalismo, o qual integrava também uma exposição fotográfica dos seus últimos trabalhos. era Setembro e sobre o ataque às torres gémeas, perante uma plateia atónita, lançou um feroz ataque à política americana. foi sempre relativamente proscrito no seu país. vivia em Paris. assistiu à exibição do seu Messiah no auditório grande do Teatro Rivoli. ao lado, no auditório pequeno, passava Johnny Guitar de Nick Ray. disse-me Klein com uma palmadinha nas costas: ainda vão aí? e riu-se. contou-me a história de amor com a mulher: vi-a pela primeira vez, bela como uma deusa, e soube que seria para toda a vida. ela também me deu a sua versão: vi-o pela primeira vez, belo como um deus, e soube que seria para toda a vida. Bill Klein, o mais francês dos americanos, despediu-se. era um grandíssimo fotógrafo. e um tipo encantador.

William Hurt
William Hurt era um actor estupendo. tinha uma impressionante capacidade camaleónica que lhe permitia assumir as personagens mais complexas. um exemplo, talvez o mais óbvio, Kiss of the Spider Woman (1985). mas eu gosto especialmente dele como Tom Grunick, o anchorman de Broadcast News (1987) de James L. Brooks, filme no qual os dispositivos da televisão são expostos de forma implacável. Grunick (William Hurt) é o repórter medíocre, o semi-analfabeto bem parecido, que chega a pivot de um telejornal e se transforma em estrela. ele nem sequer é má pessoa, é apenas uma nulidade a quem o estrelado conferiu o chamado efeito de aura. o fillme faz agora 35 anos. o actor faleceu hoje aos 71. para mim, também será sempre uma espécie de Amigo de Alex.

Water Babies
este é dos meus álbuns favoritos de Miles Davis e o tema que lhe dá o título é simplesmente uma aventura luminosa da chamada fase de transição. isto não serve para embalar. isto é a imaginação à solta a criar novos mundos num paleta sonora que, parecendo minimal, abre porta atrás de porta com o infinito por horizonte. no lado 1 do álbum, gravado por volta de 1968, Miles tem por companhia Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, Tony Williams.

Washington D.C.
nunca fui grande admirador de gore vidal enquanto romancista, embora sempre tenha reconhecido nele o interesse bastante para, de quando em vez, pegar num dos seus livros. entre estes, os que mais me agradam são os relacionados com a história da américa, habitualmente designados como Narrativas do Império. Washington, D.C. é o primeiro desse ciclo. li-o há muitíssimos anos, porventura no final dos anos 60, suponho que em joanesburgo. há dias, passando por uma banca de rua com livros à venda, dei com esta tradução portuguesa. desembolsei os 5 euros pedidos e voltei a lê-lo. vidal trata da sacanagem política em Washington D.C. num período que vai da Grande Depressão ao pós-guerra. o tempo de roosevelt, portanto. lá estão os interesses, as virtudes públicas e os vícios privados, o conúbio com os media, as facadas nas costas, os milionários nos bastidores, as alianças espúrias. observo há muito a política americana. no fundo, toca-nos a todos. e ultimamente, tenho seguido com atenção a campanha de bernie sanders, um político fenomenal, visto por muitos como um quixote, acossado dentro do seu próprio partido, mas que, contra tudo e contra todos, está a empolgar a juventude e a mobilizar muita gente. creio que foi por isso que, instintivamente, senti vontade de reler Washington D.C. - uma história de sacanagem, como disse.

