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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

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  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 8 de abr. de 2021
  • 21 min de leitura

Publicado há 30 anos, penso que este meu livrinho chamado A Caixa Negra continua a ser pertinente. Na verdade, tendo sido escrito para estudantes a iniciar o Curso de Jornalismo na área da Televisão, tem algo que me parece de elementar precaução. Alerta para as ilusões dos jovens em torno deste medium fascinante e discute questões essenciais como a manipulação e a propriedade dos meios de comunicação social numa sociedade, já nessa altura, confrontada com aquilo a que chamei uma crise das representações. Também nele se reclama ser indispensável entender o Cinema de modo a poder melhor entender a linguagem da Televisão, hoje algo totalmente negligenciado. Este texto corresponde ao capítulo IV de A Caixa Negra intitulado O I(ni)maginável Mundo Novo e antecipa algumas das coisas que por aí estão. Prepara, também, o seguinte e último capítulo chamado O Insustentável Peso do Lixo.



Fonte: Reason Magazine

O INIMAGINÁVEL

acontece. Nos Estados Unidos, estações de Televisão por cabo vocacionadas para a venda de objectos ao domicílio através de concursos ameaçam as audiências das grandes networks, por vezes, ultrapassam-nas. É a lógica do consumismo na sua irracionalidade. É a vitória do consumo pelo consumo, sem distinção dos produtos adquiridos em função da sua utilidade. Um dinossauro de plástico amarelo é especialmente disputado, um crocodilo de peluche leva os lares americanos ao rubro.


Por cá, ainda não chegou o cabo nem chegaram estas modalidades de canais especializados, o que não quer dizer que os concursos não tenham singrado. Bem pelo contrário. As tabelas de audiências atribuem já os lugares cimeiros a alguns concursos à frente, por exemplo, das telenovelas, do desporto e das notícias.


Lá, como cá, como um pouco por todo o mundo, o concurso não põe qualquer exigência de aprendizagem intelectual. É puro entretenimento construído à volta de uma ideia central, o dinheiro, e encenado por forma a resultar em termos minimamente espectaculares. É barato e rentável. Acertar no preço de um produto, por exemplo, exige apenas um mínimo de bom senso e, provavelmente, um máximo de frequência dos hipermercados, aliados à disponibilidade interiorizada de alimentar um flirt regular com os objectos. Voyeur de quase tudo, como quase toda a gente, o concorrente encontra na contemplação dos objectos satisfação para uma parte significativa das necessidades do seu imaginário e no concurso a possibilidade de objectivar o seu desejo, transformando--se em protagonista de uma aventura vivida por milhões diante de ecrãs de televisão que com ele arriscam na sorte de um lance o acesso a um efémero momento de glória.


Claro que, de um modo geral, o espectador nem sequer se apercebe que os prémios realmente gordos são puro engodo e, como tal, destinam-se a ser parcimoniosa e episodicamente distribuídos. Quanto ao mais, salvo raras excepções, ao participante incomoda interrogar, explorar ou analisar. De resto, nem para tal é solicitado mesmo quando o concurso, aparentemente, aponta para uma intervenção cultural, no sentido da participação criadora e da partilha de conhecimentos. Escrevendo a propósito dos concursos radiofónicos com objectivos supostamente culturais, Baudrillard comenta:


"O que é repartido deixa de ser 'cultura'; o corpo vivo, a presença actual do grupo (tudo o que fazia a função simbólica e metabólica da festa) já não é um saber no sentido próprio do termo; é o estranho corpo de signos e referências, de reminiscências escolares e de signos intelectuais da moda a que se dá o nome de 'cultura de massas' e que poderá igualmente chamar-se M.C.C. (Menor Cultura Comum), no sentido do menor denominador comum em aritmética — no sentido, também, do 'standard package', que define a menor panóplia comum de objectos a possuir pelo consumidor médio para aceder ao título de cidadão da sociedade de consumo. Assim, também a M.C.C. define a menor panóplia comum de 'respostas justas' que se supõe possuir o indivíduo médio para alcançar a patente de cidadania cultural".(1)


Será razoável alargar este menor denominador cultural comum em termos de uma elaboração tipificadora do espectador médio de Televisão? E haverá, de facto, um espectador médio? É uma questão controversa com repercussões tanto no plano da linguagem, na medida em que problematiza a codificação da mensagem em função de um determinado receptor (o espectador - consumidor), quanto no plano da actividade jornalística, a qual se inscreve no quadro global da interacção entre o fazer televisivo e a sociedade no seu conjunto.


UMA CORRIDA PARA A FRENTE


Tecnicamente, a Televisão é o resultado da conjunção e da interpenetração de três séries de descobertas: da foto-electricidade, ou seja, da capacidade de certos corpos transformarem, por radiação de electrões, a energia eléctrica em energia luminosa; do processo de análise de fotografias decompostas e, depois, recompostas em linhas de pontos claros e escuros; e, por fim, do domínio das ondas hertzianas para efeito da transmissão de sinais eléctricos correspondentes a cada um dos pontos da imagem analisada.


John Logie Baird e o seu modelo original de televisão. Foto: TIME

Não cabe aqui fazer a história da Televisão. Retenham-se, porém, os nomes de dois pioneiros, porventura os principais protagonistas das duas principais vias de análise das imagens: a da varredura mecânica por um feixe luminoso, derivada do disco de Nipkov, e a da varredura por um feixe de electrões derivada dos trabalhos de Rosling. Um desses pioneiros foi o escocês John Logie Baird. Excêntrico, visionário, adivinhou a Televisão do futuro falhando, embora, na sua tentativa de transmissão mecânica de imagens. Foi de curta duração o programa que chegou a ter na fase experimental da BBC. O outro pioneiro teve melhor sorte ao apostar na electrónica. Foi o russo Vladimir Zworykin. Após uma longa estadia em França, acabou por se radicar nos Estados Unidos onde, em 1927, construiu o seu famoso iconoscópio, com o qual passaram a ser equipadas as máquinas fotográficas, e que permitiu o aperfeiçoamento dos tubos de raios catódicos dos receptores de televisão.


No seguimento dos trabalhos de Zworykin poder-se-iam citar muitos nomes. Para o nosso propósito é suficiente referir que os progressos foram rápidos, mas o início da II Guerra Mundial interrompeu as experiências então em curso. Importa, contudo, sublinhar o seguinte. Apesar de habituados às mutações técnicas com impacto civilizacional, a sociedade contemporânea parece ter estranhado a velocidade da mudança mediática. Fora preciso século e meio para que os jornais nascessem do invento de Gutenberg, mas vinte anos tinham bastado para que a TSF conduzisse à radiodifusão pública e, menos de dez anos após os primeiros ensaios, já a Televisão principiara a funcionar. A amplitude da expansão dos meios eléctricos levou historiadores da comunicação a afirmar que eles nunca encontraram o seu equilíbrio na estabilidade:


"Impelidos sem cessar para um maior desenvolvimento pelos progressos da técnica e pelo dinamismo dos interesses comerciais e políticos que os apoiam, cresceram e diversificaram-se numa espécie de corrida para a frente cujo objectivo é bem incerto."(2)


Vladimir Zworykin e o seu protótipo. Fonte: Russkiy Mir Foundation

No caso da Televisão, os anos 80 vieram confirmar essa incerteza. Foram os anos de desregulamentação no quadro de um mercado cada vez mais concorrencial e, porque não dizê-lo, à beira da saturação. A tal ponto que a década de 90, na Europa, principiou com nítidos sinais de recessão, enfrentando boa parte das televisões generalistas sérias dificuldades financeiras. Sob pressão da concorrência, os serviços públicos resvalaram para uma zona de alta indefinição quanto às pressões do poder político, transformando-se em gigantescos aparelhos de controle social. É uma ideia para ser desenvolvida adiante e que encontra nas notícias um dos seus aspectos mais perturbadores, posto que elas não só legitimam o discurso político dominante, como tendem a substituir-se ao acontecimento, transformando-se, elas próprias no acontecimento. Roberto Marinho, o magnate da televisão brasileira chega ao ponto de afirmar que, hoje em dia, os conceitos de História e Jornalismo mantém total afinidade.


Dir-se-á que a Televisão é apenas um dos media e argumentar-se-á com a sua complementaridade para efeito da formação da opinião pública. Ainda assim, seria insensato desvalorizar o peso específico da Televisão, muitas vezes a única fonte de informação e entretenimento para um número substancial de pessoas. Aliás, a corrida para a frente em que a Televisão continua envolvida põe questões suficientemente sérias para merecerem a atenção de diversos organismos, como o European Television Task Force e o European Institute for the Media, parecendo ganhar força a ideia de que a qualidade da democracia tem uma relação directa com o modo de operar dos seus meios de comunicação social. Ora, é justamente em torno deste problema, afinal o problema da cidadania, que se levanta o maior número de interrogações. Vejamos algumas.


PROPAGANDA E ESTEREÓTIPOS


A propaganda política visa, fundamentalmente, a conquista e a preservação do poder. É uma comunicação persuasiva, alicerçada num conjunto de técnicas de informação, destinada a influenciar as opiniões, os sentimentos e as atitudes do público num determinado sentido. É, portanto, uma acção planeada e racional.


Sobretudo a partir dos anos 60, a Televisão substituiu a Rádio com vantagem, tanto no plano da chamada propaganda de competição, como de propaganda de integração.


Fonte: Shutterstock

A propaganda de competição é um mecanismo de mudança social e de transformação política, num quadro de consensualidade adquirida, visando a conquista, por meio do prestígio,


"de uma maioria flutuante de um corpo político, de um agrupamento ou de um mercado. O consenso traduz-se no facto de o prestígio reconhecido por uma maioria constituir lei aceite pela minoria. O prestígio temporário adquirido através da propaganda substitui o confronto físico, a pura relação de forças."(3)


A propaganda de competição inscreve-se no curto prazo e tem afinidades com a publicidade, manifestando-se, por exemplo, durante as campanhas eleitorais.


A propaganda de integração é de longo prazo. Baseia--se nos valores transmitidos de geração em geração através de factores como a família, a escola, as convicções religiosas, e apoia--se na memória colectiva, confrontando os infractores da norma com a ameaça de reprovação. Este tipo de propaganda tornou-se organizada e ideológica; assumindo um controle crescente sobre os mass media, em especial sobre os jornais televisivos.


Em qualquer dos casos, sendo de competição ou de integração, a propaganda procede de simplificações. Walter Lippmann(4) afirma que o indivíduo, incapaz de interpretar o mundo em toda a sua complexidade, cria para seu uso modelos sustentados por estereótipos. A teoria de Lippmann, que tem servido de base a muitos estudos sobre a propaganda, identifica o mundo estereotipado como substituto da realidade existente. Esta ilusão, segundo Biriukov, é configurada a partir do momento em que os estereótipos são, essencialmente,


"uma espécie de aceleradores do conhecimento, que ajudam um indivíduo a formar uma ideia de um objecto ou de um fenómeno, antes de ele entrar em contacto com eles. Desta forma, os estereótipos combinam-se para formarem imagens, que pavimentam o caminho que leva à manipulação directa da opinião pública."(5)


Entramos, assim no domínio da


INDÚSTRIA DA CONSCIÊNCIA.


Os gestores dos media, segundo Herbert Schiller,


”criam, processam, refinam e presidem à circulação de imagens e informações, que determinam as nossas crenças e atitudes e, em última instância, o nosso comportamento. Quando produzem deliberadamente mensagens que não correspondem à realidade da existência social, os gestores dos media tornam-se gestores das mentes. As mensagens que criam intencionalmente um falso sentido da realidade e produzem uma inconsciência que não permite compreender ou rejeitar livremente as actuais condições da vida pessoal e social são mensagens manipuladoras.(6)


Herbert Schiller

Em sentido lato, manipulação significa uma técnica de mudança da consciência sem que disso o manipulado se aperceba. A eficácia manipulatória obtém-se accionando determinados mecanismos psicológicos num quadro de estereótipos da realidade. Em relação aos Estados Unidos, por exemplo, Schiller identifica cinco mitos estruturantes dos media. São eles os mitos do individualismo e da escolha pessoal, da neutralidade, da natureza humana imutável, da ausência de conflito social e do pluralismo dos mass media. Por analogia, poder-se-iam determinar os mitos que noutras circunstâncias históricas correspondem a outras realidades. No caso das televisões do Estado, com forte vínculo governamental, é fácil identificar os estereótipos conducentes à construção do mito da eficácia ou do mito da estabilidade, um e outro indispensáveis à consolidação das estratégias do poder. Mas o que é, afinal, a função do mito?


