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   viagem pelas imagens e palavras do      quotidiano

NDR

  • Foto do escritor: Jorge Campos
    Jorge Campos
  • 1 de out. de 2020
  • 19 min de leitura

Atualizado: 24 de out. de 2020



Uma iniciativa do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto (TCAV), da Alliance Française Portugal e do Goethe Institut Portugal no Porto no âmbito do Project Elysée com a colaboração do  Curtas de Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema e Solar Galeria de Arte Cinemática – Vila do Conde.


Projecto Elysée.

O Project Elysée resulta de uma parceria franco-alemã para efeito da organização de actividades culturais a desenvolver em países terceiros. Criado por ocasião do 40.° Aniversário do Tratado de Elysée pelos Ministérios das Relações Exteriores da Alemanha e da França tem por objectivo promover a visibilidade de ambos os países. O Project Elysée requer a colaboração de parceiros locais reconhecidamente qualificados, numa perspectiva de interacção criativa, por forma a tirar partido de sinergias existentes e garantir o sucesso das iniciativas programadas.

Olhares sobre a cidade


Cidades e cineastas. Países. Há países que antes de o serem são cinema. A América, diz Baudrillard, é um país cinematográfico. A cidade americana parece ter saído, viva, da sala de cinema: “Por isso, para aprender o segredo, não se deve ir da cidade ao ecrã, mas sim do ecrã à cidade”. Segredo é, portanto, a palavra chave do cinema. É impossível ficar-lhe indiferente porque dela se espera que em si mesma contenha o seu contrário: revelação. E o mesmo sucede com a fotografia, esse argumento sobre o mundo em pinceladas de luz convidando à viagem que, como diria Cartier-Bresson, viajante infatigável, põe na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.


Mas, atenção: a imagem, por natureza, é polissémica. E o discurso, sendo uma prática expressiva da linguagem com vista à produção e circulação social de sentido, tem uma pluralidade equivalente à de quem o produz. Por isso, a narrativa, ou seja, a criação de um universo imaginário apoiado em lugares, acontecimentos e personagens, porque resulta do discurso, faz a refracção do olhar de muitas e variadas maneiras. É esse o sentido destes Olhares sobre a Cidade.


Fição? Não-ficção? Dir-se-ia que a ficção inventa livremente acontecimentos e personagens de modo a construir um argumento e que a não-ficção produz asserções sobre acontecimentos e personagens do mundo histórico. Mas que importa? Em qualquer dos casos, no Cinema e na Fotografia a imaginação criadora tem um papel determinante na estruturação da narrativa, ou seja, no modo como o discurso procede à representação do real. Por alguma razão este ciclo se chama Imagens do Real Imaginado.


Quer a cidade cinemática, porque irrompendo do ecrã se revela outra, quer a cidade fotográfica, porque num instante parece fixar o limiar da transcendência, são exemplos das ilimitadas possibilidades combinatórias reguladas pelo olho que observando selecciona, seleccionando imagina, imaginando revela e revelando questiona. Da metamorfose do real pró-fílmico ou pró-fotográfico em algo organizado segundo um estilo e um ponto de vista podem, portanto, resultar muitas cidades. Nelas cabem avenidas, edifícios, perspectivas, movimento, máquinas, linhas de fuga, volumes, espaços, amor, mistérios, angústia, medo, violência, ritmos, sons, neblinas, o sol e a chuva, ordem e desordem, o dia e a noite, o sexo e a morte, tudo o que se queira e gente, sobretudo gente, pessoas, porque as cidades são habitadas, aliás, foram construídas para serem habitadas.


A pós-modernidade, é certo, deu corpo ao não-lugar. De certo modo é isso que está em Vacancy de Mathias Müller. Em Playtime Jacques Tati ironiza magistralmente com esses espaços de apagamento da memória, sem identidade e sem história, de serviços automáticos, despidos de espessura humana proclamando embora a singularidade e a individualidade dos seus protótipos e dos seus autómatos. De igual modo, o projecto fotográfico 8/2 de Olívia da Silva sobre “um dos mais fascinantes lugares do mundo: o mercado (...) onde bate o coração da cidade sem folclore nem cerimónia” propõe como oposição radical ao não-lugar esse mundo “que aguça os sentidos: os rostos, os pregões, os cheiros, as cores, o bulício, confundem-se e sobrepõem-se de forma estonteante.” São ainda lugares vivos de identidades e memórias a cidade do Porto que nos desafia em ambos os filmes de Manoel de Oliveira e a cidade de Lisboa tal como Fernando Lopes a viu em Belarmino.


Cidades imaginadas. Cidades imaginárias. Partindo do espaço e do tempo do ecrã ou do instante decisivo fixado na imagem fotográfica, em qualquer dos casos, a aventura do olhar resulta de possibilidades combinatórias indutoras de metamorfoses praticamente ilimitadas. Assim, a cidade de Berlim (1926) de Walter Ruttman não é a cidade de Berlim (1998) de Manfred Wilhelms, como a cidade de Paris de Jean Rouch em Petit a Petit (1971) não é nem é a cidade de Paris de René Clair em Paris qui dort (1925), nem a cidade de Paris de Joris Ivens de La Seine à rencontré Paris (1958).  Tão pouco a cidade de Lisboa de Lisbon Story (1994) de Wim Wenders é a cidade de Lisboa de Berlarmino (1964) de Fernando Lopes. Nem sequer a cidade do Porto de Douro, Faina Fluvial (1931) de Manoel de Oliveira é a mesma cidade do Porto de O Porto da Minha Infância (2001) do mesmo Manoel de Oliveira. E, contudo: quanto mais amplo é o escopo das narrativas, tanto mais expressivo é o perfil dessas cidades imaginadas nas quais a presença da memória, dos traços de um determinado presente e de um ponto de vista confere o sentido prospectivo da incursão em cidades imaginárias.


Uma nota final sobre estes Olhares sobre a Cidade. Os filmes seleccionados inscrevem-se em diversos episódios da História do Cinema. Os mais antigos remetem para as vanguardas artísticas dos anos 20 e 30 do século passado, os mais recentes entram pelo século XXI, como sucede com a obra do canadiano Mike Hoolboom, que tem vindo a desenvolver um conjunto de instalações nas quais utiliza o cinema e os media enquanto espelho dos indivíduos na sua relação com o mundo numa visão crítica dos paradigmas emergentes da voragem da mediatização. Todos obedecem, porém, a um denominador comum: são exemplarmente modernos porque, enquanto propostas, respeitam a transparência do olhar, rejeitando o caos das imagens. O mesmo sucede com a obra dos fotógrafos convidados, neste caso, reflectindo a diversidade da fotografia actual.


Em suma, como resulta da selecção de filmes e dos projectos fotográficos, bem como do painel dos convidados, procurou-se abrir espaço a um olhar transversal fundado em saberes multidisciplinares, cujo denominador comum reside, porventura, nessa razão utópica de sonhar infinitamente o lugar da Cidade e de quem a habita.