Wall Street (1987) de Oliver Stone
este é um filme sobre a grande desregulação de Ronald Reagan, o tempo em que Wall Street entrou em roda livre pela mão da alta finança. é hoje uma obra de culto. é muito bom. Gordon Gekko (Michael Douglas) é um oportunista ambicioso, cínico e implacável no seu desvario de fazer dinheiro. trai toda a gente, a começar pelos que lhe estão mais próximos. a personagem, baseada numa investigação exaustiva levada a cabo na Bolsa de Nova Iorque pelo próprio Oliver Stone e pelo seu argumentista Stanley Weiser, é construída a partir da observação dos comportamentos de pessoas reais. talvez por isso, e por expor os mecanismos ocultos de Wall Street, o filme tenha sido recebido com reservas. todavia, não só não envelheceu com o tempo, como foi premonitório. contemporâneo de crash de 1987, antecipou a crise do subprime de 2008. é de Gordon Gekko esta tirada dirigida a Bud Fox (Charlie Sheen), o aprendiz renitente que se lhe juntou: "The richest one percent of this country owns half our country's wealth, five trillion dollars. One third of that comes from hard work, two thirds comes from inheritance, interest on interest accumulating to widows and idiot sons and what I do, stock and real estate speculation. It's bullshit. You got ninety percent of the American public out there with little or no net worth. I create nothing. I own. We make the rules, pal. The news, war, peace, famine, upheaval, the price per paper clip. We pick that rabbit out of the hat while everybody sits out there wondering how the hell we did it. Now you're not naive enough to think we're living in a democracy, are you buddy? It's the free market. And you're a part of it. You've got that killer instinct. Stick around pal, I've still got a lot to teach you." ao contrário do que poderia supor-se, a personagem de Gordon Gekko tornou-se um ícone para gerações de negociantes, banqueiros e investidores. o seu aforismo mais conhecido "greed is good" é hoje a divisa do presidente dos Estados Unidos da Amária, Donald J. Trump.
este é um filme sobre a grande desregulação de Ronald Reagan, o tempo em que Wall Street entrou em roda livre pela mão da alta finança. é hoje uma obra de culto. é muito bom. Gordon Gekko (Michael Douglas) é um oportunista ambicioso, cínico e implacável no seu desvario de fazer dinheiro. trai toda a gente, a começar pelos que lhe estão mais próximos. a personagem, baseada numa investigação exaustiva levada a cabo na Bolsa de Nova Iorque pelo próprio Oliver Stone e pelo seu argumentista Stanley Weiser, é construída a partir da observação dos comportamentos de pessoas reais. talvez por isso, e por expor os mecanismos ocultos de Wall Street, o filme tenha sido recebido com reservas. todavia, não só não envelheceu com o tempo, como foi premonitório. contemporâneo de crash de 1987, antecipou a crise do subprime de 2008. é de Gordon Gekko esta tirada dirigida a Bud Fox (Charlie Sheen), o aprendiz renitente que se lhe juntou: "The richest one percent of this country owns half our country's wealth, five trillion dollars. One third of that comes from hard work, two thirds comes from inheritance, interest on interest accumulating to widows and idiot sons and what I do, stock and real estate speculation. It's bullshit. You got ninety percent of the American public out there with little or no net worth. I create nothing. I own. We make the rules, pal. The news, war, peace, famine, upheaval, the price per paper clip. We pick that rabbit out of the hat while everybody sits out there wondering how the hell we did it. Now you're not naive enough to think we're living in a democracy, are you buddy? It's the free market. And you're a part of it. You've got that killer instinct. Stick around pal, I've still got a lot to teach you." ao contrário do que poderia supor-se, a personagem de Gordon Gekko tornou-se um ícone para gerações de negociantes, banqueiros e investidores. o seu aforismo mais conhecido "greed is good" é hoje a divisa do presidente dos Estados Unidos da Amária, Donald J. Trump.

Violeta
Violeta do russo Kantemir Balagov é um dos tais filmes que podia ter sido grande, mas que acabou por ficar a meio do caminho. extraviou-se. é o que dá quando um cineasta fica deslumbrado com o próprio virtuosismo e não percebe que ou a alegoria e transcendência nascem da respiração do filme ou simplesmente não acontecem. ou seja, por mais fascinante que seja a fotografia e deslumbrante a composição - é o caso -, há um ponto a partir do qual não há regresso. é quando o dispositivo, tomando o lugar do pulsar da vida na tela, instala o formalismo enquanto fim em si mesmo. por isso, a dada altura, as cenas arrastam-se numa espécie de auto-comprazimento que resulta em punição gratuita do público. Violeta tem ainda outros problemas. por exemplo, quer o pós-guerra em Leninegrado, quer a obra na qual se inspira, A Guerra não Tem Rosto de Mulher de Svetlana Alexievich, são radicalmente subvertidos na visão de Balagov. é essa a função do artista, dir-se-á. e é. o problema é quando a visão do artista escolhe um ponto de partida com o qual o ponto de chegada nada tem a ver. mas, sim, vão ver o filme. tenho lido tais maravilhas a propósito que o mais certo é eu estar enganado.