O MITO


Dois parágrafos de Roland Barthes permitem dar resposta à questão. Segundo ele,


"a função do mito é transformar uma intenção histórica em natureza, uma contingência em eternidade. Ora, este processo é o próprio processo da ideologia burguesa. Se a nossa sociedade é objectivamente o campo privilegiado das significações míticas, é porque o mito é formalmente o instrumento mais apropriado para a inversão ideológica que a define: a todos os níveis da comunicação humana, o mito realiza a inversão da anti--physis em pseudo-physis."(7)


Prossegue Barthes:


"O que o mundo fornece ao mito é um real histórico, definido, por mais longe que recue no tempo (...) e o que o mito restitui é uma imagem natural deste real (...). Uma prestidigitação inverteu o real, o seu sentido humano, de modo a fazê-lo significar uma insignificância humana."(8)



Roland Barthes

CONTROVÉRSIAS


É certo que a abordagem da manipulação, mitos e estereótipos, exige a aceitação do pressuposto da existência de um fenómeno de massificação promovido pelos mass media e assenta, até, na convicção de que a cultura de massa é um dos expoentes referenciais das sociedades modernas. Há quem, contudo, rejeite este ponto de vista, reduzindo os conceitos de massa e de cultura de massa, eles mesmos, à categoria de mitos construídos a partir de elaborações teóricas insuficientemente testadas ou resultantes de leituras essencialmente ideológicas. No fundo, trata-se da velha querela, sempre emergente da problemática dos media, que opõe optimistas a pessimistas. Orlando Miranda, por exemplo, afirma que todo o mito procura impor uma crença, ao serviço de uma ideologia. Nessa perspectiva,


"o mito da massa recusa possibilidade às acções colectivas, e propõe como substitutas fugas individuais (para as quais os media fornecem os meios). O mito da massa nega racionalidade à consciência colectiva, e a nega também ao indivíduo por ser uma consciência socialmente condicionada. Numa palavra, o mito da massa nega o próprio homem que, animalizado, deve conformar-se à sua pseudo-condição de objecto histórico."(9)


A dinâmica das sociedades modernas, na sua intensa mutabilidade, impõe um permanente questionar de dados adquiridos, relevando a sua transitoriedade. Como tal, é indispensável introduzir a controvérsia nestas matérias, já de si tão contraditórias, e que nos devolvem às interrogações abertas no início do capítulo a propósito da viabilidade de caracterização de um espectador médio de Televisão. Seja como for, é difícil negar, em maior ou menor extensão, a existência de massificação induzida pelos media. O próprio Miranda não nega esse fenómeno, afirmando, embora, que ele se explica pela multi - significação do produto e não pela padronização do consumidor.


Fonte: Sites at Penn State

Nesse sentido, talvez não seja possível fazer o retrato robot do espectador médio, mas é certamente possível expor alguns dos traços característicos dessa massificação, em relação à qual, de resto, o Estado está longe de ser um presumível inocente. Há dados que decorrem da constatação de factos. Quando se estabelece, por exemplo, uma relação directa entre o exercício do poder político e o controle das televisões estatais, mais não se faz do que admitir o óbvio. Como óbvio é o facto de qualquer poder exercido através dos media ser massificador. É este tipo de relações, aliás, que leva Maurice Duverger a afirmar:


"O poder da Televisão é tal que se não se adapta o seu regime às estruturas políticas do Estado, são as estruturas políticas do Estado que se adaptarão ao regime da Televisão."(10)


E Duverger acrescenta:


"A contradição tornar-se-á insolúvel entre uma TV governamental e um sistema democrático, de sorte que a primeira acabará por esvaziar o segundo de toda a sua substância."(11)


E é por aqui que se entra no mundo das


MÁSCARAS


Com efeito, a Televisão surge como um autêntico aparelho ideológico do Estado, em última instância um prolongamento do poder político e, enquanto tal, agente da História com a qual se confunde no seu fazer quotidiano. Sendo assim, o campo informativo recolhe a ambiguidade resultante da sobreposição do político e do jornalístico. O político necessita da máscara do jornalismo para credibilizar a informação, mas retira-lhe autonomia por forma a fazer passar sem sobressaltos a sua mensagem numa combinação mais ou menos hábil de formas de propaganda de competição e de integração. Esta, regula a direcção estratégica do discurso de acordo com os mitos e estereótipos da dominação, aquela, introduz o indispensável elemento de conflitualidade (razoável) de modo a manter sob abertura controlada os canais de circulação de ideias sem os quais as sociedades tendem ao enclausuramento, asfixia e morte, como aconteceu nos países comunistas do leste europeu. De resto, sendo coisas diferentes, a manipulação e o condicionamento, para serem eficazes, não podem manifestar-se como tal, sob pena de produzirem um efeito de boomerang por perda de credibilidade junto do receptor. Daí, uma vez mais, o recurso à máscara.


De passagem, importa acrescentar que a "propaganda informativa" é enquadrada pelo conjunto da programação televisiva, ela mesma uma "propaganda global". Como sublinhou McLuhan(12), já não faz sentido a transmissão de mensagens de conteúdo obviamente propagandístico através dos media. Importa, sim, valorizar a importância da totalidade cultural, diversa a ponto de integrar a língua, a alimentação, a publicidade, o entretenimento, etc.. Vão longe os Dias da Rádio, a Guerra das Ondas e a Teoria da "agulha hipodérmica" na sua formulação inicial.


Fonte: Quora

O QUE O PÚBLICO QUER


O controle do emissor sobre as mensagens veiculadas é, entretanto, justificado com alegadas preferências do público. Por outras palavras, o emissor só é responsável por aquilo que emite na medida em que o receptor o exige. É a ditadura dos índices de audiência. Comentando a violência que inunda a Televisão americana, Schiller afirma:


"A programação diária (...) com a sua média de seis homicídios por hora, é facilmente justificada pelos controladores dos media como um esforço para dar às pessoas o que elas querem. É muito mau, dizem encolhendo os ombros, mas a natureza humana exige dezoito horas diárias de mutilações e morticínios."(13)


Tal como Schiller, também Richeri contesta o critério das audiências:


"De um modo geral, não me parece que sejam os gostos do público que tenham determinado, até ao momento, a oferta televisiva, pelo contrário tem sido a oferta televisiva que tem formado o gosto do público. Com a passagem da televisão de serviço público a televisão comercial, passa-se substancialmente de uma "pedagogia institucional" a uma "pedagogia dos consumos", mas embora mudem os conteúdos da programação é sempre o emissor quem decide, entre todas as possibilidades, o que há-de transmitir. O público nunca tem a possibilidade de saber quais poderiam ter sido as alternativas e nunca pode promovê-las."(14)


O emissor aparece, assim, com um papel determinante no


CONTROLE DA EMISSÃO,


assumindo um lugar de destaque nos novos paradigmas da comunicação. Se tomarmos como ponto de partida o esquema de Lasswell, verificaremos que das cinco grandes linhas de pesquisa por ele enunciadas — control analysis, content analysis, media analysis, audience analysis e effects analysis — a primeira e a última adquirem uma relevância renovada. Após as tentativas, aliás, bem sucedidas, de provar a relatividade da influência dos media, caso das teorias dos "efeitos limitados" e da "persuasão" (às quais já fizemos referência) e da marginalização da teoria da "agulha hipodérmica", assiste-se, agora, a uma revalorização desta última, bem como do poder exercido no conjunto da sociedade pelos meios de comunicação de massa. Um dos textos que assinala esta mudança intitula-se, significativamente, "Return to the Concept of Powerful Mass Media ", da autoria de Noelle Neuman.(15)


Elisabeth Noelle Neuman

Volta, portanto, a estabelecer-se uma relação entre quem controla os mass media e quais os efeitos pretendidos. Agora, porém, em vez de se estudarem casos singulares, optou-se pela cobertura global de todo o sistema mediático, substituindo-se o recurso às técnicas tradicionais, como as entrevistas, por metodologias integradas. Já não estão tanto em causa as mudanças de atitude e de opinião, mas sim a reconstrução do processo através do qual o indivíduo modifica a sua própria representação da realidade social. Investigam-se, assim, "os sistemas de conhecimento que o indivíduo assume e estrutura de uma forma estável devido ao consumo que faz das comunicações de massa"(16), mudando, concomitantemente, o quadro temporal da pesquisa. Ou seja, os efeitos pontuais ligados à exposição à mensagem dão lugar aos efeitos cumulativos, sedimentados no tempo.


É o que afirmam Lang e Lang a propósito da competição eleitoral:


"Os mass media (...) exercem a influência que têm na medida em que são algo mais do que um simples canal através do qual a política dos partidos é apresentada ao eleitorado. Ao filtrar, estruturar e realçar determinadas actividades públicas, o conteúdo dos mass media não se limita a transmitir aquilo que os porta-vozes proclamam e aquilo que os candidatos afirmam (...) Não só durante a campanha mas também nos períodos intermédios, os mass media fornecem perspectivas, modelam as imagens dos candidatos e dos partidos, ajudam a promover os temas sobre os quais versará a campanha e definem a atmosfera específica e a área de relevância e de reactividade que assinala cada competição eleitoral."(17)


Evidentemente, a passagem dos "efeitos limitados" para os "efeitos cumulativos" implica a substituição do modelo transmissivo da comunicação por um modelo centrado no processo de significação. Este é já o domínio da

AGENDA-SETTING,


a qual sustenta que


"em consequência da acção dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflecte de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas."(18)



Por outras palavras, os mass media, ao descreverem e precisarem a realidade exterior, apresentam ao público uma lista em torno da qual é possível formar uma opinião ou ter uma discussão. Afirma Grossi:


"Nas sociedades industriais de capitalismo desenvolvido, em virtude da diferenciação e da complexidade sociais e, também, em virtude do papel central dos mass media, foi aumentando a existência de fatias e de 'pacotes' de realidade que os indivíduos não vivem directamente nem definem interactivamente a nível da vida quotidiana, mas que 'vivem', exclusivamente, em função de ou através da mediação simbólica dos meios de comunicação de massa."(19)


Eis-nos, pois, chegados onde queríamos chegar: a construção da realidade.


Obviamente, é esta possibilidade de fabricar a realidade que torna a Televisão tão apetecível ao poder político. Havendo uma relação directa entre o regime de propriedade e as estratégias discursivas, é fácil perceber que a Televisão pode transformar-se num instrumento de propaganda caso pertença ao Estado e não disponha de um estatuto de serviço público, claramente definido, que a autonomize da esfera governamental.


Nos países comunistas do leste europeu a situação não se prestava a equívocos:


"A sociedade socialista atribui abertamente aos seus meios de informação e de propaganda de massas a tarefa de defenderem ideologicamente o socialismo e de orientarem a opinião pública na direcção justa. A informação e propaganda são as principais componentes das actividades ideológicas da sociedade socialista."(20)


Esta perspectiva burocrática, que atribuía aos media uma função meramente instrumental ao serviço da ideologia, teve os resultados que teve. Aliás, muito tempo antes da derrocada dos regimes herdeiros do estalinismo, era já evidente a falta de credibilidade do seu universo mediático junto dos cidadãos. No ocidente, a chamada democracia liberal teve o mérito de criar um sistema no qual são autorizadas expressões alternativas no campo dos media. Não quer isso dizer, no entanto, que o modelo funcione na perfeição. Na verdade, até alberga no seu seio muitas ambiguidades. A título de exemplo, vejamos


O TELEJORNAL SEGUNDO UMBERTO ECO,


Redigido numa altura em que o escritor manteve uma divertida polémica com a Televisão italiana. Insurgindo-se contra o carácter tendencioso dos noticiários, Eco elaborou um decálogo humorístico contendo as regras da manipulação da informação política. Esse decálogo tem sido publicado por diversas vezes e pode resumir-se do seguinte modo:


Fonte: Quartz

A primeira regra da manipulação é não comentar senão o que se pode ou deve comentar, porque — e esta é já a segunda regra — a informação verdadeiramente orientada não tem necessidade de comentários, baseando-se na escolha de adjectivos e num jogo de contraposição. A terceira regra aconselha, em caso de dúvida, a optar pelo silêncio, eliminando as informações incómodas. Há, depois, outras regras, como sejam: colocar a notícia importuna onde já ninguém a espera, de preferência num tempo de exposição rápido e sem imagens significativas; utilizar linguagem técnica, incompreensível para a maioria do público, mas reveladora da superioridade dos conhecimentos de quem a utiliza, dissuadindo a crítica; só fornecer informação completa quando a imprensa diária a tiver já difundido. A sétima regra é a da submissão ao poder e de prescrever o compromisso só se o governo se tiver já comprometido, sendo indispensável a intervenção de um ministro. Vêm, finalmente, as regras de valorização dos assuntos, que fecham o decálogo: apresentar oralmente as notícias importantes; considerar como uma obrigação a filmagem do que não tem qualquer interesse; e, só mostrar as coisas importantes se elas ocorrerem no estrangeiro.