Jorge Campos

Dia 5 de Novembro 2007

14.30 – BMAG

Sessão de Abertura

Presença de representantes de todas as instituições envolvidas:

Instituto Politécnico do Porto

Alliance Française Portugal

. Goethe Institut Portugal Porto

. Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de cinema e Solar Galeria de Arte Cinemática – Vila do Conde

. Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo

. Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do IPP


Filme de escola (CTCAV):

Latitudes (2007, 12’, DVD) de Andreia Teixeira do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto


15.30– BMAG

Apresentação de Mike Hoolboom por Nuno Rodrigues do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde.

Filme:

Public Lighting (76’, Beta SP) de Mike Hoolboom

Apresentação de Mike Hoolboom



17.30 – BMAG

Masterclass

Mike Hoolboom

Mike Hoolboom é um cineasta canadiano com enorme prestígio internacional na área do cinema experimental e de projectos transdisciplinares, tanto do ponto de vista da criação como da crítica, que tem vindo a desenvolver um conjunto de instalações nas quais utiliza o cinema e os media enquanto espelho dos indivíduos e da sua vida no mundo, propondo, numa visão acutilante e crítica, os paradigmas emergentes da voragem da mediatização da Arte e da Cultura e, sobretudo, do Cinema e dos Audiovisuais.


21.45 – PM

Filme:

Imitations of Life (75’ Beta SP) de Mike Hoolboom

Apresentação de Mike Hoolboom

Dia 6 de Novembro 2007

14.30 - BMAG

Filme:

Berlin, Sinfonie einer GroßstadtBerlim, Sinfonia de uma Grande Cidade (1927, 65’, 16 mm) de Walter Ruttmann



Apresentação de Helmut Färber

Helmut Färber


Helmut Färber é um dos mais influentes críticos de cinema da Alemanha. Nascido em Munique em 1937 estudou Literatura Alemã e História de Arte. Em 1962 começou a escrever para o jornal diário alemão Süddeutsche Zeitung e, pouco depois, para a revista Filmkritik. É professor em Berlim na DFFB (Academia Alemã de Filme e Televisão), bem como em Munique na HFF (Escola de Ensino Superior de Filme) e no Instituto da História de Arte da Universidade de Munique. Tem uma vasta obra publicada. Continua a escrever para Filmkritik e, também, para a revista francesa Trafic.

Berlim, Sinfonia de um Cidade (1927) de Walter Rutmann é um filme que exalta o movimento e o dinamismo de uma grande cidade. Numa altura em que a capital alemã era um verdadeiro laboratório das artes, Ruttmann, um pintor vanguardista, faz esta sua primeira grande incursão no cinema deixando como legado um filme intemporal, cuja modernidade continua inquestionável. 


Intervalo


Filme:

Berlin, Im Lichtbild der GrossstadtBerlim, Imagens de uma Cidade (1998, 82’, 16mm) de Manfred Wilhelms



O filme de Manfred Wilhelms, pintor, fotógrafo e cineasta, estabelece o contraponto como o filme de Ruttmann. Realizado em 1995, num momento de acelerada transformação devido à queda do muro de Berlim, quando grandes obras começaram a alterar profundamente a imagem da cidade, Wilhelms procurou dar a medida do que estava a acontecer. Fê-lo, no entanto, permitindo que a cidade se fosse revelando por si mesma. Não se serve da autoridade de uma voz em off. Limita-se ao registo de sons e imagens sobre os quais exerce o seu ponto de vista. 

Apresentação de Helmut Färber


17.30 – BMAG

Painel

O Cinema e as Cidades: perspectivas


Filme:

Vacancy (2001, 13’, 16mm) de Mathias Müller

Brasília a cidade de superlativos, a cidade moderna, a capital do Brasil. Mas também a cidade anónima de arquitectura sobredimensional, cujos habitantes parecem perdidos. Matthias Müller constrói o seu filme a partir de imagens de arquivo e de cineastas amadores respeitantes à construção de Brasília, às quais sobrepõe textos de Italo Calvino, Samuel Beckett e David Wojnarowicz sobre a relação do homem com a cidade.


Participantes:

Paulo Cunha e Silva

Helmut FärberLuís Urbano

Jean-Luc Antonucci

Arquitecto, Mestre de Conferências na École Supérieure d'Audiovisuel (ESAV - Université Toulouse-Le Mirail) e membro do Laboratoire de Recherche en Audiovisuel (LARA). Especialista em Cinema e Arquitectura é autor de uma tese de doutoramento sobre a perspectiva e o décor no cinema e tem publicação dispersa por diversas publicações. Faz parte do corpo redactorial da Cadrage, a primeira revista universitária on line de cinema. 

Conversador: Jorge Campos

21.45 – PM

Filme :

Paris qui dort (1925, 35’, 35 mm) de René Clair



É o primeiro filme avant-garde de René Clair e o primeiro grande filme dadaísta sobre Paris. Albert, o guarda nocturno da Tour Eiffel, assiste ao espectáculo de uma grande cidade adormecida por acção de um raio mágico, invenção de um cientista louco. Cinco personagens, que chegam de avião escapando ao efeito do raio, exploram a cidade e instalam-se na Tour Eiffel. O conceito de tempo, fundamental na arte Dada, é aqui sabiamente explorado. Os relógios de Paris pararam às 3.25h. Manipulando o tempo através dos dispositivos do cinema Clair suspende ou acelera a acção para expor uma outra imagem da cidade e dos seus habitantes. 

Apresentação de Jean-Luc Antonucci


Intervalo


Filme:

Playtime (1967, 115’, 35mm) de Jacques Tati



A obra-prima de Tati é uma reflexão bem humorada sobre o nosso tempo, o nosso espaço habitado e o nosso espaço interior em função desse mesmo espaço habitado. Turistas americanos aproveitam as vantagens dos vôos económicos para visitar diversas cidades europeias. Quando desembarcam em Paris constatam que o aeroporto é exactamente igual do de Roma, as ruas são semelhantes às de Hamburgo e até os candeeiros são estranhamente parecidos com os de Nova Iorque. Começam a ter contactos com franceses, entre os quais, evidentemente, o Sr. Hulot.

Apresentação de Jean-Luc Antonucci


Dia 7 de Novembro 2007

14.30 – BMAG

Masterclass

O olhar cinematográfico sobre a cidade: metamorfoses


Gerard Collas

Foi uma das presenças regulares na Programação de Cinema da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura. Produtor, crítico cinematográfico com textos publicados em diversas publicações, especialista do filme documentário Gerard Collas é igualmente o principal responsável pelo Festival de Cinema Documental de Marselha, um dos mais importantes da Europa.


Filme:

Aurora (1927, 91’, 35mm) de F. W. Murnau


Em toda a história dos Óscares da Academia houve um prémio atribuído uma única vez: “Unique and Artistic Picture”. A distinção foi para Aurora (1927) o primeiro filme americano do alemão F.W. Murnau. Em 1967, os Cahiers du Cinema consideravam-no “a maior obra-prima de toda a história do cinema”. Para François Truffaut era “o mais belo filme de todos os tempos”. Aurora começa por ser a história de um triângulo amoroso, mas é igualmente a história do contraste de dois mundos, a cidade e o campo. A vida tranquila de uma família do campo é posta em causa pela chegada de uma provocante mulher da cidade. Incapaz de lhe resistir, o pai de família decide matar a sua mulher a troco da promessa de uma vida cheia de paixão e aventura. Sendo um thriller psicológico o filme mergulha na tradição das sinfonias das cidades, de que Berlin de Ruttman e Douro, Faina Fluvial de Oliveira, de distintas maneiras, são exemplos, proporcionando uma série de sequências cinematográficas sem paralelo no modo de traduzir quer a vida do campo quer a vida citadina.