Venezuela, a montanha acima das nuvens (2025) de Rui Pereira
Venezuela, a montanha acima das nuvens
acaba de sair um novo livro de Rui Pereira. título: Venezuela, a montanha acima das nuvens: Uma hipótese de crónica. editado pela Unicepe. tem 130 páginas, lê-se de um fôlego e suscita um conjunto de questões sobre as quais seria importante refletir. antes de mais, sendo um conceituado teórico dos media, Rui Pereira expõe os mecanismos de formação mediática do senso comum em função dos quais se criou uma determinada visão da Venezuela e de Maduro. sem escamotear as tremendas dificuldades do país, tece depois uma tela de fundo que é, simultaneamente, o lugar onde se vislumbram as razões profundas da crise social, bem como a imagem do esforço levado a cabo para a superar. segue-se um alerta, aliás, já consubstanciado no anúncio da obra, quando se recupera o entendimento do antigo director da delegação em Viena dos serviços da ONU, Pino Arlacchi: dois mil mísseis apontados contra o país - que tem das maiores reservas mundiais de petróleo - podem vir a torná-lo "a terceira grande crise internacional da actualidade, a par da Palestina e da Ucrânia". é ler. quem tiver acesso à apresentação de Luís Miguel Loureiro fica ainda mais bem servido.
acaba de sair um novo livro de Rui Pereira. título: Venezuela, a montanha acima das nuvens: Uma hipótese de crónica. editado pela Unicepe. tem 130 páginas, lê-se de um fôlego e suscita um conjunto de questões sobre as quais seria importante refletir. antes de mais, sendo um conceituado teórico dos media, Rui Pereira expõe os mecanismos de formação mediática do senso comum em função dos quais se criou uma determinada visão da Venezuela e de Maduro. sem escamotear as tremendas dificuldades do país, tece depois uma tela de fundo que é, simultaneamente, o lugar onde se vislumbram as razões profundas da crise social, bem como a imagem do esforço levado a cabo para a superar. segue-se um alerta, aliás, já consubstanciado no anúncio da obra, quando se recupera o entendimento do antigo director da delegação em Viena dos serviços da ONU, Pino Arlacchi: dois mil mísseis apontados contra o país - que tem das maiores reservas mundiais de petróleo - podem vir a torná-lo "a terceira grande crise internacional da actualidade, a par da Palestina e da Ucrânia". é ler. quem tiver acesso à apresentação de Luís Miguel Loureiro fica ainda mais bem servido.

Vem e Vê
encham-se de coragem e não percam este filme assombroso. coragem porque nunca viram nada de semelhante. magoa até ao limite do humano. não percam porque é imensamente belo, terrivelmente lúcido. se virem, vão querer voltar a ver. eu já vi algumas. a primeira - lembro-me bem porque foi uma experiência inesquecível - foi na única projecção do filme em sala no porto, há muitos anos, era ainda o carlos alberto um cinema.

Velimir Khlebnikov
este é o poeta Velimir Khlebnikov tal como o viu o pintor Mikhail Larionov. ambos mergulharam no turbilhão das vanguardas artísticas russas das primeiras décadas do século XX. o linguista Roman Jakobson considerava Khlebnikov o poeta mais importante do século XX. Khlebnikov, que, por sinal, teve uma vida desgraçada, foi a grande influência de Maiakovski. eu gosto de todos eles, reencontrados, agora, nas tarefas de pôr alguma ordem nos acumulados
NÚMEROS
Eu vos contemplo, ó números!,
E vós me vedes, vestidos de animais, em suas peles,
As mãos sobre carvalhos destroçados,
Ofereceis a união entre o serpear
Da espinha dorsal do universo e a dança da balança.
Permitis a compreensão dos séculos, como os dentes numa breve gargalhada.
Meus olhos se arregalam intensamente.
Aprender o destino do Eu, se a unidade é seu dividendo.
trad. marco lucchesi.
NÚMEROS
Eu vos contemplo, ó números!,
E vós me vedes, vestidos de animais, em suas peles,
As mãos sobre carvalhos destroçados,
Ofereceis a união entre o serpear
Da espinha dorsal do universo e a dança da balança.
Permitis a compreensão dos séculos, como os dentes numa breve gargalhada.
Meus olhos se arregalam intensamente.
Aprender o destino do Eu, se a unidade é seu dividendo.
trad. marco lucchesi.

