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Atualizado: 22 de out. de 2023

O Coronel Frank Capra do US Army Signal Corps (à direita), com o Capitão Roy Boulting da British Army Film em 24 de fevereiro de 1944 Fonte: TIME

“Film is a disease. When it infects your bloodstream, it takes over as the number one hormone; it bosses the enzymes; directs the pineal gland; plays Iago to your psyche. As with heroin, the antidote to film is more film.”

Frank Capra


A demonização do inimigo é a técnica de propaganda mais antiga ao serviço da guerra. É necessário que o inimigo suscite ódio e repulsa, seja desumanizado ao ponto do seu extermínio ser não apenas um desígnio meritório, mas também um acto probatório da superioridade moral de quem o pratica em nome dos valores de uma ordem superior. A guerra exige o reconhecimento, sem lugar para a dúvida, do campo dos bons e do campos dos maus. Nos filmes de propaganda nazi, os judeus foram equiparados às ratazanas dos esgotos, à pestilência portadora da doença, em última instância, a uma ameaça global capaz de destruir a civilização. Os judeus deviam ser exterminados. Em contrapartida, o oficial SS, impecável no seu elegante uniforme negro criado por Hugo Boss, representava o padrão racial mais elevado, o glamour purificador da guerra, o modelo a seguir na edificação do império de mil anos, saudável e feliz. O oficial SS tinha a missão de exterminar. Durante a II Guerra Mundial, em maior ou menor escala, todos os beligerantes fizeram uso dessa técnica de propaganda negra. Há inúmeros exemplos. Um deles, a propósito da guerra no Pacífico, é o documentário Know You Enemy: Japan (1945) de Frank Capra com assessoria de Joris Ivens, cuja caracterização do povo japonês, de tal modo infame, acabaria por incompatibilizar cineastas e Forças Armadas, inviabilizando a exibição do filme em tempo útil. De qualquer modo, com ou sem demonização, o cinema de propaganda anglo-saxónico produziu grandes filmes. Entre todos, destaca-se o notável seriado documental Why We Fight da responsabilidade de Frank Capra. Dele falaremos adiante.

Nota prévia. Os anos da II Guerra Mundial são fundamentais para se compreender a evolução do filme documentário, bem como as razões pelas quais a matriz anglo-saxónica se impôs como referência num contexto em que o campo dos media, e não apenas o Cinema, teve um papel determinante. No Canadá, a produção, em boa parte jornalística, foi praticamente um exclusivo do National Film Board. Na Grã-Bretanha, coabitaram diversas unidades de produção, destacando-se a Crown Film Unit com diversos filmes ainda hoje referenciados entre os mais interessantes. Nos Estados Unidos, realizadores de Hollywood como William Wyler, John Huston, George Stevens, John Ford, Frank Capra e outros mais alistaram-se nas Forças Armadas por dever patriótico. Entre eles fizeram documentários memoráveis. De tal modo que, nalguns casos, viriam até a ser considerados inadequados aos fins para os quais haviam sido concebidos porque, além de muito bem feitos, simplesmente mudavam o foco para o absurdo da guerra em si mesma e a necessidade de fazer a paz.


Know Your Enemy: Japan (1945), atribuído a Frank Capra e Joris Ivens, cujos nomes não aprecem, no entanto, nos créditos. O mesmo sucede, aliás, com os nomes dos argumentistas Carl Foreman e John Huston, bem como dos actores John Beal, Howard Duff e Walter Huston que dão as vozes ao filme. Brilhantemente executado, Know Your Enemy joga com preconceitos raciais e estereótipos da cultura japonesa para fazer um retrato aterrador do Japão e do seu povo. Muitos anos banido dos ecrãs, quando voltou a ser exibido incluía, e inclui, logo no início a seguinte advertência: “This program is considered of historical value and does not necessarily reflect current policy or plans of the sponsoring agency.” Fonte: IMDb

Aliados na linha da frente da propaganda


Canadá: uma guerra para newsreels, não para documentários. Voltemos ao escocês John Grierson. Ele não se limitou a institucionalizar o movimento documentarista britânico. A sua acção e princípios orientadores fizeram sentir-se, em maior ou menor grau, por todo o mundo de língua inglesa. No Canadá, lançou a sua iniciativa mais espectacular, o National Film Board (NFB). Os primeiros contactos de Grierson com o governo canadiano datam de 1937. No ano seguinte, foi convidado a elaborar um parecer sobre a possibilidade de utilizar o cinema de modo similar ao do Reino Unido. O ponto de partida e principal objectivo era melhorar o relacionamento entre os cidadãos e as instituições, bem como projectar uma imagem positiva do país no mundo. Tendo sido aceites suas recomendações, baseadas nas experiências do Empire Marketing Board, General Post Office e Film Centre (ver neste blogue os textos respeitantes ao Movimento Documentarista Britânico), o Parlamento canadiano legislou no sentido de criar o National Film Board (NFB). Não havendo, na altura, ninguém qualificado, com experiência bastante para assumir a direção, a escolha acabou por recair no próprio Grierson que assumiu funções em Outubro de 1939.


Contando com o apoio do primeiro ministro Mackenzie King, Grierson começou por rodear-se de alguns dos profissionais de maior notoriedade à época, alguns deles seus colaboradores nas ilhas britânicas, casos de Stuart Legg, Norman McLaren, Raymond Spottiswoode e Evelyn Spice. Dos Estados Unidos vieram o argumentista e produtor Irving Jacoby e o director de fotografia Roger Barlow. Da Holanda, Joris Ivens e John Ferno. De França, Boris Kauffman, famoso documentarista e operador de câmara, irmão de Dziga Vertov. Ao fim de um ano, o grupo, ao qual se foram juntando novos elementos, já tinha não apenas produzido e realizado quarenta filmes, mas, também, criado uma verdadeira escola onde os jovens talentos iam fazendo a sua aprendizagem.


De um modo geral, segundo opinião ainda hoje prevalecente, estes filmes, apesar dos nomes envolvidos, perdiam para os ingleses e americanos, cujos padrões qualitativos se revelavam mais exigentes. Duas razões terão contribuído para tal. Em primeiro lugar, embora criado ainda em tempo de paz, o National Film Board foi confrontado, logo a seguir, com a urgência inerente às tarefas determinadas pela guerra. Em segundo lugar, Grierson, um estudioso e profundo conhecedor dos media, via nos programas de carácter jornalístico a forma mais eficaz de dar resposta em tempo útil aos problemas de um dia a dia marcado pela guerra.


Churchill’s Island (1941) de Stuart Legg, um documentário de 22’00 sobre a Batalha da Inglaterra, terá sido um dos filmes que mais contribui para impor World in Action do NFB do Canadá como um dos jornais de actualidades mais vistos no mundo. O documentário, feito essencialmente com material de newsreels, ganhou um Oscar da Academia. Fonte: daFilms.com

Daí a prioridade atribuída a dois seriados informativos, Canada Carries On e World in Action, de grande êxito junto do público. Este último, sob a orientação de Stuart Legg, chegou a competir em popularidade com March of Time à escala global. Para tanto, terá sido determinante a voz de Lorne Greene, segundo o juízo da época, mais rica e profunda do que a de Westbrook Van Voorhis, o famoso narrador de The March of Time (Ver neste blogue artigo respeitante aos Anos de Ouro das Actualidades Cinematográficas). No entendimento de Ellis e McLane, historiadores e teóricos do cinema documental, Grierson, um estudioso do campo dos media, acreditava estar perante uma guerra para newsreels, não para documentários. Dito de outro modo, os sinais do tempo requeriam mais a rudeza e imediatismo da reportagem do que o refinamento da arte cinematográfica.


Reino Unido: entre a ficção e o documentário. Em Londres, dois dias após os exércitos de Hitler terem invadido a Polónia, o primeiro-ministro Neville Chamberlain, que não há muito regressara de uma visita a Berlim exibindo uma declaração na qual o Führer se comprometia a não desencadear qualquer acto de agressão, declarou guerra à Alemanha. De início, a atitude dos ingleses não foi muito diferente daquela que o seu governo tivera quando, contra todas as evidências, durante muito tempo, preferiu contemporizar com o III Reich a pretexto de defender a paz. Na verdade, os ingleses, dado o estado calamitoso das suas forças armadas, também precisavam de ganhar tempo. Por isso, enquanto os nazis andaram longe das ilhas gerou-se uma atitude de expectativa, sem grandes sobressaltos. Mas, à medida que a Blitzkrieg avançava e, sobretudo, quando a França capitulou no Verão de 1940, o estado de ânimo da população britânica mudou.


Após a declaração de guerra de Chamberlain, tornou-se claro que o cinema teria um papel a desempenhar. À semelhança da generalidade dos países europeus, as salas do Reino Unido tinham sido invadidas por filmes de Hollywood e pelas suas estrelas. Pontualmente, podiam ser mencionados exemplos de trabalhos interessantes de jovens realizadores como Alfred Hitchcock ou Anthony Asquith, mas, de um modo geral, o cinema de estúdio britânico não gozava nem do favor do grande público nem da intelectualidade. Pelo contrário, o documentário ganhara um estatuto que o recomendava para as tarefas que se adivinhavam. Ainda assim, num primeiro momento, as medidas do governo foram contraditórias.


