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2. O “nacionalismo moderado” de Plokhy, Yekelchyk e Matthews


São os pilares do nacionalismo identificados no monumento a Stepan Bandera de Lviv que servem de matriz aos historiadores ucranianos ou de ascendência ucraniana. Com diferentes e, por vezes, substanciais declinações, a maioria procura afastar-se do líder ultranacionalista, promovendo, em simultâneo, a ideia de um novo “nacionalismo moderado”. É o que fazem Plokhy, Yekelchyk e Matthews que, em maior ou menor grau, levam a cabo digressões, medidas em séculos, em busca da identidade da nação. Poderá haver, e há, ponderação diversa de episódios sinalizados, mas partilham os fundamentos de uma mesma matriz histórica legitimadora. A razão é simples. A questão da Ucrânia é existencial.


 

Stepan Bandera, o herói nacionalista ucraniano de quem a maioria dos historiadores contemporâneos procura distanciar-se. Comandante da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), Bandera foi um dos principais colaboradores da Alemanha nazi, sendo comprovadamente responsável por numerosas atrocidades e crimes de guerra, incluindo o extermínio de judeus ucranianos. Todavia, há quem veja nele um ícone da resistência anti-soviética e um combatente pela liberdade. A imagem negativa a ele associada que para o exterior é, regra geral, atribuída à propaganda russa. (ver exemplo do elogio de Bandera, herói nacional, aqui: https://theins.ru/en/politics/250805). Imagem:The Insiderd
Stepan Bandera, o herói nacionalista ucraniano de quem a maioria dos historiadores contemporâneos procura distanciar-se. Comandante da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), Bandera foi um dos principais colaboradores da Alemanha nazi, sendo comprovadamente responsável por numerosas atrocidades e crimes de guerra, incluindo o extermínio de judeus ucranianos. Todavia, há quem veja nele um ícone da resistência anti-soviética e um combatente pela liberdade. A imagem negativa a ele associada que para o exterior é, regra geral, atribuída à propaganda russa. (ver exemplo do elogio de Bandera, herói nacional, aqui: https://theins.ru/en/politics/250805). Imagem:The Insiderd

A bandeira nacional e o tridente sempre presentes nas manifestações pró-ucranianas. A foto é de Pittsburgh, em 03 de março de 2025, com a refugiada nos Estados Unidos, desde 2014, Natalka Rymar, ao centro. O tryzub, tridente em português, em fundo azul (o céu) e ouro (o trigo), é o símbolo nacional da Ucrânia. Há quem localize a sua origem no século I d.C., como símbolo de poder de algumas tribos nórdicas. A partir desses vestígios procurou estabelecer-se um itinerário que tem na Rus’ de Kiev, no século X, o momento em que o tridente, então visto como a Santíssima Trindade, representa o estado. Porém, só no século XX surge associado a duas efémeras repúblicas ucranianas, aliás, com pouco ou nada em comum com a atual. O tridente em fundo ouro e azul, enquanto símbolo da república da Ucrânia que emergiu com o colapso da União Soviética, em 1991, tem pouco mais de 30 anos. Imagem: Pittsburgh’s Public Source
A bandeira nacional e o tridente sempre presentes nas manifestações pró-ucranianas. A foto é de Pittsburgh, em 03 de março de 2025, com a refugiada nos Estados Unidos, desde 2014, Natalka Rymar, ao centro. O tryzub, tridente em português, em fundo azul (o céu) e ouro (o trigo), é o símbolo nacional da Ucrânia. Há quem localize a sua origem no século I d.C., como símbolo de poder de algumas tribos nórdicas. A partir desses vestígios procurou estabelecer-se um itinerário que tem na Rus’ de Kiev, no século X, o momento em que o tridente, então visto como a Santíssima Trindade, representa o estado. Porém, só no século XX surge associado a duas efémeras repúblicas ucranianas, aliás, com pouco ou nada em comum com a atual. O tridente em fundo ouro e azul, enquanto símbolo da república da Ucrânia que emergiu com o colapso da União Soviética, em 1991, tem pouco mais de 30 anos. Imagem: Pittsburgh’s Public Source



Moeda de prata do tempo do príncipe Vladimir, o Grande, da Rus’ de Kiev. No reverso, à direita, o tridente. Mykhailo Hrushevsky, historiador ucraniano da transição do século XIX para o século XX, afirma ter identificado no tridente a simbologia das origens da nacionalidade, o elo de ligação entre o estado moderno e o passado medieval. Imagem: Reddit
Moeda de prata do tempo do príncipe Vladimir, o Grande, da Rus’ de Kiev. No reverso, à direita, o tridente. Mykhailo Hrushevsky, historiador ucraniano da transição do século XIX para o século XX, afirma ter identificado no tridente a simbologia das origens da nacionalidade, o elo de ligação entre o estado moderno e o passado medieval. Imagem: Reddit


O Regresso da História. Historiador e diretor do Harvard Ukranian Research Institute, apresentado pelo Financial Times como “o mais importante historiador da Ucrânia”, Serhii Plokhy introduz em A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História, publicado pela Editorial Presença, a diferenciação entre “nacionalismo moderado” e “nacionalismo radical”. Porém, ao longo das 330 páginas do livro escassas linhas se ocupam do nacionalismo “radical”. A par do reconhecimento do papel de organizações extremistas, Plokhy, não omitindo o passado de Stepan Bandera, apoiante do III Reich, cujo colaboracionismo sugere ter sido consequência de uma reação ao Holodomor, realça, em todo o caso, o papel do homem que, no final da guerra, chegou a estar detido num campo de concentração nazi.


Em contrapartida, investe a fundo na tese segundo a qual “A invasão russa destruiu os últimos resquícios da crença de que os Ucranianos e os Russos eram povos irmãos” (p.186), providenciando, nesse sentido, diversos comprovativos. Por exemplo, em Pereiaslav, as autoridades municipais removeram o monumento comemorativo da reunificação da Rússia e Ucrânia, o qual, reportando a 1654, aludia ao juramento de fidelidade prestado pelo atamã Bohdan Khmelnytsky ao Czar russo (p.187). Outro exemplo:


“O monumento da Mãe Pátria a defender a cidade contra a agressão nazi com a espada numa mão e o escudo na outra, erigido pelos soviéticos nos anos 1980 e conhecido como um símbolo de Kiev, permaneceu quase intacto, mas mudou de significado. É agora visto como um símbolo da resistência à invasão russa.” (p.187)


A estátua da Mãe Pátria com 102 metros de altura, originalmente um monumento comemorativo da vitória soviética sobre o nazi-fascismo, foi adaptado aos novos tempos. Perdeu a foice e o martelo e em seu lugar apareceu o tridente ucraniano. Na foto, o monumento original. Imagem: Poder 360
A estátua da Mãe Pátria com 102 metros de altura, originalmente um monumento comemorativo da vitória soviética sobre o nazi-fascismo, foi adaptado aos novos tempos. Perdeu a foice e o martelo e em seu lugar apareceu o tridente ucraniano. Na foto, o monumento original. Imagem: Poder 360


Estátua atual da Mãe Pátria, outrora parte do complexo do memorial do Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial. Imagem: Los Angeles Times
Estátua atual da Mãe Pátria, outrora parte do complexo do memorial do Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial. Imagem: Los Angeles Times


Mapa da demolição de estátuas de Lenine e resultados eleitorais das presidenciais de 2010 disputadas entre Yanukovych, considerado pró-russo, e Tymoshenko, pró-ocidental. O mapa é de 2017 e permite algumas reflexões quando comparado os mapas militares atuais. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute
Mapa da demolição de estátuas de Lenine e resultados eleitorais das presidenciais de 2010 disputadas entre Yanukovych, considerado pró-russo, e Tymoshenko, pró-ocidental. O mapa é de 2017 e permite algumas reflexões quando comparado os mapas militares atuais. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute

 

Em A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História está o que se ouve e lê na generalidade dos meios de comunicação em Portugal e no resto da Europa. Tendo a chancela de um cientista social, reforça a crença de quem encara positivamente a narrativa dominante. Vejamos alguns exemplos. Celebra O Regresso do Ocidente (p.229), título de um extenso capítulo em que se debruça exclusivamente sobre a atualidade; em Os Pacificadores (p.244) destaca o papel de Emmanuel Macron, bem como de dirigentes como Johnson e Scholtz, no apoio a Zelensky; congratula-se, adiante, com a Frente Comum (p.247) dos países ocidentais e considera histórica a reunião da Nato de 29 de Junho de 2022, em Madrid, por ter reforçado, por um lado, a unidade transatlântica e, por outro, porque “o comunicado emitido pelo gabinete de imprensa da cimeira designava a Rússia como ‘a ameaça mais significativa e direta para a segurança dos aliados’, designação usada pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria.” (p.248).