Esta paródia, sendo o que é, nem por isso deixa de colocar o dedo na ferida de muita da informação televisiva. Uma vez mais, parece legítimo inferir que da convergência do político e do jornalismo resulta um produto ambíguo, ressoando a propaganda camuflada. Na prática, situações decorrentes do decálogo de Eco levantam não poucos problemas aos jornalistas. Às vezes, são pequenos detalhes, aparentemente insignificantes, que fazem as grandes coisas e as grandes causas. Eric Nepomuceno, da Rede Globo de Televisão, relata um episódio curioso a propósito de


"SOMOZISTAS" E "REBELDES":


"Fui contratado quando ainda morava no México e a ideia era participar do projecto de desenvolver mais o noticiário relacionado à América Latina. (...) Na quarta ou quinta semana de trabalho, fui chamado pelos responsáveis pelos noticiários e ouvi um pedido um tanto constrangedor: 'Não use mais a palavra somozista quando se referir ao pessoal da Guardia Nacional que luta contra os sandinistas'. O pedido veio acompanhado por uma explicação: 'É que somozista é um termo pejorativo, seria editorializar a notícia. O correcto é usar rebeldes.' Fiz então um extenso relatório explicando quem era quem nos grupos armados instalados em Honduras, na Costa Rica e na Flórida. Expliquei que a maioria se autoclassificava de somozista, da mesma maneira que décadas antes havia quem se definisse como nazista, fascista, franquista, salazarista, etc., sem achar que isso fosse pejorativo. Depois de muita discussão, autorizaram que a palavra maldita fosse usada — Mas só no Jornal da Globo, que era exibido por volta da meia-noite, uma audiência considerada 'qualificada'. No Jornal nacional, não: a palavra tinha mesmo de ser rebeldes nicaraguenses."(21)


Este episódio, e outros semelhantes — todos os dias as redacções têm histórias a contar — ocorre no contexto da criação de um universo audiovisual, sobre o qual há pontos de vista muito diversificados. Está-se, na verdade, perante um


MUNDO NOVO,


nem sempre admirável, mas de perspectivas tão aliciantes quanto contraditórias.

Os optimistas valorizam a capacidade do homem para superar os constrangimentos induzidos pela massificação através da inteligência e criatividade, uma e outra estimuladas tanto por uma incessante inovação tecnológica dos meios electrónicos quanto pela revolução micro-informática. Prospectivamente, definem o perfil de uma sociedade de sujeição das máquinas à vontade do homem, uma sociedade desmassificada por via da utilização generalizada dos self--media.



Menos especulativos, os pessimistas partem de uma avaliação de dados cujos efeitos levam a temer um fenómeno de massificação sem precedentes, não apenas nos países onde a Televisão é o principal e, por vezes, único, meio de informação e entretenimento, mas também nos países mais avançados, como os Estados Unidos. Daí vêm, de resto, os principais sinais de alerta e as críticas mais contundentes.


Project Censored é uma organização americana vocacionada para o estudo e crítica dos media, especialmente preocupada com as diversas formas de censura. Todos os anos Project Censored elege os dez assuntos mais censurados pelos meios de comunicação. Os resultados respeitantes a 1989 projectaram para os lugares cimeiros da tabela as notícias respeitantes ao controle crescente dos media por um número cada vez menor de corporações gigantescas.


Ben H. Bagdikian, ex-chefe de redacção do Washington Post e ex-director da Escola de Jornalismo da Universidade de Berkeley, num estudo largamente fundamentado, chega à conclusão de que "os senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económico-sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros."(22) Escreve Bagdikian:


"Juntos, eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, a cultura e o comércio que afecta as maiores populações de que se tem conhecimento desde sempre. Nem César, nem Hitler, nem Franklin Roosevelt e nem qualquer papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem para tomar decisões sobre as mais variadas matérias — desde em quem votar, até ao que comer."(23)


Quando saiu a primeira edição do livro de Bagdikian, eram apontados os nomes de cinquenta empresas detentoras do controle da maioria da produção mediática mundial. Pouco tempo depois, ao sair a segunda edição, o autor foi obrigado a anotar no prefácio que esse número se tinha reduzido para vinte e nove. E, hoje, são ainda menos.


Fonte: Interwebz

Outra obra de grande impacto nos Estados Unidos é "Manufacturing consent: The political economy of the mass media" da autoria de dois professores universitários, Edward S. Herman e Noam Chomsky. Os autores não se coibem de chamar ao modelo da Televisão americana "um modelo de propaganda".(24) Segundo eles são os poderosos que estabelecem as premissas do discurso, estabelecendo o que é permitido ao público ver, ouvir e pensar.


A leitura das duas obras mencionadas levou o escritor Gore Vidal, com a irreverência habitual, a escrever:


"Os dois estudos demonstraram exactamente como uns poucos manipulam a opinião pública; para início de conversa, a casa do americano médio mantém o televisor ligado sete horas por dia. Isso significa que o americano médio já viu 350 mil comerciais ao chegar aos dezassete anos. Como a opinião da maioria é controlada agora por vinte e nove corporações, conclui-se que os vinte e nove chefes executivos são uma espécie de politburo ou colégio de cardeais, encarregados daquilo que o povo deve ou não pensar. Além disso, eles escolhem os presidentes e o Congresso — ou, para ser preciso, determinam até sobre o que os políticos podem falar em período de campanha eleitoral."(25)


É caso para dizer: Big Brother is watching you!




(Continua)


Notas remissivas


1. BAUDRILLARD, Jean

A Sociedade de Consumo, Edições 70, Lisboa, 1981

2. ALBERT, P. e TUDESQ, A.J.

História da Rádio e Televisão, Editorial Notícias, Lisboa, sem data

3. NAMER, Gérard in Guia Alfabético das Comunicações de Massa, Propaganda, Edições 70, Lisboa, sem data

4. LIPPMANN, Walter

Public Opinion, MacMillan, New York, 1921

5. BIRIUKOV, N. S.

A Televisão no Ocidente e as suas Doutrinas, edições Avante!, Lisboa, 1987

6. SCHILLER, H. I.

The Mind Managers, Beacon Press, Boston, 1972

7. BARTHES, Roland

Mitologias, Edições 70, Lisboa, 1984

8. Ibidem

9. MIRANDA, Orlando

Tio Patinhas e os Mitos da Comunicação, Summus Editorial, São Paulo, 1976

10. Duverger é aqui citado a partir de um ensaio de Francisco Rui N. Cádima, "Notícia do Mundo e de lado nenhum Ou a ilusão naturalista da informação televisiva", publicado na Revista de Comunicação e Linguagens nº8 de Dezembro de 1988

11. Ibidem

12. McLuhan é citado por Julian Hale — La radio como arma política — a partir de A. Briggs, A History of Broadcasting in the United Kingdom, Oxford University Press, Londres, 1970

13. SCHILLER, H. I.

The Mind Managers, Beacon Press, Boston, 1972

14. SOLER, Llorenç

La Televisión — una metodologia para su aprendizage, Editorial Gustavo Gilli, S.A., Barcelona, 1988. Nesta obra, o professor Giuseppe Richeri, entrevistado pelo autor, avança uma ideia interessante sobre o que, em seu entender, deveria ser a Televisão do futuro. Diz ele: "É inevitável, (...), que sejam os profissionais a fazer a televisão, mas creio que os protagonistas dessa televisão não deveriam ser exclusivamente personagens 'excelentes' (peritos, artistas, líderes políticos e sindicais, etc.); o novo sentido de acesso do público deveria ser o de colocar no centro da informação televisiva os protagonistas da vida real que se desenvolve nos lugares de trabalho, de investigação, de estudo e de tempos livres."

15. WOLF, Mauro

Teorias da Comunicação, Editorial Presença, Lisboa, 1987

16. Ibidem.

A citação é de Lang e Lang, reproduzida por Wolf que afirma que no centro da problemática dos efeitos se coloca, hoje, a relação entre a acção constante dos mass media e o conjunto de conhecimentos acerca da realidade social, que dá forma a uma determinada cultura e que sobre ela age, dinâmicamente. Nessa relação devem destacar-se três características dos meios de comunicação social: a acumulação, a consonância e a omnipresença, todas elas definidas por Noelle Neuman. A primeira está ligada à capacidade dos mass media criarem e manterem a relevância de um tema, através de repetições contínuas, como acontece em especial no campo da informação televisiva. A segunda associa-se ao facto das semelhanças existentes nos processos produtivos da informação serem mais significativos que as diferenças, "o que conduz a mensagens substancialmente mais semelhante do que dissemelhantes". A terceira respeita não apenas à difusão quantitativa dos mass media, mas também ao facto de o saber público ter um carácter particular: "é do conhecimento público que esse saber é publicamente conhecido." Conclui Wolf: "Isso reforça a disponibilidade para a expressão e para a evidência dos pontos de vista difundidos pelos mass media, e daí o poder que essa evidência tem sobre aqueles que não formaram ainda uma opinião própria. O resultado final é que, muitas vezes, a repartição efectiva da opinião pública se regula pela opinião reproduzida pelos mass media e se adapta a ela, segundo um esquema de conjecturas que se autoverificaram."

17. Ibidem

18. Ibidem

19. Ibidem

20. BIRIUKOV, N. S.

A Televisão no Ocidente e as suas Doutrinas, edições Avante!, Lisboa, 1987

21. NEPOMUCENO, Eric in Rede Imaginária, Secretaria Municipal de Cultura, Companhia das Letras, São Paulo, 1991

22. FERREIRA, Argemiro in Rede Imaginária, Secretaria Municipal de Cultura, Companhia das Letras, São Paulo, 1991

23. Ibidem.

Citado por Ferreira, Bagdikian adverte: "Aquilo que chega ao conhecimento do público é largamente influenciado pelo que serve aos interesses económicos e políticos das corporações proprietárias dos media. Como os seus donos estão agora tão ampla e profundamente envolvidos nos mais altos escalões da economia, as notícias e demais informações públicas ficam grandemente desiquilibradas em favor dos valores das corporações."

24. Ibidem

25. Ibidem


 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 1 de fev. de 2021
  • 17 min de leitura

A imagem de rosto deste texto é mais uma das que o meu inesquecível amigo Rui Pimentel fez para o meu livrinho A Caixa Negra. O livro, cuja capa traz um desenho de outro grande amigo, o escultor José Rodrigues, tem quase 30 anos e tem por base um trabalho académico da altura. Depois de o recuperar e reler, apesar do tempo passado e de alguns pontos sobre os quais mudei de opinião, penso que ainda terá alguma utilidade. Até porque foi pensado como uma introdução ao jornalismo de televisão para estudantes tendo como pano de fundo a necessidade de conhecer o Cinema. E nisso não mudei de opinião. Também se fala sobre o trabalho dos jornalistas e sobre as relações de poder. O que se segue é a segunda de duas partes sobre a Linguagem que constituem o Capítulo III de A Caixa Negra.


Desenho de Rui Pimentel para A Caixa Negra

(Continuação de A Caixa Negra 3 - O Desafio da Linguagem I)


GRIFFITH


foi o primeiro grande intérprete da noção de montagem, foi ele quem, de facto, revolucionou a linguagem do cinema elevando-o ao estatuto de Arte.


Nascido em Janeiro de 1875, em Crestwood, no Kentucky, Griffith recebeu uma educação tipicamente vitoriana muito marcada pelas ideias sulistas. Disso viria a dar conta nos seus filmes, a par de um sentimento de independência intransigente face aos produtores. Com ele não surgiu apenas o cinema-arte, nasceu também, o cinema-indústria do qual, aliás, viria a ser uma das vítimas maiores. Mas o apagamento a que foi sujeito nos últimos anos da sua carreira não obscureceu os seus méritos indiscutíveis, antes os evidenciou, a posteriori, quando foi demonstrado que Griffith era, na realidade, um homem demasiado avançado para o seu tempo: foi o primeiro a utilizar o grande plano como elemento de valorização expressiva e dramática; inovou quanto ao da luz e da sombra, tirando partido dos efeitos de contra-luz; utilizou de modo consequente e planificação e a montagem. Quando, em 1915, fez Birth of a nation a narrativa cinematográfica ficou estruturada e estavam lançadas as bases do cinema moderno, as mesmas bases a partir das quais iria trabalhar e teorizar o genial


EISENSTEIN,


nascido em Riga, Lativa, em 1899. Tal como Vertov, também Eisenstein foi influenciado pelo ambiente familiar quanto ao seu interesse pela arte. Estudou no Instituto de Engenharia de Petrogrado. Quando do derrube do Czar, os pais de Eisenstein partiram para a Europa, mas ele optou por alistar-se como engenheiro no Exército Vermelho, construindo pontes durante dois anos. Depois, deixou-se levar pelas suas inclinações artísticas e começou a desenhar cartazes de propaganda. Um acaso levou-o até ao mais famoso teatro de Moscovo, o Proletkult, onde leccionavam os mundialmente conhecidos Konstantin Stanislavsky e Vsevolod Meyerhold. Apaixonado pelo teatro, o jovem Eisenstein nutria, em contrapartida, uma enorme suspeição quanto ao cinema, considerado um meio pobre. Começou a estudá-lo para o destruir e fez até um pequeno filme parodiando as actualidades de Vertov. Acabou, afinal, por sucumbir ao fascínio das imagens.


