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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

NDR

Era eu deputado eleito pelo Bloco de Esquerda, em 2017, quando começou a debater-se na Assembleia da República o destino a dar ao Forte de Peniche. Edifício histórico, classificado como Monumento Nacional, o Forte fora transformado, durante o regime fascista, numa cadeia de alta segurança para presos políticos. 

 

Muitos dos mais destacados elementos da oposição democrática, de vários quadrantes, passaram por lá, sujeitos a todo o tipo de sevícias. Sendo os comunistas o alvo principal da ditadura, por serem os mais combativos e organizados, não surpreende terem sido deles as acções mais espectaculares que ali se verificaram. Foi o caso, em 1960, da célebre evasão de Álvaro Cunhal e de mais nove dos seus camaradas da direcção do PCP.

 

Em função do histórico do Forte de Peniche, e não apenas do passado ligado ao regime fascista, o  seu lugar no futuro não deveria suscitar grandes dúvidas. Teria de estar associado à Memória e à Resistência. Pura ilusão. Primeiro, foi o governo de António Costa, a dar o flanco. Em Setembro de 2016, sem o apoio dos partidos à sua esquerda, decidiu incluir o edifício na lista dos monumentos históricos a concessionar a privados no âmbito do programa Revive, aparentemente feito à medida do grupo Pestana. Tendo estalado a polémica, por pressão do BE e do PCP, mas também de elementos do próprio PS, o governo, ao cabo de dois meses, acabou por recuar na decisão.

 

Depois, a direita, na Assembleia da República e fora dela, tratou de mobilizar-se em sentido oposto. Primeiro, procurou arrastar o debate. Depois, deixou no ar a ideia bizarra de, em nome do progresso e do futuro, transformar o Forte num hotel de luxo, no qual, pasme-se, até poderia haver lugar para um cantinho evocativo da resistência.

 

Enquanto membro da Comissão de Cultura da Assembleia da República coube-me receber, bem como aos deputados dos restantes partidos, um grupo de peticionários favoráveis à ideia do hotel. Defendia o seu porta-voz a necessidade de deixar de viver no passado e de agarrar a modernidade com ambas as mãos. Portanto, seria indesculpável não utilizar o património edificado para desenvolver a região, tanto mais que seria essa a vontade da população. Dizia mais, que a Assembleia da República não deveria ser um entrave ao interesse nacional.

 

Qualquer país civilizado, depois de uma ditadura de 48 anos, seria incapaz de varrer a memória para debaixo do tapete. Entre nós, porém, aparece sempre alguém disponível para ceder património cultural a  troco de meia dúzia de tostões. Deve ser sina. Felizmente, os partidos que viabilizaram a solução política conhecida por Geringonça chegaram finalmente a um acordo. A solução só poderia ser aquela que viria a ser materializada: o Museu da Resistência e da Liberdade.

 

O que está no vídeo que aqui deixo é uma das intervenções que então fiz nesse sentido. Nela, faço referência a meu tio Carlos Costa, um dos evadidos de Peniche na fuga de Álvaro Cunhal.  

 



 
 
 
Foto do escritor: Jorge Campos
Jorge Campos
15 de fev. de 2024
1 min de leitura


Há seis anos, fiz na Assembleia da República uma intervenção relacionada com a necessidade de agir de forma determinada face à agressão de jornalistas em recintos desportivos. Por extensão, pretendia-se acautelar a sua integridade física e garantir a sua liberdade de acção. Foi um intervenção pela liberdade de imprensa e pela liberdade de expressão.

 

Na altura, fiz críticas muito severas ao modo como se processavam determinados programas desportivos na televisão, na verdade, programas de futebol, visando os discursos incendiários, carregados de intolerância e irracionalidade.

 

Se houve por efeito um travão temporário a impor alguma contenção verbal e emocional, a verdade é que se tratou de sol de pouca dura. Pouco tempo passado - embora deva dizer-se, em abono da verdade, que sempre houve estações e estações - o estilo ordinário e arruaceiro voltou aos estúdios. Com uma agravante. Instalou-se no discurso político. O palavreado e os tiques fascistas do líder da extrema-direita, por exemplo, são uma extensão dos dichotes e maneirismos que ele próprio utilizava ao perorar sobre futebol. Foi, aliás, o futebol que o levou para a ribalta.

 

Hoje, infelizmente, a situação da comunicação social parece encaminhar-se para um beco sem saída. No plano editorial, o desequilíbrio é gritante, tamanha é a inclinação à direita. No plano laboral, a precariedade é a regra. No plano dos desempenhos, é o que se vê. A democracia é atingida num dos seus pilares fundamentais.

 

Dito isto, o caso da Global Média é paradigmático da actualidade. Se há seis anos a situação era má, agora é bem pior. Abaixo, são apontados alguns antecedentes. É ver. 

 



 

 

 

 
 
 
Foto do escritor: Jorge Campos
Jorge Campos
12 de jan. de 2024
2 min de leitura

 

O caso da Global Media, agora nas mãos de um fundo financeiro obscuro, só vem confirmar o que toda a gente sabe: a comunicação social anda pelas ruas da amargura. Deixar sem salário os trabalhadores, não pagar subsídios, despachar quem está a recibos verdes, ameaçar insolvência e avançar com a possibilidade de um despedimento colectivo é não só andar a brincar com a vida das pessoas, mas também exibir sem disfarce o que se esconde por detrás do abuso de frases onde abundam expressões como liberdade de imprensa e qualidade da democracia.

 

No ponto a que chegamos, há aventureiros sem escrúpulos que agem à revelia dos mais elementares princípios do jornalismo fazendo da notícia um mero produto à venda. Essa gente só vê nos cidadãos potenciais consumidores compulsivos. Olha, sobranceiramente, para o interesse público como um entrave ao lucro. Nas suas mãos, os media não tratam de informar e escrutinar os poderes para auxiliar a formar opinião a partir de um quadro plural de referências. Tratam, sim, de atropelar tudo em função do interesse próprio e, porventura, de desígnios inconfessáveis. Por isso, essa gente adopta a facilidade das redes sociais, entrega o poder editorial aos departamentos comerciais, favorece o entretenimento imbecil e dá prioridade ao chamado jornalismo patrocinado de modo a fazer da agenda informativa uma agenda de interesses, na qual o poder do dinheiro vive, as mais das vezes, paredes meias com o poder político.

 

Nesta conjuntura, o trabalho dos jornalistas não só não é necessário como é contraproducente. Fica caro. É inadequado. Não se trata apenas de uma questão de atualização tecnológica e de exploração das novas plataformas digitais. Tão pouco é exclusivamente um problema de sustentabilidade das empresas. Não, do que se trata é mesmo de modelos de negócio escondidos por detrás da máscara do jornalismo. Com fundos como aqueles que cada vez mais se movem no mercado da comunicação social não é de jornalismo de que deve falar. É de outras coisas.

 

Há alguns anos, fiz diversas intervenções na Assembleia da República a propósito da situação da comunicação social. Já nessa altura, a precariedade, pelas consequências daí resultantes para o regime democrático, assumia proporções alarmantes. Nada de novo, portanto, o que agora acontece. É uma dessas intervenções, recuperada dos meus arquivos, que aqui está.






 
 
 
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Criado por Isabel Campos 

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