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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

NDR

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 26 de dez. de 2020
  • 6 min de leitura


Eis um bom livro. Dei com ele por mero acaso, a um preço irrisório, escondido nas prateleiras de uma livraria onde se exibia uma versão recente, em português, a custar quase quatro vezes mais. Não deve ser fácil traduzir Bob Dylan. Quem o conhece da música sabe que há coisas que só fazem sentido no inglês da América por ele utilizado. Por isso, tendo embora grande admiração pelo trabalho dos tradutores, optei pelo original. O preço, evidentemente, também contou.


Bob Dylan compôs mais de 500 canções. Acompanhou-me ao longo da vida, umas vezes mais, outras menos. Por diversas ocasiões e diferentes razões estive zangado com ele. Fez alguns discos extraordinários, outros, uma chatice. Deu um concerto em Israel quando não devia. Durante anos perdi-o de vista. Recuperei-o ocasionalmente numa ou noutra música, num ou noutro documentário, designadamente, em No Direction Home (2005) de Martin Scorsese. Não resisti ao seu triplo álbum dedicado ao Great American Song Book. Fiquei a pensar se ele tinha jeito para aquilo, mas gostei. Reconciliei-me com o seu último e surpreendente álbum Rough and Rowdy Ways (2019). Pelo meio, ganhou um Nobel da Literatura. Isso pesou na decisão de o trazer para casa neste Chronicles, volume I, publicado pela primeira vez há uns pares de anos e agora reeditado.


Fonte: strefamusicart

O livro rapidamente venceu a desconfiança de desencontros passados. Na narrativa na primeira pessoa, na descrição dos lugares e protagonistas, reconhece-se, logo de início, a força, atmosfera e originalidade das suas melhores canções, uma espécie de equivalente em prosa de uma poesia cujas raízes mergulham nessa cultura popular americana habitada por gente como Woody Guthry e Pete Seeger, por Leadbelly e pelos blues do delta do Mississipi, aqui e ali, também pela geração Beat, o gospel, o jazz e, claro, o rock’ n roll.


O primeiro capítulo, Markin’ Up the Score, é curto, introdutório. São os primeiros passos de Dylan em Nova Iorque. Após ter deixado a modesta casa do pai operário, no Minnesota, é para lá que vai em busca de algo que o transcenda, O segundo capítulo é longo, exploratório. Intitulado The Lost Land, fala de uma América ignorada, de lugares obscuros e heróis incómodos, da música folk e do seu espaço lavrado com o suor do rosto e o sangue do corpo dos pobres. Fala, igualmente, do calcorrear vagabundo pelas ruas da grande cidade, de guitarra às costas, cantando onde o deixam a troco de pouco, de bar em bar, de mulher em mulher, de casa em casa, até à descoberta do underground onde tudo pode acontecer. Nova Iorque é a terra prometida. Tal como a Lost Land que Dylan quer entender e resgatar.


É dessa terra esquecida que vem The Ballad of Joe Hill, um clássico de Alfred Hayes popularizado nos anos 30 por Paul Robeson, o extraordinário artista negro de poderosa voz de barítono que ousava cantar a Internacional em ações de luta dos trabalhadores. Joe Hill era não só um compositor e intérprete de música folk do princípio do século XX, mas também um destacado dirigente do movimento anarco-sindicalista. Condenado à morte e executado em 1914, após um julgamento fraudulento, tornou-se uma lenda da Lost Land e um herói dos deserdados. Para Dylan, The Ballad of Joe Hill seria o rastilho da descoberta de uma longa e sinuosa estrada pavimentada pelo trabalho da memória. Não se limita ao registo, procede como o garimpeiro. Escava, depura, escolhe e combina ritmos e palavras, faz composições inesperadas, encanta, magoa, surpreende. Provavelmente, surpreende-se a si próprio, certamente, a quem o lê, feito viajante.