Their Finest (2016) de Lone Scherfig. Londres, 1940, a produção de filmes passou a estar sob a tutela do Ministério da Guerra. há bombardeamentos todas as noites. Catrin Cole (Gemma Arterton, uma magnífica atriz) concorre a um lugar de guionista. Ganha o concurso. Uma vez concluído o filme, Their Finest - título surripiado a Churchill - verifica-se estar nos antípodas do Potemkin exigido pela propaganda. Feito por uma mulher, faz chorar. Torna-se um êxito instantâneo. Lança um oblíquo olhar feminino sobre o mundo do cinema, ridiculariza as fórmulas de Hollywood e, sobretudo, diverte-se ao colocar um documentarista a rodar um filme de ficção, parodiando os temores dos conselheiros do primeiro-ministro Chamberlain. Fonte: IMDb

Desconfiando dos documentaristas, a quem atribuíam tendências esquerdistas, os conselheiros da área cultural de Chamberlain eram favoráveis a chamar gente dos estúdios para fazer filmes de propaganda. O General Post Office (GPO), bem como os grupos independentes, entretanto, criados, insurgiram-se contra a discriminação. Pouco depois da declaração de guerra, por sua conta e risco, fizeram The First Days (1939), com realização de Harry Watt, Humphrey Jennings e Pat Jackson. Apesar da nomeação, em Janeiro de 1940, de John Reith - o homem que se tornou célebre à frente da BBC - para ministro da Informação, a situação não se alterou significativamente (Sobre Jennings ver neste blogue O Movimento Documentarista Britânico IV)


Contudo, com a designação, em Maio do mesmo ano, de Winston Churchill para primeiro-ministro, Reith foi substituído por Brendan Bracken à frente do ministério. Bracken, por seu turno, destacou para chefiar a Films Division um homem que conhecia bem o movimento documentarista e os seus praticantes, Jack Beddington, que tinha sido, inclusivamente, um dos responsáveis pela criação da Shell Film Unit. O primeiro acto de gestão de Beddington foi solicitar ao Film Centre um parecer sobre como utilizar o cinema em tempo de guerra. Com Grierson no Canadá, esse parecer foi redigido por Edgar Anstey, Paul Rotha e Basil Wright. Viria a ser determinante para o documentário britânico. O GPO foi transformado na Crown Film Unit de cuja produção resultariam alguns dos melhores documentários britânicos feitos durante a II Guerra Mundial. A maioria dos seus cineastas viria a participar desse esforço até à derrota do nazismo. Entre todos, destacar-se-ia Humphrey Jennings.


The First Days (1939), de Harry Watt, Humphrey Jennings e Pat Jackson. O cinema de Jennings é um caso singular no contexto dos filmes feitos durante a II Guerra Mundial. Rejeitou a retórica belicista da generalidade dos cineastas da época e concentrou-se nas pessoas vivendo corajosamente o dia a dia sob a ameaça dos bombardeamentos. Neste caso, mostra como o povo de Londres se organizou nos primeiros dias dos combates. Apesar de filmado por três realizadores, o que colocou naturais problemas de estrutura e ponto de vista, o que resulta é um belo documentário poético, no qual a impressão digital de Jennings é evidente. Fonte: BFI

Estados Unidos: quando os mestres de Hollywood se alistaram. O United States Film Service de Pare Lorentz não deixou nada de comparável a um movimento documentarista organizado (Ver neste blogue Pare Lorentz, o cineasta de Roosevelt)). Devido à existência de uma forte corrente isolacionista, o presidente Roosevelt, embora ciente da ameaça nazi e da probabilidade de vir a declarar guerra à Alemanha, temia acicatar a opinião pública numa altura em que considerava importante manter uma imagem de neutralidade em relação aos acontecimentos na Europa. Fez, por isso, um acordo com Churchill no sentido de controlar a entrada de propaganda britânica na América enquanto a situação não fosse mais clara. No entanto, o problema foi habilmente contornado através da acção de Grierson, no Canadá, país não abrangido pelas limitações que condicionavam os Estados Unidos. A par de exportar para o país vizinho os filmes canadianos, Grierson enviava também os documentários ingleses sobre a guerra, aos quais viria a ser apontada alguma da responsabilidade pela perda progressiva de influência do movimento isolacionista no qual pontificava o famoso aviador Charles Lindbergh.


Após a declaração de guerra às potências do Eixo na sequência do ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de Dezembro de 1941, tudo mudou. Os Estados Unidos adoptaram outra atitude em relação ao cinema de propaganda, passando a olhá-lo como prioridade. Além dos realizadores de Hollywood já referidos outros nomes sonantes vieram alistar-se, designadamente, Carl Foreman, Joris Ivens, Anatole Litvak e, até, Robert Flaherty. Daí que o esforço de propaganda conjunto, embora com diferentes orientações, dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, trouxesse ao documentário em língua inglesa assinalável projecção com reflexos no pós-guerra, em particular, na televisão. Não é tanto isso, porém, o que aqui nos importa. Importa, sim, sinalizar alguns dos filmes americanos que maior importância tiveram não só enquanto ferramentas simbólicas do combate anti-nazi e anti-fascista, mas também devido ao efeito que, por diferentes razões, produziram no campo da narrativa documental.


Frank Capra e John Ford na fase de treino militar para posterior integração nas unidades de cinema das Forças Armadas dos Estados Unidos. Fonte: DefenseMediaNetwork

Documentários de informação. Apesar dos constrangimentos de vária ordem, a começar pelas regras impostas pela instância militar, e da celeridade exigida pelo estado de guerra, foi possível fazer filmes como Memphis Belle (1944) de William Wyler sobre o famoso avião bombardeiro que apesar das inúmeras acções de combate conseguiu sempre regressar à base, December 7th (1943) de John Ford e Gregg Toland, o director de fotografia de Orson Welles em Citizen Kane (1941), sobre o ataque japonês a Pearl Harbour e The Batlle of San Pietro (1945) de John Huston sobre a batalha travada entre as tropas americanas e os exércitos nazis pelo controle do vale estratégico de Liri, em Itália.


Muitos destes filmes, por dependerem das autoridades militares foram censurados, outros exibidos apenas para militares, outros, ainda, mal chegaram a ser vistos. The Battle of San Pietro, por exemplo, considerado por alguns o melhor documentário de guerra desta época, foi amputado de uma das suas sequências mais interessantes, na qual Huston utilizava gravações de vozes de soldados mortos, efectuadas antes da partida para a frente de combate, justapostas a fotografias dos seus corpos, com o intuito de realçar o seu sacrifício na luta pela liberdade. December 7th, por razões políticas e diplomáticas, esteve banido durante 50 anos pelo governo dos Estados Unidos só tendo reaparecido na sua versão integral no fim do século passado.


Dos sete documentários de Why we Fight (1943-1944) o público americano só viu o primeiro, Prelude to the War, logo após a conclusão, depois de uma diligência pessoal do presidente Roosevelt nesse sentido. Todos os demais, ainda que distribuídos no estrangeiro quando possível – Churchill, por exemplo, fez questão de ser ele próprio, através de uma declaração filmada por Capra, a fazer a introdução das cópias exibidas no Reino Unido – destinaram-se essencialmente a militares ou públicos seleccionadas. Só The Battle of Russia, dada a curiosidade suscitada por se tratar da URSS, teve direito a mais ampla divulgação. Algo paradoxalmente, os exibidores americanos consideravam estes documentários demasiado agressivos para os hábitos dos consumidores de filmes de Hollywood.


Produzido pela US Navy e dirigido por John Ford e Gregg Toland, December 7 th (1941) foi um dos filmes mais controversos feitos pelas Forças Armadas americanas. O tema é, evidentemente, o ataque japonês a Pearl Harbor. Utilizando imagens de arquivo, usando e abusando de reconstruções, inclusivamente inventando situações, o filme, cujos méritos cinematográficos são notórios, acabaria por se tornar um dos mais polémicos da II Guerra Mundial. A versão inicial de 82 minutos foi imediatamente retida, por inconveniente, e guardada nos Arquivos Nacionais. A partir dela foi feita uma remontagem de 32 minutos, a qual, em 1944, viria a ganhar um Oscar da Academia. Quando, décadas mais tarde, a versão original veio a público, tornar-se-ia num filme de culto para os apreciadores do género. Fonte: Reel History

Se inicialmente se utilizou abundante material de newsreels, importa sublinhar uma alteração importante. A partir de 1943, depois do sucesso do documentário britânico Desert Victory (1943) de David MacDonald, sem descurar o arquivo, passou a optar-se com frequência por imagens frescas dos operadores de câmara enviados para zonas de acção. Os próprios realizadores não se inibiam de acompanhar missões de combate, como aconteceu com George Stevens e William Wyler, este último ferido com gravidade durante uma missão de bombardeamento do Memphis Belle sobre território alemão. As reconstruções, embora muito em uso noutro tipo de filmes feitos pelo exército com fins educativos ou de treino militar, eram menos frequentes nos filmes de guerra dos cineastas de Hollywood, os quais, no plano institucional, eram apresentados como documentários informativos. Apesar de o ponto de vista não deixar margem para dúvidas, o facto é que chegou a colocar-se a questão da objectividade, bem como de saber se respeitavam ou não a verdade dos factos. Não, não respeitavam. Em nenhuma guerra isso alguma vez aconteceu. Tão pouco prescindiam da diabolização do inimigo sem a qual à coesão da opinião pública certamente abriria brechas com efeitos indesejáveis.


S/L Fonte: Military History Now

O seriado documental de Frank Capra


Na sua estupenda autobiografia, à qual deu o título de O Nome Acima do Título, Capra diz ter rejeitado um contrato milionário oferecido por uma das majors para se alistar por imperativo de consciência. Outros realizadores, actores, argumentistas e técnicos fizeram a mesma opção. O recrutamento, porém, não foi fácil. Apesar de abalada após o ataque japonês a Pearl Harbour, a corrente isolacionista continuava a ser influente. O estado de espírito das Forças Armadas também não parecia ser o melhor. Capra conta que o general George C. Marshall, então Chefe de Estado Maior, o mandou chamar:


“Para vencermos esta guerra temos primeiro de vencer a batalha da mentalização dos nossos jovens. (...) o que eu quero combinar consigo é um projecto de realização de uma série de documentários informativos, serão os primeiros da nossa História, que consigam explicar aos nossos soldados a razão porque lutamos e os princípios pelos quais nos batemos ”.


Assim surgiu a ideia de Why We Fight, produzido durante a II Guerra Mundial pelo US Department of War, entre 1942 e 1945, vencedor de alguns Óscares da Academia. Capra nunca antes tinha realizado um documentário. Numa atitude típica de homem de Hollywood, afirmava mesmo não conhecer sequer alguém que os fizesse. Contudo, ao ver O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl, comentou: “nem Satanás seria capaz de conceber um super-espectáculo mais arrepiante.” Noutra passagem da sua autobiografia escreveu: “Triumph of the Willens não disparava armas, nem lançava bombas. Mas, como arma psicológica, o seu alvo era destruir a vontade de resistir e, nesse sentido, era tão letal como qualquer outra arma. ”


Começou então a perceber o que viriam a ser os seus documentários informativos. Iria “utilizar os próprios filmes do inimigo para denunciar a escravatura da humanidade que esse inimigo se propunha atingir. Queria que os nossos soldados ouvissem os nazis e os japoneses gritar alto e bom som as suas pretensões a uma Raça de Senhores. Os nossos soldados perceberiam então a razão pela qual eram obrigados a vestir uma farda.”


