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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

NDR

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 16 de out. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de mai. de 2025


Jack Butler Yates - The Riverside (Long Ago), 1922
Jack Butler Yates - The Riverside (Long Ago), 1922


"Think you're escaping and run into yourself.

Longest way round is the shortest way home."


James Joyce (Ulysses) dublin, temple bar


enfrento os vagares do tempo nas ruas de dublin como se um anjo em nome dos aflitos me tivesse dito é tarde e de mãos nos bolsos se afastasse súbito numa poeira de estrelas deixando um rasto de cinza e bruma esparsa, talvez um sinal da luz esvaída do princípio da incerteza. anoitece cedo aqui no inverno da irlanda, não será por isso assim tão tarde, não sei. mas faz frio e levanto a gola do casaco, enrolo o cachecol à volta do rosto e nesse voo incerto dos meus braços cabe a memória imprevista de um rumor de palavras ciciadas, do fulgor bravio de marés antigas, do frémito dos pequenos peixes rápidos como as tuas mãos errantes sobre o lado vulnerável do meu corpo em arco na frágil lua do teu ventre. as luzes de dublin acendem arabescos furtivos nos espelhos da água e como pincéis de chuva intermitente desenham aguarelas imprecisas à passagem dos meus passos por estas ruas molhadas onde, numa delas, deslumbrado, por certo verei o clarão do temple bar na noite de estreia do messias de handel, 13 de Abril de 1742. tal como no cinema também tudo aqui é espaço e tempo, em campo ou fora dele, imagem e movimento. mas olha, ouve, eu apenas quisera adivinhar a direcção do vento para nela saber do rumo dos teus flancos desferindo golpes doces e violentos ou fazer-me pedreiro dos segredos da pedra para nela perpetuar a luz do sol do teu sorriso e assim, artífice de mim mesmo, dizer-te sou outro agora, no entanto, ainda o mesmo. já da noite se escapam os farrapos dos primeiros alvores do dia e em norht earl street vejo um outro apressado de mãos aflitas enterradas nos bolsos do casaco dobrando a esquina do tempo num rasto de cinza e melancolia sem saber que eu, tendo um joyce de pedra por companhia, dele ouço estas palavras que bem conheces:


toca-me. suaves olhos. suave, suave, suave mão.



Inverno de 2010

 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 12 de out. de 2020
  • 1 min de leitura

Atualizado: 1 de set. de 2022


Andrew Wyeth - Wind from the Sea, 1947

em setembro, observa sem temor o deslizar das primeiras nuvens, a silhueta das cidades vivas na respiração da pedra, a brisa onde amanheceste tocado pela graça do mar como se um veleiro te levasse marinheiro nas asas de um azul intenso. não temas as águas agitadas, nem a variável inclinação do poente, tão pouco a palavra suspensa sob o vazio súbito do silêncio. olha as mãos onde guardas os segredos do vento: elas dir-te-ão sobre os labirintos da memória e as declinações do tempo. navegante de tantos sortilégios, em breve sentirás na pele o fulgor das águas correndo na direcção da nascente. saberás, então, o sentido de setembro.  




setembro de 2010

 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 6 de out. de 2020
  • 1 min de leitura

Atualizado: 1 de mai. de 2025


William Turner - Seascape with Storm Coming On, 1840
William Turner - Seascape with Storm Coming On, 1840

faz calor. caminho como se a luz do dia, indiferente à volta dos passos, mergulhasse a prumo no horizonte dos meus dias. respiro nas dunas o murmúrio do vento, memórias de um rosto de marinheiro tão atento aos desafios e mistérios do mar. sob o sol de azul intenso, uma gaivota. e uma casa desabitada de paredes brancas, corroída pelo sal do tempo, que um dia foi minha. aí nasci de mãos errantes, de um rumor de lua nova, sob o imponderável signo de perder-me, talvez, felino de mim mesmo. aí soube das águas do rio ainda os dedos tocavam estrelas em florestas densas de pássaros cumprindo noites de insónia e dias felizes. aí aprendi o côncavo dos seios e o convexo do sexo como quem no corpo declina a palavra maravilha. sendo muitos, tive por companhia o medo sombrio da loucura, a loucura luminosa da paixão, a paixão indomável da procura, a procura sonhada dos meus sonhos. agora, estou só, diante do mar. caminho ainda. pode o calor atenuar a erosão da pele, iludir o declínio do rosto e ocultar o abandono das mãos, mas já o crepúsculo cai sobre a casa dos meus dias, e a gaivota, ferida de azul, alonga o seu voo na distância e o silencioso tigre no seu labirinto, pondera: em breve mal distinguirei as silhuetas do amor e da morte. assim é o tempo, absoluto e final.



2011

 
 
 
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Criado por Isabel Campos 

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Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

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Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

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