top of page

CULTURA

The Wizard of the Kremlin: Putin, o equívoco de Assayas (e o de Kiev) 

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • há 8 horas
  • 9 min de leitura

 

 

The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas foi recebido com severas críticas pelos media e autoridades da Ucrânia. Vladimir Putin, ao que é dito, aparece ao estilo de James Bond, o que faz dele uma figura glamourizada, distante da imagem de criminoso de guerra prevalecente no país. Para a plataforma governamental United24 Media, o filme reforça a propaganda de Moscovo, no sentido em que promove e alimenta a sua mitologia. Por seu turno, The Kyiv Independent, através dos seus diferentes canais, sustenta que a fetichização de Putin faz dele uma figura aceitável. A imprensa russa no estrangeiro, ligada à oposição não sistémica, faz coro. O Novaya Gazeta Europe começa a sua crítica dizendo que o filme faz a apologia do Kremlin. Os exemplos poderiam multiplicar-se, Afinando todos pelo mesmo diapasão. Na opinião da maioria da crítica europeia, porém, o problema do filme não é a imagem de Putin. The Wizard of the Kremlin é visto, sobretudo, como um filme falhado.

 

 The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas foi criticado pela Ucrânia como sendo uma peça de propaganda pró-russa. Meanwhile in Ukraine, um site vocacionado para juventude, insurgiu-se contra Paul Dano por este ter afirmado, sobre Putin, que as pessoas não são a preto e branco. Meanwhile in Ukraine publicou imagens de destruição associadas à figura do líder russo e acusou o filme de Olivier Assayas de branquear responsáveis por crimes de guerra. Imagem: tiff
The Wizard of the Kremlin (2025) de Olivier Assayas foi criticado pela Ucrânia como sendo uma peça de propaganda pró-russa. Meanwhile in Ukraine, um site vocacionado para juventude, insurgiu-se contra Paul Dano por este ter afirmado, sobre Putin, que as pessoas não são a preto e branco. Meanwhile in Ukraine publicou imagens de destruição associadas à figura do líder russo e acusou o filme de Olivier Assayas de branquear responsáveis por crimes de guerra. Imagem: tiff

 

Lá iremos. Para já fica uma nota. Poderá parecer exagero, mas a atenção prestada à cultura por parte do regime de Kiev com o intuito de promover os seus valores identitários chega a ser absurda. Recentemente, dois famosos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado, Serhiy Kryvokon e Natalia Matsak, foram ameaçados pelo governo de despedimento e cancelamento das respetivas carreiras, bem como de mobilização para a frente de combate. A infração dos bailarinos, durante uma digressão da companhia, foi terem ousado dançar um segmento de O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky. Segundo o Ministério da Cultura tratou-se de um ato intolerável de “promoção da cultura do estado agressor.”

 

Esta notícia, dada à estampa em The Spectator (link no final do texto), é uma raridade na nossa imprensa. Habitualmente ocupados com agendas de outro tipo, os media ocidentais passam ao lado de uma questão essencial, ou seja, as políticas culturais são como que um caso de vida ou de morte para o regime de Kiev. Delas depende, com efeito, a criação do “novo imaginário coletivo”, sustentáculo da ideia de Nação. Em qualquer circunstância, Putin deve de ser representado como o mal absoluto. Não o sendo, está-se perante propaganda russa. Por isso, segundo o critério de Kiev, The Wizard of the Kremlin teria de ser excomungado. Do ponto de vista político, porém, dificilmente qualquer observador mais distanciado deixará de ver nele uma crítica – ou um alerta – em relação a Putin. Nesse sentido, aliás, é até bem mais explícito do que a a obra literária homónima de Giuliano da Empoli, na qual se baseia.

 

O enigma Vladimir Putin

 

O Mago do Kremlin, romance de estreia de Giuliano da Empoli publicado em 2022, ainda antes do início da guerra na Ucrânia, é um daqueles livros que se lê de uma assentada. Não será uma obra-prima, mas é extremamente interessante. O autor conhece bem os bastidores do poder, o mundo da comunicação e o procedimento dos chamados spin doctors. Foi conselheiro principal de Matteo Renzi, primeiro ministro italiano entre 2014 e 2016. Escreveu também um livrinho muito útil, intitulado Os Engenheiros do Caos (2023), onde expõe a produção algorítmica de teorias da conspiração e fake news levada a cabo pelas milícias digitais do submundo populista.