Escrito entre março de 2022 e fevereiro de 2023 no seguimento da contraofensiva do exército ucraniano que desalojou os russos de várias posições no terreno, o livro foi acrescentado de um Posfácio onde o autor escreve sobre a Nova Ordem Mundial. Corolário da crença na identidade da nação em armas contra o inimigo comum, condição em função da qual a vitória militar estaria assegurada, o Posfácio avança atribuindo à Ucrânia um papel charneira na geoestratégia do ocidente, sob liderança americana. Dá igualmente como adquirido o enfraquecimento da Federação Russa, destinada a uma posição de vassalagem face à China. Mas, Plokhy vai mais longe. Escreve:


“Há indicações claras de que a nação ucraniana emergirá desta guerra mais unida e segura da sua identidade do que em qualquer outro momento da sua história moderna. Além disso, a resistência bem-sucedida da Ucrânia à agressão russa está destinada a promover o próprio projeto de construção nacional da Rússia.” (p.271)


Serhii Plokhy, académico residente nos Estados Unidos, disse numa entrevista ao Hrohromadske ter rompido com a arquitetura da História posto que, sendo esta uma ciência do passado, decidira fazer incidir o foco do seu livro, sobretudo, no presente. Exemplo, excerto: “Toda a operação militar, sustentada pela convicção de Putin na inexistência da nação ucraniana e no desejo de os Ucranianos viverem sob autoridade russa, foi inspirada na ocupação russa da Crimeia.” (p.154). Imagem: Hrohromadske, 04 jun 2024
Serhii Plokhy, académico residente nos Estados Unidos, disse numa entrevista ao Hrohromadske ter rompido com a arquitetura da História posto que, sendo esta uma ciência do passado, decidira fazer incidir o foco do seu livro, sobretudo, no presente. Exemplo, excerto: “Toda a operação militar, sustentada pela convicção de Putin na inexistência da nação ucraniana e no desejo de os Ucranianos viverem sob autoridade russa, foi inspirada na ocupação russa da Crimeia.” (p.154). Imagem: Hrohromadske, 04 jun 2024

Sendo uma celebridade da intelligentsia ucraniana, autor de best-sellers como Chernobyl (2018) e Átomos e Cinzas (2022), Plokhy é sempre muito solicitado. Numa entrevista em inglês concedida à maior publicação on line da Ucrânia, o Hrohromadske, de 4 de junho de 2024, face à hipótese da cedência de territórios à Rússia, afirmou: “Border shifts are normal. The main thing is sovereignty and independence, and the ability to maintain them. The Poles today are somehow coping well without Lviv.” É uma diferença assinalável face ao tom geral do livro.

 

O que toda a gente precisa de saber. Se o livro de Plokhy é interessante porque construído em torno do O Regresso Da História, o de Serhy Yekelchyk, apesar de anterior, é essencial para o entendimento desse ponto de vista. O Regresso Da História, aliás, é tributário de Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber de Yekelchyk. O próprio Plokhy considera o trabalho do colega como o melhor de entre todos para efeito de introdução ao conflito. Timothy Snyder, académico americano e opositor de Putin, vai mais longe. Autor do sempre citado O Caminho Para O Fim Da Liberdade (2019)) diz que Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber deveria ser adotado como livro de cabeceira, andar sempre no bolso do casaco e se, porventura, alguém decidisse ler apenas um livro sobre o conflito, então, esse livro só poderia ser o de Yekelchyk. Está lá tudo.


Trata-se, com efeito, de um texto esclarecedor porque responde às questões em função das linhas gerais do que possa ser um eventual contraditório. Recuperando o revisionismo histórico assente nos pilares nacionalistas, introduzindo uma variante bastante criativa sobre o papel da “cultura de massas”, da qual adiante se falará, o livro tem como horizonte temporal o primeiro ano da presidência de Zelensky, em 2020, portanto, anterior à invasão russa. Talvez por isso, dedica particular atenção à guerra lançada contra os separatistas do Donbass a partir de 2014. Os títulos dos sete capítulos permitem identificar o foco do autor. Vejamos: 1. Porquê a Ucrânia? 2. A Terra e o Povo; 3. A construção da moderna Ucrânia; 4. Ucrânia depois do comunismo; 5. A Revolução Laranja e a EuroMaidan; 6. A anexação russa da Crimeia e a guerra no Donbass; 7. A guerra na Ucrânia como questão internacional.


Daqui, facilmente se poderá inferir a presença de uma estrutura baseada na construção de uma ideia de nação. Cada um dos capítulos responde a perguntas, 83 no conjunto, às quais o autor responde de forma precisa e sistemática. No primeiro, desenha uma tela de fundo da atualidade. As perguntas nele contidas são as seguintes: Porque tornou a Ucrânia um assunto-chave na luta política americana? Que é a Praça Maidan e porque se tornou notícia de abertura em todo o mundo? Como e porque motivo a Rússia anexou a Crimeia? Porque se desencadeou um conflito no Leste da Ucrânia na primavera de 2014? Porque causou a crise ucraniana tensões entre a Rússia e o Ocidente?



Serhy Yekelchyk vive no Canadá onde ensina História e Estudos Eslavos na Universidade de Vitória, na província da Columbia Britânica. Na foto, de fevereiro de 2022, discursa perante apoiantes da Ucrânia concentrados diante do edifício do Parlamento na cidade de Vitória. Excerto do livro: “Na atual cultura de massas da Ucrânia, Bandera funciona mais como um símbolo da resistência antirússia, uma vaga afirmação de protesto, semelhante à imagem de Che Guevara numa T-shirt.” (p. 95). Imagem: David Furlonger - University of Victoria/UVic News Archive
Serhy Yekelchyk vive no Canadá onde ensina História e Estudos Eslavos na Universidade de Vitória, na província da Columbia Britânica. Na foto, de fevereiro de 2022, discursa perante apoiantes da Ucrânia concentrados diante do edifício do Parlamento na cidade de Vitória. Excerto do livro: “Na atual cultura de massas da Ucrânia, Bandera funciona mais como um símbolo da resistência antirússia, uma vaga afirmação de protesto, semelhante à imagem de Che Guevara numa T-shirt.” (p. 95). Imagem: David Furlonger - University of Victoria/UVic News Archive

Perguntas, na verdade, que qualquer pessoa faria, sendo essa uma das razões da eficácia retórica do livro. Uma vez respondidas, porém, resulta evidente a presença de um ponto de vista analítico com um juízo moral subjacente. Segue-se, parafraseando Plokhy, o “regresso à História”. O método, legítimo, consiste em estabelecer as premissas e retirar as conclusões. As primeiras resultam da particular interpretação de Yekelchyk a propósito da complexa rede política, geoestratégica e étnico-linguística, cujas raízes tanto mergulham no tempo quando são aplicáveis a episódios mais recentes, alguns dos quais envoltos em controvérsia. Entre eles, o massacre de Odessa. É visto pelo autor como um confronto entre manifestantes pró-russos e pró-Maidan que “terminou num banho de sangue quando uma coluna conjunta de adeptos de futebol e de ativistas da EuroMaidan entraram em confronto com uma parada de forças pró-russas no centro da cidade.” (p. 207)


Acrescenta o autor:


“Depois das primeiras vítimas, a luta moveu-se para a praça onde os ativistas tinham assentado campo. Ali, muitos ativistas pró-russos refugiaram-se num edifício sindical abandonado e dezenas morreram, aparentemente, devido à inalação de fumo quando o edifício pegou fogo, em circunstâncias ainda por esclarecer. Nesse dia houve 48 mortos na cidade, todos, exceto seis, pró-russos, e centenas de pessoas foram feridas.” (p. 207)

A versão de Yekelchyk, não mais do que uma breve passagem do livro, diverge da que levou as autoridades europeias a pedirem explicações a Kiev, exigindo o apuramento de responsabilidades, bem como, mais tarde, já em março de 2016, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU (OHCHR) a elaborar um relatório sobre os sucessivos adiamentos e entorses da justiça ucraniana. Seriam ainda elaborados outros dois relatórios, cujas consequências foram nulas. A dada altura, o massacre de Odessa passou a ser considerado quer em Kiev quer no ocidente como “propaganda russa”, apesar das evidências. Por exemplo, sabe-se que quem incendiou a Casa dos Sindicatos foi Demyan Ganul, comandante de milícias de rua constituídas para perseguir a população pró-russa. Conhecem-se, também, pessoas que participaram na carnificina e, na ocasião, exibiram fotos de congratulação nas redes sociais. Uma delas é Ievgeniia Kraizman, ativista do grupo Femen, alegadamente feminista e admiradora de Bandera.


 

A Casa dos Sindicatos de Odessa em chamas. Segundo o que então veio a lume, milícias ucranianas, organizadas pelo Sector Direito e outras organizações extremistas, bloquearam manifestantes pró-russos no interior e incendiaram o edifício. Dezenas de pessoas foram queimadas vivas. Mais de duas centenas ficaram feridas, na maioria dos casos alvejadas quando tentavam escapar. Imagem: ABC News
A Casa dos Sindicatos de Odessa em chamas. Segundo o que então veio a lume, milícias ucranianas, organizadas pelo Sector Direito e outras organizações extremistas, bloquearam manifestantes pró-russos no interior e incendiaram o edifício. Dezenas de pessoas foram queimadas vivas. Mais de duas centenas ficaram feridas, na maioria dos casos alvejadas quando tentavam escapar. Imagem: ABC News


Demyan Ganul, notório neonazi, foi identificado como um dos organizadores e perpetradores do massacre. Figura proeminente do submundo ucraniano, o seu nome constou das listas de criminosos procurados em diversos países. Foi executado em Março de 2025 por um atirador solitário no centro da cidade de Odessa. Imagem: Nevillegafa
Demyan Ganul, notório neonazi, foi identificado como um dos organizadores e perpetradores do massacre. Figura proeminente do submundo ucraniano, o seu nome constou das listas de criminosos procurados em diversos países. Foi executado em Março de 2025 por um atirador solitário no centro da cidade de Odessa. Imagem: Nevillegafa

As conclusões extraídas por Yekelchyk em função das suas premissas são, com frequência, bastante ousadas. É o que sucede quanto à questão étnico-linguística, decisiva para compaginar de modo coerente o que se entende por “ucranianos”. Tendo a Ucrânia acedido à independência apenas em 1991, a noção de “ucranianos” ou “nação ucraniana”, segundo Yekelchyk, “é ainda entendida como referindo-se a ucranianos étnicos.” Com efeito, a Constituição do País proclama como fonte da sua soberania “o povo ucraniano – cidadãos da Ucrânia de todas as nacionalidades”, distinguindo, no entanto, “entre este conceito cívico de nação e nação ucraniana étnica.” Nas últimas décadas, contudo, escreve o autor:


“(...) os falantes de ucraniano aceitaram gradualmente um entendimento ocidental de ‘Ucranianos’ como tratando-se de todos os cidadãos da Ucrânia. Uma tal mudança linguística reflete o moroso desenvolvimento de um patriotismo cívico baseado na aliança com o Estado em vez de com a nação étnica.” (p. 46).