Prelude to War, o primeiro episódio de Why we Fight de Frank Capra é um ensaio sobre o poder combinado da imagem e da palavra ao serviço da denúncia do sofrimento dos povos subjugados pela brutalidade das forças do Eixo. Extremamente violento contra o inimigo é também a demonstração da razão de ser da declaração de guerra de Roosevelt após o ataque japonês a Pearl Harbor. Fonte: CineMaterial

Reunindo à sua volta uma equipa que juntava, entre outros, Anatole Litvak, Eric Knight, Tony Veiller, Robert Heller e Leonard Spiegelglass, Capra principiou a trabalhar nos argumentos dos sete episódios que viriam a constituir Why we Fight - Prelude to War (1942), The Nazis Strike (1943), Divide and Conquer (1943), Battle of Britain (1943), Battle of Russia (1943), Battle of China (1944) e War comes to América (1945) –, ao mesmo tempo que procurava reunir o maior número possível de filmes e newsreels da Alemanha nazi, da Itália fascista e do Japão imperial. Na verdade, a sua equipa chegou a reunir praticamente tudo o que esses países tinham feito nos últimos vinte anos. À equipa inicial juntaram-se novos nomes de Hollywood onde, de resto, a maior parte do seriado acabaria por ser feito em instalações improvisadas num velho estúdio abandonado da Twentieth Century-Fox.


Para o episódio da Rússia, Capra fez diligências junto da embaixada da União Soviética em Washington no sentido de obter imagens dos clássicos de Eisenstein, Vertov, Pudovkin e de outros grandes cineastas, bem como de jornais cinematográficos desde os primeiros números do Kino-Pravda. Conseguiu reunir uma impressionante quantidade de material, o que certamente terá contribuído para The Battle of Russia ser habitualmente considerado o melhor de todos os episódios do seriado. A diligência, porém, teve consequências. Por indicação de J. Edgar Hoover, Capra, por sinal, um anti-comunista, passou a estar sob observação do FBI, situação tanto mais irónica quanto é certo que Roosevelt acabara de ver entusiasmado Prelude to War na Casa Branca. Reagindo de forma imediata, o presidente americano determinou que o filme fosse amplamente divulgado. No ano seguinte, no Kremlin, em Moscovo, Estaline assistiu igualmente entusiasmado à projecção das duas partes de The Battle of Russia. Ordenou de imediato que o filme fosse profusamente exibido em todo o território da União Soviética.


Frank Capra diz ter revolucionado a maneira de fazer filmes informativos para as Forças Armadas americanas. É verdade. Certamente, Why we Fight nada tem a ver com os chamados filmes educativos e de treino militar realizados até então. Sugere, igualmente, ter criado um novo tipo de documentário, fazendo a síntese, na linha de Paul Rotha, do cinema documental associado quer à tradição de newsreels quer à tradição da propaganda. Não será bem assim. A utilização de imagens de jornais cinematográficos vinha pelo menos desde A Queda da Dinastia Romanov (1927) de Esfir Schub e a inserção de excertos de filmes de ficção em documentários era já uma prática recorrente. A propaganda, por sua vez, era tão antiga quanto o próprio cinema. Animações e gráficos, que em Why we Fight são da equipa de Walt Disney, também não eram uma novidade. Tão pouco a música, tal como a concebeu Dimitri Tiomkin, por exemplo, em The Battle of Russia. E muito menos o texto off e a voice of God usados praticamente desde o advento do cinema sonoro. Contudo, Why we Fight foi uma novidade na medida em que nunca antes na América o documentário tinha sido tão argumentativo nas premissas e tão contundente nas conclusões.


O filme da maior sucesso do seriado Why we Fight é, na verdade, mais da autoria do cineasta natural da Ucrânia soviética Anatole Litvak do que que propriamente de Frank Capra. Premiado por diversas vezes, designadamente com o Oscar da Academia para Melhor Documentário, em 1944, The Battle of Russia (1943) é o filme mais longo do seriado e, entre outras curiosidades, apresenta Robert Flaherty como director de fotografia. Foi também o que maior curiosidade suscitou por parte do público. FONTE: THE PAST

Se os procedimentos formais e estilísticos do seriado procedem de normativas de propaganda no contexto da época, a verdade é que que também nesse campo se deu um passo em frente. Em primeiro lugar, a estrutura narrativa tem por base guiões imaginativos, encontra respaldo na qualidade dos textos e propõe uma polifonia na qual as vozes assumem uma função quase encantatória. Em segundo lugar, a montagem explora a polissemia das imagens, de arquivo ou não, revertendo muitas vezes o seu significado de modo a estabelecer um jogo no qual o público acaba por ficar enredado numa teia de evidências irrefutáveis, de forte pendor emocional. Não será um exclusivo de Capra, mas é certamente uma das características dos melhores documentários dos cineastas de Hollywood tornados oficiais das Forças Armadas.


Por exemplo, no extraordinário The Battle of San Pietro, que não integra o seriado, John Huston observa o morticínio causado pelos combates e mostra a seguir os esfarrapados camponeses italianos de regresso à sua aldeia destruída carregando o fardo de ter de a reconstruir. Quanto aos soldados americanos, vêmo-los partir para novas batalhas. Huston, autor do texto lido por ele próprio, diz pausada e introspectivamente: “more rivers, and more mountains, and more towns...more San Pietros’, greater or lesser – a thousand more”. Fica com uma poderosa imagem dos incontáveis sacrifícios a suportar até à vitória final. Talvez por isso o filme tenha sido amplamente cortado e muito raramente exibido. Transformara-se num libelo contra a guerra.


Caos, morte e desolação. The Battle of San Pietro (1945) - a 90 kms de Nápoles - é bem mais realista do que a maioria dos documentários até agora referidos, apesar de ser falsa a ideia veiculada pelo realizador de ter acompanhado os combates de perto. Da equipa de Huston, um cineasta tão genial quanto imprevisível, fazia parte o famoso romancista Eric Ambler. Houve uma tentativa de censura de imagens de soldados americanos mortos abortada pelo General George Marshall que saiu em defesa de Huston. Não impediu que a exibição fosse adiada. Fonte: Vive Culture

Dispositivos retóricos. Em Prelude to the War o texto, dito no estilo March of Time por Walter Huston, pai de John Huston, não deixa dúvidas. Capra apresenta o mundo a preto e branco. De um lado, o mal constituído pelo Eixo. Do outro, o bem identificado como o mundo livre. Expressões como “reparem bem” ou “olhem para estes homens” são recorrentemente utilizadas de modo a interpelar directamente o público. Por vezes, as frases estão ao serviço de silogismos simples e as conclusões reforçam mais e mais os antagonismos de modo a que no final a opção só possa ser uma: travar uma luta sem tréguas contra o mal para que a humanidade encontre a salvação.


A necessidade dessa luta deve, no entanto, ser interiorizada quer no plano racional, quer no plano emotivo. Por isso, The Nazis Strike acrescenta um outro artifício. Sabendo da importância da voz, Capra utiliza dois narradores. Anthony Veiller para os textos de carácter referencial, fazendo uma leitura que sugere a informação objectiva e Walter Huston para apelar à emoção em textos nos quais, na terminologia de Roman Jakobson, predominam as funções expressiva e fática.


A narrativa da maior parte dos episódios é construída em cinco actos à maneira da tragédia clássica, como acontece, por exemplo, em Divide and Conquer. Este episódio, a par de The Battle of Russia, é dos mais complexos. As imagens factuais de newsreels são montadas em sequências que obedecem a uma estratégia de conflito, mas, neste caso, o conflito existe com algumas subtilezas, explicando Capra, na sua autobiografia, que encontrou maneira de lidar com os países em guerra como se de personagens se tratassem:


“A este respeito (...) o filme tem uma curiosa semelhança com Hamlet, sendo que a Alemanha é Cláudio, o vilão assassino, a França é vista como Hamlet, o General De Gaulle e o Norte de África francês são Horácio, a Inglaterra é Fortimbras. Aqui, tal como em Hamlet, as coisas não são exactamente o que parecem, com o vilão a protestar amizade e o herói trágico constrangido pela sua incapacidade de agir.”


Talvez seja essa sofisticação a razão pela qual os filmes de Why we Fight, bem como os documentários dos cineastas alistados de Hollywood, tiveram melhor acolhimento junto das camadas mais cultas das Forças Armadas, tendo sido, em simultâneo, considerados demasiado intelectuais pela maioria dos soldados submetidos a testes cognitivos por parte de cientistas sociais como Hovland, Lumsdaine e Sheffield. Não que o inimigo não estivesse perfeitamente identificado, caracterizado e diabolizado. Mas, tratando-se de persuasão, porquê confundir, mesmo se inadvertidamente, quem já está convencido e com opinião formada?


Divide and Conquer (1943), o terceiro documentário da série, trata da ocupação da Europa em 1940 pelo exército nazi. Os horrores da guerra contemplam situações limite como o são as imagens de milhares de crianças mortas ou feridas durante os bombardeamentos pela Luftwaffe em Roterdão. O narrador comenta: "thirty thousand men, women and children killed in ninety minutes." Fonte: Kanopy

Fazer cinema de propaganda era qualquer coisa que não se enquadrava com os hábitos americanos. Basta lembrar Pare Lorentz durante o New Deal e as reacções suscitadas pelos sectores mais conservadores a propósito da sua tentativa de criar um movimento na linha do movimento documentarista britânico (Ver neste blogue Pare Lorentz, o cineasta de Roosevelt). Por maioria de razão, fazer cinema de propaganda para as Forças Armadas em tempo de guerra era ainda mais complicado. Daí as numerosas resistências que Why we Fight encontrou, sobretudo no início, mas não só. Fosse por motivos administrativos, fosse por razões de ordem política, os entraves multiplicaram-se e, muitas vezes, a discussão centrou-se em torno de questões aparentemente tão improváveis, atendendo às circunstâncias, quanto o eram a verdade e a objectividade. Na sua autobiografia Frank Capra ilustra a situação com recurso a diversas citações. Vejamos o Hollywood Reporter de 11 de Fevereiro de 1943 a pretexto de Prelude to War:


“(...) O senador Holman acha que é um filme de propaganda, uma maneira de dar a Roosevelt um novo mandato e exige um inquérito a este e a todos os outros filmes encomendados pelo governo. Mas diz-se que Prelude to War provocou também uma outra controvérsia, envolvendo Lowell Mellett e o Departamento de Guerra, quanto à questão do filme ser ou não exibido nas salas de cinemas para a generalidade do público. (...) Mellett acha que Capra se excedeu e que o seu filme tem ódio a mais para ser exibido nos cinemas perante um público mais vasto (…).”