Joan Baez e Bob Dylan. Fonte: The New Republic

Um escritor cria sempre uma rede de cumplicidades com o seu leitor. E o leitor reinventa-se na narrativa do escritor. Lendo Chronicles, estou subitamente em 1966 a bordo do comboio que liga Lourenço Marques a Joanesburgo. Tenho 18 anos. Acabo de sair de casa. Vou matricular-me na Universidade de Witwatersrand e ocupar um quarto alugado no Jorina Court, um lugar do qual se contam muitas histórias, nem sempre edificantes, é certo, mas sempre com tonalidades de fruto proibido.


É o tempo do apartheid. Viajo sozinho, numa cabine só para brancos, da qual sou o único ocupante. Tenho a cabeça cheia de dúvidas. Pela janela vejo a savana africana a correr vertiginosamente. O curso de Economia não me diz grande coisa. Pelo contrário, uma experiência nova agrada-me, muito. O comboio trepida naquela cadência inexorável de rodas de ferro sobre carris de metal. Um tipo ainda novo, alto, magro, com uma horrível cicatriz ao longo da face, entra sem se fazer anunciar. Tem um sorriso desagradável, mau. Fica a olhar para mim, de pé, sem dizer nada. Finalmente, pergunta-me o que faço ali. Tento explicar, mostro-lhe o bilhete. Rosna, sou da PIDE. Já suspeitava. Digo-lhe ao que vou, não quer ouvir. A cadência do comboio soa agora como uma ameaça. Pergunta-me pela morada, quer o nome do pai. Digo-lhe. A profissão. Médico. Ri-se, os olhos pequeninos semicerrados. Médico? Ri-se de novo, sardónico, se calhar nem sequer é enfermeiro. Novo silêncio ensurdecedor. O tempo suspenso. De repente, vira as costas e sai. Volta logo de seguida. Está, de novo de pé, à porta. Sibila, vê lá se tens juízo. Desaparece. Perco a noção do tempo, o comboio lá vai. Por fim, abranda. Joanesburgo.


Quando nessa noite entro com um grupo de amigos na obscuridade de um bar folk próximo de Hillbrow, onde depois voltaria tantas vezes, vejo um jovem de cabelo liso até à cintura, a dedilhar uma guitarra, sentado num banco alto sob um feixe de luz. Canta: I dreamed I saw Joe Hill last night/ Alive as you or me/ Says I, “But Joe, you’re ten years dead”/ “I never died”, says he/ “I never died”, says he. Ainda hoje me lembro desses versos, bem como de outros do próprio Bob Dylan, paladino da contra cultura, ícone do movimento pacifista contra a guerra do Vietname, bandeira da luta contra o apartheid, símbolo da geração de Woodstock, em suma, mensageiro da esperança. Nesse tempo, as canções corriam noite dentro, entoadas em coro enquanto a cerveja escorria garganta abaixo na expetativa de encontros auspiciosos. The Times They Are a-Changing, Blowin’ in the Wind. We Shall Overcome


O devaneio acaba aqui. Chronicles não tem nada a ver com a retórica, passa simplesmente ao lado da gesta heróica. Recuperar a Lost Land e andar aos caídos e achados em Nova Iorque à procura de um rumo é uma coisa; outra é assumir o protagonismo consubstanciado nos rótulos que lhe foram sendo colados. O homem não está para aí virado. Salta toda essa fase da maior parte dos anos 60 onde outros viram a excelência da música e o pináculo de uma carreira para, no terceiro capítulo, ao qual dá o título do seu décimo primeiro álbum, New Morning, de 1970, se manifestar exausto da fama, cansado de fugir à legião de seguidores, sem paciência para jornalistas, sempre a procurar refúgio, ele e a família, longe da vista de todos. Aqui chegados, suspeito da quebra de cumplicidade com os leitores, pelo menos com alguns deles. O mito não cabe nestas linhas. Menos ainda, a hagiografia. Sobra Dylan a procurar reencontrar-se de novo com algo que o transcenda.