O Couraçado Potemkine é a sua obra maior. Realizado em 1925, este filme é considerado "o exemplo mais perfeito e conciso da estrutura fílmica em toda a História do Cinema".(20) Com prestígio semelhante devem, no entanto, citar-se os filmes de D. W. Griffith O Nascimento de uma Nação e de Orson Welles O Mundo a Seus Pés. À semelhança dos filmes de Griffith e Welles, o Potemkine foi menos consequência de um rigoroso planeamento do que de uma intensa expansão de energia criadora. Na sua versão completa durava oitenta e seis minutos à velocidade do cinema mudo — dezasseis imagens por segundo — e continha 1.346 planos, um número invulgarmente elevado quando comparado, por exemplo, a O Nascimento de uma Nação, o qual, demorando cento e noventa e cinco minutos tinha apenas 1.375 planos. Só por si os números são indicadores da complexidade da montagem do Potemkine.


A MONTAGEM DIALÉCTICA


Eisenstein entendia a montagem como um processo operativo segundo a dialéctica marxista, a qual encara a História numa perspectiva conflitual: uma força (tese) colide com a sua contrária (antítese) de modo a produzir um fenómeno novo (síntese). Num diagrama, essa conflitualidade poder-se-ia representar do seguinte modo:



A síntese não corresponde a um mero somatório da tese e da antítese. É algo de diferente, gerador de um novo processo dialéctico que, por sua vez, dará origem a uma nova síntese e assim sucessivamente. Ora, Eisenstein sustentava que na montagem, o plano, ou "célula de montagem", é uma tese; quando colocado em justaposição com outro conteúdo visual oposto — a sua antítese — produz uma síntese (uma ideia sintética ou impressão), que por sua vez se transforma na tese de um novo processo dialéctico ajustado à sequência da montagem. Por outras palavras, a montagem surge como uma série de ideias e impressões resultantes da colisão de planos independentes. Utilizando uma metáfora industrial, Eisenstein comparava esse processo "à série de explosões de um motor de combustão interna, levando para diante o automóvel ou o tractor."(21) E acrescentava:


"Tal como as palavras isoladamente numa frase dependem, para o sentido, das palavras que a cercam, do mesmo modo os planos isolados numa sequência montada ganham sentido mediante a sua interacção com os outros planos da sequência."(22)


Montagem em o Couraçado Potemkine (1926) de Sergei Eisienstein: Alegoria de O Leão que Acorda

A COMPOSIÇÃO LÓGICA


Outro soviético, Vsevolod Pudovkin, anota que "só à luz dos seus métodos de montagem se pode julgar a personalidade de um realizador. Assim como cada escritor tem o seu estilo literário também cada realizador tem o seu estilo cinematográfico: o seu método pessoal de representação fílmica."(23)


"Ao juntar as peças — acrescenta Pudovkin — o realizador cria o seu próprio espaço de ecrã."(24) Ou seja, impõe a sua marca distintiva, na sequência, afinal, da tese vertoviana da visão activa da realidade: boas imagens tratadas analiticamente através da câmara proporcionam a possibilidade de proceder a uma espécie de alquimia imagética, a qual se distingue radicalmente do corte semanticamente irrelevante. A transposição destes conceitos para o trabalho de reportagem permite constatar que num grande número de casos não existe sequer montagem. Faça-se a seguinte experiência: tire-se o som ao televisor durante uma emissão de notícias: ver-se-á como a maioria das imagens são confusas, sem ritmo e desarticuladas quando, em rigor, só por si, já deveriam contar uma história. Dizia Pudovkin a propósito da montagem: "O corte não existe. O que existe é a composição lógica."(25)


Dito de outra maneira, segundo Boretsky e Kuznetsov as funções de corte


"são muito mais amplas: são funções semânticas, fazem parte do enredo ou do elemento emocional (criam a atmosfera, por assim dizer). A chamada 'imagem de fundo' está a ser criada com o auxílio destas 'dimensões secundárias' descobertas pelo operador da câmara. Ela confere ao material saturação emocional, informa o público sobre uma situação, de uma maneira concentrada: poderá até dispensar-se o comentário simultâneo."(26)


Esta é uma questão chave da linguagem da Televisão quando aplicada à reportagem. Merece uma indagação tanto do ponto de vista técnico quanto do ponto de vista do paradigma dos efeitos, no âmbito da relação do impacto da mensagem com a reacção por parte do público. E repare-se que esta abordagem das imagens, por razões de método, antecedeu, propositadamente, qualquer referência, aliás, indispensável, ao som e à forma de escrever para Televisão. Justamente porque a componente visual é determinante, quer na construção da narrativa, quer na estimulação de uma atitude crítica e criativa por parte do receptor, no fundo, interpelando-o por forma a promover a sua cidadania e, em última instância, apelando ao seu envolvimento democrático por oposição ao entorpecimento envolvente.


Vsevolod Pudovkin: "O CInema é o maior de todos os professores porque ensina não só através do cérebro, mas também através de todo o corpo.". Fonte: IMDb

O GRAMOFONE ILUSTRADO


Correndo embora o risco da redundância importa insistir na perspectiva de Boretsky e Kuznetsov quando afirmam que


"na maioria das vezes os métodos do trabalho literário utilizados na Imprensa, e ainda mais frequentemente na Rádio, são automaticamente aplicados na Televisão. São inadequados porque subestimam a imagem que o público capta. Um autor que utiliza esses métodos na Televisão, esforça-se muitas vezes, provavelmente de uma maneira subconsciente, por dar a primazia ao texto e pôr a imagem em segundo lugar (...). Daí resulta o que René Clair habilmente classificou como 'um gramofone com várias ilustrações'."(27)


"Escrever é cortar palavras" disse uma vez o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Isso é especialmente verdade em Televisão, cuja linguagem integra, como vimos, diversos sistemas de comunicação. O cineasta francês Robert Bresson, por seu turno, formulou o seguinte aforismo: "A imagem principal no filme sonoro é o silêncio"(28). E o realizador soviético Alexander Dovzhenko recomendava aos argumentistas que


"deviam pensar sempre naquilo que é melhor não escrever, naquilo que deve ser deixado de fora ... naquilo que deve ficar nas entrelinhas, para despertar a percepção artística, criativa e activa do espectador, em vez de o adormecer com cuidados redundantes."(29)


Pois bem, em Televisão, o repórter experiente habituou--se a confiar acima de tudo nas suas imagens, procurando entender a sua lógica interna. Muitas vezes, são elas que determinam a construção da peça. Escolhem-se as melhores e de maior conteúdo metafórico, para depois as organizar. Quantas vezes imagens interessantes não salvam um assunto banal e quantas vezes a qualidade do repórter se não mede pela sua capacidade de ultrapassar a banalidade através de uma manipulação hábil dessas mesmas imagens!


O TEXTO: CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS


Do exposto facilmente se conclui ser preferível a montagem prévia das imagens à redacção do texto off. Contudo, nem sempre isso é possível. Com frequência é necessário dar informações sem o apoio das imagens adequadas. Neste caso, podem utilizar-se as chamadas imagens pretexto, as quais se limitam a servir de suporte do texto. Ainda assim, o repórter há-de tirar o partido possível delas, levando em conta o seu conteúdo manifesto. É o que acontece com a utilização de uma parte substancial do material de arquivo. Dispondo de tempo, o repórter pode e deve recorrer, também, ao grafismo electrónico.


"Escrever é cortar palavras."

Entretanto, quando se afirma o primado da linguagem visual, não deve excluir-se a possibilidade de procedimentos diversos quanto à elaboração do texto. Por exemplo, redigi-lo antes da montagem das imagens. Os repórteres das estações americanas (e, cada vez mais, os europeus) fazem-no. A peça estrutura-se em função do destaque das frases-chave dos entrevistados, com valorização dos elementos constitutivos da realidade sonora. É uma forma de proceder aparentemente decorrente da natural e progressiva autonomização da linguagem televisiva, bem como de um modo de fazer que foi criando a sua própria escola em circunstâncias culturais específicas, nada tendo a ver com o trabalho do repórter inexperiente ou proveniente de outros media, que se limita a transpor mecanicamente outras linguagens para a Televisão.


Bem pelo contrário, a escola americana exige o domínio da linguagem televisiva por parte de todos os elementos implicados na reportagem, do operador de câmara ao operador de montagem, passando, naturalmente, pelo jornalista, a quem cabe o papel de coordenar todo o trabalho. Por outras palavras, o operador de imagem, conhecendo as potencialidades analíticas da câmara, age de acordo com um guião previamente fornecido pelo jornalista; o montador, sendo um especialista da articulação de planos visuais e sonoros, utiliza criativamente o guião e o texto jornalísticos, no sentido de concretizar a história (é assim, de uma forma feliz, que os americanos chamam à reportagem); e o repórter redige o seu texto a pensar nessa história, a partir do seu guião e das imagens, sons e frases-chave de que dispõe. Ora isto, nada tem a ver com a fórmula do "gramofone ilustrado". Muito pelo contrário remete, em última instância, para a lógica das imagens.


O TEXTO


é um dos aspectos mais interessantes e complexos da linguagem da Televisão. A seu respeito ouvem-se frequentes críticas. Muitas vezes, essas críticas são pertinentes porque evidenciam determinados erros óbvios do ponto de vista da gramática da língua, como é o caso de concordâncias incorrectas ou de sucessivas e injustificadas trocas do tempo dos verbos. Pertinentes são igualmente as críticas ao modo como alguns profissionais se exprimem oralmente. Nem sempre, porém, a crítica tem razão, sobretudo quando revela desconhecimento da necessidade do texto combinar com planos visuais e sonoros, dando lugar a formas expressivas cuja correcção não pode ser aferida em função do critério exclusivo da gramática da língua. Quando se ouve denunciar a transformação do português em teleguês, bom seria refletir sobre o carácter global da linguagem televisiva pois, se calhar, o teleguês anunciado é uma necessidade linguística ajustada às características do medium. Será, até, porventura, uma exigência da sua democratização. O que não quer dizer que não haja também verdadeiros atentados à língua portuguesa.


Na sequência das suas considerações sobre os media enquanto extensões dos sentidos humanos, McLuhan faz a distinção entre meios quentes (hot) e meios frios (cool). Não cabe aqui uma análise detalhada sobre estes aspectos. Bastará referir que, segundo ele, os meios quentes apelam fundamentalmente a um sentido, exigindo reduzido grau de participação; os meios frios, pelo contrário são altamente participativos e apelam a mais do que um sentido. Diz McLuhan:


"A TV é um meio frio, participante. Quando aquecido por dramatização e aguilhoadas, o seu desempenho decresce, porque passa a oferecer menos oportunidades à participação. O rádio é um meio quente. Quando intensificado, o seu desempenho é melhor. Não convida os seus usuários ao mesmo grau de participação. O rádio pode servir como cortina sonora ou como controle do nível de ruído: é assim que o adolescente o utiliza para desfrutar de uma certa intimidade. A TV não funciona como pano de fundo. Ela envolve. É preciso estar com ela."(30)


Marshall Mcluhan: "O meio é a mensagem.". Fonte: Mcluhan Galaxy

Este envolvimento em profundidade, sinestésico, seria, portanto, uma das características da Televisão, exigindo a participação do espectador. Desde logo, ele está perante uma imagem de baixa definição, cujos contornos só ganham clareza mediante um esforço de descodificação das linhas e pontos luminosos a partir dos quais é possível reconstituí-la. Este esforço pressupõe um contacto sensorial global, participativo, iminentemente táctil, visto a Televisão tocar, envolvendo, todos os sentidos.