Uma Pasionaria da Palestina
uma Pasionaria da Palestina
Put Your Soul on Your Hand and Walk (2025) da iraniana Sepideh Farsi é dos filmes mais comoventes que alguma vez vi. não me sai da cabeça o rosto sorridente da protagonista Fatima Hassouna, uma jovem fotojornalista palestiniana. mulher de coragem indómita, optimista apesar do horror da circunstância, Fatima foi assassinada pela tropa sionista, com toda a família, na faixa de Gaza, a 16 de abril de 2025. foi uma matança seletiva. o documentário a seu respeito, Put Your Soul on Your Hand and Walk, estrearia no Festival de Cannes no dia seguinte. em vida, Fatima fotografou e filmou a vida quotidiana no inferno de Gaza, o lastro de violência, morte e destruição deixado pelas IDF de israel. as imagens que fez foram sendo enviadas para fora. uma das destinatárias foi a cineasta iraniana Sepideh Farsi a viver, há décadas, em Paris e em Atenas. durante meses, Farsi gravou todas as videochamadas entre ambas. as gravações fazem o filme. mostram, desde logo, o contraste entre uma mulher que viaja pelo mundo para mostrar os seus trabalhos e uma outra confinada a um campo de concentração sem saber se estaria viva no dia seguinte. a precariedade das ligações, com interferências de vária ordem e o ecrã a negro, funciona como metáfora da existência de Fátima. o dispositivo narrativo deixa perceber, desde o início, qual a sua sorte. a dada altura, a cineasta, uma feminista à maneira ocidental, pede-lhe que tire o hijab. Fatima diz-lhe, serenamente, que se sente bem com ele, mas, sim, fa-lo-á noutras circunstâncias, quando se encontrarem pessoalmente. a cada nova chamada mostra-se mais fatigada. emagreceu devido à fome e sofre de depressão porque vê os amigos serem mortos todos os dias. apetecia-me dizer duas ou três coisas sobre o método de Sepideh Farsi, mas não o vou fazer. direi apenas que, regra geral, mostra empatia, sensibilidade e solidariedade. isso é o mais importante. no final de Put Your Soul on Your Hand and Walk, recorda o número de jornalistas mortos, até à data, na faixa de Gaza: 236 (hoje são muitos mais). mas, o que fica, acima de tudo, é a memória da maravilhosa Fatima Hassouna, símbolo da Palestina, que é uma chamada à ação coletiva contra a barbárie sionista.
Put Your Soul on Your Hand and Walk (2025) da iraniana Sepideh Farsi é dos filmes mais comoventes que alguma vez vi. não me sai da cabeça o rosto sorridente da protagonista Fatima Hassouna, uma jovem fotojornalista palestiniana. mulher de coragem indómita, optimista apesar do horror da circunstância, Fatima foi assassinada pela tropa sionista, com toda a família, na faixa de Gaza, a 16 de abril de 2025. foi uma matança seletiva. o documentário a seu respeito, Put Your Soul on Your Hand and Walk, estrearia no Festival de Cannes no dia seguinte. em vida, Fatima fotografou e filmou a vida quotidiana no inferno de Gaza, o lastro de violência, morte e destruição deixado pelas IDF de israel. as imagens que fez foram sendo enviadas para fora. uma das destinatárias foi a cineasta iraniana Sepideh Farsi a viver, há décadas, em Paris e em Atenas. durante meses, Farsi gravou todas as videochamadas entre ambas. as gravações fazem o filme. mostram, desde logo, o contraste entre uma mulher que viaja pelo mundo para mostrar os seus trabalhos e uma outra confinada a um campo de concentração sem saber se estaria viva no dia seguinte. a precariedade das ligações, com interferências de vária ordem e o ecrã a negro, funciona como metáfora da existência de Fátima. o dispositivo narrativo deixa perceber, desde o início, qual a sua sorte. a dada altura, a cineasta, uma feminista à maneira ocidental, pede-lhe que tire o hijab. Fatima diz-lhe, serenamente, que se sente bem com ele, mas, sim, fa-lo-á noutras circunstâncias, quando se encontrarem pessoalmente. a cada nova chamada mostra-se mais fatigada. emagreceu devido à fome e sofre de depressão porque vê os amigos serem mortos todos os dias. apetecia-me dizer duas ou três coisas sobre o método de Sepideh Farsi, mas não o vou fazer. direi apenas que, regra geral, mostra empatia, sensibilidade e solidariedade. isso é o mais importante. no final de Put Your Soul on Your Hand and Walk, recorda o número de jornalistas mortos, até à data, na faixa de Gaza: 236 (hoje são muitos mais). mas, o que fica, acima de tudo, é a memória da maravilhosa Fatima Hassouna, símbolo da Palestina, que é uma chamada à ação coletiva contra a barbárie sionista.