Apresentação de Gerard Collas


17.30 – BMAG

Filme :

Petit à petit (1971, 96’, DVD) de Jean Rouch



Este filme é visto habitualmente como a continuação do filme anterior de Jean Rouch Jaguar. Inicialmente com uma duração de cerca de quatro horas conheceu diversas alterações até chegar à versão que hoje circula. A história é como segue. Damouré, que dirige com Lam e Illo a sociedade de importação e exportação Petit à petit, decide construir um grande edifício na sua aldeia do Niger. Parte para Paris para ver “como se vive numa casa com andares”. Na capital francesa descobre o curioso modo de viver e de pensar dos parisienses, que descreve em cartas enviadas regularmente aos seus conterrâneos. Estes julgam que Damouré está a ficar louco e resolvem enviar Lam ao seu encontro para se certificar do seu estado de saúde.

Apresentação de Manoel de Oliveira


21.30 – PM

Filme:

Lisbon Story (1994, 100’, 35 mm) de Wim Wenders


Lisbon Story resultou de uma encomenda a Wim Wenders de Lisboa 1994 - Capital Europeia da Cultura. O engenheiro de som Philip Winter recebe um postal dum amigo cineasta com o pedido urgente de vir a Lisboa para fazer um filme. Winter descobre que o amigo habita a casa onde os Madredeus ensaiam, mas não há sinal dele. Vendo os rolos de filme que encontra pela casa começa a gravar os sons da cidade que eventualmente possam vir a servir o filme. Finalmente, descobre o amigo, que lhe comunica ter perdido a fé nas imagens. Feito por ocasião do centenário do cinema, contando com a participação de Manoel de Oliveira, este é um filme no qual o cinema se resgata a si mesmo. No mundo do mercantilismo e da banalização das imagens, onde tudo se vende há, ainda, lugar para um final feliz: ao cinema cabe introduzir, lá onde predomina o caos, uma certa ordem do mundo. Wenders tem, aliás, um livro intitulado  A Lógica das Imagens

Apresentação de Helmut Färber


Dia 8 de Novembro 2007


14.30 – BMAG

Painel

Fotografar Cidades

Participantes:

Olívia da Silva

Luis Carvalho

Cláudia Fischer

Georges Dussaud


Dussaud é natural de Brou, próximo de Chartres, onde nasceu em 1934. A fotografia sempre foi um dos seus principais interesses, mas a sua primeira exposição como profissional só se verificou em Nantes, em 1978. Tem trabalhado com frequência em Portugal onde concretizou projectos, por exemplo, sobre as vindimas do Douro, a propósito das quais publicou um livro, e, mais tarde, sobre a cidade de Lisboa. Em 1986 aderiu à agência Rapho. Nos últimos anos tem feito incidir a sua atenção sobre o mundo rural europeu e sobre a Índia.

Conversador: Eric Many


17.30 – BMAG

Filme:

On a Wednesday night in Tokio (2204, 5’ 35’’ DVD) de Jan Verbeek

Jan Verbbeek coloca uma câmara de vídeo fixa diante de uma carruagem do metro de Tóquio. Quando o metro pára na estação, já a carruagem estava superlotada.  Durante 5’ 35’’, o tempo de chegada e o tempo de partida da carruagem, as pessoas vão entrando.


Filme:

Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten – Notebook on Cities & Clothes (1989, 79’, 16 mm) de Wim Wenders


Yohji Yamamoto é um dos mais célebres designers de moda japoneses, cujo génio criativo se exerce no intercâmbio entre duas metrópoles: Paris e Tóquio. A câmara de filmar de Wim Wenders acompanha Yamamoto agindo como criador, trabalhando com modelos, estúdios e passarelles. Mas mostra igualmente a relação que se estabelece entre os dois homens em momentos de convívio e descontracção. Daí que neste documentário, a arte de vestir reverta, de certo modo, num retrato das cidades e suscite uma reflexão sobre o que possa haver em comum entre a arquitectura, a moda e o cinema.

Apresentação de Helmut Färber


21.45 – PM

Filme :

La Seine à rencontré Paris de Joris Ivens (1958, 31’, 35 mm)



Palma de Ouro do Documentário no Festival de Cannes de 1958 La Seine a rencontré Paris tem argumento de Jacques Prévert, narração de Serge Reggiani e realização de Joris Ivens. Este elenco, só por si, dispensaria qualquer outro comentário. Seja como for: há um barco que percorre os cais do Sena, artistas que pintam, freiras que se abraçam, amantes que se beijam, um mergulhador que recupera ao rio a bicicleta de um rapazinho, gente que pesca, música de acordeão, enfim, é Paris, c’est la vie.


Apresentação de Gerard Collas


Intervalo


Filme:

Belarmino (1964, 72’, 35 mm) de Fernando Lopes



Com Belarmino Fernando Lopes terá sido o único cineasta português dos anos 60 a aventurar-se por caminhos próximos do cinema directo. O filme não é, com efeito, cinema directo, mas adopta alguns dos seus procedimentos, o que lhe confere uma singularidade sem paralelo no panorama do Novo Cinema Português. É um corpo a corpo com o antigo boxeur Belarmino Fragoso, homem humilde encadeado pelo sucesso, até resvalar para a marginalidade da cidade em que sempre viveu, Lisboa. No seu rosto marcado pelo estigma da pobreza e pelas luvas dos adversários, ele que, noutro país, até poderia ter sido um grande campeão, acaba em saco de pancada, figura de tragédia, a ter de viver dos biscates da Lisboa vadia dos anos 60. Belarmino, como diz Bénard da Costa “é um filme construído sobre o combate de um personagem com um décor, essa portentosa Lisboa do filme que só pode levá-lo ao K.O. em qualquer round”.

Apresentação de Fernando Lopes


Dia 9 de Novembro 2007


14.30 – BMAG

4 filmes CTCAV do IPP 

Selecção de José Quinta Ferreira

Filme:

The Dead Flag Blues de Jorge Oliveira

Duração: 7’


Quando as bandeiras morrem, para onde vão? Imagética urbana, estruturas verticais que irrompem os céus, bandeiras nos seus postes, postes de electricidade e a música de Godspeed You! Black Emperor que deu o nome à curta.

Filme:

Noite Cão de Carlos Amaral

Duração: 17’

Mauro sai para uma festa para fazer a vontade aos amigos que o tentam animar, mas descobre que há noites em que mais vale ficar em casa.

Filme :

La Valse de Lumière de Ana Maia

Duração: 4’12’’

Um sexagenário solitário vagueia pela noite de uma feira de divertimentos. A feira está vazia, mas por entre girândolas de cor tudo funciona, absurdamente.