Pouco tempo depois, o filme passou no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Eis duas reacções. H. V. Kaltenborn: “Tanto quanto sei é a primeira vez que se apresenta um documento histórico verdadeiro sobre esta década de agressão.” Harold Ross, chefe de redacção do New Yorker: “É ESTE o filme que o senador Holman atacou um dia destes? Nele não há qualquer propaganda! Apenas a VERDADE!.”


Linguagem cinematográfica; controvérsia. Os filmes de Why we Fight, hoje considerados um momento chave no percurso do documentário e do cinema de propaganda, suscitaram outro tipo de controvérsia, desta vez tendo como pano de fundo a linguagem e os mecanismos da significação. Essa controvérsia, por sinal com pontos de contacto com aquela outra aberta, mais tarde, em torno do filme documentário e da reportagem jornalística, teve em André Bazin, teórico do realismo e crítico da montagem, um dos principais protagonistas.


Why we Fight: The Battle of Britain (1943), um filme de 55 minutos com mil e duzentos planos. Fonte: The Movie Database

De entre os filmes do seriado há um com uma montagem particularmente impressiva. Trata-se de The Battle of Britain. Tomando como ponto de partida A Grande Sintagmática de Christian Metz constata-se que a sua banda-imagem é feita a partir de mil e duzentos planos de material de arquivo, de origem diversa, estruturados em 195 segmentos autónomos. Com a duração de 55 minutos o filme, segundo o estudo de William Guynn, tem 26 inserts, 37 planos autónomos, nenhum sintagma paralelo, 36 sintagmas em chaveta, 24 sintagmas descritivos, nove sintagmas alternados, 9 cenas, nenhuma sequência por episódios e 53 sequências simples.


Sendo certo que a cadeia sintagmática permite identificar com relativa segurança o tipo de narrativa em qualquer tipo de documentário e sendo igualmento certo, de acordo com o estudo mencionado, que nos chamados documentários clássicos há uma grande variedade de combinações significantes, não deixa de ser surpreendente o grau de fragmentação discursiva de The Battle of Britain. O elevado número de sequências simples contrasta com a ausência de sequências por episódios. Ambas, a par do sintagma alternado e da cena são do âmbito dos chamados sintagmas narrativos. Por outro lado, o número de sintagmas em chaveta e de sintagmas descritivos, ambos não-narrativos, é igualmente muito elevado. Como resolver então o problema desta fragmentação discursiva e conferir unidade à narrativa? A resposta é simples. Obviamente, através do texto. É o texto que liga tudo o mais. Há portanto uma operação semântica que privilegia a gramática da língua em detrimento da lógica das imagens.


É contra este procedimento que Bazin se insurge. De facto, o comentário em The Battle of Britain, como the resto em todo o seriado de Frank Capra, é um elemento essencial da narrativa, como que suturando os hiatos da articulação sintáctica das imagens e criando, desse modo, a ilusão de continuidade espacio-temporal. Daí a ausência de sequências por episódios, habitualmente associadas na narrativa clássica às sequências simples como patamar de acesso a acções mais distendidas. O texto cumpre essa função. Teríamos assim uma voz de autoridade, exterior às imagens e, portanto, condicionando o seu significado num processo que Bazin compara ao ventriloquismo: sendo dissimulada, a voz desloca-se subrepticiamente para junto do espectador e impõe um sentido ao que está a acontecer, levando-o a encarar as imagens como meras ilustrações ou prova do que é afirmado. Para um realista como Bazin estes procedimentos não só manipulam, mas também subvertem toda a ordem de significação do cinema. É como se a dimensão ontológica da imagem se deslocasse para o texto.


Aqui, entraríamos no campo da semiótica e das Teorias do Cinema. Não é esse o foco do artigo. As observações, quer de Guynn quer de Bazin, sendo também relevantes para a História e Teoria do Documentário, ficam como registo.


Why we Fight (2005) de Eugene Jarecki é um documentário sobre o complexo militar-industrial dos Estados Unidos. É nele que o cineasta retoma a advertência do ex-presidente Eisenhower quando, no final do seu mandato, advertiu que a Nação estaria perdida caso militares e a indústria do armamento assumissem o controle da política. Intencionalmente, o filme toma de empréstimo o título do seriado de Capra. Disse Jarecki: ‘’Frank Capra made a series of films during World War II called 'Why We Fight' that explored America's reasons for entering the war. Today, with our troops engaged in Iraq and elsewhere for reasons far less clear, I think it's crucial to ask the questions: 'Why are we doing what we are doing? What is it doing to others? And what is it doing to us?’’ Fonte: IMDb

Considerações pessoais


Os Estados Unidos nunca recuperaram totalmente de Pearl Harbor. Talvez por isso o tema seja recorrente no cinema americano, talvez por isso sejam os japoneses o inimigo mais odiado na produção de filmes levada a cabo pelos militares, talvez por isso a guerra no Pacífico tenha sido de uma brutalidade sem paralelo. Em Know Your Enemy, um conjunto de documentários sobre os países do Eixo, o mais violento é sobre o Japão. Logo no início, diz o narrador: “We shall never completely understand the Japanese mind. But then, they don’t understand ours either. Otherwise, there would never have been a Pearl Harbor.” Aos 4’00” do filme faz-se a caracterização do “typical Japanese soldier.” Ele é cem por cento militarista, conformista, fanático, age com a determinação de uma máquina e não tem qualquer respeito por nenhum outro modo de vida que não seja o seu. É de baixa estatura, padronizada, de tal forma que: “He and his brother soldiers are as much alike as photographic prints off the same negative… His uniform is ill-fitted, his appearance un-soldierly.”


Os Aliados fizeram centenas de filmes de guerra, tanto no sistema de estúdio quanto fora dele, criaram milhares de jornais cinematográficos onde a primeira vítima foi a verdade, puseram no ar milhões de emissões de rádio em onda curta com emissões em várias línguas para todos os países do mundo nos quais se procurava diminuir e desmoralizar o inimigo. Do outro lado, também. Joseph Goebbels era um génio da propaganda. Percebeu muito bem como utilizar a comunicação de massas, Imprensa, Rádio e Cinema, criando uma agenda da guerra baseada na articulação e complementaridade dos meios ao seu dispor. Também foi pioneiro das realidades alternativas, bem como da propaganda que não devia parecer propaganda. Tal qual hoje observamos.


Espantoso é encontrar neste quadro de pesadelo objectos fascinantes, como os filmes que aqui citei, e homens extraordinários, com as suas grandezas e misérias, como o foram aqueles cineastas de Hollywood que, movidos por convicções, deram um passo em frente. Há um livro magnífico de Mark Harris, traduzido em português com o título Os Cinco Que Voltaram, cuja leitura nos dá a conhecer tanto o lado mais luminoso quanto o mais sombrio de cinco grandes mestres - os da última foto deste texto - envolvidos com os documentários da II Guerra Mundial: Frank Capra, William Wyler, George Stevens, John Huston e John Ford. Houve outros. Mas estes, todos eles muito diferentes, movidos pela audácia do seu conservadorismo ou pela fidelidade às suas ideias avançadas, constituem uma galeria de personagens cujo denominador comum, a devoção sem limites ao cinema, permite todas as derivas - copos, mulheres, charutos, acção - salvo o dever de missão mesmo se, volta e meia, embotado pelos vapores do álcool que, se o combate é duro, a guerra é ainda mais e o sofrimento das pessoas é simplesmente intolerável.


Da esquerda para a direita: Frank Capra, John Huston, William Wyler; George Stevens e John Ford Fonte: Netflix

Em todas as guerras haverá sempre uniformes militares desenhados por estilistas da moda, sessões encenadas por fotógrafos de celebridades, centauros de tronco nu exibindo virilidade. É preciso que a guerra tenha glamour. Também são necessários crimes contra a humanidade. Valas comuns. Um cortejo de atrocidades praticados pelos maus. Um desfile de actos edificantes praticados pelos bons. Tudo isto está nos filmes de que vos falei. Hoje, regra geral, a propaganda chama-se jornalismo. É storytelling. Com grande perda de qualidade, digo-vos eu. E, já agora, não esqueçam: primeiro, o pior de tudo é o que se faz às pessoas; segundo, quando a política falha a guerra pode ser inevitável e até necessária; terceiro, afinal, o acerto de contas de Pearl Harbor fez-se em Hiroshima e Nagasaqui.


 
 
 
  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 12 de nov. de 2022
  • 10 min de leitura

Atualizado: 22 de out. de 2023


Momma don’t allow (1956) de Karel Reisz e Tony Richardson Fonte: IMDb

O Free Cinema britânico, apesar da existência efémera, deixou marcas profundas. Após a II Guerra Mundial, se o documentário apontava, por um lado, para o distanciamento em relação aos filmes de propaganda explorando novos caminhos de aprofundamento do vínculo com o real, era obrigado, por outro lado, a olhar para um novo e poderoso medium, a Televisão, cuja natureza se afigurava distinta do cinema, colocando, como tal, novas questões e novos problemas. Por sinal, os países onde a televisão se desenvolveu mais rapidamente, os Estados Unidos e o Reino Unido, foram precisamente aqueles nos quais o cinema documental mais se ressentiu no imediato. Em meados dos anos 50, no Reino Unido, a tentativa de inverter a situação veio de um grupo de jovens cinéfilos. Beneficiando de um conjunto de circunstâncias culturais favorável, designadamente o aparecimento de uma nova geração de escritores ferozmente crítica da ordem social vigente, os “angry young men”, esses jovens iriam romper com a tradição cinematográfica institucional e lançar as bases da futura New Wave britânica. A sua opção estética - a estética Free Cinema - assentava em três eixos: cortar com o cinema de estúdio e levar as câmaras para a rua, indo ao encontro do dia a dia das pessoas; tirar partido dos novos equipamentos, leves e de grande mobilidade; aceitar trabalhar com orçamentos irrisórios colmatando a falta de financiamento com a busca de soluções “pobres”, todavia, engenhosas e criativas.


