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CULTURA

Cinema e Fascismo 22: O Conformista (1970) de Bernardo BertoIucci, o fascismo normal

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

O Conformista (1970) de Bernardo BertoIucci, o fascismo normal revi agora este filme numa cópia restaurada. plasticamente continua admirável ou não fosse o diretor de fotografia Vittorio Storaro. quanto ao resto, quase 60 anos após a estreia, têmo-lo aí de novo, o fascismo. Marcello (Jean-Louis Trintignant) quer ser um homem normal. sodomizado na infância, traumatizado, leva uma vida medíocre. não acredita em nada. julga poder poder encontrar melhores dias através de um casamento de conveniência e do alistamento no partido fascista. Mussolini manda. é o ano de 1938. a Itália vive um tempo de máscaras atrás das quais se esconde a hipocrisia: públicas virtudes, vícios privados. violência latente, dissimulada: o novo normal. violência explícita, gráfica, quando se trata de perseguir e eliminar opositores. Marcello recebe uma missão. vai a Paris assassinar o seu antigo professor de filosofia, Luca Quadri (Enzo Tarascio), um marxista, cuja mulher (Dominique Sanda) se torna sua amante. leva consigo a mulher (Stefania Sandrelli), alguém refém das convenções a quem tudo parece passar ao lado, mas que acaba por ter uma relação ambígua com a amante do marido. o assassínio é concretizado numa floresta gelada, coberta de neve. mais tarde, em Roma, os tempos são outros. Mussolini colapsou. Marcello trai os amigos e culpa o violador da sua infância pela vida desgraçada que lhe coube. baseado na obra homónima de Alberto Moravia, o filme é uma parábola anti-fascista que usa a ambiguidade para criar uma atmosfera inquietante. tem cenas fabulosas. o baile é uma delas. a frieza da execução, outra. deixa muitas perguntas, o Conformista. o que é um fascista? será possível em cada um de nós habitar um fascista? um homem normal com mulher e filhos que vai à igreja pode matar a sangue frio? ou o fascismo é uma doença silenciosa da qual as pessoas normais só tomam consciência quando já é demasiado tarde?


Jean-Louis Trintignant,


um imenso actor, um dos meus preferidos. inesquecível em tantos filmes de grandes cineastas. eis alguns que cito de memória: E Deus Criou a Mulher de Vadim, Verão Violento de Zurlini, Z de Costa-Gavras, A Minha Noite em Casa de Maud de Rohmer e, mais recentemente, Amor de Michael Haneke. a foto respeita a uma outra fita, O Conformista, de Bertolucci, uma incursão perturbadora no universo da Itália de Mussolini na qual se esboça de modo subtil a possibilidade de se ser fascista sem o saber, e, finalmente, sucumbir. para mim, Trintignant é um daqueles actores que nunca cede ao overacting, é sóbrio, discreto e, por isso, nos interpela, cola-se-nos à pele, deixa-nos em suspenso. está nos antípodas dos canastrões de Hollywood vendidos como astros em pacotes de efeitos especiais. vejo que morreu pacificamente, agora. já era uma lenda.



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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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