Para se entender a questão, a qual, na verdade, parece algo nebulosa, Yekelchyk defende ser necessário compreender a natureza da nação étnica ucraniana que “também vindo a mudar”. Vejamos como:


“Os nacionalistas acreditam em nações étnicas, orgânicas, primordiais, definidas pelo sangue; mas os estudiosos modernos argumentam o contrário. Demonstram que as nações modernas emergiram quando a educação e os media ajudaram as massas a ‘imaginarem-se” a si mesmas como parte da nação. A cultura folclórica do campesinato serviu como fundação das modernas nações na Europa do Leste, mas foi necessário o esforço de intelectuais patriotas para definir as nações étnicas dentro dos impérios, que eram como mantas de retalhos, desenhando a partir de elementos folclóricos uma cultura moderna nobre que servisse de alicerce para a identidade nacional contemporânea.” (p. 47)

Dada a complexidade etno-linguística da Ucrânia, e para quem busca as raízes profundas da identidade, entregar a tarefa a historiadores patriotas fazer fé na cultura de massas, não será passar um pouco das marcas?

 


Mapa etno-linguístico da Ucrânia. 2014. Imagem: Eurasian Geopolitcs, UC Berkeley
Mapa etno-linguístico da Ucrânia. 2014. Imagem: Eurasian Geopolitcs, UC Berkeley



Mapa linguístico da Ucrânia, 2014. A língua oficial, o ucraniano, era falada por cerca de 70 por cento da população. O russo, a segunda língua, era igualmente utilizada em todo o país, sendo dominante em regiões como o Donbass e praticamente exclusiva na Crimeia. Imagem: CNN
Mapa linguístico da Ucrânia, 2014. A língua oficial, o ucraniano, era falada por cerca de 70 por cento da população. O russo, a segunda língua, era igualmente utilizada em todo o país, sendo dominante em regiões como o Donbass e praticamente exclusiva na Crimeia. Imagem: CNN

 

Continua com Ucrânia (Parte III): Nacionalismo e Identidade no Tempo dos Monstros, passar das marcas

 
 
 

Após a invasão da Ucrânia pela Federação Russa numerosas publicações de autores portugueses e estrangeiros encheram os escaparates das livrarias. Como se esperava, a atividade editorial acompanhou a vaga de condicionamento simbólico necessária ao respaldo de uma opinião pública favorável à guerra apoiada pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Agora, após anos de incontáveis tragédias, quando parecia aberta uma janela para a diplomacia, verifica-se que, afinal, o futuro é cada vez mais uma incógnita. Durante todo este tempo li centenas de páginas sobre a guerra e consultado inúmeros documentos. Se dissipei algumas dúvidas, outras, dada a complexidade da situação, avolumaram-se. Sendo possível identificar o fundamento das narrativas, da Ucrânia e seus aliados, por um lado, e da Federação Russa, República Popular da China e Sul global, por outro, há uma nebulosa que parece toldar a razão. Chama-se nacionalismo. Quando isso acontece, havendo raízes profundas de ordem histórico-cultural, fica aberta a porta ao mito. E é inevitável uma intensa disputa ideológica.


 

Próximo de Bakhmut, 15 de abril de 2023. Soldado ucraniano da Guarda Nacional regressa da frente de combate. Imagem: RadioFreeEurope/RadioLiberty
Próximo de Bakhmut, 15 de abril de 2023. Soldado ucraniano da Guarda Nacional regressa da frente de combate. Imagem: RadioFreeEurope/RadioLiberty


Kyiv,14 de março de 2020. Comício de veteranos ucranianos do batalhão Azov. Imagem: NurPhoto
Kyiv,14 de março de 2020. Comício de veteranos ucranianos do batalhão Azov. Imagem: NurPhoto

Essa disputa é evidente nas publicações que consultei, a maioria com um ponto de vista favorável ao regime de Kiev, até porque o bloqueio imposto à informação do outro lado, desde logo, a proibição da RT, canal de notícias em inglês da Federação Russa, dificulta enormemente a tarefa. Ainda assim, o ciberespaço permite aceder a dados alternativos em suporte digital. Por isso, qualquer pessoa, observadas as cautelas indispensáveis de verificação de factos e fontes - tarefa complexa dado a vertigem de propaganda em circulação – pode avançar na busca do conhecimento. Aliás, pode avançar e recuar, posto que amiúde é necessário afinar premissas e conclusões.   

 

Dito isto, devo acrescentar que não tenho como adquirido que os media tradicionais, em especial as televisões, sejam fiáveis. Pelo contrário, veiculam muita informação enviesada por exemplo, em programas ou edições especiais onde muito do que por lá passa tem origem, com forte probabilidade, em canais de serviços de inteligência. É dos livros. (Nota: sobre manipulação mediática e crise do jornalismo, ver aqui.)


O que se segue também é sobre livros, mas em torno da guerra russo-ucraniana. De autores pró-ucranianos e de ascendência ucraniana, são: A Guerra Russo-Ucraniana - O Regresso Da História (2023) de Serhii Plokhi; Ucrânia - O Que Toda A Gente Precisa De Saber (2020) de Serhy Yekelchyk; Passar das Marcas (2022) de Owen Matthews. O quarto livro, em contraponto é Este é o Tempo dos Monstros (2022) de António Avelãs Nunes. Farei breves recensões, não prescindindo de tecer alguns comentários, bem como de abordar matérias raramente tratadas nos media tradicionais. Como ponto de partida constato que a opinião dominante é estruturada em função de cinco eixos retóricos essenciais, a saber:

 

a) identificação de um agressor e de um agredido segundo o normativo da ordem internacional “tal como a conhecemos”; b) o mito da “ameaça russa” e a “luta do ocidente pela liberdade”; c) defesa do regime de Kiev e construção da persona do herói, Zelensky; d) demonização do Kremlin e construção da persona do vilão, Putin; e) exaltação da resistência ucraniana em nome do direito à autodeterminação e independência.

 

Estes cinco eixos estão declinados nas obras dos autores mencionados. Em diferentes modulações, são o pano de fundo do tema central deste texto cujo foco incide no problema da identidade e do nacionalismo ucranianos. É nesse campo que se trava uma batalha titânica pela História vista como determinante não só para o entendimento do conflito, mas também para delinear os caminhos de uma eventual solução futura a qual, a meu ver, terá de passar por uma reconfiguração das fronteiras. 

 

1. A Batalha pela História 

 

Considerações. Dando por adquirida a vulgata construída em torno da bondade da antiga república soviética face ao opressor russo, raramente os media do ocidente se dão ao trabalho de investir na busca das raízes profundas que determinam contexto. Fazendo prevalecer a tese do agressor e do agredido, impõem o juízo moral como pêndulo de avaliação. Isso é óbvio nas obras dos autores de ascendência ucraniana. Contudo, quanto à pertença dos territórios, as coisas são mais complexas e eles não o ignoram. Por isso, de diferentes maneiras, sentem como imperativo encontrar uma matriz identitária da nação, mesmo se, para isso, tiverem de criar novos critérios de ponderação científica. Ao cabo e ao resto, se é defensável admitir que a Ucrânia e a Rússia são parte de um mesmo tronco comum ancestral é, igualmente, legítimo reivindicar a existência de uma linhagem ucraniana diferenciada. Como facilmente se compreende é esta última que suporta o nacionalismo do regime de Kiev. 

 

Os nacionalismos sempre suscitaram controvérsia. O ucraniano não foge à regra. Emergiu na sua forma mais radical desde a II Guerra Mundial após a independência, em 1991. Nessa altura, a Ucrânia passou a ser vista como uma espécie de terra prometida dos grupos de extrema-direita, tendo, inclusivamente, campos de treino militar neonazis na região ocidental junto à fronteira com a Polónia, na antiga região da Galícia. A imagem projetada para o exterior com a perseguição exacerbada dos russos étnicos e a suspensão do ensino da língua e da cultura russas, levou o governo de Kiev, a partir a partir dos desmandos de 2014, a tomar medidas para atenuar essa percepção. Pressionado pela União Europeia, igualmente preocupada com a corrupção generalizada, o regime fê-lo, no entanto, de modo inconsequente. Promoveu a guerra contra os separatistas do Donbass e fechou os olhos à repressão noutras regiões, designadamente ao massacre de Odessa de 2 de maio de 2014 que fez dezenas de mortos e centenas de feridos entre manifestantes pró russos.