Se o passado conta, cristalizado, é morte. Antes a dúvida, olhar à volta, estar vivo. Porventura, até pedir clemência. Simbolicamente, o quarto capítulo chama-se Oh Mercy, o quinto, River of Ice. Para trás, ficou uma galeria de personagens famosas olhadas de forma peculiar, de Joan Baez a Ramblin’ Jack Ellliot, de Hank Williams a Ritchie Valens, de Elvis a Roy Orbison e Ediie Cocharn. Ficaram, também, memórias de Stan Getz, Charlie Parker e de outros grandes do jazz, bem como das luzes da Broadway, do cinema, do teatro, da literatura, da grande paisagem mosaico da cultura americana. Mas não há uma palavra, por exemplo, sobre a “heresia” de ter passado da música acústica à música elétrica, sobre vendas astronómicas, sobre o sucesso meteórico ou sobre Dont Look Back, o documentário clássico de D. A. Pennebaker, campeão do cinema direto, a propósito da controversa digressão no Reino Unido nos anos 60. Nada disso aparece.


Dont Look Back (1967) de D.A. Pennebaker. Dylan canta Subterranean Homesick Blues com o poeta beat Allen Gingsberg. Fonte: The Eye For Eye

Em contrapartida, há o relato circunstanciado de uma estada de meses em Nova Orleans para gravar um disco com um produtor sugerido por Bono dos U2, cujas ideias musicais entram em conflito com as suas, há longas play lists de música negra passadas nas rádios locais que ele passa o tempo a ouvir, há a atmosfera promissora da cidade do mardi gras, conhecida por Big Easy, onde tudo pode acontecer, há longos passeios pelo interior do estado da Luisiana com a mulher em cima de uma Harley-Davidson, há encontros inesperados com pessoas que tanto podiam ter saído de uma tela de Hopper quanto de um filme de Tarantino.


No capítulo final, River of Ice, contudo, faz uma pequena concessão aos tempos áureos, embora logo seguida de Dylan em movimento à procura de si mesmo:


“The folk music scene had been like a paradise that I had to leave, like Adam had to leave the garden. It was too perfect. In a few year’s time a shit storm would be unleashed. Things would begin to burn. Bras, draft cards, American flags, bridges, too - everybody would be dreaming of getting it on. The national psyche would change and in a lot of ways it would resemble the Night of Living Dead. The road out would be treacherous, and I didn’t know where it would lead but I followed it anyway (…) I went straight into it. It was wide open. One thing for sure, not only was it not run by God, but it wasn’t run by the devil either.”


Antes assim. Aliás, é esta a melhor maneira de reforçar a cumplicidade com o leitor.


Já agora, há 15 anos que se anuncia Chronicles, volume II...


2020/12/26

 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 13 de nov. de 2020
  • 2 min de leitura


Este é um dos livros de Philip Roth de que mais gosto. É um romance empolgante, de uma atualidade inquestionável. Estou a pensar em Trump enfiado na Casa Branca, recusando-se a aceitar os resultados eleitorais e prometendo levar fogo e fúria a toda a América a partir de pressupostos baseados em factos alternativos que constituem os alicerces do seu universo de pós-verdade.


Roth também cria um mundo alternativo. Imagina a América da sua infância dominada pelo anti-semitismo levado para a presidência pelo homem que fez a primeira travessia aérea transatlântica, sem escala, Charles Lindbergh. Na manhã de 20 de maio de 1927, Lindbergh levantou voo no seu Spirit of St. Louis de Roosevelt Airfield, em New York, e aterrou 33 horas e 30 minutos depois em Le Bourget, Paris. O feito - e as atualidades cinematográficas, mas isso é outra história - fez dele um herói americano.


Tinha, porém, um problema. Era simpatizante de Mussolini e via com entusiasmo a ascensão do nazismo tendo, inclusivamente, durante uma das visitas que fez à Alemanha, recebido das mãos do marechal Hermann Göring a mais alta condecoração atribuída por Hitler a um estrangeiro, a Cruz de Serviço da Águia Alemã, um medalhão de ouro com quatro suásticas. Corria o ano de 1938 com a guerra iminente. Tudo isto é factual.


Segue-se a ficção. Roth, por sinal filho de uma família judia pobre, vê-se criança num tempo imaginado em que Lindbergh ganha as eleições de 1940, derrotando Roosevelt. O seu movimento isolacionista America First, tão familiar ao let's make America Great Again de Donald Trump, toma o poder. Dá início a uma campanha anti-semita nas ruas, ataca os Aliados e estreita relações com o Reich. Na Administração pontificam corifeus do fascismo como Henry Ford. Começam os pogroms.


