CULTURA

  • Jorge Campos

Cinema e fascismo 16



A Revolução de Maio (1937) de António Lopes Ribeiro. Vamos lá a ver. Do ponto de vista democrático é obrigatório conhecer os argumentos e o imaginário daqueles a quem nos opomos. Mais ainda caso se trate daquilo que combatemos por dever cidadão, como é o caso do fascismo. De modo que aí está o inevitável filme do regime de Salazar, este, sobre a conversão de um comunista em fervoroso apoiante do Estado Novo. Realizado para comemorar os 10 anos do golpe de Gomes da Costa de 1926, o filme é uma efabulação delirante durante a qual o protagonista, enviado de Moscovo, se vai apercebendo de quanto o país tinha mudado na sua ausência. Esmagado pela evidência, apaixonado por uma jovem devota do ditador, confrontado com a deserção de correligionários que tinham passado a integrar os sindicatos corporativos, o nosso homem acaba por ser tocado pela graça divina: ao invés de continuar a conspirar pela revolução comunista adere à Revolução de Maio. Tudo isto se passa nas barbas da polícia política que o segue de perto mas vê nele a bondade bastante para assumir a conversão. António Lopes Ribeiro pode ser acusado de tudo, menos de falta de conhecimento cinematográfico. Por isso, lá estão as referências, por exemplo, a Fritz Lang, ao expressionismo alemão e à montagem soviética. O que não quer dizer que seja um bom filme. Não é. Mas deve ser visto. Aquela mentalidade está mais arreigada do que possa pensar-se. Embora de maneira diferente. Latente.

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