Sublinha McLuhan: "Como a baixa definição da TV assegura um alto envolvimento da audiência, os programas mais eficazes são aqueles cujas situações consistem de processos que devem ser completados."(31)


Esta lógica é abrangente do texto, o qual necessita igualmente de ser completado. No limite, poder-se-ia, até, afirmar a possibilidade de um texto off televisivo, isolado da narrativa visual, ser absolutamente incorrecto (incompleto) do ponto de vista da gramática da língua, mas inteiramente correcto se integrado (completado) no contexto dessa mesma narrativa. Por outras palavras, um texto sobreaquecido — comportando, por exemplo, a redundância ou com pretensões literárias — é naturalmente desajustado ao meio frio que é a Televisão. Dissuade a participação e promove o ruído e o entorpecimento. Em contrapartida, o texto arrefecido — claro, conciso e rigoroso — limitando-se a esclarecer e aprofundar o sentido dos planos visuais (e sonoros), estimula a atenção e promove a participação: é mais "democrático".


AUDIBILIDADE


Tecnicamente, no texto há-de prevalecer a audibilidade, o tom coloquial, procurando-se tirar partido das possibilidades rítmicas e fonéticas da língua, conferindo-lhe musicalidade. Afirma Aor da Cunha que o repórter


"verifica sempre a sonoridade das palavras no texto, lendo em voz alta o que escreve. Muitas vezes um sinónimo pode dar harmonia à sonoridade de uma frase sem qualquer prejuízo à informação. Outras vezes, mudando a ordem das palavras consegue dar sonoridade à oração. Isto porque palavras mal colocadas quebram o ritmo do tópico, o que é fundamental. O equilíbrio do texto favorece a concentração de quem ouve. Não pode ser contundente ou agressivo; nem monótono ou lento. Para ritmar, usa frases curtas que ajudam a compreensão e dá sentido de acção à notícia, além de imprimir-lhe objectividade. A pontuação indicando as pausas e o tom, dá o sentido interpretativo da locução. O texto basicamente identifica os elementos fundamentais da notícia, mas com ritmo, harmonia e tom. Verdadeira música."(32)


Porque existe em função das imagens, o texto televisivo é necessariamente lacónico. Só excepcionalmente um período terá mais de quatro linhas. Dizia Scott Fitzgerald que não se escreve por se ter vontade de dizer alguma coisa: escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer. Quando, só por si, as imagens forem suficientemente esclarecedoras ou emotivas dar-se-á espaço ao silêncio. A trivialidade, o lugar comum, o chavão empobrecem o texto. Em suma


"o telejornalismo não é preconceituoso nem presumido. Simplesmente defende-se das formas afectadas no escrever. Ajuizadamente não se municia de termos pretensiosos. Procura ser natural e, por isso, se exprime em tom coloquial e espontâneo, para poder chegar e, quem sabe, ficar. A frase pomposa é arredia e apartada da população, especialmente aquela que vê e ouve televisão."(33)

Scott Fitzgerald: "Não se escreve por se ter vontade de dizer alguma coisa, escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer.". Fonte: PBS

O COMENTÁRIO SOBRE A IMAGEM


é a fórmula habitualmente utilizada para caracterizar o texto de Televisão. Conhecendo as regras de articulação dos planos, bem como a sua dinâmica interna, o repórter orienta a montagem da sua peça. Porque trabalhou a partir de um guião, mesmo que rudimentar, dispõe de um conjunto de imagens cuja ordenação, só por si, constitui o módulo nuclear da reportagem. Ao montador compete imprimir o ritmo adequado à narrativa visual, bem como valorizar os planos sonoros susceptíveis de sugerir uma maior aproximação à realidade. Uma vez montada, a peça é logo significante, cabendo ao texto a função de esclarecer e aprofundar o seu sentido. Para o redigir o repórter procede à cronometragem dos planos anotando a sua tipologia, os movimentos de câmara e o áudio a aproveitar, quer em termos de som ambiente, quer de grandes planos sonoros. Em função destas indicações pode redigir um bom texto destinado a ser dito com as indispensáveis pausas e momentos de silêncio quando as imagens assim o exigirem. A leitura far-se-á com a narrativa visual correndo diante dos olhos do repórter, permitindo-lhe ajustar a voz às necessidades expressivas do momento.


Obviamente, estas regras não excluem outros procedimentos. Aliás, cada repórter, dada a flexibilidade do medium, acaba, muitas vezes, por desenvolver técnicas próprias. De qualquer modo, a experiência do comentário sobre a imagem abre abre espaço para explorar a linguagem da Televisão, na medida em que procede do conhecimento global dos diversos sistemas de comunicação que a compõem.


O SOM


Pelas razões evidenciadas optou-se, metodologicamente, por dar prioridade ao tratamento da narrativa visual. Porém, quando entendida na globalidade do quadro audiovisual, a lógica das imagens não prescinde da dimensão sonora da realidade. Pelo contrário, o som é cada vez mais entendido como um sistema gerador de sentido quando se trata de promover a ilusão da realidade.


Jean Cloutier chama audioesfera ao mundo audível. Segundo ele, a audioesfera é composta por três elementos: a fonte sonora, o som e a audição.


A fonte sonora é o emissor que transmite uma informação acústica seja ela acidental, como o ruído, ou desejada, como a palavra e a música.


O som é um fenómeno simultaneamente físico e fisiológico: propaga-se em ondas em todas direcções, dependendo a sua existência da forma como é percepcionado. A intensidade de um som tem a ver com a sua força ou o seu volume, dependendo da amplitude da vibração, ou seja, do espacejamento maior ou menor entre os limites inferiores e superiores da onda sonora. A intensidade do som mede-se em decibéis. A altura do som varia de baixo (grave) a alto (agudo), obtendo-se essa tonalidade através da frequência, isto é, o número de vibrações por segundo. A unidade de medida é o hertz. O timbre de um som é a qualidade que permite distingui-lo dos outros sons, sendo constituído pelas harmónicas, "notas" derivadas do som fundamental, cuja frequência é a mais baixa. O timbre confere ao som, por exemplo, à voz humana, a sua personalidade própria.


Finalmente, a audição é possível graças ao ouvido que capta a vibração das ondas sonoras para as transmitir ao cérebro, tal como o microfone as capta para permitir a sua transmissão, amplificação ou registo. O ouvido é um instrumento notável: "Pode captar sons de tal modo fracos, que apenas fazem vibrar o tímpano numa distância inferior ao diâmetro de uma molécula de hidrogénio, e sons até milhões de vezes mais fortes. Pode distinguir 400.000 sons diferentes"(34). Citando redactores da revista Life, Cloutier sublinha que o ouvido


"pode adaptar-se, tanto às baixas frequências de uma sereia, como ao zumbido perfurante de um motor de reacção. Consegue, também, fazer a distinção, subtil, entre a música tocada pelos altos e a dos violinos de uma orquestra sinfónica. Pode rejeitar o bru-a-a de uma reunião de amigos, seleccionando uma única voz familiar. Mesmo durante o sono, o ouvido funciona com uma eficiência incrível."(35)


Jean Cloutier nos anos 60, o homem que antecipou a noção de self media. Fonte: Histoire du Monde

O PLANO SONORO


Na verdade, a realidade sonora é tão complexa quanto a realidade visual, pelo que a sua representação signíca pressupõe o domínio de uma linguagem específica. Por exemplo, do mesmo modo que se fala do tamanho do plano visual, também é possível falar do tamanho do plano sonoro, ou seja da quantidade de informação de som nele contido. O som de uma multidão assistindo a uma partida de futebol quando acontece um golo será um grande plano sonoro; um plano de pormenor, o som de uma gota de água caindo ritmicamente de uma torneira mal fechada, quando nada mais de ouve. Pode, igualmente, falar-se do colorido ou da tonalidade do plano, identificando estes conceitos com a sua altura mais ou menos aguda (brilhante) ou mais ou menos opaca (grave). Quando devidamente estruturado, o plano sonoro valoriza a reportagem, porque ao introduzir sons familiares facilita a identificação do espectador com a acção, potenciando a mensagem. Dada a inseparabilidade da imagem e do som, Llorenç Soler coloca assim a questão: "Se é certo que a banda sonora há-de gozar de certa autonomia no seu tratamento, é igualmente verdade que o seu valor significante só alcança autêntica dimensão a partir da união com a imagem."(36)


Tal como a captação da imagem visual exige a câmara, a captação da imagem sonora exige o microfone. O microfone pode ser utilizado de modo diverso, com maior ou menor proximidade da fonte sonora, procurando evitar-se o volume demasiado elevado, gerador de distorção, ou demasiado baixo, anulador da multiplicidade de matizes do som ambiente. É essencial não sobrecarregar o microfone, aproximando-o em demasia da fonte, nem amplificar excessivamente o sinal de reprodução, ou seja, a sobremodulação.


Se a câmara pode mudar de ponto e ângulo de vista, mudando de posição ou modificando as objectivas, o microfone pode igualmente mudar de posição e ser utilizado nas suas diversas versões, de acordo com as suas principais propriedades, a sensibilidade e a direccionalidade. Sem entrar em pormenores, dir-se-á que a sensibilidade é determinada pela amplitude de sinal áudio que o microfone é capaz de alcançar para um volume de som prefixado. A direccionalidade tem a ver com sensibilidade espacial do microfone. No caso de se tratar de um microfone omnidireccional, captará com a mesma sensibilidade o som proveniente de todas as direcções. O superdireccional, ou canhão, é sensível ao som proveniente de uma só fonte. O cardióide tem características intermédias.


EQUÍVOCOS HABITUAIS


Um dos aspectos mais exasperantes para um repórter de Televisão experiente é assistir ao modo como, muitas vezes, o som é maltratado. Isso acontece tanto na captação, quanto na montagem e na emissão. As razões desse procedimento incorrecto relevam, na maioria dos casos, de uma interpretação apressada do velho aforismo chinês segundo o qual uma imagem vale mais que mil palavras, mas decorrem, igualmente, de uma atitude mais ou menos generalizada de aceitação do processo de ilustração de textos. Por outras palavras, ao admitir o primado das imagens, tout court, perde-se a perspectiva da globalidade audiovisual da realidade; ao aceitar a prioridade do enunciado contraria-se a lógica visual; e, no meio deste emaranhado contraditório, a representação signíca da realidade sonora, à excepção do texto, quase, ou pura e simplesmente, desaparece. É uma rede de equívocos resultantes da compartimentação dos diversos sistemas de significação e da incapacidade de os reunir de forma a articular um texto global.


Fonte: Happy Mag

Muitas vezes, na captação do som são utilizados microfones inadequados, não se corrigem os níveis e, com maior frequência do que seria desejável, a equipa troca impressões juntando vozes ao conteúdo sonoro requerido. Na montagem, dá-se apenas um "cheirinho" de som ambiente, expressão reveladora de falta de entendimento da linguagem audiovisual. E à emissão, quando as coisas já chegam mal, mal continuam, e se chegam bem, mas sem que o áudio tenha sido previamente misturado, corre-se o risco de, por exemplo, o nível da música ou do som ambiente ser reduzido à escala do tal "cheirinho". Tudo isto empobrece a mensagem, retirando-lhe impacto.


Outro equívoco habitual remete para a facilidade com que se transferem vozes da Rádio para a Televisão. Ao contrário do que se supõe, nem sempre uma boa voz da Rádio é uma boa voz da Televisão. Avisadamente Gontijo Teodoro reconhece que o telejornalismo exige um desempenho muito diferente do radiojornalismo, dando preferência às vozes metálicas, agudas, imprimindo um ritmo de leitura quase marcial, com ênfase nos nomes de lugares, de pessoas e nas palavras-chave de cada frase. Afirma Teodoro:


"Embora a voz grave se mostre mais suave e, por isso mesmo, impressionando melhor, não é a indicada para a leitura de notícias. A voz aguda, mais metálica e menos suave, é mais inteligível e alcança com mais facilidade o centro auditivo do ser humano. Os sons graves se perdem e se confundem, por mais perfeita que seja a aparelhagem que esteja transmitindo a fala humana e a sua consequente recepção. Acresce, ainda, que ninguém assiste televisão com cem por cento de atenção. Os ruídos circundantes, a poluição sonora, tudo colabora para dificultar a audição dos textos lidos diante de câmaras e microfones. É preferível que o locutor de notícias tenha uma voz aguda, clara, ao invés de voz grave."(37)


A SENSORIALIDADE


Ao terminar este capítulo sobre a linguagem da Televisão impõe-se, ao menos, uma referência a um dos aspectos menos conhecidos e que maiores perplexidades comporta, a sensorialidade do medium. É uma questão central do pensamento de McLuhan e dos seus seguidores, cujo alcance está longe de ter sido determinado. Genericamente, pode afirmar-se que o audiovisual, aliando som, imagem e movimento, é uma linguagem relativamente completa, visto estar perfeitamente integrada no continuum espacio-temporal no qual o homem vive. É uma linguagem integral. Destinada a ser percebida simultâneamente pelo olho e pelo ouvido, permite o empenhamento de todo o ser, o qual não necessita de recriar uma realidade parcelar, como acontece, por exemplo, com a escrita. Ora, esse empenhamento impõe, justamente, a sensorialidade, certamente um dos aspectos mais controversos e perturbadores da linguagem audiovisual:


"É ao mesmo tempo a sua força, visto que funciona ao nível da emoção, e a sua fraqueza, porque não permite uma análise rigorosa — a imaginação não é obrigada a completar uma informação já completa e o empenhamento impede o recuo, o qual facilita o exame e o juízo. O audiovisual facilita pois, a participação no acontecimento, mas nem sempre, a compreensão desse acontecimento."(38)


O que é, evidentemente, um ponto de vista nada pacífico.