A vida dos Roth transforma-se num pesadelo. Todos eles passam por uma metamorfose aterradora, deixando gradualmente de ser quem eram para serem outra coisa com origem num improvável ou num julgado impossível que lhes rasga os corpos e as almas e os vai perdendo de si mesmos. Em pano de fundo movem-se personagens construídas a partir de figuras importadas do real. Uma ficção arrepiante.


É ler. Depois, talvez pensar em factos alternativos. Na pós-verdade. Em Trump, certamente.


Charles Lindbergh e The Spirit of St. Louis.

 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 10 de nov. de 2020
  • 7 min de leitura

Fonte: Euronews

Ponto de partida: Francis Fukuyama. O statement sobre o fim da História nunca foi levado muito a sério. Em rigor, serviu mais como fórmula proclamatória de uma crença conveniente do que como evidência fundamentada de um juízo analítico. A crença é sempre uma simplificação legitimada pelo transcendente premonitório. No caso de Fukuyama, uma relação mágica de causa e efeito entre a imposição da economia de mercado e o triunfo da democracia liberal. Valha a verdade, o próprio Fukuyama mudou de opinião. Há três ou quatro anos, surpreendeu tudo e todos ao dizer que andava a tentar compreender a História. E, numa entrevista à BBC World, em Maio de 2019, aquando do lançamento do seu último livro – Identidades: A Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento – foi mais longe no reconhecimento do engano ao admitir ter ficado abalado com a segunda invasão do Iraque e com a crise financeira de 2008, uma e outra por ele qualificadas como catástrofes cujos efeitos se fizeram sentir, designadamente, na sua quebra de confiança na irredutibilidade dos valores dados como adquiridos.

Sinais contraditórios surgiram logo pós a queda do muro em 1989 e multiplicaram-se até ao colapso de União Soviética, dois anos mais tarde, tendo, no entanto, passado relativamente despercebidos ou, pelo menos, sem suscitar grande atenção mediática. Daí que haja evidência deles mais em representações no âmbito do trabalho de criação, designadamente no cinema documental, do que através da visão do mundo veiculada nas narrativas mainstream. Um exemplo é o documentário do holandês Johaan Van Der Keuken intitulado Face Value – um ensaio sobre o valor da palavra, a paisagem do rosto e a semântica do gesto – no qual, num dos quadros, operários da ex-RDA manifestam o seu incómodo face à incerteza trazida pela nova ordem económica. Tratando-se de uma obra despida de intuitos proclamatórios, Face Value, um filme de 1991 rodado em vários países, é uma reflexão pioneira sobre a nova Europa, dando indícios, já nessa altura, de problemas, hoje, na ordem do dia. Lá está, também, um apontamento incisivo sobre a Frente Nacional de Jean-Marie Le e os seus apoiantes.

Obviamente, o erro de Fukuyama não desmerece o tremendo simbolismo da queda do muro de Berlim. Representou não só o fim da Guerra Fria, mas também das ilusões que pudessem ainda subsistir em relação à bondade de um socialismo de cariz totalitário, no qual pouco restava da utopia fundadora. Gorbachov percebeu isso e quis mudar de rumo. Demasiado tarde. O socialismo real tinha deixado pelo caminho o poder de atração do pós-guerra, quando a União Soviética emergiu como a grande vencedora do nazi-fascismo e, de certa forma, inspirou a construção do estado social na Europa. O caminho para a derrocada atravessou alguns episódios determinantes. A revolta na Hungria em 1956, a Primavera de Praga em 1968 e o movimento do Solidariedade na Polónia nos anos 80, deram indicações sobre a incapacidade de Moscovo responder aos desafios que nos países sob a sua influência lhe iam sendo colocados. Concomitantemente, a partir da divulgação do relatório secreto de Krushev durante o XX Congresso do PCUS, também em 1956, avolumaram-se as suspeitas, posteriormente confirmadas, sobre o período estalinista e o seu cortejo de atrocidades. Quando o muro caiu, a União Soviética era um gigante com pés de barro, um corpo minado por contradições internas incapaz de lidar dialeticamente com o mundo e, como tal, sem a vitalidade cidadã indispensável à construção de uma sociedade dinâmica.