Retrospectiva: pós-guerra; contexto


Em Inglaterra, o governo trabalhista do pós-guerra pôs em marcha reformas nas áreas do cinema e da televisão, cujas consequências levaram ao início do desmantelamento das unidades de produção de cinema documental, nomeadamente da Crown Film Unit (ver neste blogue artigos sobre o Movimento Documentarista Britânico). Com o regresso ao poder dos conservadores, uma vez mais liderados por Winston Churchill, essa política foi prosseguida e a tarefa concluída. Apesar de considerada uma das principais, senão a principal contribuição dos britânicos para o cinema, os filmes inspirados no movimento criado por John Grierson tinham deixado de fazer sentido. A televisão, porém, acolheu o documentário chamando a colaborar alguns dos seus intérpretes mais conhecidos, entre os quais, Paul Rotha. Atribuída a Gus MacDonald da Granada Television, em Manchester, impôs-se como evidência a frase: “documentary is alive and well and living on television.” Nem sempre, porém, a experiência foi bem sucedida. Formatos jornalísticos, descuidados e conformistas, tornar-se-iam dominantes.


Lindsay Anderson, um dos fundadores do Free Cinema: “Art is an experience, not the formulation of a problem.” Fonte: The Guardian

Na América, ao contrário do Reino Unido, a produção financiada pelo Estado foi sempre encarada com desconfiança e os estúdios nunca mostraram interesse pelo cinema documental. O clima da Guerra Fria, por outro lado, também desaconselhava filmes com preocupações sociais e políticas. E se o documentário de televisão foi ganhando o seu espaço pela mão de Edward R. Murrow e Fred Friendly, o filme documentário simplesmente desapareceu das salas (ver neste blogue os artigos sobre o célebre confronto mediático entre Edward R. Murrow e Joseph McCarthy no seio do qual se foi sedimentando a ideia de documentário jornalístico). Reportando a este período os historiadores têm dificuldade em citar mais do que dois ou três títulos relevantes. Normalmente a minúscula lista é encabeçada por Louisiana Story (1948) de Robert Flaherty, seguido de The Quite One (1949) de Sydney Meyers e de All My Babies (1952) de George Stoney. Seria necessário esperar pelos anos 60 e pelo direct cinema para se verificar um novo, pujante e contraditório, impulso, ao qual não foi estranho o cruzamento com a televisão e para o qual contribuiu de forma pioneira Robert Drew e o seu screen journalism.


Em contrapartida, na Europa continental, ainda que de forma assimétrica, o pós-guerra trouxe um interesse renovado. Alguns autores aludem mesmo a uma idade de ouro do filme documentário europeu resultante da convergência de elementos de natureza política, económica, cultural e financeira. A indústria cinematográfica, profundamente atingida pela guerra, estava ou com os estúdios destruídos ou em péssimas condições. Muitos técnicos e artistas emigraram para os Estados Unidos. Nestas condições, diferentes países optaram por elaborar políticas públicas de apoio às respectivas cinematografias. Uma nova geração de cineastas dedicou-se a fazer produções de baixo orçamento, sobretudo curtas-metragens e documentários.


Em 1958, num dos programas do Free Cinema, o público britânico pôde ver pela primeira vez filmes de François Truffaut, Les Mistons (Brats, 1957) e de Claude Chabrol, Le Beau Serge (1958). Na foto está também Jean Cocteau. Fonte: MUBI

A iniciativa privada também não ficou indiferente a este movimento vendo nele a possibilidade de encontrar um novo veículo de promoção das suas empresas e dos seus produtos. Assim, boa parte dos documentários europeus dos anos 50 teve origem em encomendas públicas ou privadas, muitas das quais inseridas em projectos associados a tarefas da reconstrução, mormente com fundos do Plano Marshall. Se nalguns países surgiram obras excepcionais - a título de exemplo poder-se-ia falar de Alain Resnais -, noutros, que beneficiaram do Plano Marshall, a produção foi mais obediente ao pragmatismo político, não revelando grandes preocupações de ordem estética, salvo raras excepções, caso dos filmes do holandês Herman van der Horst.


A televisão, entretanto, viera para ficar. Nenhum país europeu deixou de conviver com essa nova realidade sendo observável, no tocante ao documentário, um desenvolvimento gradual e contraditório em função de dois eixos: um demarcando-se do campo televisivo e preparando o terreno para a política dos autores; outro investindo essencialmente no documentário de televisão. O Reino Unido, por sinal, teria excelentes praticantes em qualquer dos cenários.


Free Cinema: “Um estilo significa uma atitude”


Em meados dos anos 50 o cinema documental britânico conheceu um novo impulso. Sob a liderança de Lindasy Anderson, insurgindo-se contra os pressupostos do documentário inspirado por John Grierson, o Free Cinema teve origem nos esforços de um grupo de jovens cineastas britânicos para mostrarem os seus filmes, experimentais e inovadores, os quais, de outro modo, estariam fatalmente condenados ao anonimato. Inicialmente, Free Cinema designava apenas a primeira sessão de uma série de seis programas, na sua maioria constituída por curtas-metragens documentais, exibida no National Film Theatre de Londres entre Fevereiro de 1956 e Março de 1959. Contudo, dado o sucesso, com todas as sessões esgotadas e uma entusiástica cobertura mediática, Free Cinema, a designação cunhada por Lindsay Anderson, passou a identificar os filmes e, sobretudo, o movimento que lhes dera origem. Para além dos trabalhos dos cineastas britânicos, essas sessões, consideradas memoráveis, permitiram também revelar cineastas estrangeiros como Lionel Rogosin, George Franju, Norman McLaren, Roman Polanski, Walerian Borowcyzk, Claude Chabrol e François Truffaut.


Em Momma Don’t Allow (1956) de Karel Reisz e Tony Richardson faz-se uma incursão na luta de classes a partir da observação de uma noite de sábado num bar londrino frequentado por teddy boys, a juventude oriunda da classe operária. Uma banda de jazz toca rock’n roll. Um grupo de jovens da upper class, fazendo-se transportar num automóvel de luxo, aparece no local. A sua afectação, apesar das tentativas de aparentar à vontade, contrasta com a atitude dos que rodopiam ao som da música com perícia e espontaneidade. A câmara, implacável a destacar os tiques dos herdeiros dos ricos, move-se com incrível agilidade parecendo, ela própria, dançar. Em Momma Don’t Allow os autores não hesitaram em levar a cabo reconstruções de modo a reforçar o ponto de vista do filme. Fonte: Roku

Dos documentaristas britânicos das gerações anteriores apenas Humphrey Jennings mereceu a aprovação unânime dos jovens turcos de Anderson (ver neste blogue o artigo sobre o Movimento Documentarista Britânico consagrado a Jennings). Todos os demais passaram a ocupar, na melhor das hipóteses, um lugar secundário o que, na altura, levou John Grierson a comentar depreciativamente os filmes do Free Cinema, aos quais chamou “Baby stuff”. Próximos da crítica social levada a cabo na literatura pelos “angry young man”, entre os quais se destacava John Osborne, autor do célebre Look Back in Anger (1956), os cultores do novo movimento criticavam igualmente a produção cinematográfica mainstream, incapaz de reflectir os sinais do tempo. Muito focado na classe operária e virulentamente antagónico dos valores das classes médias o Free Cinema fez prova disso mesmo logo no seu primeiro programa, o qual incluiu O Dreamland (1953) do próprio Anderson, Momma Don’t Allow (1956) de Karel Reisz e Tony Richardson, e Together (1956) de Lorenza Mazzeti. Os seus objetivos foram nessa altura, em Fevereiro de 1956, assim resumidos num curto manifesto:


“Estes filmes não foram feitos com um propósito comum; nem com a ideia de os mostrar em conjunto. Mas quando se juntaram, sentimos haver neles uma atitude comum. Implícita nessa atitude está o acreditar na liberdade, na importância das pessoas e na relevância do quotidiano.


Enquanto cineastas acreditamos

Que nenhum filme pode ser demasiado pessoal.

A imagem fala por si mesma. O som amplifica e comenta.

A duração é irrelevante. A perfeição não é um fim.

Uma atitude significa um estilo. Um estilo significa uma atitude."


Assinado por Lorenza Mazzetti, Lindsay Anderson, Karel Reisz e Tony Richardson, o manifesto viria a constituir um ponto de viragem no cinema britânico abrindo espaço a uma atenção renovada ao real, mesmo em filmes de registo mais poético, como é caso de Together, uma história sobre dois trabalhadores surdos-mudos das docas de East End, área urbana marginalizada até então praticamente invisível no ecrã. Poderosa alegoria a propósito das franjas privadas de voz, Together encara a deficiência dos dois trabalhadores condenados ao isolamento como a outra face de uma sociedade, afinal, também ela deficiente, posto que maltrata e ignora quem mais precisa. O filme termina com a morte de um dos trabalhadores afogado no Tamisa depois de tentativas desesperadas para chamar a atenção.


John Fletcher e Lorenza Mazzetti Fonte: cronache letterarie

O Dreamland de Lindsay Anderson é um filme feito praticamente sem orçamento. Utilizando uma câmara Bolex de 16mm sem som síncrono, com uma autonomia de apenas 40’’, Anderson, tomando como ponto de partida o parque de diversões de Margate, faz em 12’00’’ uma extraordinária parábola da sociedade capitalista britânica do pós-guerra. O filme principia com uma cena de quatro planos onde se pode ver um homem a puxar o lustro dos cromados de um Rolls Royce, seguindo-se uma panorâmica descritiva da via que conduz à entrada do parque frequentado pelas famílias operárias durante o fim-de-semana. Sucedem-se imagens da chegada de sucessivos autocarros de aluguer sobrelotados.


As diversões são grotescas. Manequins em tamanho natural servem para explicar às crianças as execuções dos “espiões Rosenberg” na cadeira eléctrica e de Joana d’Arc na fogueira da Inquisição. A gargalhada de um boneco de feira é utilizada recorrentemente como contraponto de rostos em grande plano exprimindo uma variedade de emoções - incómodo, perplexidade, desconforto -, mas nenhuma de júbilo, relaxamento ou alegria. A utilização diegética do som, como sucede com o recurso a I Believe, uma canção gospel interpretada por Frankie Laine, funciona como um ponto de interrogação sobre as razões porque se deve acreditar naquilo que, afinal, o parque de Margate propõe como modelo de vida. O mesmo sucede com a música de Juke Box debitando temas soporíferos trauteados por adolescentes sem convicção ou acompanhando os passos perdidos de quantos deambulam sem rumo à procura de uma quimera. O filme termina à noite com a imagem à distância do parque iluminado, na verdade, uma miragem, a terra da ilusão e vacuidade. Realizado em 1953, O Dreamland viria a revelar-se um filme precursor, entre outras razões, porque, apesar da curtíssima duração dos planos, assenta numa perspectiva de observação cujas consequências só teriam expressão cabal a partir da disponibilização de equipamentos posteriormente desenvolvidos.