(Continua)


Notas remissivas


20. Em Junho e Julho de 1987, a Cinemateca Portuguesa com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian realizou um ciclo do Cinema Clássico Soviético. A citação é retirada de um texto não assinado do catálogo, aliás notável, que então foi publicado. Trata-se, de qualquer modo, de uma afirmação relativamente pacífica, perfilhada por inúmeros historiadores do cinema.

21. EINSENSTEIN, S. M.

Obras Escolhidas, edições Yusskússtvô, Moscovo, sem data

22. Ibidem

23. PUDOVKIN, Vsevolod

Argumento e Realização, Editora Arcádia, Lisboa, 1961

24. Ibidem

25. Ibidem

26. BORETSKY, R. e KUZNETSOV, G.

O Trabalho de Jornalista e a Televisão, Organização Internacional de Jornalistas, Praga, 1983

27. Ibidem

René Clair é citado por Boretsky e Kuznetsov

28. Ibidem

Robert Bresson é citado por Boretsky e Kuznetsov

29. Ibidem

Alexander Dovzhenko é citado por Boretsky e Kuznetsov

30. McLUHAN, Marshall

Os Meios de Comunicação com Extensões do Homem, Cultrix, S. Paulo, 1988

31. Ibidem

32. AOR DA CUNHA, Albertino

Tele-Jornalismo, Editora Atlas S.A., São Paulo, 1990

33. Ibidem

34. CLOUTIER, Jean

A Era de Emerec ou a Comunicação audio-scripto-visual na Hora dos self--media, Instituto de Tecnologia Educativa, Lisboa, 1975

35. Ibidem

36. SOLER, Llorenç

La Televisión - una metodologia para su aprendizage, Editorial Gustavo Gilli, S.A., Barcelona, 1988

37. TEODORO, Gontijo

Jornalismo na TV, Editora Tecnoprint, S.A., Rio de Janeiro, 1980

38. CLOUTIER, Jean

A Era de Emerec ou a Comunicação audio-scripto-visual na Hora dos self-media, Instituto de Tecnologia Educativa, Lisboa, 1975


 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 16 de jan. de 2021
  • 20 min de leitura

Atualizado: 30 de jan. de 2021


A imagem de rosto deste texto é uma das que o meu inesquecível amigo Rui Pimentel fez para o meu livrinho A Caixa Negra. Abaixo do título, aparecia Discurso de um Jornalista sobre o Discurso da Televisão. O livro, cuja capa traz um desenho de outro grande amigo, o escultor José Rodrigues, tem quase 30 anos e tem por base um trabalho académico da altura. Depois de o recuperar e reler, apesar do tempo passado, penso que ainda terá alguma utilidade, até porque foi pensado como uma introdução ao jornalismo de televisão para estudantes tendo como pano de fundo a necessidade de conhecer o Cinema. Também se fala sobre o trabalho dos jornalistas e sobre as relações de poder. O que se segue é a primeira de duas partes sobre a Linguagem que constituem o Capítulo III de A Caixa Negra.


(Continuação de A Caixa Negra 3)


A LINGUAGEM


Desenho de Rui Pimentel para A Caixa Negra

A NARRATIVA AUDIOVISUAL

Até agora o termo linguagem tem sido utilizado sem que dele tinha sido dada qualquer definição. Por outro lado, importa verificar se existe, de facto, uma linguagem de televisão. O que é, então, uma linguagem?


"Uma linguagem é um sistema semiótico ordenado de comunicação (que serve para transmitir a informação). Desta definição de linguagem como sistema de comunicação decorre a propriedade da sua função social: a linguagem assegura a troca, a conversação e a acumulação da informação na colectividade que a utiliza. O que define a linguagem como sistema semiótico é a circunstância de ela ser constituída por signos. Para realizar a sua função de comunicação, uma linguagem deve dispôr de um sistema de signos. No processo de troca de informação no seio da colectividade, o signo é o equivalente material dos objectos, dos fenómenos e dos conceitos que exprime. Por conseguinte, a principal característica do signo é a sua capacidade de exercer a sua função de substituição."(1)


Tal como uma moeda, o signo tem duas faces: o significante, ou seja, a expressão, a manifestação sensorial que permite a sua representação, e o significado, que é o conteúdo, a ideia, e que não pode confundir-se com o objecto, antes se identificando com o conceito que se tem desse mesmo objecto. O objecto é o referente. Da união entre o significante e o significado resulta o processo de significação.


Uma linguagem, por outro lado, não é um sistema de signos isolados. É, sim, um sistema organizado, condição mesma para a constituição de qualquer linguagem e respectivas regras. Segundo Lotman, as regras de sintaxe "orientam a combinação de sinais isolados em sequências, em proposições e correspondem às normas de uma dada linguagem".(2) Ainda de acordo com o mesmo autor, "na medida em que os signos são sempre o equivalente de qualquer coisa, há uma relação constante do signo com o objecto que substitui. Essa relação (biunívoca) entre a expressão e o conteúdo constitui a semântica do signo."(3)


Página de A Caixa Negra com desenho de Rui Pimentel

No que respeita à Televisão, ela é um meio audiovisual caracterizado fundamentalmente pela imagem e pelo som, os quais surgem articulados de modo a resultarem numa realidade (outra) perceptível pelo olho e pelo ouvido, após reprodução por um sistema técnico. Uma tal realidade é, naturalmente, uma resultante seleccionada, estruturada, codificada em função de limites muito precisos, como sejam, por exemplo, a objectiva da câmara e o microfone. De tal modo, que a coordenação simultânea de imagens acústicas, visuais e verbais convoca uma leitura plurissintáctica, cujos nexos e articulações remetem para códigos procedentes de diversos campos de experiência convergindo num propósito comum.


Por outras palavras, o audiovisual, e a Televisão em particular, funciona como um conjunto de relações as mais diversas, cuja síntese decorre de uma estrutura unificadora, a qual recolhe e dá sentido a todos os sistemas parciais de comunicação e significação integrados no meio. Neste sentido, os sistemas parciais funcionam em termos de uma maior ou menor autonomia relativa no âmbito da sua esfera particular, uma vez que mantêm interdependência entre si, para se organizarem numa unidade superior à qual Cebrián Herreros chama o "sistema audiovisual cinético".(4)


Quais são esses sistemas parciais, cada qual com o seu conjunto organizado de signos?


Cebrián Herreros destaca, em primeiro lugar, o sistema da realidade sonora. Engloba as realidades acústicas naturais ou criadas pelo homem. Cabem nele o verbal falado ou linguagem coloquial, os ruídos, o silêncio e a música.


Depois vem o sistema visual. Comporta todos os sistemas de comunicação e significação relacionados com a vista e com a psicologia da percepção visual. Inclui-se neste sistema a linguagem escrita com todas as suas variantes gráficas, como sejam o grafismo electrónico e a legendagem, cuja influência no conjunto dos elementos audiovisuais é notória.


Há, finalmente, o sistema de transformação técnico--retórico audiovisual, através do qual o repórter enquadra e regula os outros dois. Neste sistema cabe tudo quanto respeita à selecção visual ou sonora da realidade, bem como a sua manipulação através, por exemplo, das objectivas da câmara, da montagem, iluminação, caracterização, sonorização, etc.


Dito isto é legítimo concluir pelo facto da Televisão constituir um sistema semiótico de comunicação: serve para transmitir informações e tem uma linguagem que lhe é própria. Essa linguagem é complexa, dada a multiplicidade de variáveis, e é a partir dela que se constrói a narrativa (ou reportagem) televisiva e audiovisual.


Cebrián Herreros sintetiza, como se segue, o modelo do sistema audiovisual:



A nova dimensão da realidade adquirida em função deste encadeado de signos constitui, pois, a narrativa audiovisual, indissociável do conceito de encenação. A reportagem, bem como qualquer outro género jornalístico, é sempre encenação. No caso da reportagem trata-se de contar uma história no quadro de um contexto histórico-cultural: sons e imagens procedem da realidade, são seleccionados e estruturados, postos em cena, organizados por forma a substituir a realidade da qual procedem, ou não cumprissem os signos, justamente, uma função de substituição. Daí, como antes se disse, o facto da mensagem da Televisão ser tanto mais eficaz quanto mais próxima da realidade for a ilusão dela criada. Sendo assim, a primeira atitude do repórter de Televisão é empreender um esforço no sentido de se apropriar da sua linguagem, o que desde logo passa pelo princípio da


VISÃO ACTIVA


Wim Wenders, o cineasta de O Amigo Americano, Paris, Texas e As Asas do Desejo, refere-se assim ao início da sua carreira : "Mesmo no começo — e dele muito me restou — para mim, fazer filmes era: colocar-se a câmara algures e dirigi-la para alguma coisa muito concreta e depois não fazer mais nada, deixá-la apenas correr. E os filmes que mais me impressionavam eram também os dos realizadores muito, muito antigos, da viragem do século, que gravavam apenas e se admiravam que houvesse algo no material. Estava-se, muito simplesmente, fascinado pelo facto de se poder fazer uma imagem de alguma coisa em movimento e de se poder revê-la. Um comboio entra na estação, uma mulher de chapéu recua um passo, há fumo, depois o comboio pára. Os pioneiros do cinema filmavam, à manivela, alguma coisa como isto, examinando-a no dia seguinte muito orgulhosos e contentes. É mais o olhar do que o transformar, ou mover ou encenar o que me fascina na realização".(5)


Pode parecer um ponto de vista um pouco contraditório, uma vez que olhar através da câmara é já transformar: o olho da câmara é diferente do olho humano, a realidade gravada num suporte de vídeo ou de filme, mesmo com uma câmara fixa, remete para o domínio dos signos. De qualquer modo esta ideia do olhar é fundamental para o repórter de Televisão: ele tem de saber ler o mundo com o olhar da câmara por razões que se prendem com o título da obra citada de Wim Wenders, A Lógica das Imagens, o qual resume de forma magistral o núcleo do trabalho de reportagem. Repito: a lógica das imagens, algo cujo sentido, por vezes, transcende o acto de vontade do jornalista para se impor em função das sua próprias virtualidades.


AS HISTÓRIAS SÓ DE IMAGENS


Uma boa maneira de entender a Televisão é estudar obras marcantes da época do cinema mudo, quando as histórias se contavam exclusivamente através de imagens com recurso, eventualmente, a uma legenda. São especialmente interessantes os primeiros documentários, como Nanook of the North, em português Nanuk, o Esquimó, realizado por Robert J. Flaherty em 1922.


Nanook of the North (1922) de Robert J. Flaherty

Instalado no Polo Norte durante dois anos, Flaherty apontava a sua câmara para tudo o que via, trabalhando por vezes em condições extremamente rigorosas, com temperaturas inferiores a 55 graus negativos. Filmando sem planificação, já nessa altura Flaherty revelava uma confiança intuitiva e quase absoluta nas imagens obtidas pela sua câmara. (Nota do Autor de 2021: sabemos hoje que não foi assim).


"Foi a montagem — segundo os historiadores do cinema René Jeanne e Charles Ford — que, reunindo todos esses elementos destinados a uma fita publicitária, fez uma obra humana e poética, cujo interesse e valor tem resistido à dura prova do tempo. Esse facto confirmou-se quando, transposto para a cadência de 24 imagens por segundo — a cadência do cinema sonoro — e devidamente acompanhado de um comentário falado e musical, Nanook of the North começou uma nova carreira, em 1950, nos écrans franceses."(6)


Na verdade, o que se acrescentou foi algo de semelhante a um comentário sobre a imagem, lacónico, porque as imagens de Flaherty, devidamente estruturadas na montagem, já contavam, exemplarmente, uma história.


Com Flaherty nasceu o documentário cinematográfico, um género que precedeu a reportagem televisiva. Na opinião de muitos é, todavia, ao cineasta soviético Dziga Vertov, a quem as actualidades de Televisão mais devem. Vasco Granja, autor de um livro sobre Vertov e um dos raros portugueses que teve a oportunidade de ver boa parte do material por ele filmado, tem a seguinte opinião: "Quer se queira quer não, consciente ou inconscientemente, muito do que hoje se faz em Televisão vai beber à inesgotável fonte perfurada pelo pesquisador Vertov. Embora diluídos muitos dos seus princípios teóricos, a aplicação prática da sua obra é quotidianamente posta em circulação numa parte considerável do cinema feito para a Televisão."(7)


E mais ainda na reportagem, se bem executada, acrescento eu. (Nota do Autor de 2021: Como é evidente praticamente nada do que atrás se disse, bem como grande parte do que se segue viria a ter aplicação).


