CULTURA

  • Jorge Campos

Porto 2001 - Odisseia nas Imagens VI: O Homem e a Câmara 1

Atualizado: Jan 26


Dziga Vertov. Fonte: Globo

Reitero, este texto resulta basicamente de um dos capítulos da minha tese de doutoramento Viagem pelo(s) Documentário(s). Reporta a acontecimentos com cerca de 20 anos, o que, desde logo, obriga numa visão atual a um esforço de distanciamento. Há, como não podia deixar de ser, informações datadas e até desatualizadas. A leitura, tantas vezes solicitando a consulta de anexos e documentos tão numerosos que seria impossível tê-los aqui presentes, pode suscitar alguma dificuldade. Para mais, sendo a publicação feita em blocos, dada a sua extensão, as notas remissivas tiveram de ser alteradas. Para melhor compreensão devem, no entanto, ser lidas. Aquilo que me parece fundamental é a reflexão levada a cabo quer para efeito da concretização da Odisseia nas Imagens quer para a avaliação sistemática que dela foi sendo feita. Nesse sentido, pareceu-me oportuno dar a conhecer os seus traços fundamentais e, desse modo, suscitar algumas questões que continuam a ser pertinentes em termos da definição de políticas culturais - quero acreditar que ainda faz sentido falar em políticas culturais. É com satisfação que verifico que, ao fim e ao cabo, após 20 anos, sobretudo na área do Ensino Superior, há marcas da Odisseia na Imagens. Aqui, após a elucidação dos seus fundamentos, princípios, parcerias e encomendas, começa a falar-se da Programação. O primeiro de quatro módulos foi O Homem e a Câmara.


(Continuação da Odisseia nas Imagens V)


A Programação dos quatro módulos da Odisseia nas Imagens


Vejamos agora, em termos de Programação de iniciativas e eventos, as formas encontradas para dar resposta ao conjunto das questões preliminares anteriormente elencadas. Fá-lo-emos em dois momentos, sendo que no primeiro serão abordados aspectos gerais e no segundo as matérias relacionadas com a programação dos documentários. Em relação a qualquer deles, e especialmente em relação ao segundo, procuraremos introdudir algumas notas críticas, por forma a elucidar argumentos que ossam contribuir para a pertinência das conclusões.


O primeiro módulo da Programação decorreu de 2 a 10 de Maio de 2000. Anteriormente, por razões de ordem simbólica e dada a importância atribuída ao ensino e à formação, principiara na Universidade Católica a 1ª Pós-Graduação em Documentário e Curtas Metragens de Ficção e tivera lugar uma iniciativa da Coordenação Europeia de Festivais Europeus denominada 15x15: O Património Cinematográfico Europeu, que juntou diversos realizadores e especialistas entre os quais André Delvaux, Paulo Rocha e o representante da Coordenação François Ballay [1].


Para trás ficava um período durante o qual, para além de todo o trabalho preparatório, fora necessário ultrapassar alguns problemas delicados, nomeadamente o conflito aberto entre o Ministério da Cultura e a Sociedade Porto 2001 que levara à demissão do seu presidente Artur Santos Silva e à nomeação de uma nova responsável, Teresa Lago. Foi nessa altura, quando subiam de tom as críticas e insinuações sobre uma alegada incapacidade de dar corpo à Programação, que uma fuga de informação dando a conhecer em detalhe o trabalho realizado e as linhas gerais do que iria acontecer veio reforçar a posição dos programadores e dissipar dúvidas quanto ao projecto cultural. No jornal Público de 27 de Novembro de 1999 o crítico Augusto M. Seabra, num artigo intitulado Isto é uma Capital Cultural!, escreveu:


“Pois bem, programação cultural há. As linhas gerais do Porto 2001 devem ser saudadas como o mais sério esforço até hoje feito em Portugal de pensar uma cidade em termos culturais, isto é, atender às suas tradições, dimensão, localização internacional, necessidades de requalificação urbana e de oferta de espectáculos, valorização e estímulo do potencial criador e mobilização da diversidade de públicos [2]”.



O Homem e a Câmara


Com a situação interna relativamente estabilizada, o evento inaugural do primeiro módulo da Odisseia nas Imagens foi agendado para o Coliseu do Porto, a maior sala de espectáculos da cidade: o filme O Homem da Câmara de Filmar de Dziga Vertov com música ao vivo da Cinematic Orchestra [3]. Três mil pessoas esgotaram a lotação. A crítica foi unânime. Para citar apenas dois exemplos, no Diário de Notícias, Marcos Cruz afirmava: “Uma noite mágica caiu sobre o Porto fazendo com que todos os caminhos do encantamento fossem dar ao Coliseu [4]”. No Público, Amílcar Correia dizia que “o resultado não podia ter sido mais surpreendente [5]”. Na Visão, reportando ao primeiro módulo O Homem e a Câmara [6] João Mário Grilo comentava: “Com um arriscado, mas imaginativo, figurino de programação, começou, no Porto, a Odisseia nas Imagens, o programa audiovisual da Capital da Cultura [7]”.