Um quadro de kazimir malevich e um poema de velimir khlebnikov
Bem pouco me basta!
A crosta de pão
a gota de leite.
E mais este céu,
com as suas nuvens!
trad. marco lucchesi
A crosta de pão
a gota de leite.
E mais este céu,
com as suas nuvens!
trad. marco lucchesi

Um Passado Perfeito
sempre gostei da literatura policial. volta e meia ressuscito o chandler, o hammet e mais uns tantos de uma galeria de favoritos cujas personagens me revelam muito daquilo que somos e dos lugares, reais ou simbólicos, onde nos movemos. o cubano leonardo padura está entre os favoritos. ele e o seu mário conde, um polícia cujo percurso de vida poderia ter sido outro, mas que acabou enredado na teia da marginalidade de havana, essa cidade fascinante que tanto prometera, todavia, distante de concretizar os seus melhores sonhos. conde é um polícia que gostaria de ter sido escritor, um homem que cumpre as suas funções sabendo que pisa terreno minado, alguém que apesar do cepticismo olha em volta e não se detém, sem heroísmo, e sabendo, porventura, que no fim da linha estará ainda mais só. estive em cuba em meados dos anos 90. andei por toda a ilha e não apenas por havana e pelas praias. o livro terá sido escrito por essa altura. lê-lo de novo foi um pouco como voltar a esse tempo. gosto de padura. gosto de havana. e gosto de cuba.

um livro indispensável do Capitão de Abril Carlos Matos Gomes
este é um livro de memórias - e reflexão - de alguém que viveu por dentro a Revolução de Abril. militar dos Comandos, Carlos Matos Gomes fez comissões de serviço em Angola, Moçambique e na Guiné. foi ele quem criou a primeira companhia de tropas especiais guineense constituída exclusivamente por soldados negros. neste livro conta como tudo isso aconteceu, como foi a tomada do poder pelo MFA no dia 26 de abril em Bissau, fala dos cruentos combates travados nas três colónias, dá conta do que se seguiu, já em Portugal, até ao 25 de Novembro e além. mais do que a divulgação de factos, muitos dos quais, eu, por exemplo, ou desconhecia ou deles fazia diferente juízo, Matos Gomes produz uma reflexão pessoal, crítica, trazendo uma abordagem que acrescenta elementos novos quer ao melhor conhecimento dos protagonistas da História quer ao pensamento político associado à interpretação da Revolução. numa prosa elegante e fluída, em Geração D estão plasmadas as perplexidades, inquietações, esperanças e vicissitudes de um tempo caro a todos, mesmo se por razões diversas. não é só mais um livro sobre o 25 de abril e a guerra colonial. é um livro indispensável.