Filme:

Miguel Bombarda nº 588 de Cláudia Santos

Duração: 8’22’’

Situada no centro da cidade do Porto, a rua de Miguel Bombarda é muito conhecida principalmente pelas suas galerias de arte. No entanto, existe muito mais para além disso. Existem vidas e ofícios que perduram mesmo depois de surgirem as galerias. É um desses ofícios, e uma dessas vidas que vamos visitar.


Intervalo


Visões Úteis: A Caminho do Resto do Mundo

Apresentação de Catarina Martins


A partir de Heart of Darkness de Joseph Conrad a companhia Visões Úteis realizou a peça Resto do Mundo, um espectáculo que atravessa o Porto. O filme documentário A Caminho do Resto do Mundo (2007) parte do cruzamento entre o registo da peça e o resultado de um workshop realizado na Fundação de Serralves com oito jovens dos bairros de S.João de Deus, Lagarteiro e Cerco do Porto, durante o qual os participantes foram desafiados a filmar, em formato em Super 8, a sua visão pessoal dos seus bairros de pertença. O actor Pedro Carreira interpreta um trecho do texto do espectáculo: o início da descida de Marlow, a perturbante personagem de Joseph Conrad, à profundeza das trevas. Uma introdução ao vivo para o filme de Pedro Maia.


Filme (ante-estreia nacional):

A Caminho do Resto do Mundo (2007, 25’,Vídeo) de Pedro Maia 


Marlow relata a sua viagem, rio acima, na direcção do mais remoto dos entrepostos comerciais. À medida que sobe o rio confronta-se, de forma violenta, não só com as trevas que pressente para lá das margens, mas, sobretudo com aquelas que vai cartografando no coração dos homens. Evocando a recordação de Marlow, um taxista erra pela cidade ao encontro das suas trevas.

Apresentação de Pedro Maia


17.30 – BMAG

Painel

Cinefotografia do Porto: olhares cruzados

Participantes:

Sérgio C. Andrade

Abi Feijó

Virgílio Ferreira

Maria do Carmo Serén

Conversador: Miguel von Hafe Pérez


Filme:

História Trágica com Final Feliz (2006) de Regina Pessoa



Este é o filme português mais premiado de todos os tempos. Já leva mais de 50 prémios muitos dos quais obtidos nos melhores festivais do mundo. Sobre História Trágica com Final Feliz diz Regina Pessoa: “Seguimos uma menina e descobrimos que ela não é igual às outras pessoas, é “diferente”. O traço que a faz diferir não só incomoda a comunidade a que pertence, como se traduz por um profundo sofrimento individual. A comunidade e a menina reagem à diferença, a primeira manifestando a sua intolerância, a segunda isolando-se. Com o tempo, a comunidade acaba por habituar-se insensivelmente à presença da diferença, distanciando-a, mas ao mesmo tempo integrando-a na voragem do seu quotidiano. Porém as diferenças existem, persistem e são irredutíveis. Certas vezes possuem razão de ser e correspondem a estados temporários de trânsito para outros estados de existência, certas vezes são fatais... Seja como for, devem ser assumidas por quem as vive para a levarem a um melhor conhecimento de si própria e a uma mais intensa consciência do mundo. Um dia partirá e deixará a comunidade, que compreenderá, demasiado tarde, que o tal ser estranho que sempre mantivera à distância, tinha acabado por fazer misteriosamente parte da sua vida...”


Douro, Faina Fluvial de Manoel de Oliveira opera a metamorfose do material pró-fílmico do quotidiano da zona ribeirinha do Porto numa obra de vanguarda sem equivalente no cinema português. O filme inscreve-se na tradição das sinfonias das cidades de que Rien que les Heures de Cavalcanti, Berlim de Ruttmann e O Homem da Câmara de Filmar de Vertov são paradigmáticos, e reverte numa reflexão sobre o próprio cinema. O filme começa e acaba, aliás, com a luz de um projector, que se verifica depois ser um farol à entrada do rio, o qual evoca metaforicamente os mecanismos cinematográficos. Esse artifício seria retomado 70 anos mais tarde em O Porto da Minha Infância (2001). Oliveira, então com 23 anos, viu o seu filme ser elogiado por Lopes Ribeiro, pateado pelo público, demolido por parte da crítica e proclamado obra-prima por alguns críticos estrangeiros. Hoje, Douro, Faina Fluvial é um filme de carácter monumental, indissociável da memória da cidade do Porto. 

Filme:

Porto da Minha Infância (2001, 62’, 35 mm) de Manoel de Oliveira


21.30 – PM

Dois Filmes de Manoel de Oliveira:

Douro, Faina Fluvial (1931, 18’, 35 mm)

Porto da Minha Infância (2001, 62’, 35 mm) de Manoel de Oliveira

Apresentação de Manoel de Oliveira

Filme:

Douro, Faina Fluvial (1931, 18’, 35 mm)



Este filme resultou de uma encomenda a Manoel de Oliveira por parte da Odisseia nas Imagens do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Ao nome de Manoel de Oliveira está associada toda a história do cinema português e, em particular, a história do cinema feito no Porto, cuja memória a Odisseia das Imagens pretendeu recuperar, conferindo-lhe um sentido prospectivo. A encomenda, para além da homenagem ao cineasta, tinha o papel simbólico de representar o renascimento da produção do filme documentário feito a partir da cidade. O Porto da Minha Infância foi a obra de maior relevância produzida no âmbito da Programação de Cinema da Capital Europeia da Cultura. No filme, Oliveira regressa à sua cidade natal 70 anos depois de Douro, Faina Fluvial. Mas, desta vez, filma uma cidade que apenas existe na sua memória. O assombroso plano inicial de um maestro de costas para o público dirigindo uma orquestra invisível anuncia isso mesmo. Depois é um mergulho na memória e a descoberta de uma cidade mágica, porque é a cidade revelada da infância e juventude de Oliveira, como ele e viveu e como ele a viu.  Dia 10 de Novembro 2007 21.30 – PM Filme Concerto: Lisboa, Crónica Anedótica de Leitão de Barros

Flak Ensemble Flak (Programações e teclados), Filipe Valentim (Piano), Viviena Tupikova (Violino), Abel Gomes (violoncelo), e Diogo Faro (Clarinete)

Filme: Lisboa, Crónica Anedótica (1930, 85’, 35 mm) de Leitão de Barros Este filme concerto foi comissionado pelo Lisbon Village Festival, tendo tido a sua estreia no Forum Lisboa dia 22 de junho de 2007. A obra teve a sua estreia oficial em 1930 e oferece ao público uma visão da cidade que se respirava na altura. Apesar de este ser o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital é também uma fita onde aparecem os maiores actores da época do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Eurico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha…). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade. Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação. Lisboa, Crónica Anedótica faz-nos respirar e sentir o pulsar de capital portuguesa no final dos anos 20. Exposição de Fotografia BMAG 5 a 10 de Novembro Fragmentos da rodagem de Lisbon Story (1994) de Cesário Alves Cesário Alves Master em Art & Design, especialização em fotografia da University of Derby (Reino Unido), 1998-2001. É docente (disciplina de fotografia) no Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto desde 2001. Produz e expõe regularmente fotografia documental desde 1994. Entre as suas exposições mais recentes, contam-se: "1999", exposição individual, Muuda, Porto, 2007; "Adriano, Ensaio Fotobiográfico", exposição individual, Solar, Galeria de arte cinemática, Vila do Conde, 2006; "Superturismo", exposição individual, Galeria Imagolucis, Porto 2004; . "Superturismo", exposição individual, Casa das Artes de Famalicão, 2004; "Passageira mente" exposição colectiva na sala museu do ISEP, integrada no fórum Tecnologia Arte e Consciência, 2004.  