O Dreamland de Lindsay Anderson que antecipava já o que viria a seguir. No programa de Free Cinema 3, dizia-se: “… with a 16mm camera, and minimal resources, and no payment for your technicians, you cannot achieve very much - in commercial terms.... But you can use your eyes and your ears. You can give indications. You can make poetry." Fonte: Notes on short film

Em Nice Time (1957) de Claude Goretta e Alain Tanner, a atenção ao quotidiano revelada no filme de Anderson ganha outra expressão. Os dois suíços, atraídos pelo sucesso dos programas anteriores, bem como pelo destaque dado pela imprensa especializada, tinham-se instalado em Londres. Com fundos do British Film Institute - de facto, o financiamento era irrisório, umas meras 240 libras - e o apoio do polivalente John Flectcher filmaram 25 noites de sábado em Picadilly Circus. Utilizando uma Bolex de 16 mm, funcionando muitas vezes como câmara oculta, mostraram num filme de 17’00’’, composto por 190 planos, as emoções e desilusões, encontros e desencontros dos frequentadores de Picadilly na sua busca semanal de divertimento e aventura. O tratamento do som adopta os procedimentos semelhantes aos do filme de Anderson. Combina a mistura em estúdio de música, silêncio e som ambiente.


Tal como O Dreamland também Nice Time sugere aquilo a que Jean Vigo chamou o “point de vu documentaire”, em 14 de Junho de 1931, no Vieux Colombier, na apresentação do seu A Propos de Nice: “Ce documentaire social se distingue du documentaire tout court et des actualités de la semaine par le point de vue qu’y défend nettement son auteur. Ce documentaire exige que l’on prenne position, car il met les points sur les i. S’il n’engage pas un artiste, il engage du moins un homme.” Em rigor, essa era também a filosofia dos praticantes do Free Cinema, aliás, admiradores incondicionais do cineasta francês.


Free Cinema: “A perfeição não é um fim”


Em síntese, estes filmes representaram um “desafio à ortodoxia”, para utilizar a expressão contida no manifesto de 1959 assinado por Lindsay Anderson, John Fletcher, Walter Lassally e Karel Reisz que pôs fim ao movimento alegando dificuldades financeiras, mas deixando nas entrelinhas a ideia de missão cumprida. Produzidos à margem do sistema, procurando reflectir sobre o quotidiano da classe trabalhadora, recusando a retórica da propaganda e reivindicando total liberdade de expressão artística, os filmes do Free Cinema afastaram-se de qualquer perspectiva educativa ou jornalística. Prescindindo, na maioria dos casos, da voz off – Everyday Except Christmas (1957) de Lindsay Anderson é a principal excepção – são sempre a preto e branco, utilizam a montagem de imagem e som de forma inovadora e, apesar das limitações dos equipamentos, colocam a ênfase na observação, embora sem prescindir das reconstruções quando a situação o aconselhasse.


Nice Time (1957) de Claude Goretta e Alain Tanner. Do programa de Free Cinema 3: "British cinema [is] still obstinately class-bound; still rejecting the stimulus of contemporary life, as well as the responsibility to criticise; still reflecting a metropolitan, Southern English culture which excludes the rich diversity of tradition and personality which is the whole of Britain." Fonte: CINEMATRICES

Finalmente, Everyday Except Christmas, a par de We are the Lambeth Boys (1959) de Karel Reisz, sendo dos filmes mais ambiciosos em termos de orçamento, merece atenção por outros motivos. Karel Reisz acabara de ser contratado para o departamento de promoção da Ford, mas impusera como condição poder produzir uma série de documentários sem intuitos publicitários que deveriam dar continuidade ao Free Cinema. O de Anderson foi o primeiro. Filme de encomenda, presta homenagem aos trabalhadores do mercado de Covent Garden e nele, pela primeira vez, alguns diálogos são síncronos. Por outro lado, o director de fotografia Walter Lassaly, utilizando uma nova película de alta sensiblidade, conjugou imagens de intenso recorte poético com planos de observação extremamente reveladores do dia a dia do mercado. Inicialmente, pensado sem voz off, o filme acabou por incluí-la por pressão do patrocinador. Se Lindsay Anderson fez uma pequena concessão, a verdade é que mesmo assim conseguiu reforçar o ponto de vista artístico através do uso que fez da palavra. Everyday Except Christmas foi premiado em Veneza com o Grande Prémio para o documentário.


De todos os movimentos contemporâneos associados a formas de cinema de observação na fase de consolidação da televisão, o Free Cinema terá sido aquele que dela mais se distanciou. Na maioria dos seus documentários predomina o modo reflexivo, na terminologia de Nichols, associado a práticas observacionais e a cambiantes poéticas inspiradas muitas vezes nos filmes de Humphrey Jennings. Para tanto terão contribuído quer razões de natureza cultural, artística e ideológica, quer de ordem tecnológica, pesando, neste caso, as limitações dos equipamentos, designadamente a inexistência de som síncrono. Na fase final, contudo, surgiram filmes nos quais são reconhecíveis procedimentos televisivos. É o caso, por exemplo, de March to Aldermaston (1959) com realização colectiva de um comité de voluntários composto por realizadores e técnicos de cinema e da televisão.


March to Aldermaston documenta a marcha de protesto de quatro dias, durante a Páscoa de 1958, entre Londres e a fábrica de armas nucleares do mesmo nome. Organizada pela Campanha Pelo Desarmamento Nuclear e contando, entre outros, como o apoio da New Left Review, a marcha foi coberta por uma grande variedade de operadores de cinema e de televisão utilizando câmaras muito diferentes. O resultado é um misto da espontaneidade e capacidade de lidar com as pessoas de forma poética e humanista própria do Free Cinema com a visão proporcionada pela reportagem televisiva que recorre a entrevistas e procede fundamentalmente de modo expositivo. Nem sempre a combinação funciona. O texto simplista e retórico dito por Richard Burton também não ajuda.


We are the Lambeth Boys (1959) de Karel Reisz, uma das melhores obras do Free Cinema. Rodado durante seis semanas no verão de 1958 segue um grupo de adolescentes de South London, uma área periférica da cidade, no trabalho e no lazer, desmistificando a ideia estereotipada do Teddy Boy violento e marginal. Neste caso, o filme usa abundantemente o som síncrono o que confere maior realismo às cenas. Fonte: IMDb

Após o sexto programa do Free Cinema em março de 1959, Anderson, Reisz e Richardson deram a tarefa por terminada. Em breve, todos eles iram dirigir longas metragens que se tornariam marcos do cinema britânico. Lindsay Anderson fez This Sporting Life (1963), Karel Reisz aventurou-se com Saturday Night and Sunday Morning (1960) e Tony Richardson com A Taste of Honey (1961) reincidindo pouco depois com The Loneliness of the Long Distance Runner (1962). Estava aberta a porta à 'British new wave’, um cinema social de cariz realista cujos filmes ainda hoje não deixam de espantar.









 
 
 

Atualizado: 22 de out. de 2023




“It's true I make one film every eight or nine years. I am like an impotent man, who can make love only to a woman who is completely right for him. I can only make a movie in which I am totally in love. If you had the list of films I've refused - The Mission, Bethune, etc., you'd have a telephone book.”

Gillo Pontecorvo


Na obra de Gillo Pontecorvo há poucos filmes. Mas bastaria ter feito A Batalha de Argel (1966) para ganhar o direito a um lugar na galeria dos grandes cineastas. Dizem-no oficiais do mesmo ofício como Ken Loach, Louis Malle, Spike Lee, Mira Nair, Oliver Stone, Steven Soderbegh e Stanley Kubrick, para citar apenas alguns de entre a legião de admiradores. Mais de meio século após ter sido premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, A Batalha de Argel mantém um estatuto referencial, certamente, pela exemplaridade narrativa, mas, sobretudo, por ser um filme sobre a descolonização como não se conhece nenhum outro. Banido em França durante cinco anos, teve uma estreia fugaz nas salas em 1971, mas reapareceu em força em 2004. Desde então, é recorrentemente recuperado para novas exibições e debates. A Batalha de Argel, a meu ver, é um dos melhores, senão o melhor filme político de todos os tempos. Acrescento, deve muito a Frantz Fanon.

Filho de uma abastada família judia italiana de Pisa, melómano, excelente jogador de ténis na juventude e fama de bon vivant, Pontecorvo nunca deixou de ser um homem com preocupações sociais. Em 1938 foi viver para Paris de modo a escapar ao crescente anti-semitismo do regime de Mussolini. Em França, trabalhou como jornalista, deu os primeiros passos no cinema e relacionou-se com intelectuais como Picasso e Jean-Paul Sartre. De regresso a Itália, durante a guerra, filiou-se no Partido Comunista Italiano (PCI), então na clandestinidade, e colaborou com o L’Unitá. Entre 1943-1945, tornou-se líder da Resistenza Italiana, primeiro em Milão, depois em Turim. Afastou-se do PCI após a invasão da Hungria pela União Soviética em 1956. Continuou, no entanto, empenhado na vida política dando a cara por numerosas causas progressistas, entre as quais, a descolonização.


Documentarista de mérito reconhecido, admirador de Rosselini, teve um primeiro e assinalável sucesso na longa-metragem de ficção com Kapò (1960), uma incursão no universo de um campo de concentração nazi na Polónia. De inspiração realista, o filme conta com Susan Strasberg, Laurent Terzieff e Emmanuelle Riva nos principais papeis. Nem sempre escapando aos estereótipos, com um final supostamente redentor, teve, ainda assim, uma noite de estreia triunfal, sendo aplaudido pelo público em pé durante doze minutos. Isso não o livrou de uma crítica feroz por parte de Jacques Rivette nos Cahiers du Cinéma, cujo título era Da Abjecção.




Em causa estava um único plano, aquele em que Emmanuelle Riva se suicida atirando-se para cima do arame farpado electrificado do campo e a câmara faz um travelling para enquadrar o corpo em contra-picado. Era o tempo da Nouvelle Vague, quando o travelling era “uma questão moral”… Seja como for, à época, a generalidade das apreciações foi largamente favorável, tendo Kapò sido nomeado, inclusivamente, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.


