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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

NDR

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 7 de fev. de 2021
  • 1 min de leitura

Atualizado: 6 de ago. de 2025


Edward Hopper - Nighthawks, 1942 (pormenor)
Edward Hopper - Nighthawks, 1942 (pormenor)

como um náufrago procuro os cristais da palavra, os seus lábios húmidos de dizer, as suas longas pernas de ventos e florestas, mas é tarde, e ao dobrar da esquina de uma rua oblíqua de mim mesmo descubro uma fuligem de chuva, um cheiro intenso a óleo queimado que alastra no fluxo nervoso da cidade anunciando a vertigem da solidão. para tanto bastará o medo soltar a alavanca da noite e deixar-me entregue à minha memória registadora de nomes e atrocidades. não, não sei nomear a cartografia do rosto ao espelho. o tempo presente passa implacável por entre as ruínas do tempo passado: como habitar este lugar se o estar aqui é apenas refúgio do insondável tempo futuro? sigo rumo às estações suspensas da respiração da pedra. vejo cachorros e guardas vindos do fundo da noite para apagar o sopro das estrelas, vejo exércitos no seu ritual sombrio de passada lenta e ouço o murmúrio de vozes aflitas na luz coagulada do silêncio. tropeça súbito um corpo interdito em clarão, no peito o impacto absurdo de uma flor fulminante. há uma silhueta em câmara lenta multiplicando, aflitas, as mãos. numa folha de papel levada pelo vento escrevo um rosto em seu rigor absoluto na fria caligrafia do chão.


Jorge Campos

fevereiro de 2012 (atualizado)


 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 23 de jan. de 2021
  • 1 min de leitura

Atualizado: 10 de jul. de 2025


 Gustave Courbet. L'Origine du monde (1866).
Gustave Courbet. L'Origine du monde (1866).


a tua língua lenta nos lábios húmidos da minha fenda voa súbito até à agonia da minha boca e vagarosa como a saliva encontra os meus seios impacientes do despudor das tuas mãos, duros de serem presa dos teus dentes, ó sentir-me assim prestes abusada no veludo da pele, ceder ao toque dos teus dedos, sucumbir à tormenta dos teus flancos, ouve, quero soltar-me no grito obsceno da garganta, quero ser festim do teu corpo a prumo na gruta que doendo rompe a penumbra do meu ser, ó, sim, dá-me a claridade dos sentidos como se a luz incandescente de um cometa rasgasse a brancura dos lençóis e me fizesse fêmea contigo no galope da cama, exultante do estertor do teu relâmpago, inteira de saber-me fulgor do teu banquete.



08/10/2012

 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 10 de jan. de 2021
  • 1 min de leitura

Atualizado: 6 de ago. de 2025


Paul Gaugin - Le Christ au Jardin des Oliviers, 1889
Paul Gaugin - Le Christ au Jardin des Oliviers, 1889


vivi o medo sombrio da loucura e a loucura luminosa da paixão, respirei nas dunas o murmúrio do vento, memórias de um corpo, de um rosto atento ao desafio do tempo. fui água e fui pedra, talvez ave de voo nómada pairando no azul de uma luz primitiva entre a delicada haste da seara ao vento e o raio de sol livre de ser casa, árvore, clarão de espanto de mim mesmo. soube de tudo sabendo de nada, nessa condição do mosto em levedura ou da mão do pedreiro em busca da forma perene. em noites de lua cheia abri os braços à poeira das estrelas e espalhei os dedos pelos cabelos desfeitos dos mistérios dos amantes. naveguei o lume do instante e fui feliz de tanto arder reencontrado nesse fogo feito terra, chuva, semente, espiga. grato, conheci o erro e os seus enganos e errando levantei a taça de vinho fazendo votos de errar de novo como se um deus benigno me devolvesse a graça perdida da fonte do leite e do mel. de tanto ouvir o ladrar do cão da consciência também atravessei o túnel da escuridão e não era um filme de kurosawa, era o silêncio branco dos meus olhos alongados na irreparável distância de quem sendo, fui. diante do espelho, entre o branco e o negro, imaginei a linha sinuosa dos meus passos e o espelho, alheio ao enigma das estações, talvez signo do zodíaco, talvez sábio das veredas onde perdido me achei, disse nada. e, contudo, disse. sou livre. centauro. anoitece. aconteço.


Jorge Campos

2011/10/08

 
 
 
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Criado por Isabel Campos 

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Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

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Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

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