 

Segundo os dirigentes ucranianos, a expressão da extrema-direita é, hoje, meramente residual. Sê-lo-á. Ou não. Em termos eleitorais a sua expressão é reduzida. Porém, a verdade é que a maioria dos radicais mais influentes transitou para novas formações políticas, vistas como aceitáveis no ocidente, que surgiram ao longo do agitado processo político subsequente à chamada Revolução Laranja de 2004. A título de exemplo, Andriy Parouby, ex-presidente da Rada, um dos fundadores, em 1991, do Partido Nacional Social, mais tarde, Partido Svoboda, foi eleito deputado, em 2007, pelo Partido Nossa Ucrânia de Victor Yuschenko, e, posteriormente, pela Frente Popular de Arseni Yatseniuk. O seu nome está ligado à coordenação das manifestações na Praça Maidan, em 2014, bem como ao massacre de Odessa. Enquanto Secretário da Comissão de Segurança e Defesa Nacional coordenou a guerra desencadeada contra os independentistas do Donbass. Era um partidário da NATO e da integração europeia.

 

Andriy Paroubiy foi executado com sete tiros por um atirador solitário, em Agosto de 2025, no bastião nacionalista de Lviv. O assassino, segundo a imprensa de Kiev, foi detido alguns dias mais tarde, sem, no entanto, ter sido revelada a sua identidade. Porém, foram exibidas fotos da detenção. O homem terá dito que atuara por vingança e que pretendia ser trocado por prisioneiros ucranianos na Rússia. Os meios de comunicação do ocidente, regra geral, omitiram o passado de Paroubiy. Imagem: TVP/World.
Andriy Paroubiy foi executado com sete tiros por um atirador solitário, em Agosto de 2025, no bastião nacionalista de Lviv. O assassino, segundo a imprensa de Kiev, foi detido alguns dias mais tarde, sem, no entanto, ter sido revelada a sua identidade. Porém, foram exibidas fotos da detenção. O homem terá dito que atuara por vingança e que pretendia ser trocado por prisioneiros ucranianos na Rússia. Os meios de comunicação do ocidente, regra geral, omitiram o passado de Paroubiy. Imagem: TVP/World.

Parouby não é um caso isolado. Após Maidan, Oleksandr Sych ficou com a pasta essencial dos Assuntos Económicos, Serhiy Kvit assumiu a Educação, Andriy Makhnyk foi nomeado ministro da Ecologia, Ihor Shvaiko ficou com a Agricultura e Oleh Makhnitsky tornou-se o Procurador Geral da Ucrânia. Têm em comum o facto de pertencerem todos ao partido Svoboda. Mas há numerosos outros casos documentados.

 

Conhecendo os antecedentes, saber se os radicais exercem ainda influência sobre o regime de Kiev foi a questão colocada por Paul Millar num artigo publicado em 11 de Outubro de 2024 no site do canal France 24, edição inglesa, intitulado: “Should Zelensky's government be afraid of far-right groups?”

 

Millar começa por fazer referência ao duro embate verbal entre o deputado Oleksandr Merezhko do partido Servos do Povo, o partido de Zelensky, e militares dispostos a lutar contra os russos até ao último homem, não admitindo sequer discutir a eventualidade de cedência de qualquer território. Após uma virulenta troca de insultos, Merezhko denunciou o recrudescimento das forças extremistas na Ucrânia o que, para ele, era uma situação perigosa. Os militares acusaram-no de cobardia. O assunto, apesar das cautelas, começou a ser discutido no espaço público no final do ano passado.    

 

Lendo o artigo de Millal fica-se com a ideia de que se os partidos fascistas e neonazis falharam em transformar o nacionalismo mais agressivo em votos, melhor sorte tiveram as milícias armadas cujos representantes, agora integrados no exército regular, se movem com à vontade nos círculos do poder. Lesia Bidochko, historiadora, especialista em media e propaganda, leitora da Academia Kyiv-Mohyla, disse ao France 24, que a extrema-direita ganhou legitimidade após a participação em Maidan, bem como na guerra do Donbass: 

“Faced with growing pro-Russian separatism, the government made the controversial decision to arm and utilise far-right militias as a key force in resisting separatist movements (...) This development not only fuelled domestic tensions but also played into Moscow’s propaganda, which sought to legitimise its intervention by painting Ukraine as being overrun by extremist elements.” (artigo completo publicado de Paul Millal, aqui).

 

Lesia Bidochko ao France 24: “On one hand, the rise of the far right can be attributed to Russia’s aggression, which has reignited the fervour of Ukrainian nationalists regarding territorial integrity and consolidation of the Ukrainian nation,” (...) “On the other, it is also a consequence of Ukraine’s opportunistic political elites, who are willing to engage with even overt neo-Nazi elements to further their interests and gain political profit.” Imagem: Wilson Center
Lesia Bidochko ao France 24: “On one hand, the rise of the far right can be attributed to Russia’s aggression, which has reignited the fervour of Ukrainian nationalists regarding territorial integrity and consolidation of the Ukrainian nation,” (...) “On the other, it is also a consequence of Ukraine’s opportunistic political elites, who are willing to engage with even overt neo-Nazi elements to further their interests and gain political profit.” Imagem: Wilson Center

Tal como os líderes políticos extremistas, também as milícias armadas sofrearam uma metamorfose quando integradas na Guarda Nacional. O Batalhão Azov, por exemplo, em 2014, tornou-se a 12ª Brigada de Forças Especiais. Oficialmente, deixou de ser uma organização de voluntários da extrema-direita e tornou-se numa unidade profissional de combate. Um dos seus principais comandantes, Denys Prokopenko, haveria de distinguir-se na defesa de Mariupol. Capturado pelo exército russo seria depois libertado numa troca de prisioneiros. Outro líder do Azov original e seu fundador, Andriy Biletsky foi designado comandante do 3º Corpo do Exército com o objetivo de nele concentrar as melhores práticas das suas milícias anteriores. É hoje um homem chave do regime de Kiev. Com passado neonazi, conhecido por ligações ao supremacismo branco, distinguiu-se de tal forma no campo militar que se tornou numa figura de culto. É agora um defensor da democracia, segundo o próprio. Esteve algum tempo na Verkhovna Rada, o Parlamento ucraniano, mas é a coordenar a frente de batalha que melhor se move. No The Times de 14 de agosto de 2025, Maxim Tucker escreve:

 

“Biletsky says he envisages a future in the military, but his reputation as an effective leader is making him an ever more powerful political force in wartime Ukraine. He was not afraid to criticise Zelensky’s recent attempt to grab control of Ukraine’s anti-corruption bodies. (...) His vision for the future, he says, involves a permanently militarised society, effectively becoming the army and the arsenal of a Europe that has proved alarmingly slow to build its own.” (artigo completo de Maxim Tucker, aqui).

 

Andriy Biletsky encarna o mito da bravura do herói nacionalista da Ucrânia. Tem influência política na capital. Nas suas palavras, não só é possível recuperar os territórios ocupados, como, com o prolongamento da guerra, Putin ficará numa posição insustentável e o regime da Federação Russa entrará em colapso. Imagem: Transcend Media Service
Andriy Biletsky encarna o mito da bravura do herói nacionalista da Ucrânia. Tem influência política na capital. Nas suas palavras, não só é possível recuperar os territórios ocupados, como, com o prolongamento da guerra, Putin ficará numa posição insustentável e o regime da Federação Russa entrará em colapso. Imagem: Transcend Media Service

Historicamente, se líderes como Roman Shukhvych (comandante do Exército Insurgente Ucraniano que combateu pelo III Reich e participou no massacre de polacos em Volínia) e Yaroslav Stetsko (o ideólogo que chegou a ser presidente da efémera República da Ucrânia proclamada no início da invasão nazi) continuam a ser figuras de referência, a verdade é que o destaque como principal protagonista da linhagem nacionalista vai para Stepan Bandera. O seu culto, outrora exibido em marchas silenciosa à luz de tochas de inequívoco pendor nazi-fascista, sempre no primeiro dia de janeiro, em Kiev, é agora mais reservado. Contudo, a sua memória continua presente em dezenas de espaços e monumentos distribuídos pelo território, sobretudo a oeste, na antiga Galícia e em regiões adjacentes, ou seja, naquela a que alguns chamam a “Ucrânia ucraniana”.

 

O monumento mais importante fica no centro de Lviv. Criação do escultor Mykola Posikirae e do arquitecto Mykhailo Fedyk, maioritariamente financiado pelo município, foi construído em 2003. A estátua de bronze de Bandera tem sete metros de altura e é enquadrada por um arco do triunfo com quatro colunas de 30 metros. A primeira representa a Rússia de Kiev, considerada o primeiro estado eslavo, no qual, entre os séculos IX e XIII houve diferentes arranjos políticos; a segunda representa o Hetemanato Cossaco que se lhe seguiu; a terceira é o símbolo da República Popular da Ucrânia; a quarta corresponde à moderna Ucrânia Independente.