Seguiu-se, seis anos mais tarde, A Batalha de Argel. Desta vez não houve Jacques Rivette, nem podia, uma vez que o filme é a todos os títulos exemplar. A partir de determinada altura, porém, sendo numerosas as reposições e a sempre renovada actualidade do filme, a crítica de direita foi encontrando maneira de falar de “uma obra sobrestimada.” Percebe-se. Antes estivesse o filme definitivamente arquivado. É que é difícil aceitar a razão pela qual, 60 anos depois, continue a ser não só uma fonte inesgotável de ideias, interrogações e propostas, mas, também, de polémica, debate e controvérsia. A Batalha de Argel emana, com efeito, uma energia sempre renovada, transformadora.


A visita de Gillo Pontecorvo à capital argelina para participar num documentário comemorativo do cinquentenário do seu filme para a televisão italiana é um bom exemplo disso mesmo. No documentário há uma cena na Universidade, na qual o cineasta assiste a uma discussão feroz entre estudantes que viam na Batalha de Argel o filme da Revolução da Argélia, como o Couraçado Potemkin o fora da Revolução Russa, e aqueles outros que viam nele a lógica latente da argumentação ideológica ocidental, pró-Israel, portanto, contra os interesses do povo árabe, em geral, e dos palestinianos, em particular.


O filme não é uma coisa nem outra. Sem deixar de expressar um ponto de vista, soube, simplesmente, contornar a tentação retórica. A ideia inicial, seguramente de maior pendor de propaganda, partiu de um destacado dirigente argelino, Yacef Saadi, ex-chefe da Zona Autónoma da Frente de Libertação Nacional (FLN), três vezes condenado à morte e outras tantas indultado. Saadi passava parte do tempo na prisão ocupado a fazer filmes na cabeça, segundo diria mais tarde. Libertado em 1962, ano da independência, saiu da cadeia com um livro intitulado Souvenirs de la Bataille d’Alger, escrito durante o cativeiro, no qual relatava a sua experiência de combatente.


Cena de A Batalha de Argel. Dirigentes da Frente de Libertação Nacional (FLN), procurados pelos pára-quedistas franceses, no esconderijo de numa casa no Casbah. Yacef Saiid, no papel de Jaffar, é o segundo a contar da esquerda. À direita, Brahim Haggiag, que interpreta Ali la Pointe.

Querendo adaptá-lo à tela após a independência, fez-se produtor e contactou três cineastas italianos com passagem pelo neo-realismo. Francesco Rossi foi um deles, mas estava ocupado com outro filme. Luchino Visconti mostrou-se indisponível e sugeriu Gillo Pontecorvo. E Gillo Pontecorvo, então a trabalhar com Franco Solinas num projecto que deveria ter Paul Newman no papel de um jornalista americano a tentar compreender a Revolução Argelina, aceitou o desafio. Com Solinas deu de imediato início à escrita do argumento, um aturado trabalho de depuração, com base no material proposto por Saadi. Vejamos alguns antecedentes.


Frantz Fanon: “Cada colonizado armado é um pedaço vivo da nação”


A ocupação militar da Argélia principiou em 1830, sendo acompanhada de uma vaga de colonos que rapidamente ocupou as melhores terras - as terras negras - até então na posse da população árabe muçulmana, cujos direitos foram simplesmente ignorados. O mesmo sucedeu, de um modo geral, em relação aos povos berberes, originários do território. Assumindo a tutela política e administrativa, os colonos constituíram-se numa sociedade à parte. Só em 1947, no pós-guerra, Paris aprovou uma lei que permitia aos argelinos serem cidadãos franceses sem abdicar da sua identidade ética e religiosa. Porém, dada a oposição da elite colonial, a lei nunca chegou a ser aplicada.


A França, concomitantemente, iniciara a descolonização dos seus territórios africanos, reservando para si, no entanto, o vasto e rico território da Argélia, visto como uma província, parte integrante do território continental. Por essa altura, sobretudo após o movimento cívico-militar, nacionalista e anti-imperialista, que, em 1952, levou Gamal Abdel Nasser ao poder no Egito, o movimento insurrecional, beneficiando de maior apoio, ganhou novo impulso e alastrou a todo o território. Em 1954, encontrada uma plataforma de entendimento das diversas tendências favoráveis à independência, foi fundada a Frente de Libertação Nacional, bem como o seu braço armado, o Exército de Libertação Nacional.


Ninguém como Frantz Fanon, um psiquiatra e filósofo negro oriundo da Martinica francesa, soube interpretar a teia de sinais complexos inerente aos processos de descolonização. O seu último livro, Os Condenados da Terra (1961), apesar de ser visto como uma espécie de Bíblia da Revolução no Terceiro Mundo, reporta, na verdade, essencialmente à Argélia, onde o seu envolvimento com a luta armada foi incondicional. Em 1953, o governo francês destacou-o para prestar serviços clínicos na colónia africana. Acabado de chegar, logo tomou partido. Socialista de formação marxista, para ele o processo de descolonização era indissociável da revolução social. Se assim não fosse, advertiu, os estados recém-independentes iriam reproduzir os mecanismos da dominação do capitalismo racializado, regredindo para o autoritarismo, o tribalismo e o chauvinismo étnico-religioso.


Frantz Fanon: “Caso o nacionalismo não seja explicado, enriquecido e aprofundado, se ele não se transformar muito rapidamente em uma consciência social e política, em humanismo, então chegaremos um beco sem saída”. Fonte: Revista CULT - UOL

Logo no início de Os Condenados da Terra há uma passagem em tudo aplicável à dramaturgia do filme de Gillo Pontecorvo quando Fanon escreve que a descolonização “modifica fundamentalmente o ser, transforma os espectadores esmagados pela falta do essencial em atores privilegiados, amarrados de maneira quase grandiosa pelo correr da História.” A passagem do estado de passividade ao protagonismo da acção é bem visível na cidade de Argel. É ali que de forma clara se manifestam os sinais da contradição dominador/ dominado, seja em função do modo de ocupação do espaço urbano, seja do estilo de vida que distingue o mundo do colono do mundo do colonizado. Pontecorvo entendeu essa tensão dialéctica. Viu, quer no espaço urbano, quer nas relações sociais nele desenvolvidas, o elemento estruturante da composição dramática das personagens. É nesse contexto, como diria Fanon, que se dá a metamorfose do “colonizado armado em pedaço vivo da nação.”


A cidade mais europeia de África; e a mais violenta


Argel, também chamada a cidade branca devido ao casario resplandecente que se ergue colina acima a partir da costa mediterrânea, teria, em meados dos anos 50, à volta de um milhão de habitantes, na esmagadora maioria brancos ou pieds noirs, nome dado aos descendentes dos ocupantes franceses. Mais acima, coroando a parte superior da colina, ficava o Casbah, a cidade árabe, muralhada, de ruas labirínticas, onde se acantonavam, segregadas, perto de cem mil pessoas sem nada em comum com os colonos, dadas as diferenças de ordem cultural, étnica e religiosa. Vista como a mais europeia das cidades africanas, atendendo ao número de franceses e ao seu estilo de vida, Argel era não uma, mas duas cidades, não complementares. Na verdade, duas cidades radicalmente opostas, nas quais numa se falava francês, na outra, árabe. Daí, também, a importância de ver o filme de Pontecorvo falado em francês e árabe e não em quaisquer outras línguas presentes em diversas versões que circulam.


Dito isto, em função do princípio de exclusão recíproca, para Fanon uma das partes estava a mais:


“A cidade do colono é uma cidade firme, toda de pedra e de ferro. É uma cidade iluminada, asfaltada, em que as lixeiras transbordam restos desconhecidos, jamais vistos ou sequer sonhados. [...] A cidade do colono é uma cidade satisfeita, preguiçosa, sempre repleta de coisas boas no seu interior. A cidade do colono é uma cidade de brancos, de estrangeiros.”


Pelo contrário, a cidade do colonizado, indígena, negra, a cidade da medina, a reserva, é um lugar de mau nome, povoado de homens de má reputação. As pessoas nascem não importa onde, não importa como. Morrem não importa onde, não importa de quê. Diz Fanon:


“É um mundo sem intervalos, os homens ficam uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. [...] O colonizado olha para a cidade dos colonos com luxúria, com inveja. Sonha possuir. Todos os modos de posse: sentar-se à mesa do colono, deitar-se na cama do colono, de preferência com a mulher do colono. [...], não há um só colonizado que não sonhe, ao menos uma vez por dia, estar no lugar do colono.”


Tal é o pano de fundo de A Batalha de Argel.


Gillo Pontecorvo no Casbah dirige Brahim Haggiag no papel de Ali la Pointe Fonte: Escales Documentaires

Como Pontecorvo viria a admitir, as ideias de Fanon foram importantes não só para a percepção da cidade colonial, mas também das engrenagens simbólicas da descolonização. As antinomias, sem o filtro da reflexão sobre a vivência do real, são facilmente redutíveis a jogos de estereótipos. Fanon alertou para isso. Pontecorvo aprendeu a lição, evitou a armadilha. No argumento, deixou respirar, por vezes, de forma crua, não só a relação complexa do mundo do oprimido com o mundo do opressor, mas, também, as tensões existentes no interior de cada um desses mundos.


Por exemplo, a Frente de Libertação Nacional estava longe de ser um movimento homogéneo. Coabitavam no seu seio diversas tendências, porventura até potencialmente fratricidas como, de resto, o futuro pós-independência viria a confirmar, desde logo, no caso do afastamento de Ben Bella, o primeiro presidente do País. Não sendo feita referência explícita a essas divergências, nem por isso elas deixam de estar presentes no filme através de sinais como os estilos de liderança de El-hadi Jaffar (Yacef Saadi) e de Ali la Pointe.


O mesmo se aplica ao papel das mulheres nos atentados contra a polícia, bem como na colocação de explosivos em lugares de lazer da elite branca. Tradicionalmente ocupando um lugar secundário na sociedade árabe, em A Batalha de Alrgel, tal como aconteceu, de facto, a mulher leva a cabo as missões de guerrilha urbana mais arriscadas. Passa por uma metamorfose. Tanto usa a burka, escondendo um revólver nas vestes para ser utilizado por um atirador furtivo, quanto, vestida, penteada e maquilhada como as mulheres ocidentais, transporta na mala de mão a bomba que há-de causar um massacre em cafés ou discotecas pejados de colonos.


