CULTURA

  • Jorge Campos

Porto 2001 - Odisseia nas Imagens I


Porto da Minha Infância (2001) de Manoel de Oliveira, uma encomenda de Odisseia nas Imagens - Porto 2001

Este texto resulta basicamente de um dos capítulos da minha tese de doutoramento Viagem pelo(s) Documentário(s). Reporta a acontecimentos com cerca de 20 anos, o que, desde logo, obriga numa visão atual a um esforço de distanciamento. Há, como não podia deixar de ser, informações datadas e até desatualizadas. A leitura, tantas vezes solicitando a consulta de anexos e documentos tão numerosos que seria impossível tê-los aqui presentes, pode suscitar alguma dificuldade. Para mais, sendo a publicação feita em blocos, dada a extensão do trabalho, as notas remissivas acabaram sendo alteradas. No entanto, aquilo que me parece fundamental é a reflexão levada a cabo quer para efeito da concretização da Odisseia nas Imagens quer para a avaliação sistemática que dela foi sendo feita. Nesse sentido, pareceu-me oportuno suscitar algumas questões que continuam a parecer-me pertinentes em termos da definição de políticas culturais - quero acreditar que ainda faz sentido falar em políticas culturais. Para os interessados, fica, então, este ponto de encontro, o qual não teria sido possível sem os magníficos colaboradores que tive a sorte de ter e com quem muito aprendi. Assinalo, desde já, que entre os 10 eventos tidos por mais relevantes da Programação Cultural do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, dois são do âmbito da Odisseia nas Imagens: O Olhar de Ulisses e Violência e Paixão - Uma Retrospectiva dos Filmes de Luchino Visconti. Este primeiro texto, sendo de enquadramento geral, é indispensável para se compreender a estratégia global.


ODISSEIA NAS IMAGENS


Uma das debilidades reconhecidas da cidade do Porto e da sua área metropolitana reside na sua relação com os universos do cinema, do audiovisual e do multimédia, áreas da visibilidade simbólica por excelência. Essa debilidade, cujas raízes tanto se encontram na excessiva centralização do estado com reflexo nas políticas culturais, quanto na incapacidade dos agentes culturais, ligados ou não ao poder autárquico, para darem corpo às suas aspirações e reivindicações, acaba por afectar o desenvolvimento da região no seu conjunto. Contudo, durante um determinado período do governo do Partido Socialista de António Guterres e da gestão municipal do também socialista Fernando Gomes houve vontade e abertura para contrariar esta situação. Foi neste contexto, que o Porto foi Capital Europeia da Cultura.


O evento Odisseia nas Imagens a ele associado surgiu, assim, como uma possibilidade de propor medidas e tomar iniciativas em si mesmas portadoras de um projecto de futuro suficientemente flexível para que a partir dele os eventuais tomadores pudessem prosseguir políticas próprias no âmbito do cinema, audiovisual e multimédia – e do ensino associado a estas áreas – em condições mais favoráveis. Pela primeira vez, tendo em conta a capacidade de produção instalada e os saberes existentes foram avançadas hipóteses de políticas descentralizadas com reflexos a vários níveis, nomeadamente no serviço público de televisão, na criação de áreas de produção de excelência, entre as quais se apontavam o cinema de animação, as curtas metragens e o documentário, bem como no ensino superior.


Concomitantemente, foi pensada uma programação multifacetada que permitisse dar consistência no plano conceptual aos objectivos definidos. É disso que aqui se fala. Disso e da viagem pelo(s) documentário(s) que a Odisseia nas Imagens também foi. Toma-se como ponto de partida a matriz do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura para, num momento posterior, relatar e fazer a avaliação dessa experiência, fundamentalmente naquilo que ao(s) documentário(s) diz respeito. Em todo o caso, uma vez que por razões de coerência a Programação foi pensada de modo integrado, far-se-á referência ao conjunto dos seus articulados, pois só assim se compreenderá o seu alcance geral e a proposta de acção dela decorrente.



Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura: candidatura e enquadramento


A actriz Melina Mercuri, na altura ministra da Cultura da Grécia, fez em 1985 uma proposta de nomeação anual de uma Capital Europeia com o intuito de dar a conhecer as realizações da cidade nomeada abrindo espaço, dessa maneira, à divulgação do imenso mosaico, construído ao longo de séculos, que constitui o património cultural europeu comum. A proposta assentava no consenso alcançado em torno de um conjunto de argumentos a seguir resumidos.