 

A maioria dos europeus terá uma ideia negativa da Rússia, ou seja, a ideia quotidianamente veiculada por media convencionais. Com agendas orientadas no sentido da criação de um inimigo externo, reforçadas pelo espartilho de um casting de comentadores alinhados e, para efeito de legitimação, com contraditório residual, ao sistema mediático compete consolidar e amplificar o senso comum, entretanto, fabricado. Em Portugal, onde o apoio à Ucrânia, apesar de alguma perda, se mantem o mais elevado da Europa, é frequente a recusa de sequer discutir o que possa ser a perceção russa do conflito. Falar sobre a Rússia ou falar sobre Putin é algo incómodo, até por se considerar que o juízo está feito. E bem feito. De passagem, Portugal é também um dos países europeus com maior índice de iliteracia mediática.

 

Ora, o livro de Giuliano da Empoli, mesmo para quem interiorizou o ponto de vista corrente, não desilude. Tem varandas de onde, eventualmente, os opositores de Putin podem tombar, oligarcas caídos em desgraça, redes mafiosas, sugestões de veneno quanto baste e as inevitáveis personagens de nacionalistas extremos montados em ruidosas motos de alta cilindrada. Face à oferta das narrativas dadas como adquiridas, contudo, introduz algumas variações, desde logo, percetíveis no estilo do autor. O texto é elegante, revelador de uma subtil ironia. Surpreende. Afasta-nos, sem molestar, das evidências do nosso contentamento cognitivo. Insinua algumas nuvens.

 

Giuliano da Empoli, começa por falar de Zamiatine, o autor de Nós (1922), distopia que antecipa Huxley, Orwell e Badbury, antes de mergulhar nos bastidores do Kremlin através de Vadim Baranov. A referência a Nós sugere a ideia de construção de uma sociedade ideal, perfeita, todavia, potencial incubadora totalitária, embora não necessariamente estalinista como, por vezes, se diz. Zamiatine, um bolchevique que deixaria a União Soviética incompatibilizado com o regime para se fixar em França, escreveu a sua obra nos anos 20 do século passado, portanto, ainda antes de Estaline se tornar líder supremo. De qualquer modo, deixar em suspenso a ideia central de Nós é fulcral na criação da atmosfera literária de O Mago do Kremlim. Como veremos, não tem correspondência no dispositivo cinematográfico do filme de Olivier Assayas.


 

 Giuliano da Empoli e Olivier Assayas na Fondation Michalski, 7 de janeiro de 2026. Atentando ao que são o livro e o filme, o diálogo poderá não ter sido fácil no sentido de encontrar as melhores soluções para o argumento no qual participou, também, Emmanuel Carrère. Imagem: Le Temps
Giuliano da Empoli e Olivier Assayas na Fondation Michalski, 7 de janeiro de 2026. Atentando ao que são o livro e o filme, o diálogo poderá não ter sido fácil no sentido de encontrar as melhores soluções para o argumento no qual participou, também, Emmanuel Carrère. Imagem: Le Temps

 

No livro, como no filme, Vadim Baranov é o homem a quem coube construir a persona do Czar. Impassível, fria e distante. A personagem Baranov, alguém cuja família fez parte da elite comunista, é inspirada em Vladislav Surkov, a sombra de Putin na vida real. Ideólogo da “democracia soberana”, intelectual com vários livros publicados, afastado dos corredores do poder desde 2020, Surkov continua ativo e, à semelhança de outras figuras destacadas da sociedade russa, é motivo de especulação. Dedica-se à literatura, intervém publicamente e manifesta-se a favor da expansão da Rússia como o fez, há não muito tempo, numa entrevista concedida ao L’Express. Em março de 2026 surgiram rumores, até ver sem confirmação, de que teria saído do país.

 

O relato sobre o percurso de Putin feito por Baranov ao narrador de O Mago do Kremlin, alter ego de Giuliano da Empoli, é sinuoso, enigmático e deixa no ar múltiplas hipóteses de interpretação. Outras personagens, como Boris Berezovsky e Mikhail Khodorkovsky, oligarcas caídos em desgraça, tomam o nome da vida real. O primeiro, um potentado mediático, julgou poder fazer de Putin um executor das suas ordens. O segundo, dono da poderosíssima petrolífera Yukos, associada a interesses americanos, terá pensado o mesmo. Baranov fala ainda da ascensão dos novos oligarcas, os Siloviky, cuja origem está no círculo dos serviços de segurança próximo de Putin.