É como se, no plano da tomada de decisões conducente às múltiplas acções presentes no filme, Pontecorvo, ao deixar em suspenso as contradições inerentes à circunstância das personagens, deixasse ao espectador a tarefa de preencher os espaços em branco. Daí, a vitalidade primordial de A Batalha de Argel, a sua pulsão latente, dando sentido ao que o cineasta chamou a “ditadura da verdade”.


As mulheres são as grandes artífices das acções mais ousadas em A Batalha de Argel. Também são elas que asseguram a retaguarda da guerrilha e cuidam do dia a dia. Nesta cena, algumas tentam passar o cordão de segurança das tropas pára-quedistas numa das saídas do Kasbah. É com elas a celebrar a independência, em grande plano, que Gillo Pontecorvo termina o filme. Fonte: Institut du monde Arabe

Subversão ficcional e cinema documental


A “ditadura da verdade” é indissociável de dispositivos recorrentes no cinema documental, designadamente os mais obviamente tributários daquilo a que Paul Rotha chamou a tradição de newsreels (ver neste blogue os textos sobre o Movimento Documentarista Britânico). Essa tradição vem do tempo da agitprop soviética, dos kinoks de Dziga Vertov, do Cine-Olho e dos comboios de propaganda de Alexander Medevekine. A sua influência chegou e está bem viva nos nossos dias indo bem além do documentário. De passagem, dois exemplos. Orson Welles em Citizen Kane (1941) parodiou March of Time, o jornal cinematográfico mais famoso da época. Woody Allen também foi buscar a newsreels a inspiração para o seu extraordinário Zelig (1983).


Por outro lado, recuperando a matriz do cinema neo-realista italiano do pós-guerra, bem como procedimentos do cinéma-vérité do início dos anos 60, entre os quais a utilização frequente da câmara ao ombro, as opções estéticas de Pontecorvo, por via de sucessivas combinações estilísticas, convergem no sentido de criar cenas e sequências de um realismo asfixiante. Optando pelo preto e branco com o granulado habitual das actualidades cinematográficas, o que induz uma impressão de verosimilhança histórica, sem actores profissionais à excepção de Jean Martin no papel do coronel Mathieu, com Yacef Saadi no papel de um dos dirigentes da FLN, tal como acontecera na vida real, e fazendo do Casbah, sem reconstituições, o palco onde a maior parte das acções mais relevantes se tinham efectivamente verificado, Pontecorvo compõe uma teia dramática ao ponto de levar o espectador a sentir-se parte da acção. Para tanto, muito contribui igualmente a trilha sonora do então principiante Ennio Morricone, o compositor da partitura musical a partir dos sons do quotidiano do Casbah.


Sentir-se parte da acção, porém, só complica a posição do espectador. O que lhe é concedido deixa-o numa posição incómoda. Não se lhe permite tomar partido sem que a sombra da dúvida se insinue. A espiral de violência, na qual habitam quer a FNL quer as tropas pára-quedistas francesas - uma força de elite com cerca de oito mil homens - chamadas para jugular a rebelião, é olhada no filme sem condescendência. Quem o vê não pode deixar de se interrogar a cada momento sobre a brutalidade dos métodos de ambas as partes, se os fins justificam os meios. Mas essa brutalidade, tratada com crueza não é necessariamente gráfica. Com contenção e rigor, por vezes, Pontecorvo opta pela elipse, como que deixando o acto em suspenso. Este procedimento não só amplifica o efeito dramático das cenas, mas também suscita novas questões. Anos mais tarde, quando começou a haver coragem para falar um pouco mais abertamente dos factos, alguns dos protagonistas, viriam a esclarecer os contornos de zonas mais sombrias.


Sob o comando do general Jacques Massu coube à 10ª Divisão Pára-Quedista o combate ao comando insurrecional da FLN a operar em Argel. Três dos quatro grupos de combate receberam a missão de restaurar a ordem na cidade. O quarto estacionou na periferia, constituindo-se como força de reserva. No filme, Massu dá lugar ao coronel Mathieu - interpretado por Jean Martin, um dos subscritores do Manifesto dos 121, de 1960, sobre o Direito à Insubmissão - que aparece nesta cena a ser apoteoticamente recebido pelos colonos franceses.

Yacef Saadi, que seria senador da Assembleia Nacional da Argélia, admitiria ter assinado pelo próprio punho a sentença de morte de diversos agentes e colaboradores do colonialismo francês, bem como a ordem de execução de atentados contra pieds noirs de Argel. Para ele, o contexto da luta de libertação justificava medidas extremas, uma vez que, para além da legitimidade histórica, considerava igualmente extremos e totalmente arbitrários os métodos repressivos das tropas ocupantes. Numa entrevista ao Le Monde, em 2007, viria a repudiar, no entanto, o jihadismo islâmico, manifestando completo desprezo pelos atentados dos bombistas suicidas.


Por sua vez, o general francês Paul Aussaresses, torturador de facto de outro dos protagonistas do filme, Ahmed Benyahi, diria, também ao Le Monde, em 2000, que a prática da tortura na Argélia era sistemática, tendo ele próprio feito desaparecer mais de três mil detidos suspeitos de subversão. Posteriormente, no documentário A Batalha de Argel, Um Filme Dentro Da História (2017) de Malek Bensmail, o realizador recupera declarações de Aussaresses: “Quando cheguei à Argélia em 1957 a tortura era generalizada e, de facto, nós executávamos os presos. Não creio que pudesse ter sido de outro modo. Da minha parte, não sinto remorso nem me arrependo.”


Sendo A Batalha de Argel um filme ficcional, Inteiramente encenado, é espantoso como enquanto narrativa resulta num filme documentário, para mais, um filme documentário vivido como se fosse em tempo real. Dir-se-ia que os dispositivos da ficção, ao invés de diluirem o real, lhe conferiram uma espessura histórica absolutamente verosímil. Tortura, repressão, ataques terroristas, sacrifícios pessoais, convicções profundas, atentados à bomba, heroísmo, condenações à morte, enfim, um desfile de atrocidades e de actos de coragem organizado de tal modo que, ao longo dos anos, para além da sua qualidade intrínseca, o filme tem sido visto, pasme-se, tanto como um manual da guerrilha quanto como uma cartilha de como a combater. De tão complexo, diria, de tão verdadeiro, não admira que o movimento dos Black Panthers americanos o tenha adoptado como lição a aprender e que o Pentágono, em 2004, o tenha estudado ao pormenor para planear o enfrentamento com a Al Qaeda. Esse poder e fascínio continuam inalteráveis.


Yacef Saadi e Gillo Pontecorvo no 27º Festival de Cinema de Veneza, em 1967, onde A Batalha de Argel conquistou o Leão de Ouro. Apenas meia dúzia de anos antes Saadi relatava assim a sua experiência: “Quando estive preso as execuções eram de madrugada. Por isso, ao romper do sol através das grades, eu ficava a saber que iria viver mais um dia. Mas estive sempre convencido que mais cedo ou mais tarde chegaria a minha vez.” Fonte: Wikimedia Commons

Há 60 anos, 60 anos depois: apontamento final


A Guerra da Independência da Argélia durou oito anos. Começou em 1 de novembro de 1954 com uma série de atentados levados a cabo pela FLN. A França, ainda não recomposta da humilhação da derrota militar em Dien Bien Phu, e consequente perda da Indochina, enviou para a colónia africana 400 mil soldados, muitos deles acabados de sair do solo asiático. Gerou-se uma onda de protestos. Contudo, numa primeira fase, a maioria da opinião pública permaneceu favorável à manutenção da Argélia, posição, de resto, idêntica à do governo e do Ministro do Interior da altura, o socialista François Miterrand. Porém, quando a brutalidade da repressão francesa passou a fazer as manchetes dos jornais, as opiniões começaram a divergir.


Chamado para lidar com a situação, o general Charles de Gaulle, herói da resistência ao nazismo, foi imediatamente confrontado com a Batalha de Argel, o episódio mais sangrento da guerra de independência. Em Janeiro de 1957, o general Massu, enviado para a Argélia à frente de uma tropa de elite de oito mil pára-quedistas com a missão de liquidar a insurreição, conseguiu, efectivamente, desarticular a resistência. A par da violência indiscriminada, criou um engenhoso plano baseado numa combinação de interrogatórios, tortura e denúncia, que lhe permitiu decapitar a Zona Autónoma da Frente de Libertação Nacional de Argel. Yacef Saadi foi preso, Ali La Pointe, morto. A Batalha de Argel durara nove meses. Mas, a vitória de Massu foi uma vitória de Pirro.


De Gaulle tinha percebido que o problema não teria uma solução militar. Confrontado com os insucessos no terreno, com a inequívoca hostilidade da maioria da população argelina e com uma opinião pública em França que tinha virado para posições cada vez mais contrárias à continuidade da guerra, começou a trabalhar no sentido de encontrar uma solução política. A extrema-direita reagiu criando a Organização do Exército Secreto (OAS), um grupo terrorista favorável à proclamação da independência branca. Mas, o processo de descolonização seguiu o seu curso. Após a realização de um referendo, a 8 de março de 1962, o acordo de Evian, celebrado entre a França e os nacionalistas, pôs termo à guerra. A 5 de julho do mesmo ano foi proclamada a independência. Calcula-se que tenham perdido a vida mais de 400 mil argelinos e cerca de 30 mil soldados franceses. São números conservadores. Mais consensual é o êxodo dos colonos, à volta de um milhão.


Recrutado pela FLN após ter escapado da prisão onde se encontrava a cumprir pena por tentativa de homicídio, Ali la Pointe tornar-se-ia um guerrilheiro lendário. Morreu aos 27 anos durante a Batalha de Argel num atentado perpetrado pelos militares franceses. La Pointe é considerado um herói da Revolução Argelina. Fonte: Fonte: frwiki.wiki

Uma nota de rodapé. Quando Gillo Pontecorvo filmava na capital argelina, em 1965, os tanques cedidos para fazer o seu filme confundiam-se nas ruas com os tanques do golpe de estado que, nessa mesma altura, estava a ser levado a cabo para depor o presidente Ben Bella e substituí-lo por Houari Boumédiène. “O político - dizia Frantz Fanon - não deve ignorar que o futuro permanecerá fechado enquanto a consciência do povo for rudimentar, primária, opaca.” Tudo isto, até o golpe de estado, está latente premonitoriamente, em A Batalha de Argel. É por isso que, quase 60 anos depois, este filme é, na verdade, um monumento.


Yacef Saadi, ficha da policia internacional.






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Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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