Berlim, Checkpoint Charlie

Todavia, a época dos grandes consensos preconizada por Reagan e, também, pelos Bush, pai e filho, apesar do ponto de partida promissor, não foi muito além de uma ideia. A leste, a imposição de um capitalismo de choque e de uma economia de saque nas mãos de oligarquias corruptas, depressa suscitou interrogações sobre os limites da democracia liberal. É certo que a generalidade desses países passou a integrar a União Europeia e adotou formalmente o figurino político exigido. Mas também é certo que foi no eixo de Visegrado que se verificaram, e verificam, as mais graves disfuncionalidades traduzidas na emergência meteórica de populismos de extrema direita com via aberta para governos autocráticos de que a Hungria e a Polónia são casos paradigmáticos. É grave, mas não surpreendente. O Partido Popular Europeu (PPE) tende a desvalorizar estes movimentos, olha-os com condescendência e até lhes dá a mão quando se trata de agitar o fantasma do comunismo para consolidar posições ultra conservadoras como sucedeu na Ucrânia. De resto, ainda agora, numa Alemanha que continua dividida em duas realidades assimétricas, perante os resultados eleitorais na Turíngia, onde o Partido da Esquerda (Die Linke) ganhou sem maioria absoluta, a CDU regional não teve problema em sugerir à senhora Merkel um entendimento com os neonazis da Alternativa para a Alemanha (AFD). Quanto à família socialista e social democrata, se não se lhe podem assacar responsabilidades do mesmo grau, a verdade é que também ela, ao sucumbir à miragem neoliberal, tem contribuído para o estado das coisas. E, diga-se, para o seu próprio definhamento. É uma história antiga que vem do tempo de Tony Blair.

Uma vez mais, é no campo das representações exteriores à retórica mediática que se encontram as reflexões mais penetrantes sobre este percurso, seja através de oportunas e esclarecedoras incursões no passado, seja por via da interpelação não convencional do presente. Nessas obras não estão diretamente em causa nem a política, nem a economia, nem a estatística. Sob foco estão a memória e o esquecimento, as pessoas, personagens e situações dadas a conhecer através de narrativas autorais que acrescentam conhecimento ao conhecimento através da imaginação criadora. Por exemplo, em Taurus (2001) o cineasta russo Aleksandr Sokurov faz uma abordagem soturna dos últimos dias de Lenine e um inquietante retrato psicológico de Estaline, explorando a ambiguidade da relação entre os dois líderes e suscitando a dúvida sobre o rumo da Revolução. Outro russo, Nikita Mikhalkov recupera em O Sol Enganador (1994) a figura trágica do general Kotov, um dos favoritos de Estaline, caído em desgraça sem noção das acusações de que era alvo. Numa outra perspetiva, em Toni Erdmann (2016) a alemã Maren Arden trabalha alegoricamente sobre a metamorfose da conjuntura socialista em economia capitalista a partir de citações subtis e divertidas da obra prima de Stevenson O Médico e o Monstro. Mestre do realismo, o britânico Ken Loach observa nos seus filmes, designadamente Eu, Daniel Blake (2016) o desespero do homem comum, indefeso, perante a falência dos serviços públicos resultante da degradação do estado social no Reino Unido. E Christian Petzold, provavelmente o maior cineasta alemão contemporâneo, sempre às voltas com a questão da identidade, coloca em Transit (2018) uma Europa de novo em guerra e uma França ocupada pelos fascistas. Naturalmente, os exemplos poderiam multiplicar-se.