 

Com estes elementos, aos quais junta personagens inventadas envolvidas na volatilidade das relações pessoais determinada pela vertigem do dinheiro, dir-se-ia que Giuliano da Empoli constrói uma narrativa que confirma a ideia de não haver nada como a ficção para tornar verosímil uma história baseada no real porque, justamente, estimula a imaginação. Infelizmente, a adaptação cinematográfica, apesar do esforço e das boas intenções, faz prova de que nem sempre um livro inteligente dá lugar a um filme de mérito semelhante.

 

Olivier Assayas: fidelidade ao texto e armadilha do senso comum

 

Com efeito, por razões que se prendem com a adaptação, se o filme não vira tudo do avesso, anda lá perto. É pena e não deixa de ser um paradoxo. A sombra de Zamiatine a pairar desapareceu. É verdade que Assayas procurou seguir fielmente, ou quase, o argumento escrito por ele próprio e por Emmanuel Carrère, um escritor premiado. Contou, inclusivamente, com a consultoria de Giuliano da Empoli. Tendo reunido as melhores condições para levar a cabo a empreitada, então, como explicar o malogro? Desde logo, a tentativa de fidelidade ao texto literário parece ter entrado em rota de colisão com o dispositivo cinematográfico.

 

Literatura e Cinema, a palavra e a imagem, prosseguindo embora caminhos distintos, convivem bem desde que os respetivos códigos e figuras de estilo sejam compagináveis em termos de criar algo de diferente, habitado por energia renovada. É o caso de dois filmes que estrearam em sala na mesma altura do filme de Assyas e, daí, a comparação. São eles One Battle After Another (2025) de Paul Thomas Anderson, uma adaptação livre feita por ele próprio do romance Vineland (1990) de Thomas Pynchon e, em diferente escala, L’ Étranger (2025) de François Ozon, com argumento também da sua autoria, baseado na obra homónima de Albert Camus de 1942. Do ponto de vista cinematográfico, o que os distingue de The Wizard of the Kremlin é a coerência da textualidade. Onde Paul Thomas Anderson e François Ozon deixam a impressão digital indicativa de maturação de uma ideia, Assayas salta de registo em registo, parecendo até, a partir de determinada altura, sucumbir à estética das séries televisivas. Não seria uma novidade. Em 2010 o seu filme Carlos, o Chacal, sobre o ativista venezuelano de extrema-esquerda acusado de atos terroristas e um dos homens mais procurados do mundo, estreado no Festival de Cannes desse ano, resultou de uma minissérie feita para a televisão com três episódios de duas horas cada. The Wizard of the Kremlin, embora sem a chama de Carlos, navega nas mesmas águas, só que em sentido inverso. A minissérie poderia, ou poderá, vir a seguir.

 

Por outro lado, por razões de distribuição, o filme é falado em inglês, ainda que alguns protagonistas surjam com sotaque ou entoação de russo, como se queira. Ter Vladimir Putin, bem composto por Jude Law, a falar nesse idioma, cola mal. E a situação piora com Paul Dano no papel de Vadim Baranov, posto que ao ator americano cabe a narração dos 30 anos de percurso do líder russo, a maior parte do tempo em voice over. Fá-lo em récita apurada, com inflexões que ora sublinham a ambiguidade ora sugerem e sedução, adotando o tom do titereiro ou do ilusionista manipulador. Uma voz educada e uma dicção perfeita em inglês retiram autenticidade, mesmo tendo em conta o aparente intuito do cineasta de produzir um ensaio reflexivo sobre os meandros do poder, eventualmente, extravasando do caso de Putin. Assayas, diga-se de passagem, é um dos cineastas cujo olhar melhor tem vindo a revelar as perplexidades do século XXI. Lembremos, a título meramente exemplificativo, Demonlover (2002) ou Personal Shopper (2016).