Wenders estava a rodar Lisbon Story tendo, por isso, recusado um convite do festival de Vila do Conde para estar presente numa retrospectiva do seu trabalho. Aproveitei a oportunidade para ir até Lisboa capturar o ambiente das filmagens com o intuito de o poder mostrar em Vila do Conde. Fui bem recebido, mas Wim Wenders não me deu acesso ao coração da rodagem, os interiores do palácio de Belmonte, no pátio de D. Fradique, colina do Castelo de S. Jorge. Ele e a mulher, Donata Wenders, fazem todas as fotografias de rodagem, de sets e de réperages e publicam-nas frequentemente. Daí as suas reservas. Em todo o caso, houve espaço para estes fragmentos. Cesário Alves Tema da Comunicação de Olívia Silva no Painel Fotografar Cidades 8/2 Olívia da Silva Doutorada em Fotografia pela Faculdade de Arte e Design da Universidade de Derby, no Reino Unido, Olívia da Silva é Coordenadora do Mestrado de Comunicação Audiovisual e das Licenciaturas de Audiovisual e Mutimédia do Instituto Politécnico do Porto. Expõe regularmente em Portugal e no Estrangeiro. Entre os seus projectos fotográficos de retrato contam-se 8/2, Cabbage and Kings, Trace and Memory; Vai à Janela, Niort Marketplace e In the net. É autora e co-autora de obras de Investigação sobre Representação Fotográfica e Identidades Pessoais e Profissionais. Desenvolve actualmente um projecto académico no Departamento de Investigação de Newport, Reino Unido e em Portugal. 8/2 de Olívia da Silva Ano: 1997 Locais: Portugal e Reino Unido Exposto em 1997

De repente, encontramo-nos frente a frente com os personagens principais de um dos mais fascinantes lugares do mundo, em qualquer contexto cultural: o mercado. Lugar que aguça os sentidos : os rostos, os pregões, os cheiros, as cores, o bulício, confundem-se e sobrepõem-se de forma estonteante.

A pós-modernidade fabrica não-lugares, como define Marc Augé, lugares sem identidade e sem história dos serviços automáticos e dos cartões de crédito, lugares de comércio mudo, de intermediações anónimas paradoxalmente rotuladas de serviço personalizado.

Não há nada mais radicalmente oposto a estes não lugares que os mercados. Fazedores de cidades e de rotas, ocupando cruzamentos e praças, lugares em que os homens se encontram, se misturam, trocam.

No mercado bate o coração da cidade sem folclore nem cerimónia. No não-lugar é preciso meter o cartão ou comprar o bilhete para pagar o serviço e receber o respectivo sorriso contido.

Ao isolar as vendedeiras num cenário despojado, Olívia da Silva fixa rostos, indumentárias, mas também o vinco do carácter. Faz delas personagens centrais, desta representação diariamente reposta. Lembra-nos que são as pessoas que fazem os lugares, as identidades e as memórias. Os não - lugares são outros. DIAPORAMA BMAG 5 a 10 de Novembro 25 Frames # 1 Segundo Alunos do 2º ano de TCAV Coordenador: João Leal FORA de HORAS Dia 9 de Novembro 2007 24.00 – PM A Cidade DiscJockey: Alex The Fool ( PsP_Progressive Sounds of Porto) VideoJockey: Playgirl O tema A Cidade remete-nos para uma infinita possibilidade sonora e visual que todos nós inconscientemente identificamos facilmente, transpondo-nos de imediato para uma realidade urbana que nos pertence e que da qual fazemos parte. O conceito é tentar passar por essa realidade, transpondo para dentro de um espaço fechado esse despertar inconsciente do público, a partir da desconstrução sonora e visual do que é a vida frenética e atordoada de uma Cidade, do seu passado e do seu presente, contando, para o efeito, com uma instalação de vídeo a partir de duas telas de projecção e dois plasmas. Dia 10 de Novembro 2007 24.00 - Pitch Club Phil Stumpf   Phil Stumpf é um artista de rara e intensa dinâmica, merecendo o destaque e atenção de todos os amantes da música. Nascido em Berlim no início da década de 70 optou por viver estes últimos anos na cidade de Paris. Durante o curso de Medicina que tirou na Alemanha, deu início à experimentação como DJ e produtor, mas foi já em Paris, através das lendárias festas MINIMAL DANCING no Nouveau Casino, organizadas em conjunto com Sam Rouane - com quem partilha também o projecto DUPLEX 100 - que Phil Stumpf abriu portas à sua brilhante carreira. A sua actividade musical não se esgota, contudo, na cena clubbing, já que integra o elenco de várias bandas, de entre as quais se destaca a banda electrónica alemã OH!, na qual concentra actualmente toda a sua criatividade e energia. No entanto, a ambição como músico ultrapassa os parâmetros criativos, encetando uma empenhada actividade na qualidade de organizador de eventos, como é o caso do FESTIVAL MUSIC-ALLEMAND, um festival de música alemã realizado anualmente em Paris, e do DEUTSCH MINIMAL, um programa criado pelo Goethe Institute para a divulgação da sonoridade minimal fora da Alemanha no qual colabora enquanto director artístico. Associado às editoras OUT OF ORBIT, FROZEN NORTH, MOON HARBOUR, TRENTON, FRANKIE REC, nos seus DJ-sets revela uma apaixonada atitude funk, entendida na sua perspectiva mais minimal. Ninguém fica indiferente à sua estética, uma inteligente combinação de funk com minimal, responsável pelas noites de dança mais memoráveis. Contactos:

IPP Goethe Institut Alliance Française Portugal


 
 
 
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    Jorge Campos
  • 1 de out. de 2020
  • 2 min de leitura


Jornal Universitário do Porto (JUP) - Quando e como começou este projecto?

Jorge Campos (JC) - Este ciclo de Fotografia e Cinema Documental principiou há 4 anos. Tratou-se de lançar uma iniciativa que não só permitisse projectar a imagem do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual (CTCAV) do IPP, reforçando a sua ligação ao exterior, mas também que fosse preparando terreno para opções especializadas tendo em vista a adaptação à Declaração de Bolonha, nomeadamente quanto aos mestrados profissionalizantes dos quais então começava a falar-se. Uma das preocupações foi, naturalmente, incluir as Imagens do Real Imaginado nos planos curriculares. Outra, a de internacionalizar o evento desde a primeira edição, na qual esteve presente o Curso de Ciências da Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela através da sua decana Margarida Ledo Andión, aliás, ela própria uma documentarista. Em edições posteriores, entre outros, estiveram representantes do curso de audiovisuais de Toulouse e realizadores com Jose Luis Guerín, Rahul Roy e Mercedes Alvarez. A expectativa é a de aprofundar este tipo de contactos tendo em vista o funcionamento dos mestrados.