Foi também o início do primeiro módulo de O Olhar de Ulisses [8], em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, cuja programação deveria incidir essencialmente sobre o filme documentário, mas proporcionando olhares cruzados e, por vezes inesperados, com filmes marcantes da História do Cinema. Este ciclo, de pendor manifestamente cinéfilo, cujo título recupera o filme homónimo de Theo Angelopoulos realizado em 1995 sobre a errância de um cineasta (Harvey Keitel) à procura daquele que seria o filme seminal da cinematografia grega, transformar-se-ia, desde logo, numa referência do conjunto da Programação.


No seu primeiro catálogo [9], a par de informações detalhadas sobre filmes e participantes [10], explicitavam-se os propósitos da Odisseia nas Imagens:


“A programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura é concebida como um percurso durante o qual o dado a ver exige a participação, promove a descoberta e estimula a aventura. É um desafio centrado na fulcralidade da Imagem enquanto elemento de revelação. Entendida em termos dinâmicos, a Programação é aqui tanto objecto de prazer, quanto elemento detonador do saber e do saber fazer. Nela cabe, naturalmente, em primeiro lugar, a cidade de imagens que o Porto sempre foi e, como tal, o olhar retrospectivo que permite reconhecer a sua identidade. Mas essa cidade de imagens, sendo também um lugar de futuro, exige, de igual modo, um olhar prospectivo, ousado e universal. (...) À cidade caberá sempre decidir, em função do desafio que lhe foi lançado, sobre os contornos e os limites da mudança que lhe é proposta [11]”.


O Homem da Câmara de Filmar com música ao vivo da Cinematic Orchestra. A propósito da sessão inaugural da Odisseia nas Imagens escreveu Amílcar Correia no jornal Público: “Sete décadas separam O Homem da Câmara de Filmar realizado por Dziga Vertov em 1929 e Motion a banda sonora para um filme imaginário que a Cinematic Orchestra editou no ano passado. Apesar da distância temporal e estética entre as duas obras, a equipa responsável pela programação audiovisual do Porto 2001 vislumbrou eventuais pontos de confluência entre o vanguardismo do cineasta russo e o jazz heterodoxo do colectivo de Jason Swinscoe. E o resultado não podia ter sido mais surpreendente [12]”.

O Homem e a Câmara, designação deste primeiro módulo, comum à Odisseia na Imagens e a O Olhar de Ulisses, recuperou o título do filme tese de Dziga Vertov pretendendo reeditar, actualizando, a cine-sensação do mundo enquanto factor de descoberta e elemento de elucidação do real, sendo que esse real seria sempre um real imaginado. Dando conta da gramática emergente das imagens em movimento e da sua relação com o olho este primeiro programa integrou uma componente de Imagens da Ciência da autoria de Jean-Michel Arnold, responsável do Centre Nationale de la Recherche Scientifique-Images/ Media, de Paris, a quem foi dada carta branca para uma selecção de filmes [13]. Escrevendo sobre a Arqueologia e Desvios do Cinema Científico [14], dizia Jean Michel Arnold:


“Enquanto que os operadores da Société Lumière – meio jornalistas, meio fotógrafos – descobriam a grande reportagem, os cientistas, ao apoderarem-se do cinema, afirmaram a modernidade deste. (...) O programa proposto tentará, pois, contar por imagens esta maravilhosa aventura: a invenção do cinema (instrumentos e linguagem) pelos cientistas. É formado por partes de documentos raros e preciosos, conservados nos institutos de investigação ou nos arquivos internacionais especializados. Estas obras são, na sua maioria, desconhecidas do grande público e, muitas vezes até, da comunidade científica apesar de, no início do século, terem constituído para esta a fonte de investigação [15]”.


The Cinematic Orchestra

Este primeiro módulo teve ainda um filme concerto com Berlim, Sinfonia de uma Cidade (1927) de Walter Ruttmann com música ao vivo de DJ Spooky & Freight Elevator Quartet e uma extensão do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde denominada O Nosso Século [16]. Tratando-se da primeira grande iniciativa da Programação Cultural do Porto 2001 a Comunicação Social dedicou-lhe relevante espaço e, de um modo geral, as apreciações foram positivas [17].

Notas remissivas


[1] . Anexo I – pp. 3-20.

[2] . Anexo III – pp. 39-40.

[3] . Anexo I – p. 26.

[4] . Anexo I – p. 44.

[5] . Anexo I – p. 45.

[6] . Anexo I – pp. 21-36.

[7] . Anexo I – p. 51.

[8] . Anexo I – pp. 27-34.

[9] . Anexo I – p. 24.

[10] . Anexo I – pp. 27-30.

[11] . Anexo I – p. 23.

[12] . Anexo I – p. 45

[13] . Anexo I – p. 31-34.

[14] . Anexo I – p. 31.

[15] . Anexo I – p. 32

[16] . Anexo I – p. 35-36.

[17] . Ver alguns exemplos no Anexo I – pp. 9-20. Na verdade, escrutinadas as dezenas de recortes de imprensa sobre O Homem e a Câmara não se encontra qualquer nota negativa, embora a crítica tenha manifestado reservas quanto ao modo como DJ Spooky equacionou a sua partitura para Berlim, Sinfonia de uma Cidade. - Nota do Autor


Berlim, Sinfonia de uma cidade (1926) de Walther Ruttmann

(Continua)

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