um livro extraordinário de Max Aub
um livro extraordinário de Max Aub
nascido em Paris em 1903, filho de pai alemão e mãe francesa, espanhol por opção, Max Aub é um narrador de extraordinária versatilidade. o ponto de partida deste Manuscrito Corvo é a sua experiência pessoal no campo de concentração de Vernet, em França, durante a II guerra mundial. de passagem, é bom lembrar que os governos colaboracionistas dos nazis tiveram os seus próprios campos, regra geral, geridos com zelo ou, até, excesso dele. pois bem, aqui, o corvo Jacobo observa das alturas os estranhos hábitos dos bípedes sem penas que habitam aquele cercado de arame farpado. toma notas, concluindo pela superioridade da sociedade corvina - que voa - sobre a estranha comunidade dos homens vestidos às riscas e dos seus guardas fardados. por obra do generalíssimo Franco, Max Aub passou a maior parte da vida exilado. autor de mais de 40 livros, mestre do humor negro, ei-lo enquanto Jacobo: "Os homens fazem o que não querem. Para alcançarem este objectivo, tão absurdo em nosso entendimento, inventaram quem mande neles."
nascido em Paris em 1903, filho de pai alemão e mãe francesa, espanhol por opção, Max Aub é um narrador de extraordinária versatilidade. o ponto de partida deste Manuscrito Corvo é a sua experiência pessoal no campo de concentração de Vernet, em França, durante a II guerra mundial. de passagem, é bom lembrar que os governos colaboracionistas dos nazis tiveram os seus próprios campos, regra geral, geridos com zelo ou, até, excesso dele. pois bem, aqui, o corvo Jacobo observa das alturas os estranhos hábitos dos bípedes sem penas que habitam aquele cercado de arame farpado. toma notas, concluindo pela superioridade da sociedade corvina - que voa - sobre a estranha comunidade dos homens vestidos às riscas e dos seus guardas fardados. por obra do generalíssimo Franco, Max Aub passou a maior parte da vida exilado. autor de mais de 40 livros, mestre do humor negro, ei-lo enquanto Jacobo: "Os homens fazem o que não querem. Para alcançarem este objectivo, tão absurdo em nosso entendimento, inventaram quem mande neles."

Um Fascinante Jogo de Máscaras
Sorge, de um fôlego: combate pelo exército imperial alemão na I Guerra Mundial, fica gravemente ferido, é condecorado com uma Cruz de Guerra, torna-se marxista e adere ao Partido Comunista na Alemanha, faz um doutoramento em Ciência Política, entra para o Comintern, é enviado para instigar a Revolução em diversos países, consegue infiltrar-se e obter o cartão de membro do partido nazi em Berlim, vai viver para Moscovo, é enviado pela União Soviética para Xangai onde cria uma tremenda rede de espionagem, segue depois para o Japão, fazendo-se passar por especialista dos assuntos da região, torna-se íntimo do embaixador do III Reich em Tóquio - e amante da sua mulher - tem acesso a informação ultra secreta que durante anos transmite ao Centro, avisa Estaline da Operação Barbarossa, nome de código da invasão da URSS pela Wehrmacht e seus aliados do Eixo, em suma, um tipo com uma vida tão assombrosa tinha de ficar para a História como o mais formidável espião de todos os tempos. Richard Sorge ou Ramsey, o mais conhecido dos seus nomes de código, tinha, obviamente, características pessoais singularíssimas: bebedor incorrigível, amante insaciável, viciado na velocidade das suas motos e automóveis, orador brilhante, intelectual de altíssima craveira, jornalista respeitado, indefectível comunista: sentia-se na vertigem do perigo como peixe na água. de tal modo que no jogo do gato e do rato iniciado com os processos de Moscovo, na sequência dos quais foram executados sucessivamente seis diretores do seu Comando - os seus superiores - Sorge conseguiu escapar à purga. não escapou foi à polícia japonesa. preso no final de 1941, seria enforcado em 1944. pensou até ao fim que a URRS acabaria por resgatá-lo. nunca soube, embora suspeitasse, que Estaline o considerava um agente duplo, mandando para o cesto do lixo as suas informações. subiu ao patíbulo com vivas à Revolução. foi reabilitado após o XX Congresso do PCUS e considerado herói da União Soviética. a história de Sorge tem sido contada de muitas maneiras ao longo dos anos. em ensaios, no cinema, na literatura. este livro de Owem Matthews, porém, recolhe informações só há pouco tornadas públicas, designadamente dos arquivos da polícia secreta russa. por vezes, apresenta dados contraditórios. eu diria que, tratando-se de espionagem, isso é natural. vale a pena lê-lo pelo que revela sobre os meandros da política, sobretudo agora quando a invasão da Ucrânia é representada de modo simplificadamente maniqueísta. já agora, este leitor leu muito sobre espiões. adora o tema. o que de mais fascinante encontrou neste livro foi o jogo de máscaras, sempre uma chave para ler a guerra e o mundo.