JUP - Quais as diferenças entre o plano para este ano e o plano do ano passado?

JC - Do ano passado para este ano há óbvio um crescimento das Imagens do Real Imaginado. Essa tem sido, aliás, uma das características das iniciativas do CTCAV, como ainda recentemente se verificou com a exposição Take Way, realizada em parceria com o curso de design da ESEIG do IPP, na Biblioteca Almeida Garrett que teve mais de 3.000 visitantes. Também não deixa de ser significativo que o número de candidatos ao curso mais do que decuplique o número de vagas. Quanto ao ciclo passa a desenvolver-se em dois espaços, a Biblioteca Almeida Garrett e o Cinema Passos Manuel, e aproxima-se de um modelo testado com êxito no Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, a Odisseia nas Imagens. Muitos dos convidados destes Olhares sobre a Cidade foram, de resto, participantes regulares nessa iniciativa como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Abi Feijó ou Gérard Colas. Outros foram mesmo programadores da Porto 2001, casos de Paulo Cunha e Silva e Miguel Von Hafe Pérez. Acresce que, desta vez, há parcerias com a Alliance Française do Porto e com o Goethe Institut Portugal do Porto, que deverão ter continuidade. O ano passado o ciclo já contou, como também conta este ano, com a colaboração do Festival de Vila do Conde.


JUP - Quais são as perspectivas para o próximo ano relativamente a este evento?

JC - Envolver um número ainda maior de parceiros, quer a nível nacional quer internacinal, nomeadamente tendo em vista criar condições de produção de nível profissional para efeito da concretização dos mestrados. Por outro lado, em todos os ciclos e iniciativas já realizados houve sempre a preocupação de apresentar trabalhos de estudantes. No caso do Take Way, por exemplo, todos os trabalhos fotográficos e videográficos eram exclusivamente da autoria dos alunos. Procuramos apontar para a excelência, mas sabemos que esse percurso leva o seu tempo, isto apesar de muitos dos trabalhos produzidos no âmbito da nossa escola terem sido premiados em múltiplas ocasiões. O próximo ciclo será, portanto, mais uma etapa desse percurso, certamente ainda mais ambicioso, e procurando lançar raízes para se transformar numa referência da vida cultural na cidade do Porto. 

Jorge Campos

Programador

 
 
 
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    Jorge Campos
  • 1 de out. de 2020
  • 17 min de leitura

Atualizado: 1 de nov. de 2020



Gustav Deutsch World Mirror Cinema (WELT SPIEGEL KINO), EPISODIO 3: CINEMA SÃO MAMEDE INFESTA / Porto / 1930

Começamos pelo fim. O Mundo, um filme do cineasta Jia Zhang-Ke, é uma metáfora da China de hoje. Construído a partir do parque temático de Pequim com o mesmo nome e no qual é possível encontrar réplicas de grandes dimensões de monumentos como o Big Ben, a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade ou as pirâmides do Egipto, o filme aborda a trama de relações que se vão fazendo e desfazendo entre as diversas personagens que, por qualquer razão, partilham aquele espaço que no espaço do ecrã adquire uma espécie de ressonância surreal.  E, surreal, porquê? Porque a realidade do parque, pretendendo ser uma representação tangível desse outro mundo exterior que ao longo dos séculos foi impondo a sua marca cultural e civilizacional corresponde, afinal, neste caso, no plano simbólico, à distância onírica que separa o valor de ambas as faces de uma mesma moeda: de um lado, a imagem de um país, a China, onde o crescimento e a modernização não têm paralelo na história recente da humanidade; do outro, a imagem de uma sociedade, a chinesa, aturdida, dividida entre o choque da competitividade e o peso de uma tradição e cultura milenares.


O que parece ser norma do processo de globalização, tal como o vamos conhecendo, é a aplicação de um modelo economicista de desenvolvimento, ou seja, o entendimento da economia como um valor em si mesmo e não como pilar de uma organização social cuja prioridade é o homem e o seu bem estar. Este modelo necessita, naturalmente, de um outro, no plano simbólico, por forma a operar um efeito de legitimação. Para autores como Chomsky é justamente essa a função do sistema de media que opera à escala global. A ele competiria definir as estratégias de sedução e as ilusões necessárias de modo a induzir os consentimentos necessários. Nada, porém, é linear. Pelo contrário, o sistema é em si mesmo contraditório e, como tal, está sujeito a episódios de disfuncionalidade, eventualmente irreversíveis. São características das mensagens dos media, por um lado a entropia e, por outro, aquilo que numa leitura pós-moderna remete para a emancipação do significado na sua relação com o real. No primeiro caso, é requerida alguma forma de capacidade de organização da informação, no segundo, há o inconveniente de a determinada altura a historicidade entrar em conflito com as suas representações.


É justamente neste ponto que encaixa Good Night, and Good Luck de George Clooney. Ao recuperar um mito americano, a liberdade de informação, através de um episódio célebre da história do jornalismo protagonizado pela figura lendária de Edward R. Murrow, Clooney está mais interessado em questionar os dispositivos e as rotinas actuais da produção das notícias na televisão dos Estados Unidos, do que, propriamente, em fazer ressuscitar a “caça às bruxas” do senador Joseph McCarthy. Ou melhor, as inquirições de McCarthy e a coragem demonstrada por Murrow, mesmo perante a ambígua pressão dos seus patrões da CBS, são apenas sinais de alerta para a situação que ameaça, hoje, gerar uma atmosfera de desinformação globalizada, a qual tem na propaganda e no infotainment as suas manifestações mais perversas.


Neste contexto, The City Beautiful, o documentário do cineasta indiano Rahul Roy, surge como uma peça de resistência. A elucidação que faz da vida de duas famílias de tecelões da periferia de Nova Deli, num registo de observação não intrusivo, corresponde ao retrato de uma exclusão social cujos efeitos são simplesmente implosivos, mas cuja visibilidade é praticamente nula ou tratada em termos de faits divers nos media de grande difusão. O mesmo poderia dizer-se de El Cielo Gira de Mercedes Alvarez, uma peregrinação da cineasta ao lugar de origem, Aldealseñor, pequena aldeia de Soria agora reduzida a 14 habitantes e um pintor. Aldealseñor e a sua História de mil anos, em breve, irão desaparecer sem deixar testemunhas. Em qualquer dos casos, com Roy ou Alvarez, o tema é ainda o nosso mundo. Esse mesmo de cujas representações também já tivemos conhecimento no interior de antigas salas de cinema - lugares de mistérios, fantasmagorias e revelações - revisitadas nos filmes experimentais do austríaco Gustav Deutsch numa espécie de corpo a corpo com a memória ou, se quisermos, num combate contra a rarefacção simbólica que parece afectar o nosso tempo.