O CINE - OLHO


Dziga Vertov nasceu em 2 de Janeiro de 1896 em Bialysto, na Polónia, então uma província anexada à Rússia czarista. Era o filho mais velho de um casal de bibliotecários, cujo interesse pelo estudo da literatura e da arte viria a ser determinante na formação do jovem Denis Arkadievitch Kaufman, mais tarde Dziga Vertov, nome definitivo inscrito no registo civil e, na verdade, apropriado a uma personalidade tão irrequieta. Dziga é uma palavra ucraniana que tanto pode querer dizer toupeira, quanto roda que gira sem parar ou, ainda, movimento perpétuo. Vertov radica no verbo russo vertet, sinónimo de girar, dar voltas em torno de um eixo. Influenciado pelo futurismo de Maiakovski, Dziga Vertov assumia, assim, de forma integral o princípio enunciado pelo poeta italiano Marinetti, pai do movimento, segundo o qual não há beleza senão na luta.


Dziga Vertov

Escrevera Marinetti, e cito de cor: "Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta." O jovem Vertov não podia estar mais de acordo o que não deixa de ser algo paradoxal posto que, à época, o poeta italiano já se identificava com o fascismo. Em 1918, em Moscovo, começou a trabalhar em cinema. Em breve era o responsável pela montagem do primeiro jornal de actualidades produzido pelo governo soviético, o Kino-Nedelia (Cine-Semanal). Os temas do Kino-Nedelia eram, naturalmente, relacionados com as profundas alterações introduzidas pela Revolução de Outubro, como cenas de combates contra os invasores estrangeiros, acidentes, catástrofes, enfim, as experiências do poder soviético. Se os acontecimentos se sucediam de forma vertiginosa, então era necessário divulgá-los vertiginosamente. Essa necessidade levou-o a tomar conhecimento das possibilidades praticamente infinitas da câmara de filmar. Chegara o tempo da cine-sensação do mundo. Afirmava Vertov:


"O olho submete-se à vontade da câmara e deixa-se dirigir por ela para esses momentos sucessivos de acção que, através do caminho mais curto e mais claro, conduzem a cine-frase em direcção ao cume ou ao fundo do desenvolvimento."(8)


Por outras palavras, Vertov tivera a intuição genial de que a objectiva da câmara recriava a realidade, conferindo-lhe uma vitalidade prodigiosa:


"Eu, cine-olho, crio um homem muito mais perfeito do que aquele criado por Adão; eu crio milhares de homens diferentes e esquemas pré-estabelecidos.


Eu sou o cine-olho.

A um, tomo os braços mais fortes e mais habilidosos, a outro tomo as pernas mais bem feitas e mais velozes, ao terceiro a cabeça mais bela e mais expressiva e, graças à montagem, crio um homem novo, um homem perfeito."(9)


Mas, atenção: não há montagem que salve material filmado de maneira indiferente e superficial.


"Foi por isso que (...) Dziga Vertov, ao tentar 'organizar e dar vida a material que fora filmado em sequências longas e monótonas, salpicado de paisagens frias e formais, se apercebeu da inutilidade dos seus esforços e juntamente com o operador de imagem, mergulhou na profundidade dos acontecimentos. E a câmara adquiriu vida. Escalou o cimo de altos fornos, desceu às profundezas das minas de carvão; acoplada a uma motorizada atravessou colunas de manifestantes, e subiu no céu com o balão dos primeiros conquistadores da estratosfera ... O ecrã tornou-se uma verdadeira janela da vida."(10)


Cine-Olho

Sobre as ideias expostas por Vertov passou muito tempo. Despojado dos seus aspectos retóricos, o discurso vertoviano mantém, no entanto, actualidade. As imagens são, de facto, a matéria prima do jornalismo electrónico. Sem boas imagens não há boas reportagens. Se, por exemplo, durante uma campanha eleitoral se quiser favorecer um dos candidatos, não é necessário confiar a cobertura da campanha a um jornalista simpatizante desse candidato. Isso pode ser útil em termos de manipulação, mas não é tudo. Indispensável é destacar um operador criativo e competente.


Um operador que desconheça as potencialidades criadoras da câmara, só por acaso fará boas imagens. Perde-se em planos gerais mal enquadrados e em panorâmicas repetitivas, quase sempre imprestáveis em termos de articulação sintáctica. Procura adaptar o olho da câmara ao modo de ver do olho humano, invertendo a lógica da visão activa vertoviana. Os resultados são pobres. Nada têm a ver com a lógica das imagens de Wim Wenders, nem com o cine-olho de Dziga Vertov.


O PLANO


Numa das suas obras consagradas à prática do cinema, Lev Kulechov aconselha a treinar a vista olhando para os objectos que se queira filmar através de um pequeno rectângulo com as proporções de um plano recortado numa folha de papel preto. É, de facto, um bom exercício para compreender a diferenciação essencial entre o mundo visível da vida e o mundo visível do ecrã. Este é um mundo segmentado, consequente do trabalho analítico da câmara posteriormente (re)organizado pela montagem.


Se um repórter de Televisão não entender isto incorre no equívoco de dar prioridade aos seus textos em detrimento da articulação das imagens, ou seja, privilegia a gramática da língua preterindo a gramática e a lógica das imagens e, por isso, faz peças frouxas, as mais das vezes, simples textos ilustrados. Se, porventura, cair na tentação de redigir um texto com pretensões literárias, então, arrisca-se a ficar à beira do abismo ou mesmo a cair no ridículo, o que, infelizmente, não é tão pouco frequente quanto isso.


O plano é a unidade mínima de significação do discurso televisivo. Fraccionado em planos, o mundo televisivo permite-nos isolar qualquer pormenor. Diz Lotman:


"O plano adquire a liberdade da palavra: pode ser destacado, combinado com outros planos segundo as leis da associação e da contiguidade semânticas, e não naturais, pode empregar-se num sentido figurado, metafórico ou metonímico."(11)


O plano delimita, pois, o espaço formal da intervenção jornalística na medida em que para reproduzir uma imagem visível da vida, segmenta-a, condicionando tanto a actuação do repórter, quanto a interpretação do espectador. Ao operador de câmara cabe proceder analiticamente, reinterpretando a realidade, mas fá-lo-á de acordo com o jornalista. Um bom operador é capaz de proceder rapidamente à leitura visual de um acontecimento, seleccionando as imagens mais expressivas e de maior conteúdo metafórico. Muitas vezes, a habilidade está em revelar no habitual aquilo que habitualmente passa despercebido. Em todo o caso, jornalista e operador constituem uma equipa. Se falhar uma das componentes o resultado nunca será inteiramente satisfatório. A um operador impreparado não se lhe pode pedir o que quer que seja. O jornalista impreparado, pura e simplesmente, não sabe dizer o que quer.


Planos de diferentes tamanhos em o Couraçado Potemkine (1924) de Sergei Eisenstein

o tamanho do plano


Existem numerosos tratados gramaticais sobre os planos. Porém, não há uniformidade de critérios quanto ao estabelecimento de uma nomenclatura. Há planos gerais, utilizados para situar uma acção; planos médios, cuja função é destacar o elemento mais importante aproximando, ao mesmo tempo, o público da acção e dos seus participantes; e grandes planos, os quais ignoram tudo quanto é secundário, obrigando o espectador a concentrar-se no essencial. Mas, podem fazer-se planos praticamente de todos os tamanhos, bastando variar a distância entre a câmara e o objecto ou utilizar diferentes tipos de lentes. A Televisão privilegia, naturalmente, o grande plano, posto que ele permite concentrar o máximo de informação, reduzindo, ao mesmo tempo, a polissemia. Por isso, é o mais eficaz em termos de prender a atenção de um público apenas medianamente atento.


Vejamos, a título meramente indicativo, uma nomenclatura possível:


"O plano de conjunto: este plano permite um enquadramento de grandes dimensões e destina-se a mostrar o assunto principal relativamente à paisagem ou à decoração.

O semiplano de conjunto: enquadra o assunto principal dentro de limites mais apertados: trata-se de uma solução de compromisso entre o cenário e o assunto, em que as personagens são enquadradas da cabeça até aos pés.


O plano médio é ainda mais limitativo que o precedente: é dado maior relevo ao assunto principal. Se se tratar de pessoas, estas serão enquadradas por inteiro ou a meia figura: o cenário ainda é visível, mas a acção não se situa da mesma forma que nos planos anteriores.


O plano americano enquadra a ou as personagens da cabeça até meio das coxas, devendo existir um bom equilíbrio entre o sujeito e o cenário.


O plano aproximado mostra a personagem enquadrada ao nível do busto.


O grande plano apresenta a personagem enquadrada ao nível dos ombros, permitindo sublinhar as expressões do rosto e as emoções que o animam.


O superplano enquadra uma parte da personagem: as mãos, os olhos, etc.,devendo-se evitar a sua frequente utilização". (12)


A partir destes elementos o repórter pode começar a pensar no modo de elaborar a sua história de imagens: terá de jogar com os diferentes tamanhos do plano susceptíveis de serem captados pela câmara.


Um dia, um jornalista perguntou a John Ford, o célebre realizador americano de origem irlandesa, como conseguira fazer determinada sequência, dado que, em seu entender, se tratava de uma abordagem formal especialmente difícil. Ford era um homem de poucas palavras e de nenhuma paciência em relação ao pedantismo cultural. Talvez por isso se tenha limitado a tirar o seu inevitável charuto da boca e respondido laconicamente: "Com uma câmara." Tão simples quanto isso. Para o repórter de Televisão este facto elementar de ser obrigado a trabalhar com material produzido por uma câmara é da maior importância. Por analogia, poder-se-ia dizer que a câmara é a sua caneta e o plano a sua palavra.


ponto de vista e enquadramento


O plano constitui uma realidade complexa. Desde logo, corresponde sempre a um acto selectivo, visto ser função de um enquadramento e de um ponto de vista ou ângulo a partir do qual a imagem foi captada. Os conceitos de enquadramento e ângulo estão relacionados com a perspectiva. À nossa percepção da realidade tridimensional corresponde a representação bidimensional da imagem televisiva. A perda de volume é, no entanto, compensada, justamente, pela perspectiva, a qual restitui ao espectador a terceira dimensão através de uma ilusão óptica.


Regra dos terços, enquadramento e pontos fortes da imagem em Rear Window (1954) de Alfred Hitchcock

Repare-se, contudo, no seguinte: é necessário distinguir entre o ponto e o ângulo de vista da câmara, os quais coincidem com os do operador quando olha através do visor, e os do espectador. O operador determina os seus ângulos de vista de acordo com uma determinada intenção, não fazendo mais do que mudar de lugar, de objectiva ou movendo a lente zoom. O espectador permanece diante do ecrã segundo um ângulo de visão fixo e inalterável, a menos que mude de posição. Sendo assim, todos os ângulos de tomada de vista se reduzem a um único ângulo de contemplação. Ora se atendermos ao facto da distância ideal face ao aparelho de televisão ser de cinco a seis vezes a medida da diagonal do ecrã — a essa distância o olho humano não se apercebe da descontinuidade resultante das linhas e pontos a partir dos quais se reconstitui a imagem — então temos um ângulo de visão do espectador à volta dos oito-graus. É por isso, segundo Jaime Barroso García que "a restituição da máxima realidade, ou seja, da chamada perspectiva natural se consegue quando se procura uma identidade entre o ângulo de observação do espectador e o da captação ou registo (o ângulo da objectiva) da imagem."(13) No caso da Televisão, essa perspectiva natural obtém--se quando se opera com objectivas de ângulo reduzido. Por exemplo, uma teleobjectiva utilizada para enquadrar em primeiro plano os apresentadores ou os locutores proporciona o chamado "paradigma da normalidade”.