Ukraine on Fire (2016) de Oliver Stone/Igor Lopotonok
esta é a versão de Oliver Stone sobre os dias da Praça Maidan, em Kiev. cineasta várias vezes premiado, autor de filmes como Platoon, JFK, Salvador e Wall Street, Stone é também historiador. publica livros sobre a actualidade americana - o último visava Trump - e fez para a televisão uma série documental indispensável, The Untold Story of The United States. há dois ou três dias falei do documentário Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom (2015) do russo-israelita Evgeny Afineevsky. pois Ukkraine on Fire vem na sequência desse filme. também regista testemunhos de participantes de Maidan e imagens gravadas pelos mais diversos dispositivos. mas não fica por aí. a partir de documentos libertados pelos serviços secretos americanos, explora as conexões da Praça com a extrema-direita, elucida o papel dos media e das várias igrejas, e mostra políticos republicanos como John McCain em comícios lado a lado com neo-nazis. se o documentário de Afineevsky é meramente expositivo, com um ponto de vista claro, Stone, juntando as peças de um puzzle a partir da explicitação de um contexto, constrói um filme tese. quem anda aturdido com indignações talvez se sinta defraudado. eu não dispenso saber de todas as partes.

Trumbo de Jay Roach
Dalton Trumbo foi um dos grandes argumentistas de Hollywood. filmes como Férias em Roma, Spartacus ou Exodus têm a sua assinatura. ou melhor, nem sempre tiveram a sua assinatura, embora fosse ele o autor dos argumentos. porquê? porque o seu nome fez parte da famosa lista negra elaborada pelos anti-comunistas da indústria cinematográfica, entre os quais se destacava John Wayne, um actor de quem sempre gostei nos westerns de John Ford, todavia, um safado reaccionário do piorio na vida real. portanto, trumbo escrevia argumentos para sobreviver, mas outros davam a cara e o nome por ele. o filme (2015) é interessante a vários títulos, pese embora a inevitável tendência, muito americana, de deixar no ar, no final, a reconciliação das partes. o famoso processo dos 10 de Hollywood - é disso que o filme fala - foi construído numa altura em que o FBI era controlado pela extrema-direita e uma parte significativa da população acreditava em tudo quanto pudesse alimentar a paranoia anti-comunista criada pelas narrativas mediáticas. Madeleine Albright, no seu último livro, publicado pouco antes de falecer - nessa altura, é bom lembrar, à frente da Administração estava Trump - classificou a "caça às bruxas" do senador McCarthy como uma acção fascista e alertou para exemplos de derivas totalitárias na Europa, nomeadamente na Hungria e na Polónia, algo com que a UE, durante anos a fio, andou a fazer de conta. Trumbo, o filme, utiliza com critério imagens de arquivo, é rigoroso nas reconstituições, eficaz nas articulações dramáticas e tem grandes interpretações. é um bom filme para fazer um intervalo na enxurrada de propaganda que por aí vai. na foto está o verdadeiro Trumbo.

They Live (1988) de John Carpenter
Declaração de interesses: John Carpenter é um dos meus cineastas preferidos, mesmo se vezes sem conta desvalorizado por determinadas franjas de cinéfilos. quanto a este filme, que voltei a ver agora, é simplesmente colossal. Nada (Roddy Piper), um tipo sem eira nem beira nem qualquer propósito na vida, arranja uns óculos de sol que lhe permitem ver o mundo para além das aparências. ao caminhar pelas ruas de Los Angeles constata que os anúncios publicitários e outdoors, bem com as mensagens veiculadas pelos media, são máscaras cujo conteúdo manifesto esconde o conteúdo latente. o propósito é simples: conservar as pessoas na ignorância, mas contentes dela, iludidas e anestesiadas, de modo a permitir à elite governar sem sobressaltos. os óculos de sol de Nada são uma ferramenta de revelação. o que se vê através deles é um mundo fake dominado por zombies de crâneos expostos, criaturas malignas sem alma que incentivam o conformismo induzindo o consumismo. Nada, o herói da fita, assume a luta pela libertação das grilhetas dominantes. que grande filme! extraordinariamente bem feito!
Obs.
em tempos, a propósito do confinamento, escrevi um texto em que falo de They Live e de outras obras premonitórias. vinha o texto a propósito de aberrações como Trump, Bolsonaro e seus apoiantes, esses, sim, uma verdadeira pandemia. aqui: https://www.narrativasdoreal.com/post/não-sei-se-me-apetece-voltar-à-normalidade-aliás-não-quero