Uma Europa sólida, capaz de enfrentar os desafios do futuro, requer o conhecimento recíproco da diversidade cultural dos povos e países que a integram. Esse conhecimento investe na aceitação da diferença obstando, desse modo, a que essa mesma diferença venha a revelar-se elemento de desagregação. Como tal, a uma cidade Capital da Cultura cabe, entre outros desígnios, expressar a sua identidade, mas fazê-lo de modo a cruzar os particularismos locais com as tendências e abordagens mais cosmopolitas e universais.


À data da apresentação da sua candidatura a Capital Europeia da Cultura o Porto reunia condições excepcionais para responder a esse desafio. Com uma população de 300 mil habitantes e pouco mais de 44 km2 construiu a sua identidade, à semelhança de outras cidades da Europa de dimensão média, ao longo de uma História recheada de episódios que amiúde lhe conferiram um estatuto de privilégio.


Contudo, esse percurso nem sempre foi linear. Pelo contrário, segundo se afirma no texto da candidatura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, “após quase dois séculos de protagonismo e modernidade, o século XX foi para o Porto, sobretudo com o centralismo despótico do regime de Salazar, uma travessia do deserto [1]”. E acrescenta-se: “Só após a revolução de 25 de Abril de 1974, que restabeleceu o regime democrático e reanimou o poder local, foi possível ao Porto sair do marasmo de quase 100 anos e preparar-se para enfrentar o século XXI [2]”.


Diversos factores, com relevância para o trabalho desenvolvido pelo poder local na última década do século passado, contribuíram para que isso viesse a acontecer. No âmbito das realizações do poder local, eventualmente associado ao governo central, contam-se a reabilitação urbana e a dinamização cultural.


Em Dezembro de 1996 a Assembleia Geral da Unesco atribuiu ao Centro Histórico do Porto – uma área de 1,3 km2 correspondente na sua quase totalidade à cidade medieval entre muralhas – a classificação de Património Cultural da Humanidade:


“Aí encontram-se vestígios dos romanos e dos povos do norte; salienta-se o barroco introduzido pelo italiano Nasoni, a expansão urbana iluminista, o neoclássico de influência inglesa, o engenho e a arte de Eiffel, o urbanismo de Barry Parker, a que se seguiram intervenções da Architecture des Beuax-Arts, alguma Art Deco e os primeiros edifícios modernistas [3]”.


Com isto, os portuenses fizeram uma cidade única, “que só podia ser construída naquele lugar exacto, com aquela topografia e aquele rio, com o granito e o ferro, com a arte minuciosa dos seus artesãos, como uma forma própria de viver e conviver [4]”. Neste contexto, a candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura valorizou os aspectos patrimoniais sublinhando o esforço de reabilitação urbana articulado com investimentos avultados na recuperação e construção de equipamentos culturais, designadamente, museus, salas de espectáculos, arquivos e bibliotecas.


Ponte da Arrábida em construção. Fonte: www.portodosmuseus.pt

Essa estratégia, ao desencadear novas dinâmicas em termos de um apoio crescente à criação artística e às indústrias culturais com impacto na criação de novos públicos, muitos dos quais provenientes de uma população de 60 mil estudantes do ensino superior, tornara possível estabelecer um calendário anual de acontecimentos relevantes e participados [5].


A candidatura apresentava, ainda, como razão de merecimento de descriminação positiva, a situação duplamente periférica da cidade, no plano nacional e no contexto internacional, bem como a notoriedade e importância de um conjunto significativo de criadores e de agentes culturais [6]. Identificava, seguidamente, os seus princípios orientadores, basicamente subordinados a dois eixos: cruzar localismo e internacionalização e capitalizar o evento a favor da cidade e da sua população [7].


Estabelecida uma proposta de modelo organizativo para a Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura e após considerações sobre a previsão orçamental, o documento de candidatura entrava na matéria específica da programação cultural, a qual, em função das características e desígnios da cidade, haveria de articular-se em torno de um conceito cuja ressonância metafórica suscitasse uma identificação imediata no âmbito da tradição, conferindo-lhe, no entanto, um sentido prospectivo. Daí o tema das pontes e a consigna Pontes para o Futuro.