Finalmente, numa outra perspectiva, Mark Durden toma como ponto de partida a obra de dois fotógrafos contemporâneos, Paul Seawright e Luc Delahaye, para reflectir sobre os caminhos da arte e do fotojornalismo. No caso de Seawright propõe-se fazer uma leitura do seu trabalho no Afeganistão, Hidden, uma encomenda do Imperial War Museum de Londres. Quanto a Luc Delahaye, procurará fixar o olhar numa série de fotografias panorâmicas e sobre acontecimentos da actualidade mundial que passam igualmente pelo Afeganistão, mas, também pela guerra ao Iraque. A guerra e o saque, a cujas representações, muitas vezes, está associado um toque de luxo e glamour, são, afinal, sinais dos tempos.


Que mundo globalizado, então, é este em que vivemos? Quais as suas representações? Como lidar com a construção da realidade e com os seus artifícios? Quais os limites da Fotografia e do Cinema Documental ou, dito de outro modo, até onde vão os seus poderes de revelação do real?


O ciclo Imagens do Real Imaginado – O Mundo, mais do que dar respostas propõe-se motivar a interpelação, suscitar dúvidas e, se possível, pela via da surpresa, seduzir e gerar perplexidade: não será esse o processo mais estimulante para induzir a vontade de conhecimento, seguindo os labirintos cuja exploração também passa pelo prazer do texto


Novembro, 2006.

Jorge Campos


6 de Novembro

14h.30


Masterclass de Jorge Campos

“De Edward R. Murrow à invasão do Iraque: uma digressão sobre o cinema informativo e o documentário político na América”



17h.30


“Boa Noite, e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck)

2005, EUA/RU, 90 min

Realização: George Clooney

Com: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr, Patricia Clarkson, Jeff Daniels e Frank Langella


21h.30


“Boa Noite, e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck)

2005, EUA/RU, 90 min

Realização: George Clooney

Com: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr, Patricia Clarkson, Jeff Daniels e Frank Langella



7 de Novembro


14h.30

“O Céu Gira” (El Cielo Gira)

2004, Espanha, 110 min

Realização: Mercedes Alvarez

Com: Pello Azketa e os habitantes de Aldealseñor


17h.30

Masterclass de Mercedes Alvarez  (Espanha)

“El Turista y el Viagero”


21h.30

“O Céu Gira” (El Cielo Gira)

2004, Espanha, 110 min

Realização: Mercedes Alvarez

Com: Pello Azketa e os habitantes de Aldealseñor


8 de Novembro


14h.30

Masterclass de Rahul Roy (India)

“My personal search for meaning”


17h.30


“The City Beautiful”

2003, India, 78 min


Realização/câmara: Rahul Roy

Editor: Reena Mohan

Sound: Asheesh Pandya


21h.30


“The City Beautiful” 

2003, India, 78 min

Realização/câmara: Rahul Roy

Editor: Reena Mohan

Sound: Asheesh Pandya


9 de Novembro


(em colaboração com  Curtas metragens CRL/Solar Galeria de Arte Cinemática - Vila do Conde e a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto)



14.30

Masterclass de Gustav Deutsch (Austria)

“FILM IST”


17h.30

World Mirror Cinema  (WELT SPIEGEL KINO)

2005, Austria, 93min


Realização: Gustav Deutsch

Música de Burkhard Stangl e Christian Fennesz

EPISODIO 1: KINEMATOGRAF THEATER ERDBERG / VIENA / 1912

EPISODIO 2: APOLLO THEATER / Surabaya / 1929

EPISODIO 3: CINEMA SÃO MAMEDE INFESTA / Porto / 1930


21.30


World Mirror Cinema  (WELT SPIEGEL KINO)

2005, Austria, 93min


Realização: Gustav Deutsch

Música de Burkhard Stangl e Christian Fennesz

EPISODIO 1: KINEMATOGRAF THEATER ERDBERG / VIENA / 1912

EPISODIO 2: APOLLO THEATER / Surabaya / 1929

EPISODIO 3: CINEMA SÃO MAMEDE INFESTA / Porto / 1930


10 de Novembro


14h.30

Masterclass de Mark Durden (Inglaterra)

Documentário Fotográfico Artístico (Paul Seawright  e Luc Delahaye)


17h.30

“O Mundo” (SHI JIE) - 2004, CHINA, 133 min

Realizador: JIA Zhang-ke

Com: Zhao Tao, Chen Taisheng, Jing Jue, Jiang Zhongwei, Wang Yiqun, Wang Hongwei,  Liang Jingdong, Xiang Wan, Liu Juan



SINOPSES DOS FILMES


“Boa Noite, e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck)

2005, EUA/RU, 90 min

Realização: George Clooney

Com: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr, Patricia Clarkson, Jeff Daniels e Frank Langella


A acção de “Boa Noite, e Boa Sorte” decorre na América do início dos anos 50 quando o documentário jornalístico de televisão dava os primeiros passos com Edward R. Murrow em See it Now e a “caça às bruxas” do Senador Joseph McCarthy atingia o paroxismo. Murrow e o seu amigo e produtor Fred Friendly decidem investigar os métodos de McCarthy e preparam uma emissão sobre o assunto. Desafiando as pressões, aliás, ambíguas, da direcção da CBS, bem como as ameaças dos patrocinadores da retirada de financiamentos, Murrow e a sua equipa, enfrentando o medo das represálias, fazem uma série de quatro emissões que ficariam para a história do jornalismo americano. McCarthy não caiu só por causa de See it Now, mas o programa contribuiu seguramente para o levar a responder perante o Senado e para liquidar as suas aspirações políticas. Feito num registo quase documental, com uma extraordinária fotografia a preto e branco, “Boa Noite, e Boa Sorte” reproduz com fidelidade o que foram esses tempos de alucinação persecutória, bem como a primeira grande batalha travada na televisão americana em nome de um jornalismo independente.


“O Céu Gira” (El Cielo Gira)

2004, Espanha, 110 min

Realização: Mercedes Alvarez

Com: Pello Azketa e os habitantes de Aldealseñor


Na Aldealseñor, uma aldeia de Soria, restam hoje 14 habitantes. São a última geração, depois de mil anos de História interrompida. Hoje, a vida continua. Em breve, vai extinguir-se sem deixar testemunhas. Os vizinhos da aldeia e o pintor Pello Azteca partilham algo: as coisas começaram a desaparecer diante dos seus olhos. A narradora volta então às suas origens e assiste a esse final, ao mesmo tempo que procura recuperar a primeira imagem do mundo: a da infância.


“The City Beautiful”

2003, India, 78 min

Realização/câmara: Rahul Roy

Editor: Reena Mohan

Sound: Asheesh Pandya


Sunder Nagri (Cidade Bela) é uma pequena colónia operária nas margens da capital da Índia, Deli. As famílias aqui residentes são, na sua maioria, oriundas de uma comunidade de tecelões. Nos últimos dez anos, por efeito da globalização, assistiram a uma gradual desintegração da tradição do tear manual. As famílias vêem-se obrigadas a enfrentar a mudança bem como a reinventar-se para subsistir. The City Beautiful é, assim, a história de duas famílias que se debatem para dar sentido a um mundo que insiste em empurrá-las para as suas margens. Radha e Bal Krishan encontram-se num momento crítico da sua relação. Bal Krishan não tem trabalho suficiente e é constantemente enganado. O motivo da discórdia é o facto de Radha trabalhar fora de casa. Contudo, no meio dos momentos altos e baixos, conservam a capacidade de rir. Shakuntla e Hira Lal pouco comunicam. Vivem debaixo do mesmo tecto com os filhos, mas são prisioneiros das suas próprias tragédias pessoais.