Taurus (2001) de Alexander Sokurov

Na literatura há, também, diversos exemplos do modo como os artistas olham o mundo, transformando-o, para lhe acrescentarem um novo sentido e, porventura, proporcionar uma leitura e reflexão com potencial prospetivo. Talvez o caso mais interessante seja o da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievich, autora de Vozes de Chernobyl, o livro que deu origem à notável série televisiva com o mesmo nome. Vencedora do prémio Nobel da Literatura de 2015, Svetlana Aleksievich desenvolveu um projeto literário chamado Vozes da Utopia constituído por cinco romances, entre os quais se destaca O Fim do Homem Soviético. É uma obra polifónica, de rara concisão artística, construída a partir de testemunhos de centenas de homens e mulheres sobre os velhos e os novos tempos no território da antiga URSS. Sem explicar nem tomar partido, expõe as expectativas dos protagonistas, convoca as suas memórias, emoções e afetos e cria um mosaico policromático da Rússia de Putin, no qual se faz o ajuste de contas com o passado e onde, apesar de tudo, sobra do colapso do comunismo o homem soviético.

Nos últimos 30 anos o mundo mudou radicalmente e mudaram de igual modo as representações que dele se fazem. A crise de credibilidade da narrativa dos media tradicionais, o impacto da tecnologia digital na multiplicação praticamente ilimitada de mensagens e a disseminação orquestrada de fake news com vista à construção de um presente orwelliano, tudo isso abriu portas a uma entropia comunicacional sem precedentes. Daí, também, a pertinência da imaginação criadora enquanto elemento essencial para a organização do mundo através da visão singular dos artistas. Sem ela, qualquer balanço será, portanto, precário e lacunar, uma vez que lhe faltará a espessura dramática da humanidade na sua diversa condição. Mas, obviamente, este enfoque exige a historicidade e um contexto. Voltemos então à mudança e à sinalização final de tópicos de um balanço possível.

Pela reconfiguração do mapa geopolítico após a queda do muro de Berlim, no quadro de uma globalização vertiginosa, passaram o reposicionamento estratégico dos Estados Unidos, a reivindicação por parte da Rússia do estatuto de grande potência e, sobretudo, o crescimento colossal da China a caminho da hegemonia global. A participação da União Europeia nesta mudança é controversa e, em alguns aspetos, desoladora. Na ânsia de isolar a Rússia contribuiu para o regresso das taras da Guerra Fria. Envolveu-se a fundo nos Balcãs. Não foi capaz de ajudar a encontrar soluções equilibradas para os antigos países do leste, optando por legitimar uma privataria cujas consequências sociais trouxeram a desconfiança tanto face a Bruxelas quanto a dirigentes incapazes de compreender os problemas das pessoas e, nessa medida, contribuiu para o vazio preenchido pelo populismo. Foi cúmplice de guerras que destruíram países como o Iraque e a Líbia e criaram vagas de refugiados a reboque de uma política americana que cinicamente justificou as intervenções militares em nome da democracia e da liberdade. Perante o ressurgimento da xenofobia, do racismo e do fascismo optou pela relativização quando não enveredou pelo grotesco histórico como fez ao equiparar nazismo e comunismo. Apoiou golpes militares, como acaba de suceder na Bolívia, enquanto mantem reserva, por exemplo, sobre a repressão brutal no Chile. Sobre a emergência climática, à penúria das medidas sobram as palavras. Há uma razão para este desconcerto? Há várias. A primeira é a adoção do modelo económico neoliberal e os alinhamentos daí decorrentes.

Edgar Morin, numa entrevista recente à RTP, comparou a União Europeia a um esqueleto vazio. Não se deve deitar fora o esqueleto, disse ele, mas é preciso dar-lhe vida. Sou da mesma opinião. Mas para isso é preciso encontrar o músculo, a carne, a cabeça e, sobretudo, o coração que a Europa não teve com a Grécia e não tem com os refugiados. Se isto falta é porque as forças políticas maioritárias, no fundo, subscrevem o pensamento mágico de Fukuyama e insistem num modelo de desenvolvimento que compromete o estado social, reincide em privatizações desastrosas, gera iniquidade, agrava clivagens, resolve a favor dos mais fortes, desmobiliza a esperança, desinveste na cultura e, como tal, inevitavelmente, alimenta a pulsão populista. Vamos ver até quando. Afinal, também há lutas. Afinal, até Fukuyama mudou de opinião...

Jorge Campos


Publicado in Forum Demos, 2019

 
 
 
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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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