 


Homenagem a Stepan Bandera junto ao monumento de Lviv em 1 de janeiro de 2023. Em 2014, havia 46 estátuas e bustos de Bandera, 14 placas alusivas e perto de uma centena de ruas nomeadas a partir do seu nome. Entre 1990 e 2010, foram construídos cinco museus a ele dedicados em áreas onde viveu acontecimentos marcantes da vida. Imagem: El País
Homenagem a Stepan Bandera junto ao monumento de Lviv em 1 de janeiro de 2023. Em 2014, havia 46 estátuas e bustos de Bandera, 14 placas alusivas e perto de uma centena de ruas nomeadas a partir do seu nome. Entre 1990 e 2010, foram construídos cinco museus a ele dedicados em áreas onde viveu acontecimentos marcantes da vida. Imagem: El País

 

Mapa da localização dos 40 mais importantes monumentos erguidos em homenagem a Stepan Bandera para os quais, antes da guerra, havia, inclusivamente, oferta turística com visitas guiadas. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute.
Mapa da localização dos 40 mais importantes monumentos erguidos em homenagem a Stepan Bandera para os quais, antes da guerra, havia, inclusivamente, oferta turística com visitas guiadas. Imagem: Ukrainian Research Institute, Harvard Institute.


 

Continua com Parte II: O “nacionalismo moderado” de Plokhy, Yekelchyk e Matthews

 

 
 
 

Imagem: AP
Imagem: AP

Mentir constantemente não tem por objetivo fazer com que as pessoas acreditem na mentira. Tem, sim, o propósito de fazer com que não acreditem em nada. Quem não consegue distinguir entre verdade e mentira não distingue o bem do mal. Quem fica privado de pensar, sem disso ter consciência, fica refém da mentira. Com pessoas assim faz-se o que bem se entender. O que acabo de escrever foi recuperado, não literalmente, de Hannah Arendt a propósito do seu discurso sobre a banalidade do mal. O que se segue são declinações sobre modos da mentira. O ponto de partida é um conjunto de episódios e reflexões em torno da guerra e do poder das imagens. O ponto de chegada é a cobertura noticiosa das guerras da Ucrânia e no Médio Oriente.

 

As notícias são representações. São também construções que tanto passam pelo efeito de uma agenda de interesses, quanto pela natureza do medium e da sua linguagem. Podem as notícias ser mentira? Podem. Há até conhecimento de guerras que começaram com mentiras publicadas em jornais. William Randolph Hearst, proprietário do New York Journal e um dos criadores da chamada yellow press, foi, pelo menos em parte, responsável pela guerra hispano-americana. Conta-se a seguinte história. Quando os seus enviados a Havana lhe comunicaram que iriam regressar a Nova Iorque visto estar tudo calmo, não havendo indício de perturbações, respondeu com um telegrama do seguinte teor: “Please remain. You furnish the pictures and I’ll furnish the war.”

 


 William Randolph Hearst: “You furnish the pictures and I’ll furnish the war.” Imagem: sinalAberto
 William Randolph Hearst: “You furnish the pictures and I’ll furnish the war.” Imagem: sinalAberto

Estava-se no século XIX e a fotografia ainda não chegara à imprensa. Mas um dos enviados de Hearst, um ilustrador famoso de nome Frederic Remington, desenhou as imagens pedidas, de extrema violência, sem qualquer relação com a realidade. Foram publicadas ao mesmo tempo que títulos garrafais da primeira página anunciavam o caos. O sensacionalismo colocou a guerra no centro dos comentários. Comentou-se o que não existia. A guerra estalou. O episódio, nunca inteiramente confirmado nem totalmente desmentido, entrou na história do jornalismo. Ou na lenda, da qual os jornalistas nunca prescindiram.

 

1. Retrospetiva: o Golfo e o Vietname 

 

A minha primeira experiência de cobertura televisiva de uma guerra remonta ao princípio de agosto de 1990 quando as tropas do Iraque, então sob o regime de Saddam Hussein, invadiram o Kuwait. Nunca estive no Kuwait, tão pouco, no Iraque. O que fiz foi estar dentro de um estúdio da RTP, no Porto, a fazer a tradução simultânea da emissão da CNN, que passou a ocupar a maior parte do tempo de antena. Nessa altura, a televisão por cabo e satélite não tinha, nem de perto nem de longe, a expansão que a tecnologia digital viria a proporcionar. Foi também essa primeira Guerra do Golfe que catapultou o então muito jovem José Rodrigues dos Santos para a fama. Foi ele, estando de serviço, quem, apanhado pelo início da operação militar dos Estados Unidos e aliados, geriu a situação em direto com surpreendente eficiência. A maioria das imagens em tempo real tinham origem na estação americana. Um verdadeiro enxame de comentadores invadiu a pantalha. Foi assim até 28 de fevereiro de 1991, data do final do conflito. Os Estados Unidos derrotaram as tropas de Saddam Hussein e José Rodrigues dos Santos passou a ter lugar cativo na apresentação do Telejornal. Quem também veio para ficar, se bem me lembro chegando a levar para estúdio miniaturas de vários tipos de armas, foi Nuno Rogeiro. Nessa altura, ainda não havia televisão privada em Portugal.

 

A segunda Guerra do Golfo começou, em 20 de março de 2003. E começou com uma mentira. Os Estados Unidos, à frente de uma coligação internacional, invadiram o Iraque alegando que Saddam Hussein escondia armas de destruição massiva, as quais seriam uma ameaça para o “mundo livre”. Chamou-se à intervenção americana Operation Iraqi Freedom posto que se tratava de libertar os iraquianos de um déspota sanguinário e de instalar a democracia. Afinal, ao contrário das alegadas provas apresentadas no Conselho de Segurança da ONU pelo secretário de Estado Colin Powell, as armas de destruição massiva não existiam. Quanto à democracia iraquiana, os resultados estão à vista. O petróleo passou para as mãos de companhias americanas, o país, berço de uma das mais antigas civilizações à face da Terra, ficou reduzido a escombros e as estimativas da perda de vidas de civis iraquianos apontam para um número a rondar o meio milhão. 

 


O general Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU a fazer prova da existência de armas de destruição massiva no Iraque. Na verdade, as armas não existam. O episódio ficaria para a posteridade como O Momento Colin Powell. Imagem: Academy of Achievment
O general Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU a fazer prova da existência de armas de destruição massiva no Iraque. Na verdade, as armas não existam. O episódio ficaria para a posteridade como O Momento Colin Powell. Imagem: Academy of Achievment

A segunda Guerra do Golfo, tal como a primeira, foi transmitida em direto na televisão. Mas, agora, dada a expansão dos canais de notícias, a uma escala e com uma sofisticação sem precedentes. Em primeiro lugar, os jornalistas receberam treino para acompanhar tropas em zona de combate. Na verdade, na prática, o “embedded journalism”, uma ideia desenvolvida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, permitia controlar a atividade dos repórteres, designadamente quanto à permissão de filmar e fotografar. Os critérios de selecção dos participantes, em função do seu perfil, foram negociados com as entidades patronais. Em segundo lugar, do ponto de vista iconográfico, a guerra foi apresentada como um jogo de PlayStation. Produzidas e cedidas às televisões pelas autoridades militares, as imagens eram, as mais das vezes, dignas da Guerra das Estrelas de George Lucas. Em terceiro lugar, à dimensão espetacular juntava-se uma componente humanitária. Por exemplo, os novos caças e bombardeiros americanos de última geração apenas atingiriam alvos militares, poupando as populações civis. Chamou-se a isso “guerra cirúrgica”. Finalmente, a justiça da expedição, o seu carácter libertador, explicava-se pelo dever moral de derrotar um inimigo que não só oprimia o seu povo, mas era, igualmente, uma ameaça para a humanidade. Em suma, mais do que informar, a cobertura televisiva fez-se no sentido de condicionar, de modo a garantir o indispensável respaldo da opinião pública às decisões militares.

 

A última guerra em que os correspondentes puderam movimentar-se com relativo à vontade foi a do Vietname. Dessa liberdade de movimentos resultou a necessidade de assumir riscos que, por vezes, custaram vidas. Surgiram, então, na imprensa, extraordinárias peças nas quais os jornalistas, para transmitirem as experiências vividas, lançaram mão de técnicas narrativas dos géneros literários dando origem aquilo que viria a ser conhecido como New Journalism. Ainda assim, a maioria da cobertura noticiosa não se afastava significativamente das posições oficiais. Nas televisões - durante algum tempo, fizeram uma espécie de acordo tácito patriótico no sentido de evitar levar o sangue e a morte para o ecrã - houve uma altura em que o impacto do New Journalism, bem como de reportagens mais ousadas, obrigaram a procurar dar a ver outras coisas. O ponto mais célebre dessa viragem foi protagonizado pelo anchorman do boletim de notícias The CBS Evening News, Walter Cronkite, não só um dos homens com maior notoriedade nos Estados Unidos, mas também um daqueles em quem os americanos depositavam maior confiança. À semelhança da maioria dos ícones do jornalismo televisivo à época, era um anticomunista convicto.

 

Em 1967, havia a ideia de que a América estava a inverter o rumo dos acontecimentos e que podia ganhar a guerra. O comandante em chefe no Vietname, general William Westmoreland, afirmara estar a ter sucesso na guerra psicológica de “hearts and minds” e que, no campo de batalha, “the enemy´s hopes are bankrupt”. Seguiu-se a famosa Ofensiva do Tet. Em janeiro de 1968, contradizendo o ponto de vista oficial, a guerrilha fez dezenas de ataques de surpresa a cidades do Vietname do Sul, incluindo Saigão. A própria embaixada americana foi invadida por um grupo de 19 guerrilheiros, que viriam a ser abatidos. As imagens de combates nas ruas da capital do Vietname do Sul chocaram a opinião pública americana. Cronkite foi enviado para observar in loco a situação. De regresso a casa, em 27 de fevereiro, a CBS News pôs no ar, durante uma hora, Report from Vietnam: Who, What, When, Where, Why?

