Nós (1920) de Evgueni Zamiatine: um grande livro
- Jorge Campos
- há 2 horas
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Nós (1920) de Evgueni Zamiatine é o livro que antecipa O Admirável Mundo Novo (1930) de Aldous Huxley, 1984 (1948) de George Orwell e Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury. na verdade, muito do que está nas distopias subsequentes já se encontra na obra deste escritor russo menos conhecido, mas de enorme talento. Zamiatine descreve uma sociedade construída na base de uma determinada engenharia social, matematizada, racional, perfeita; é o ano 3000; a cidade é de vidro, os edifícios são transparentes, não há privacidade, os humanos não têm nomes, respondem por números e funções, envergam "unifs", alimentam-se de químicos processados, deslocam-se em pequenas aeronaves e podem ter dois parceiros sexuais à escolha por semana em dias e horas certos, desde que previamente autorizados. a felicidade inerente à ordem substituiu a liberdade portadora de caos. os "números" respondem perante uma entidade superior que antecipa o Big Brolther de Orwell; na periferia, para além dos muros protetores, vivem os selvagens, recuperados por Huxley; o pensamento e a imaginação são purgados, tal como acontece em Bradbury com a queima dos livros. Nós só foi publicado na União Soviética no tempo da Perestroika. Zamiatine, ex-bolchevique e amigo de Gorky, foi viver para Paris em 1930. dito isto, porque é que me lembrei de Nós? numa roda de amigos, alguém falou deste livro como sendo uma contundente crítica do estalinismo. bom, quando foi escrito, em 1920, ainda não havia "estalinismo". é curioso verificar o que se diz da Rússia a propósito de tudo e a propósito de nada, como dado adquirido, sem se fazer uma vaga ideia do que se diz. quanto ao livro, propriamente dito, sim, é extraordinário. há uma edição portuguesa da Antígona com tradução de Manuel João Gomes.




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