Their Finest
outro filme feito por uma mulher, Lone Scherfig. chama-se Their Finest (2016), em português Heróis da Nação, e dei com ele por mero acaso no streaming. fui ler algumas críticas. uma ou outra eram tão más que obviamente tive de o ver até porque o tema me interessa deveras. pois vi e diverti-me bastante. estamos em Londres em 1940, há bombardeamentos todas as noites e a produção de filmes passou a estar sob a tutela do ministério da guerra. Catrin Cole (Gemma Arterton, uma magnífica atriz) concorre a um lugar de guionista para dar um toque feminino à propaganda. ganha o concurso. "lamechices", segundo os homens com quem trabalha. o filme em preparação, no qual Catrin vai colaborar, deveria ser uma espécie de Potemkin britânico. concluído, não é nada do género, mas põe toda a gente a chorar. do que verdadeiramente gosto em Their Finest - título inteligentemente surripiado a Churchil - é do sentido de humor. o filme lança um oblíquo olhar feminino sobre o mundo do cinema, troça gentilmente do modo como as coisas são feitas, expõe as fragilidades masculinas, ridiculariza o cinema de estúdio americano, diverte-se ao colocar um documentarista a rodar um filme de ficção, enfim, de forma subtil, vira a ordem estabelecida de pernas para o ar. é um filme sobre outro filme a fazer que uma vez feito acabará por nada ter a ver com o filme que deveria ter sido um Potemkin. quem conhecer um pouco dos meandros do cinema britânico divertir-se-á a dobrar. quem não conhecer diverte-se na mesma. aliás, a realizadora, Lone Scherfig, até é dinamarquesa.

The Third Man de Carol Reed
este filme (1949) é genial. e tão actual... o script é de Graham Greene, mas Orson Welles deu-lhe uma grande volta. algumas das melhores tiradas são dele. Welles é Harry Lime. Joseph Cotten é Holly Martins. ora vejam esta fala:
Harry Lime: “Don't be so gloomy. After all it's not that awful. Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love - they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock. So long Holly.”
Harry Lime: “Don't be so gloomy. After all it's not that awful. Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love - they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock. So long Holly.”

The Stranger (1946) de Orson Welles
face à enxurrada de propaganda travestida de jornalismo e do lixo que abunda na generalidade da oferta das plataformas da moda, nada como regressar àquilo que sabemos continuará a surpreender-nos. rever fitas como esta não é um ritual de nostalgia, é um exercício de imaginação. apesar de obediente aos cânones do cinema de género de Hollywood, The Stranger é uma lição magistral de Cinema. Orson não o valorizava especialmente, talvez por o ver demasiado colado à narrativa clássica. mas pouco importa. importa, sim, é o glorioso preto e branco, os ângulos expressionistas, a incidência da luz, a atmosfera, a fluidez dos cortes, as interpretações superlativas que dão corpo a um dos melhores noir saídos dos estúdios. em síntese, um investigador de crimes de guerra de nome Wilson (Edward G. Robinson) persegue um criminoso nazi que se faz passar por Charles Rankin (Orson Welles), professor numa pequena localidade do Connecticut. Rankin está noivo e vem a casar com Mary Longstreet (Loretta Young), filha de um destacado juiz americano. daqui resulta um ensaio sobre a pestilência moral e intelectual do vírus do fascismo que tanto pode alcançar os lugares mais remotos quanto avançar insidiosamente onde tudo é supostamente adquirido e seguro para atacar os corpos e corromper as almas.

The Social Dilema
o dilema é como lidar com as redes sociais. não é um problema menor, é uma grandíssima questão. nelas coexistem a utopia do acesso à razão e ao conhecimento sem limites e a distopia da irracionalidade imposta por modelos de negócios cuja busca do lucro não enjeita, antes exige, a manipulação e a disseminação da ignorância. os testemunhos são de executivos do Facebook, Instagram, Google e outras plataformas e não deixam lugar a dúvidas quanto ao admirável mundo novo dos algoritmos. a produção deliberada de fake news, por exemplo, é altamente lucrativa e não falta quem tire partido com consequências políticas, económicas e sociais em larga escala. por outro lado, é indispensável ao sistema criar junkies incapazes de viver sem estarem conectados, uma vez que só assim, dependentes e inconscientes, podem ser vendidos aos anunciantes como produto. mas é ver. está na Netflix e é muito bem feito. dá que pensar.
C A T E G O R I A S
bottom of page