 

O programa tornou-se um clássico do jornalismo contemporâneo. Procedendo com as cautelas dos media corporativos no que respeita ao equilíbrio e ao exercício do contraditório, interrogava-se, no entanto, sobre quem, na verdade, estava a ganhar a guerra. Não se estaria num impasse, num beco sem saída? No final, a concluir, Cronkite pronunciou as palavras que devastaram a Casa Branca e entraram para a História:

 

“It seems now more certainly than ever that the bloody experience of Vietnam is to end in a stalemate. It is increasingly clear to this repórter that the old rational way out then will be to negotiate, not as victors, but as an honorable people who lived up to their pledge to defend democracy, and did the best they could”.

 

Para os padrões da época, Cronkite ultrapassara uma linha vermelha. O seu jornal, bem como a generalidade dos programas da televisão comercial, tinha forte presença de anunciantes. Na CBS, aliás, havia um histórico de pressões sobre os conteúdos. O episódio mais relevante remonta ao tempo da caça às bruxas e, a prazo, acabaria por contribuir para o afastamento de Edward R. Murrow, seguramente, o jornalista americano mais importante do seu tempo. Murrow ousara pôr a nu os processos utilizados nos interrogatórios do senador Joseph McCarthy. Quer os anunciantes quer os republicanos nunca lhe perdoaram. (Informação detalhada sobre Murrow neste blogue, aqui )

 

Cronkite, conhecido nas famílias como “uncle Walter”, tal a frequência com que entrava em suas casas, ao reportar sobre a guerra do Vietname cometeu uma heresia. Trouxe à superfície as dúvidas latentes sobre o desfecho da guerra entrando no domínio da opinião. É atribuído ao presidente Lyndon B. Johnson o seguinte desabafo: “If I’ve lost Cronkite, I’ve lost Middle America”. Em parte, assim foi. Mas o episódio também contribuiu para alimentar o mito da imprensa livre e dos seus paladinos.

 

Walter Cronkite em reportagem no Vietname. Muitos anos mais tarde, diria: “I covered the Vietnam War. I remember the lies that were told, the lives that were lost - and the shock when, twenty years after the war ended, former Defense Secretary Robert S. McNamara admitted he knew it was a mistake all along.” Imagem: The Philadelphia Inquirer
Walter Cronkite em reportagem no Vietname. Muitos anos mais tarde, diria: “I covered the Vietnam War. I remember the lies that were told, the lives that were lost - and the shock when, twenty years after the war ended, former Defense Secretary Robert S. McNamara admitted he knew it was a mistake all along.” Imagem: The Philadelphia Inquirer

A televisão dos anos 60, 70 e parte dos anos 80 do século passado é obviamente diferente da de hoje. A segmentação impôs-se e a informação circula em numerosas plataformas. O episódio Cronkite não teria hoje o impacto que então teve. De resto, no novo contexto, a existência de um Cronkite seria de todo improvável. À época, porém, o poder da televisão era determinante para a formação da opinião pública. Quer isto dizer que a televisão passou a ser irrelevante? Não, longe disso. Até porque os canais especializados de notícias, que hoje nenhum país dispensa, veiculando diversos pontos de vista, são de importância estratégica. Promovem diferentes construções da realidade. Utilizam múltiplas plataformas. Em suma, fazem propaganda. E podem ser vistos em qualquer parte do mundo, salvo em situações de censura como acontece hoje com a russa RT.

 

Há ainda uma outra questão essencial ao entendimento do ecossistema mediático: a natureza dos media, no que particularmente nos interessa, da televisão. Eminentemente sensorial, convocando a emoção em prejuízo da razão, favorecendo o entretenimento, a televisão fez das notícias espetáculo e dos seus protagonistas atores. A corrida para as presidenciais americanas de 2024 entre Trump e Harris é disso um exemplo paradigmático. Não houve debate, apesar das tentativas de Harris. Houve sound bite, insultos, piadas de mau gosto e, da parte de Trump, até verdadeiros números de stand up comedy  Por alguma razão, o termo gossip (má língua) se tornou recorrente na análise do texto televisivo, bem como infotainment, o híbrido que associa informação e espetáculo. Na verdade, mais espetáculo do que informação.        

 

2. Da natureza do medium: significação e massagem

 

Quando, em 1980, Ted Turner criou a CNN, tinha consciência de estar a dar um salto em frente no capítulo das comunicações. Em rigor, sendo ele um homem de negócios, a sua ideia inicial era a de fazer um canal de entretenimento a operar 24 horas por dia. Percebeu, no entanto, que podia ganhar dinheiro juntando o melhor de dois mundos, ou seja, proporcionar espetáculo ininterrupto através da construção da realidade operada através das notícias. Vejamos.

 

As notícias são representações resultantes da mediação da linguagem. O mesmo sucede com os demais géneros jornalísticos como, por exemplo, a reportagem ou a entrevista. Em qualquer caso, obedecem sempre a uma agenda subordinada à influência retórica e discursiva de instâncias de decisão, bem como a pressões de vária ordem, sejam elas institucionais, profissionais, culturais ou ideológicas. A agenda é restritiva. Alegando critérios jornalísticos, tanto inclui quanto exclui. Havendo inclusão, a fábrica de notícias - newsmaking - entra em laboração segundo rotinas que levam a que as coisas sejam feitas de uma determinada maneira e não de outra. É assim em muitas dezenas de canais espalhados pelo mundo, regra geral em língua inglesa, cuja única diferença substantiva - não sendo coisa pouca - é o ponto de vista. Dito de outro modo, a matriz é comum, inspirada na CNN, os códigos são semelhantes, o enfoque é que depende do referencial cultural e geoestratégico. Quanto ao que a agenda exclui, não vindo a ser notícia, simplesmente, não existe. Como é óbvio, a disseminação de canais de informação à escala global revela até que ponto a televisão é insubstituível no campo da disputa ideológica.

 

Por envolver a produção de conteúdos, importa sublinhar a importância de dois elementos, por vezes, negligenciados na análise. São eles o processo de significação e a natureza do medium. Quanto ao primeiro ponto, cabe perguntar: qual o papel da imagem na codificação nos diferentes géneros jornalísticos. Faça-se a seguinte experiência. Veja-se a reportagem de um telejornal sem som. Do alinhamento de planos resulta percetível a ausência de articulação sintática das imagens. Evidentemente, passa alguma informação, por exemplo, a identificação de lugares, situações e de alguns protagonistas. Mas o texto, no seu conjunto, é precário, posto que as imagens são mostradas de forma avulsa. Veja-se, de novo, a reportagem com som. É dado o primado à palavra, cabendo à imagem o papel subsidiário de ilustração. Ora, o que define a linguagem como sistema semiótico é a circunstância de ser constituída por signos, mas não de signos isolados. E sendo a televisão um medium audiovisual, os diversos subsistemas de comunicação teriam de convergir no sentido de uma síntese gramatical coerente, o que não acontece. Ao espectador, habituado a que assim seja, nem sequer lhe ocorre fazer perguntas. Todavia, o processo tem consequências. Vai ao encontro, e este é o segundo ponto, de dois dos famosos aforismos de McLuhan: the medium is the message (o meio é a mensagem) e the medium is massage (o meio é massagem). Ambos ajudam a compreender a natureza da televisão.

 

Marshall McLuahan, a par dos seus famosos aforismos, ao pensar os media como extensões dos sentidos do homem, introduziu a ideia do efeito antropológico das tecnologias da comunicação. Em 1970, antecipou o que seria a guerra do futuro: “World War III is a guerrilla informatition war with no division betweeen military and civilian participation.” in Marshall McLuhan (1970), Culture is Our Business. Com efeito, a opinião moldada pelos media é indispensável como respaldo da guerra. Imagem: MM, Yousuf Karsh
Marshall McLuahan, a par dos seus famosos aforismos, ao pensar os media como extensões dos sentidos do homem, introduziu a ideia do efeito antropológico das tecnologias da comunicação. Em 1970, antecipou o que seria a guerra do futuro: “World War III is a guerrilla informatition war with no division betweeen military and civilian participation.” in Marshall McLuhan (1970), Culture is Our Business. Com efeito, a opinião moldada pelos media é indispensável como respaldo da guerra. Imagem: MM, Yousuf Karsh

Atentemos no dispositivo semiótico do telejornal. Todo ele procede da criação de uma atmosfera de entropia, na qual os protagonistas se multiplicam em desempenhos e se opera a metamorfose do espaço do estúdio em metáfora do mundo. Superfícies arrojadas, cores quentes, silhuetas humanas ativas em sucessivas escalas da profundidade de campo, múltiplos ecrãs supostamente ligados às várias partidas do mundo e a figura totémica do apresentador sobre quem o plano médio faz incidir as atenções e do qual se espera venha introduzir ordem discursiva no caos do mundo. O telejornal tem um alinhamento que decorre de uma agenda. Tem notícias e opinião. Contempla diversos géneros jornalísticos. A reportagem é uma das peças desta engrenagem. A par dos diretos e das entrevistas, coabita com notas de rodapé, separadores, anúncios publicitários, promessas do inesperado tangível ou anúncios do que se verá mais à frente. Vamos supor que a guerra na Ucrânia é um dos temas. É chamado um repórter no terreno.