Com efeito, o Porto é a cidade das pontes sobre o rio Douro. Todas elas correspondem a momentos determinantes da sua história. A ponte de Gustave Eiffel (1887) é um dos raros exemplares da arquitectura do ferro associado à revolução industrial tardia que o Porto conheceu e marca tanto o imaginário da cidade quanto a sua representação simbólica. O mesmo sucede com a ponte Luís I (1886), inseparável da memória de uma época de prosperidade mercantil. A ponte da Arrábida (1963) coincide com outro momento de expansão da área metropolitana e com a afirmação vencedora da lógica do automóvel. Da autoria de Edgar Cardoso, o seu arco de betão armado foi, à época, o maior do mundo. Trinta anos mais tarde, o mesmo Edgar Cardoso construiu uma nova ponte, desta vez ajustada às necessidades dos comboios de alta velocidade.


Em suma, “a metáfora das pontes, e dos rios que sob eles correm, possui uma coerência e uma riqueza que a criatividade cultural pode explorar, quase explorar infinitamente [8]”. As pontes do Porto, portanto, “são expressão da particularidade do sítio e das vicissitudes históricas da cidade que aqui se instalou e, ao mesmo tempo, impregnam uma mensagem universalista e inovadora que lhes conferem as suas características e os seus criadores; um, Gustave Eiffel, europeu e universal; outro, Edgar Cardoso, portuense e, porque não arriscar, também europeu e também universal [9]”.


A prazo, as Pontes para o Futuro, entendidas como eixos de intervenção estratégicos, criariam condições para projectar o Porto como cidade europeia periférica de dimensão média capaz de dinamizar uma área metropolitana de 1.200.000 habitantes em função da sua competência criativa, científica e tecnológica. Neste contexto, inscreviam-se, naturalmente, propósitos de qualificação do desenvolvimento sócio-económico, de relançamento de negócios e do turismo cultural e da criação ou reforço de áreas de emprego qualificado ligadas às indústrias da cultura e do lazer.


Esperava-se, em suma, reforçar a visibilidade da cidade do Porto no espaço europeu e, como tal, contribuir para a construção da Europa Social e Cultural.



Notas remissivas

[1] . Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, sem páginas numeradas. [2] . ibid. [3] . ibid. [4] . ibid. [5] . Desse calendário constavam, nomeadamente, o Festival de Cinema do Porto (Fantasporto), o Festival de Música Celta, o Festival de Teatro para a Infância e Juventude, o Festival Internacional de Marionetas do Porto, o Festival de Teatro de Expressão Ibérica, o Festival Ritmos/ Festa do Mundo, o Concurso Internacional de Música (piano), o Festival de Jazz do Porto, o Portugal Fashion, o Salão Internacional de Banda Desenhada e as Jornadas de Arte Contemporânea. - Nota do Autor. [6] . Entre outros eram citados os nomes de Agustina Bessa Luís, Manoel de Oliveira, Siza Vieira, Eugénio de Andrade, Sofia de Mello Breyner, Abi Feijó, Fernando Lanhas, Júlio Resende, Ângelo de Sousa, Pedro Burmester, Álvaro Salazar e António Pinho Vargas. - Nota do Autor. [7] . Transcreve-se a seguir a parte do texto de candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura onde esta matéria é abordada.

A - Cruzar localismo e internacionalização organizando um leque coerente de manifestações culturais que dêem prioridade às áreas de produção e apetência de maior enraizamento na cidade;

apresentem produções nacionais e internacionais inéditas; actualizem a memória patrimonial e histórica do Porto, procurando contacto com a realidade contemporânea e as indústrias culturais emergentes; fomentem o partenariado com instituições locais – já inseridas no processo – e o envolvimento da população da cidade; utilizem, além dos equipamentos funcionalmente vocacionados, espaços não codificados ou cuja função original se perdeu; assumam a dimensão festiva da efeméride, diluindo as fronteiras entre ‘actor’ e ‘espectador’; evitem a tentação do espectacular demasiado efémero, sem descurar a repercussão que algumas deverão nitidamente assumir, quer pelo impacto mediático, quer pelo alargamento de horizontes que proporcionam; harmonizem actividades  capazes de atrair o grande público e experiências de pesquisa, vanguarda e inovação; impliquem o público escolar, através de iniciativas que lhe sejam especialmente dirigidas; assumam a vocação do Porto como centro de uma metrópole regional, estendendo actividades às cidades vizinhas e recebendo as suas contribuições; concretizem o tradicional espírito de ligações internacionais do Porto, convidando para programas específicos a desenvolver em 2001 as quatro cidades geminadas com o Porto: Vigo, Bristol, Bordéus e Jena, e as cidades geminadas do nordeste brasileiro e da África lusófona; B - Capitalizar o evento a favor da cidade, da sua população e da sua cultura”. - in Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas. [8] . Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, sem páginas numeradas. [9] . ibid.


(Continua)







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