A reportagem e as actualidades exigem, entretanto, a utilização de outros tipos de objectivas, nomeadamente as grandes angulares. Poder-se-á argumentar contra o facto delas criarem uma imagem muito distorcida, especialmente tendo em vista o ângulo de vista do espectador. Simplesmente, esse exagero da projecção perspéctica das imagens também pode torná-las muito interessantes. Diz Henrique Tóran:


"Os factos extraordinários não exigem uma contemplação normal, mas sobretudo o ponto de vista extraordinário ao qual nunca teria acesso o cidadão ainda que estivesse no local do acontecimento, embora afastado pela polícia. Quando o repórter aproxima a sua câmara a poucos centímetros dos protagonistas do acontecimento, a distorção da objectiva grande angular actua sobre o espectador fazendo com que ele se sinta uma testemunha de excepção, como se tivesse conseguido romper o cordão policial. Miguel de la Quadra, primeiro repórter da TVE, conseguiu com esta técnica captar planos surpreendentes a poucos milímetros do resto de Arafat, Péron, Nasser."(14)


Quanto ao enquadramento, "significa harmonizar, combinar, condizer, quadrar, abrangendo a posição do sujeito da acção em relação à margem."(15) Por outras palavras, o enquadramento é entendido como um sistema de comunicação a partir do qual cada autor de algum modo impõe a sua própria subjectividade na leitura de uma situação através do olho da câmara.


encenação e composição


Tecnicamente, a reportagem é sempre encenação. O mesmo acontece, de resto, com os demais géneros do jornalismo electrónico. Escreve Cébrian Herreros: "Os objectos, os animais, o homem como expressão e, em definitivo, tudo quanto possa ser percepcionado através da vista, ao ser captado pelas câmaras como elemento expressivo do autor ou testemunho da realidade perdem a sua individualidade e o seu contexto real para se incorporarem num novo contexto (o que o autor estabelecer) e, consequentemente, adquirem novos vínculos. Cria-se, para utilizar uma expressão procedente da linguística, uma sintaxe dos objectos ou da realidade (...). Pode acrescentar-se que a partir desse momento a realidade deixa de o ser para se converter em signo."(16)


Esse signo é então realidade encenada. Pôr em cena é, pois, um conceito englobador e final de selecção, disposição e apresentação dos elementos componentes de uma realidade através da qual o repórter expressa a sua visão particular do mundo enquanto testemunha privilegiada de um determinado acontecimento. A encenação é um conceito chave: resume toda a situação signíca, posto que permite organizar a reportagem em função dos parâmetros estéticos e informativos inscritos no signo visual.


Neste contexto, procede tanto do enquadramento quanto da composição do plano, embora apareça ligada com maior frequência ao conceito de composição, cujo objectivo é evitar que o olhos do espectador se desviem dos elementos essenciais da imagem. Compor o plano é organizar esses elementos de modo a que eles cheguem com clareza até ao espectador. Perante a composição, o repórter assume uma atitude semelhante à do pintor ao organizar traços e manchas de cor sobre a tela, ou à do cenógrafo quando constrói o cenário mais adequado à valorização da representação.


profundidade de campo e iluminação


Considerada a dimensão semiótica do plano é ainda indispensável referir a iluminação e a profundidade de campo. Esta, é entendida de um duplo ponto de vista, técnico e estético. Do ponto de vista técnico tem a ver com a "quantidade" de realidade captada com nitidez pela câmara em determinadas condições, como sejam a abertura do diafragma, o nível de iluminação, a distância focal da objectiva, etc.. Do ponto de vista estético, a profundidade de campo surge relacionada com a composição visto remeter para a possibilidade de dispor diferentemente os elementos, objectos ou pessoas, constituintes da imagem.


Profundidade de campo em Citizen Kane (1941) de Orson Welles

Quanto à iluminação, ela é um recurso expressivo e conotativo da maior importância. Factor relevante da criação artística, dando vida e personalidade à imagem, a força expressiva dos jogos de luz e sombra permite potenciar a dimensão estética e emotiva do plano e configurar até valores simbólicos. Sendo, portanto, um recurso expressivo, é imprescindível ao registo, quer da imagem cinematográfica, quer da imagem electrónica.


Até agora, por razões metodológicas, temos vindo a encarar o plano como uma unidade estática. A sua manifestação mais habitual é, porém, dinâmica. O movimento é mesmo a característica dominante do sistema visual: há, por um lado, o movimento no interior de cada plano, com a sua relativa autonomia; e, por outro, o movimento resultante da articulação dos diversos planos. Em qualquer dos casos estamos perante fenómenos complexos, como veremos adiante. Para já, vamos introduzir dois novos campos de abordagem. O primeiro é


A KINÉSICA


que intenta compreender a linguagem do corpo em movimento, estuda os gestos e a mímica, tanto de um ponto de vista autónomo, quanto associados à fala. Tem a ver com aquilo a que habitualmente se chama a expressão corporal. Ray Birdwhistell(17) pretendeu ver uma analogia entre a linguagem verbal e a Kinésica. Segundo ele, do mesmo modo que o discurso pode ser dividido em sons, palavras, frases, parágrafos, etc., também a fala do corpo se pode entender em função de unidades similares. A unidade mínima de significação é o kine, uma simples contracção, um movimento quase imperceptível. Acima do kine há movimentos mais significativos denominados kinemas, cujo entendimento se processa quando vistos em contexto.


Flora Davis regista que os americanos dispõem, apenas, de cinquenta ou sessenta kinemas para o corpo todo, incluindo trinta e três para o rosto e a cabeça. Estes últimos incluem quatro posições para as sobrancelhas (levantadas, abaixadas, contraídas, ou movidas em separado) quatro posições para as pálpebras, sete para a boca, três maneiras de balançar a cabeça (assentimento simples, duplo e triplo), etc.. Sublinha Flora Davis: "É lógico que isso representa apenas uma fracção muito pequena de todos os movimentos que a cabeça e o rosto são capazes. Na verdade, excluindo-se o número verdadeiramente astronómico de movimentos humanos anatomicamente possíveis, cada cultura confere significado para uma meia dúzia apenas."(18)


Apesar destas limitações, os conhecimentos da kinésica são muito úteis para o repórter permitindo-lhe não apenas fazer a leitura da disponibilidade e atitude dos seus interlocutores, mas também adoptar ele próprio a expressão corporal e facial mais adequada a cada momento da sua intervenção, sobretudo em directo ou em "vivo".


Do mesmo modo, é indispensável ao repórter conhecer, ao menos, alguns rudimentos da


PROXÉMICA,


cujo objecto de estudo é o uso que o homem faz do espaço no qual realiza a sua função social. Afirma Moles: "A proxémica assenta sobre uma espécie de perspectivismo dos fenómenos valorizando-se o que está próximo em detrimento do que está distante, ou seja, valorizando uma espécie de centro psicológico do mundo em relação ao indivíduo tomado como ponto de referência."(19)


Estudo para As Cabeças de Dois Guerreiros (1505) de Leonardo Da Vinci ou a forma de perceber através do desenho a paisagem do rosto na kinésica

A aplicação da proxémica à Televisão é de uma importância singular ao decidir sobre as modalidades de transmissão — directo ou diferido — e sobre os géneros jornalísticos, em especial a reportagem, posto que se pretende criar a ilusão de se estar perante a realidade. Sabe-se, por exemplo, como uma transmissão em diferido, facilita o distanciamento do espectador, visto ele saber de antemão o desfecho da notícia, reduzindo-se, como tal, o seu campo de participação e aumentando, concomitantemente, as suas possibilidades de juízo crítico e analítico.


Este ponto de vista compreender-se-á melhor se considerarmos os quatro tipos de distância habitualmente tidos em conta nesta matéria:


1. A distância íntima ou distância do amor ou da agressão.

2. A distância pessoal ou distância da amizade.

3. A distância social, a mais frequente, relativa ao mundo dos negócios, à vida nas empresas, aos postos de trabalho, às relações das pessoas que apenas se conhecem, etc.

4. A distância pública, respeitante às relações institucionais.


No tocante à Televisão estes conceitos são susceptíveis de diversas aplicações. Nas entrevistas, por exemplo, as distâncias entre as câmaras e os microfones, por um lado, e entre o entrevistador e o entrevistado, por outro, podem variar da íntima à pessoal, desta à social e pública, com toda a gama de combinações possíveis, de acordo com os planos visuais e sonoros pretendidos. Trata-se, em suma, de saber organizar as distâncias segundo as quais se pretende uma maior ou menor proximidade do receptor em relação à mensagem ou aos seus elementos constituintes.


OS MOVIMENTOS DA CÂMARA


Ao movimento no interior do plano devem acrescentar-se os movimentos da câmara: ou em torno do seu eixo, para baixo ou para cima e vice-versa, ou da esquerda para a direita e vice-versa; ou sobre um suporte, seja ele o ombro do operador ou qualquer outro. No primeiro caso temos as panorâmicas, no segundo os travelling.


A panorâmica é essencialmente descritiva. Serve para identificar o espectador com o local da acção. Em Televisão deve utilizar-se de modo muito comedido, pois não só não há nenhuma semelhança entre a imagem filmada e a imagem realmente vista pelo olho humano — os olhos não fazem panorâmicas — como pode distrair a atenção do espectador obrigado a dispersar-se por uma grande variedade de elementos icónicos sucessivamente mostrados. A panorâmica tanto pode introduzir a monotonia do olhar, quando utilizada com muita frequência, como produzir ruído na comunicação, se utilizada ora num sentido ora no outro, posto obrigar o espectador a mudar constantemente o sentido da leitura.


Quando ao travelling, permite acompanhar de perto o desenvolvimento de uma acção ou aproximar ou afastar o espectador do centro psicológico dessa mesma acção. É um efeito igualmente possível de obter através da utilização da lente zoom.


Montagem: O Efeito Kuleshov

De posse dos elementos enunciados podemos agora começar a pensar em termos da constituição de uma narrativa visual. Foi o que de algum modo fizeram os pioneiros do cinema, muito embora não possuissem ainda equipamentos capazes da sofisticação dos equipamentos actuais. Esses primeiros cineastas cedo perceberam que uma narrativa só pode ser veiculada através de uma linguagem e que a linguagem cinematográfica começa com a possibilidade de articulação de planos em movimento. Eles perceberam, também, que a justaposição de dois planos põe em jogo uma relação espacial e temporal uma vez que, na verdade, a mudança de plano rompe a continuidade de pelo menos um desses parâmetros: permite mudar de local para local ou de posição dentro de um mesmo local, bem como retomar continuadamente o tempo (diegético), ou dar um salto em frente (elipse), ou um salto atrás (flash-back). Cria-se, assim, o espaço e o tempo do ecrã, os quais têm um enorme potencial informativo e criativo pois permitem seleccionar o essencial, prescindindo do atípico e redundante. É deste modo que a história da evolução narrativa acaba por se identificar com a descoberta gradual das diversas possibilidades aí contidas surgindo, portanto, inevitavelmente, ligada à ideia de montagem.


(Continua)


Notas remissivas


CAPÍTULO III


1. LOTMAN, Yuri

Estética e Semiótica do Cinema, Editorial Estampa, Lisboa, 1978

2. Ibidem

3. Ibidem

4. HERREROS, M. Cébrian

Introducción al Lenguage de la Televisión - Una Perspectiva Semiótica, Ediciones Pirámide, S.A., Madrid, 1978

5. WENDERS, Wim

A Lógica das Imagens, Edições 70, Lisboa, 1990

6. JEANNE, R. e FORD, C.

História Ilustrada do Cinema, Enciclopédia de Bolso Bertrand, Lisboa, 1977

7. GRANJA, Vasco

Dziga Vertov, Livros Horizonte, Lisboa, 1981

8. VERTOV, Dziga

El Cine-Ojo, Textos e Manifiestos, Editorial Fundamentos, Madrid, 1973

9. Ibidem

10. BORETSKY, R. e KUZNETSOV, G.

O Trabalho de Jornalista e a Televisão, Organização Internacional de Jornalistas, Praga, 1983

11. LOTMAN, Yuri

Estética e semiótica do Cinema, Editorial Estampa, Lisboa, 1978

12. MASSON, Phillipe

Guia do Vídeo e da Câmara de Vídeo, Publicações Europa-América, Lisboa, 1987

13. GARCÍA, Jaime Barroso

Tratamento de la Information en Televisión, Instituto Oficial de Radio y Televisión/Ente Publico RTVE, Madrid, 1987

14. TORÁN, L. Henrique

La Informacion en TV, Editorial Mitre, Barcelona, 1982

15. Ibidem

16. HERREROS, M. Cebrián

Introducción al Lenguage de la Televisión - Una Perspectiva Semiótica, Ediciones Pirámide, S.A., Madrid, 1987

17. BIRDWHISTELL, Ray L.

Kinesics and Context, University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 1970

18. DAVIS, Flora

A Comunicação Não-Verbal, Summus Editorial, São Paulo, 1979

19. MOLES, Abraham

La Comunicacion et les Mass Media, Marabout, Paris, 1973













 
 
 
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C A T E G O R I A S

Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

Iluminação Camera

 

Ensaios, conferências, comunicações académicas, textos de opinião. notas e folhas de sala publicados ao longo de anos. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes quando se justificar.

Estático

Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

televisão sillouhette

Atualidade, política, artigos de opinião, textos satíricos.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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