 

A reportagem é previsível: texto off, entrevista, repórter em campo. Na maioria dos casos, a mediação jornalística é mínima. Insere-se na perspetiva do go between. O jornalista, mesmo sem nada de substantivo para dizer, tendo alguma notoriedade, torna-se uma espécie de oráculo de quem se espera a última palavra. Concebida para ser exibida num contexto de ruído, com informações a passar em rodapé, habitando um espaço saturado de sinais incoerentes, a reportagem tende a tratar os assuntos como faits divers, sem especial preocupação de organização da ordem dos signos ou da sintagmática. Mesmo tratando-se do que se trata, a necessidade de alcançar o máximo de audiência obriga o jornalismo, em maior ou temor grau, a servir dois donos, “info” e “tainment”: infotainment.

 


Hadas Grinberg, repórter criminal da televisão pública israelita Kan News, foi uma das primeiras pessoas a quem foi facultado o acesso às valas do alegado massacre de Bucha, na Ucrânia. A forma como se apresentou perante as câmaras, porém, gerou uma vaga de protestos. A jornalista justificou a indumentária por ser a mais quente do seu guarda-roupa. Segundo disse, “If it was a man, then no one would talk about the color of his coat or his nails or his hair.” Citado a partir de Women in the War Zone da autoria de Jennifer Maas. Publicado na Variety de 5 de maio de 2022. Imagem: Variety
Hadas Grinberg, repórter criminal da televisão pública israelita Kan News, foi uma das primeiras pessoas a quem foi facultado o acesso às valas do alegado massacre de Bucha, na Ucrânia. A forma como se apresentou perante as câmaras, porém, gerou uma vaga de protestos. A jornalista justificou a indumentária por ser a mais quente do seu guarda-roupa. Segundo disse, “If it was a man, then no one would talk about the color of his coat or his nails or his hair.” Citado a partir de Women in the War Zone da autoria de Jennifer Maas. Publicado na Variety de 5 de maio de 2022. Imagem: Variety

Se o recurso ao entretenimento existe, não quer dizer, no entanto, que seja levado à prática de modo idêntico em todas as estações. Tão pouco daí se poderá concluir que os formatos híbridos sejam necessariamente negativos. Nos canais especializados, nos quais todos os shows de notícias se assemelham, há, ainda assim, diferenças que permitem distingui-los consoante o nível de adesão a determinados princípios. Admite-se, por exemplo, que as notícias possam ser apresentadas dramaticamente sem, todavia, as transformar em drama. Admite-se, igualmente, a necessidade de expor os assuntos de forma acessível e compreensível, dentro dos limites do tempo disponível. Tendo isto presente, é relativamente simples identificar desvios que tanto podem conduzir ao sensacionalismo quanto à propaganda mascarada de informação. Sobra, no entanto, a questão essencial: a quem pertence o medium, quem o paga? Da resposta depende o entendimento do ponto de vista. Ninguém investe em meios de comunicação para ler, ver e ouvir o que não quer. 

 

Voltemos à televisão e à guerra. As guerras de agora. Ponto prévio. A invasão do território ucraniano pelas tropas da Federação Russa, em fevereiro de 2022, constituiu uma violação grosseira do direito internacional. Em função disso, construiu-se uma narrativa mediática, rapidamente interiorizada, em torno da ideia do agressor e do agredido. Do contexto histórico-cultural, bem mais complexo, raramente se falou. Algo se semelhante ocorreu, depois, na Palestina. Dito isto, o que se segue serve ao caso da informação produzida em Portugal, embora, com ligeiras declinações, seja extensivo à generalidade da cobertura noticiosa no ocidente ou ocidente alargado, como agora se diz. 

 


 Vala comum de palestianos vítimas dos bombardeamentos de Israel trazidos do al-Shifa Hospital na cidade de Gaza para Khan Younis, no sul da faixa, onde, segundo a Al Jazeera, seriam incinerados a 22 de novembro de 2023. Imagem: Reuters/Mohammed Salem
 Vala comum de palestianos vítimas dos bombardeamentos de Israel trazidos do al-Shifa Hospital na cidade de Gaza para Khan Younis, no sul da faixa, onde, segundo a Al Jazeera, seriam incinerados a 22 de novembro de 2023. Imagem: Reuters/Mohammed Salem

 

3. A notícia é tanto mais notícia quanto mais é comentada: descrição

 

Os meios de comunicação não são todos tratados do mesmo modo pelos beligerantes. No caso da Ucrânia, por razões óbvias, os mais influentes, sejam eles considerados jornais ou canais de referência, beneficiam de descriminação positiva. Dada a posição que ocupam na paisagem mediática global, deles se espera informação que possa fazer a diferença no contexto do xadrez político e geoestratégico. Essa informação, as mais das vezes, é criteriosamente plantada, como se diz na gíria jornalística. Destina-se ao patamar mais elevado da guerra da comunicação, indissociável da guerra no terreno, sem a qual não é possível ganhar a opinião pública. Nada é inocente. E, qualquer que seja a importância relativa atribuída aos diferentes media, trata-se sempre, como diz Chomsky, de fabricar os consensos indispensáveis à salvaguarda e reforço das ilusões necessárias. Passemos à prática em quatro momentos.

 

Primeiro, em cenário de guerra o repórter, regra geral, não vai onde quer. É enquadrado por militares e elementos dos serviços de informações. Pode propor a visita a um local ou uma deslocação segundo um determinado itinerário. Mas só vai aonde o levam e só se desloca por onde outros decidem. Tal como na segunda guerra do Golfo, quando o levam a algum lado ou é porque se pretende mostrar alguma coisa ou que alguma coisa em particular seja dita ou ambas as coisas. Por exemplo, mostrar e falar de um massacre alegadamente perpetrado pelo inimigo. Portanto, a agenda político-militar não só contagia, mas também condiciona a agenda informativa e o fluxo mediático. 

 

Segundo, as fontes, nem sempre identificadas, ou são oficiais ou oficiosas. Vi um repórter de uma televisão privada portuguesa, acabado de chegar a Lviv, dar uma notícia ao meio dia, cujo conteúdo, às oito da noite, no mesmo canal, constava como sendo de um comunicado do Pentágono. No início da guerra, as imagens de vagas de pessoas em fuga causaram uma comoção brutal. É compreensível. Dadas as circunstâncias, os testemunhos dos cidadãos acabariam, também eles, por ser condicionados, o que, dado o horror, é natural. O instante dispensou o contexto, a emoção deu lugar à indignação. A televisão punha em marcha o rolo compressor do condicionamento, sem contraditório, salvo numa ou outra referência episódica, e sem alternativa, devido à censura imposta pelas autoridades aos canais russos.

 

Terceiro, a pretexto da necessidade de dar informação tão completa quanto possível, do dever de tudo explicar e esclarecer, observa-se o princípio segundo o qual a notícia deve ser comentada. As explicações e os esclarecimentos exigem, naturalmente, conhecimento especializado. Por isso, uma vaga de comentadores tomou conta das pantalhas. Peritos militares, especialistas de segurança, entendidos em geoestratégia, traquejados em relações internacionais, versados em anti-terrorismo, sábios de várias disciplinas saídos da Academia, diplomatas consumados, ativistas russos anti-Putin, ativistas ucranianos pró-Zelensky, enfim, uma galeria infindável de notáveis convergiu no propósito comum de fazer frente à ameaça russa. Pelo meio, o casting das televisões selecionou um número restrito de vozes mais ou menos dissonantes, duas ou três oriundas das Forças Armadas com currículo em missões da NATO, outras tantas vindas da academia, todas com muito menor exposição do que as alinhadas com o pensamento dominante. As vozes minoritárias legitimam o sistema, fazendo passar a ideia da existência de uma informação plural. Sabe-se: a notícia é tanto mais notícia quanto mais é comentada.

 

Noam Chomsky: “The spectrum of discussion reflects what a propaganda model would predict: …the implicit message: thus far, and no further.” in Noam Chomsky, Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies. Imagem: Broadview
Noam Chomsky: “The spectrum of discussion reflects what a propaganda model would predict: …the implicit message: thus far, and no further.” in Noam Chomsky, Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies. Imagem: Broadview

Quarto, a repetição sistemática de um ponto de vista cria as condições necessárias à prossecução dos objetivos delineados. Consumada a perceção da malignidade do inimigo, ratificada pelos especialistas, rapidamente, a guerra passou a ser uma causa comum, uma questão moral. Apareceram inúmeras bandeiras da Ucrânia nas redes sociais, ocupando, frequentemente, o lugar das fotos de perfil. Os russos, segundo as informações veiculadas pelos media, praticavam crimes contra a humanidade, raptavam crianças, massacravam populações. Abriram-se as portas à russofobia. Nem Tolstoi, nem Tchaikovsky, nem o Bolshoi escaparam ao index. Os artistas russos foram impedidos de atuar. Os desportistas foram banidos das competições internacionais. O Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra Putin.