 


A polémica que estalou a propósito The Wizard of the Kemlin, na Ucrânia, bem como em círculos pró-ucranianos não terá apanhado de surpresa o cineasta Olivier Assayas. Tão pouco os atores Jude Law (Putin) e Paul Dano (Baranov). Law foi acusado de criar um Putin simpático. Dano de promover a mitologia russa. Os primeiros sinais surgiram ainda antes do início da rodagem. Sendo praticamente impossível fazer o filme em Moscovo, a produção conseguiu a autorização da Letónia. No entanto, este país, manifestando preocupação pelo desfecho, decidiu não participar no financiamento. As autoridades ucranianas, por seu turno, fizeram sentir que queriam uma condenação inequívoca de Putin.
A polémica que estalou a propósito The Wizard of the Kemlin, na Ucrânia, bem como em círculos pró-ucranianos não terá apanhado de surpresa o cineasta Olivier Assayas. Tão pouco os atores Jude Law (Putin) e Paul Dano (Baranov). Law foi acusado de criar um Putin simpático. Dano de promover a mitologia russa. Os primeiros sinais surgiram ainda antes do início da rodagem. Sendo praticamente impossível fazer o filme em Moscovo, a produção conseguiu a autorização da Letónia. No entanto, este país, manifestando preocupação pelo desfecho, decidiu não participar no financiamento. As autoridades ucranianas, por seu turno, fizeram sentir que queriam uma condenação inequívoca de Putin.

 


Verdade se diga, apesar da estranheza causada pela língua, The Wizard of the Kremlin, até começa bem. Na primeira parte do filme há uma voz interior que transita do livro adequada à construção do que parece servir também à atmosfera do filme, ainda que o jornalista e especialista em literatura russa (Jeffrey Wright), que vai ao encontro de Baranov, adote mais a atitude de quem julga do que a de quem quer ouvir, como sucede no livro. As cenas das orgias moscovitas após o colapso da União Soviética são um pastiche em modo kitsch, todavia, não inadequado, servindo tanto para caracterizar simbolicamente o tempo histórico quanto para introduzir, por razões dramáticas, a personagem de Ksenia (Alicia Vikander), indispensável ao retrato do modo de vida da oligarquia. O testemunho de Baranov, por sua vez, deixa situações em suspenso, como se exigisse ao interlocutor um esforço para preencher lacunas e omissões.

 

Porém, na segunda metade, há acentuada mudança de ritmo. A narração torna-se gradualmente mais explícita e as cenas passam a organizar-se em blocos temáticos colocados uns a seguir aos outros, aproximando-se da estética televisiva. Espartilhado pela palavra, arrastando-se refém dos diálogos e da voice over, o filme cede na respiração da imagem. A dada altura, Assayas põe Baranov a dobrar um arame, de um lado para o outro, até partir, supostamente uma metáfora destinada a sugerir o enviesamento de um sistema condenado. Tudo passa para o domínio do óbvio. Os oligarcas, transportados da vida real, vestem o fato que todos lhes conhecem, marcados para morrer, e o próprio Baranov, num derradeiro golpe de canhoeira retórica, acaba executado com um tiro na nuca. O tiro sentencia a sorte do filme.

 

Nenhum argumento invocado em nome de uma qualquer alegoria consegue ocultar o desconchavo da solução. Se o livro é uma crítica eficaz, porque subtil e inteligente, do regime russo, o filme acaba por desembocar num desfecho de guignol. Perde-se o olhar oblíquo sobre a construção da persona de Putin, o incentivo à reflexão, o estímulo à curiosidade. Ganha o senso comum, sempre previsível, que só pode agradar a quem tiver necessidade de reforçar a ideia de malignidade absoluta do senhor do Kremlin, mesmo se for à margem do cinema.

 

Nota final. Só quem estiver completamente a leste do que é o chamado Renascimento Cultural Pós-Maidan estranhará quer as reações de Kiev quer as de diversos círculos e organizações pró-ucranianas. (Ver apontamentos neste blogue sobre a Ucrânia).



 

 

 

 

Obs. Sobre o cancelamento dos bailarinos Serhiy Kryvokon e Natalia Matsak, ler aqui.

 

Comentários


Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

Iluminação Camera

 

Ensaios, conferências, comunicações académicas, textos de opinião. notas e folhas de sala publicados ao longo de anos. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes quando se justificar.

Estático

Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

televisão sillouhette

Atualidade, política, artigos de opinião, textos satíricos.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

bottom of page