 

Nada de semelhante aconteceu em relação ao genocídio do povo palestiniano ao qual as televisões chamam conflito Israel-Hamas. Os artistas do estado de Israel estiveram no Festival da Eurovisão, os seus atletas participaram nos Jogos Olímpicos de Paris e as suas equipas de futebol disputam as provas europeias da UEFA. O Tribunal Penal Internacional não emitiu nenhum mandato de captura contra Netanyahu. Logo após o ataque terrorista do Hamas de 7 de Outubro, Von der Leyen e Metsola voaram para Telavive em sinal de solidariedade. Fizeram-se fotografar junto ao muro de Gaza com coletes à prova de bala. Posteriormente, perante a evidência chocante do massacre cometido pela tropa israelita, manifestaram preocupação. Tal como Joe Biden, ao mesmo tempo que enviava milhares de milhões de ajuda militar e colocava porta-aviões no Mediterrâneo.

 

Nas televisões, os comentadores da guerra na Ucrânia foram convocados para analisar a situação no Médio Oriente. A mesma agenda. Os mesmos procedimentos. Os mesmos propósitos. Agora, no entanto, com uma missão de dificuldade acrescida. Estações de televisão do mundo árabe, com jornalistas destacados na faixa de Gaza, começaram a mostrar o inominável. Na Al Jazeera, eu vi, em direto, um repórter devidamente identificado a ser perseguido por um tanque israelita. Desde o dia 7 de Outubro já foram mortos 180 trabalhadores dos media, a maioria dos quais jornalistas. Israel proibiu a Al Jazeera a pretexto de ser uma televisão ao serviço de grupos terroristas. Mas foi graças à Al Jazeera que o mundo ficou a conhecer a existência do genocídio, da limpeza étnica que não poupa velhos, mulheres e crianças. Ainda assim, a esmagadora maioria dos comentadores mantém-se fiel à ordem internacional “tal como nós a conhecemos”, expressão recorrente na boca de um oficial general omnipresente na CNN. Vale por dizer, a ordem americana. Há efeitos colaterais? Há. Mas, infelizmente, nestas situações, comentava o general, há sempre efeitos colaterais.

 


Palestiniano observa a destruição em Khan Younis, no sul da faixa de Gaza. Enquanto a ONU considera iniludíveis os sinais de genocídio, Estados Unidos e União Europeia dizem lamentar,  mas enviam, em simultâneo, milhares de milhões em armamento para Israel. Nas televisões, apesar da crueza das imagens e do horror do sofrimento das pessoas, há quem justifique o massacre em nome do direito à defesa. Foto: CNN
Palestiniano observa a destruição em Khan Younis, no sul da faixa de Gaza. Enquanto a ONU considera iniludíveis os sinais de genocídio, Estados Unidos e União Europeia dizem lamentar,  mas enviam, em simultâneo, milhares de milhões em armamento para Israel. Nas televisões, apesar da crueza das imagens e do horror do sofrimento das pessoas, há quem justifique o massacre em nome do direito à defesa. Foto: CNN

4. Da banalização da guerra à vertigem armamentista

 

Dizia Churchill que a primeira vítima da guerra é a verdade. Em relação quer à Ucrânia quer ao Médio Oriente as televisões não se preocupam grandemente com a mentira. Se a informação tem origem em fonte considerada fidedigna, utilizam-na, muitas vezes sem verificação. O problema é que as fontes são parte interessada. Assim sendo, em ambos os casos, Ucrânia e Médio Oriente, a construção da realidade acaba por ser levada a cabo em função de uma agenda sintonizada com os objetivos de um dos lados, sabemos qual, sem cuidar dos critérios e mediação jornalísticos. Daí a propaganda ocupar o lugar da Informação é um pequeno passo. O jornalismo escondeu-se. Salvo quando um ou outro profissional mais consciente e experiente, também os há, foi capaz de contar estórias em que a maioria não estaria disponível para reparar.

 

É claro que o ecossistema mediático sofreu uma alteração profunda. Se, por um lado, a segmentação televisiva deu origem à disseminação de canais de notícias em competição à escala global, por outro, a revolução digital trouxe uma infinidade de plataformas cujos conteúdos tanto competem entre si quanto com os dos media tradicionais, designadamente a televisão. Quer isto dizer que há hoje a possibilidade, com maior ou menor dificuldade, de encontrar informação em media alternativos. Mas, para isso, é necessária literacia mediática. Saber ler mensagens em função do modo de operar de cada medium. Dominar as articulações que envolvem não só a gramática da língua, mas também a gramática das imagens e dos sons. Perceber o conjunto das interações que conduzem às notícias e à opinião. Ter noção das pressões exercidas sobre os meios de comunicação. Em suma, estar na posse das ferramentas que permitem distinguir o trigo do joio, a informação da propaganda. Portugal, em termos de literacia mediática, é dos países mais atrasados da Europa. Ocupa um dos últimos três lugares da tabela. É também um dos países que menos jornais lê, onde os jornalistas são mais mal pagos e onde se vê mais televisão. Em contrapartida, nem sempre pelas melhores razões, bem pelo contrário, a frequência das redes sociais cresceu em flecha.

 

Numa altura em que as opiniões públicas vão ganhando consciência da complexidade da guerra na Ucrânia e, talvez por isso, vão divergindo das respetivas lideranças empenhadas numa vertigem armamentista sem precedentes, Portugal é o País onde, apesar de tudo, se vão mantendo os índices mais elevados de apoio à guerra. Embora revelando cansaço, deixando perceber a intromissão da dúvida, eventualmente, até de algum ceticismo, as televisões não se afastaram desse propósito. Passam sem filtro declarações incendiárias de gente como o secretário-geral da NATO Mark Rutte, que no governo do seu país fez uma aliança com a extrema-direita, da ministra da defesa alemã Annalena Baerbock, por sinal dos Verdes, que quer mísseis de longo alcance para atingir a Rússia, ou da estoniana Kaja Kallas, comissária para a Política Externa e Segurança, que, há não muito tempo, sugeriu uma intervenção militar direta em solo russo. Declarações deste tipo são facilmente corroboradas pela maioria dos comentadores. Algo de semelhante acontece em relação ao Médio Oriente. Apesar do repúdio generalizado face às barbaridades praticadas pelo exército do estado de Israel a mando de um fanático como Netanyahu, a linha geral não se afasta da pauta oficial de Von der Leyen, Metsola, Borrell e Michel. Lamentam os excessos e fazem chegar armamento aos infratores. Se é preocupante a duplicidade de critérios dos responsáveis europeus, o seguidismo da maioria dos meios de comunicação, em particular das televisões, não o é menos.

 


Ursula von der Leyen foi a Bucha ver, horrorizada, “o rosto cruel do exército de Putin”. Após o 7 de Outubro, acompanhada de elementos do IDF, visitou o local da chacina do Hamas e solidarizou-se com Netanyahu. É dela a célebre frase “Israel made the desert bloom.” Ficou horrorizada em Bucha, mas evitou o horror de Gaza. Regra geral, é esse o posicionamento  dos media ocidentais. Imagem: EU Debates | eudebates.tv
Ursula von der Leyen foi a Bucha ver, horrorizada, “o rosto cruel do exército de Putin”. Após o 7 de Outubro, acompanhada de elementos do IDF, visitou o local da chacina do Hamas e solidarizou-se com Netanyahu. É dela a célebre frase “Israel made the desert bloom.” Ficou horrorizada em Bucha, mas evitou o horror de Gaza. Regra geral, é esse o posicionamento  dos media ocidentais. Imagem: EU Debates | eudebates.tv

 

Finalmente, em modo provocatório, regressando ao início do texto. A televisão é ainda um meio hegemónico. Para que as suas mensagens produzam efeitos é necessária a repetição. Do mesmo modo, a redundância. Uma e outra, associadas ao comentário, têm por fim induzir a interiorização de uma linha de pensamento dominante. As regras do híbrido infotainment favorecem a possibilidade de mostrar a guerra em modo de espetáculo, banalizando-a. A banalidade, por sua vez, conduz ao torpor, passividade e aceitação por parte de muitos que deixaram de pensar. O refúgio desses é a crença e a indignação. Mais, quem fica privado de pensar, sem disso ter consciência, fica refém da mentira.

 

Felizmente, nada disto é linear. Há também a certeza de haver pessoas de quem não se faz o que bem se entende, que fazem perguntas e procuram confirmar notícias, comentários e informações. Entretanto, parece ter-se iniciado uma nova fase. Pela guerra, em nome da defesa da Europa contra “a ameaça russa”, eis a corrida ao armamento. Naturalmente, a massagem continua.

 

12 de Outubro 2024

 

Jorge Campos

 

P.S. Este texto foi publicado na revista Ecossocialismo no último quadrimestre de 2024. Foi escrito ainda antes de Netanyahu ser acusado de genocídio. De outubro até esta parte, o destino da guerra na Ucrânia parece inclinar-se cada vez mais para o lado da Federação Russa. Tem ganho consistência a necessidade de entabular negociações com vista a alcançar a paz. Não sei que paz será. Também não sei se do lado do jornalismo de televisão corporativo, tendo em conta a distorção das boas práticas, por exemplo, a confusão entre informação e opinião, haverá algumas baixas por motivos de consciência. Havendo, não seria nada de inédito. Ícones do jornalismo da televisão americana como Edwards R. Murrow, Walter Cronkite e Dan Rather, todos da CBS, em épocas diferentes, por diferentes razões, vieram a público dar a entender que batiam com a porta por não quererem continuar a enganar as pessoas. Não me parece que tal venha a acontecer. E em Portugal ainda menos.

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
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Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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