World Mirror Cinema  (WELT SPIEGEL KINO)

2005, Austria, 93min

Realização: Gustav Deutsch

Música de Burkhard Stangl e Christian Fennesz

EPISODIO 1: KINEMATOGRAF THEATER ERDBERG / VIENA / 1912

EPISODIO 2: APOLLO THEATER / Surabaya / 1929

EPISODIO 3: CINEMA SÃO MAMEDE INFESTA / PORTO / 1930

WELT SPIEGEL KINO (O MUNDO ESPELHA O CINEMA) – o título desde logo sugere o seu conteúdo: a reflexão mútua sobre a realidade do mundo e o mundo do cinema.

Sequências documentais encontradas dos primeiros tempos da cinematografia oferecem um ponto de partida em que o cinema é objecto de auto-reflexão: registos cinematográficos mostrando cinemas nos seus ambientes urbanos – incluindo a vida nas ruas, os transeuntes, circunstantes curiosos e as suas reacções à câmara. O segundo ponto de partida compreende os filmes que fazem parte da programação destes cinemas e os títulos destes filmes que vemos nos cartazes publicitários dos cinemas.


WELT SPIEGEL KINO – permite que a realidade da rua à porta dos cinemas e o mundo do cinema entrem num diálogo cinemático. Personagens individuais, que são representativos de uma posição social idealizada, são arrancados ao fluxo dos transeuntes. Estes personagens são apresentados em retratos fictícios compilados a partir de materiais de arquivo dos mesmos lugares e época. Estes retratos proporcionam um contraponto aos protagonistas individuais dos filmes – que estão a ser passados nos cinemas respectivos – sob a forma de uma citação de filme.


“O Mundo” (SHI JIE)

2004, CHINA, 133 min

Realizador: JIA Zhang-ke

Com: Zhao Tao, Chen Taisheng, Jing Jue, Jiang Zhongwei, Wang Yiqun, Wang Hongwei,  Liang Jingdong, Xiang Wan, Liu Juan


Tao está a viver um sonho no World Park, um lugar onde os visitantes podem ver monumentos internacionais famosos sem terem de deixar os subúrbios de Pequim. A bela e jovem dançarina e as suas amigas executam, diariamente, no parque, espectáculos com temas sumptuosos, entre réplicas do Taj Mahal, da torre Eiffel, da Praça de São Marcos, do Big Ben e das Pirâmides do Egipto. Tao e o seu namorado, Taisheng, que trabalha como segurança no parque, mudaram-se há alguns anos para a cidade grande vindos das províncias do Norte. O seu relacionamento entrou agora numa encruzilhada. Taisheng apaixonou-se por Qun, uma designer de moda que conhece numa viagem de regresso a casa.  As companheiras de Tao têm as suas próprias viagens sentimentais. Xiaowei questiona o seu futuro com o seu namorado irresponsável, Niu. Entretanto, Youyou usa o romance como vantagem para as suas ambições profissionais. Nem todos os que vêm para Pequim conseguem arranjar um emprego onde os jogos de SMS sejam aceites como parte da vida diária. Muitos, como o artífice Erxiao, experimentam uma realidade muito mais dura. Mas, apesar do divertimento e da magia, mesmo os microcosmos do parque são vulneráveis à mudança. Para Tao e os que estão em torno dela, haverá casamentos e separações, lealdades e infidelidades, alegrias e tragédias. No meio de toda esta trama de relações pessoais, O Mundo, afinal, não é mais do que uma metáfora da China actual, um imenso país de tradições seculares perante o impacto de um crescimento sem precedentes na era da globalização.


SINOPSES DAS MASTERCLASSES

Masterclass de Jorge Campos (Portugal)

“De Edward R. Murrow à invasão do Iraque: uma digressão sobre o cinema informativo e o documentário político na América”


O cinema informativo ocupa um lugar importante e, muitas vezes, negligenciado na História do Cinema. Citzen Kane de Orson Welles começa com uma paródia a March of Time, newsreels que influenciaram fortemente o filme documentário dos anos 30 e 40 e muitos dos seus praticantes, entre os quais, John Grierson. Este cinema informativo podia ser frívolo, formalmente descuidado e até recorrer, amiúde, a falsificações. Zelig de Woody Allen tem a ver com tudo isso. Mas, também soube elevar-se a outros patamares, mesmo quando surgiu abertamente ligado à propaganda pela mão de mestres como Capra, Ford, Wyler ou Huston, para citar apenas alguns. No início dos anos 50, enquanto os cineastas franceses se batiam por um cinema de autor de forte ressonância poética e criativa, na América o documentário entrava na televisão pela mão de Edward R. Murrow e ajustava-se, não apenas às características do medium, mas também ao conceito de objectividade que serve às rotinas de produção das notícias. Em plena “caça às bruxas”, Murrow afronta o senador McCarthy, e vence. Mas, a partir de então, o documentário jornalístico americano, ao invés de prosseguir uma via atenta, criativa e acutilante, institucionaliza-se e serve fundamentalmente para legitimar a ideologia da Guerra Fria veiculada a partir da Casa Branca. Os campeões do cinema directo dos anos 60 ainda acreditam na possibilidade de um novo tipo de jornalismo televisivo, mas em breve se desiludem. Seria fora da televisão que fariam os seus melhores filmes. Com Wiseman e o seu método de observação algo de verdadeiramente diferente voltou a acontecer. A partir de então, o documentário americano foi assumindo uma grande variedade de formas e, no âmbito do cinema independente, tem vindo a produzir múltiplas obras de enorme contundência política. Ironicamente, o grande responsável por este surto parece ser George W. Bussh. O meu método de exposição basear-se-á, fundamentalmente, no comentário a excertos de filmes que exemplificam este percurso.


Masterclass de Mercedes Alvarez  (Espanha)

“El Turista y el Viagero”


Existen, entre otras, dos formas de hacer un documental. Del mismo modo que existen dos formas de realizar un viaje, como un turista o como un viajero. El turista tiene todos los preparativos hechos. Sabe las cosas que verá, como y en qué momento, y las cosas que sentirá. Su viaje preparado y su viaje realizado son el mismo. El viajero no sabe lo que encontrará, sale a la deriva. No sabe de un modo claro lo que busca. Debe extraviarse y dar un rodeo para encontrarlo.


Masterclass de Rahul Roy (India)

“My personal search for meaning”


The documentary as I see it is my personal search for meaning through forging unusual filmic relationships that reveal as much the world to me as me to the world. It is a conscious decision to enter territories of thoughts, dreams and silences that form the everyday but yet are stories of great tragedies and loss. It has been suggested that the documentary is an empirical art form. It is constructed out of fragments or passages of observed events and objects to reflect on the real world. This raises two important issues, one, does the form employed predetermine the fragments and objects to be 'found' and two, is the issue of documentary as an art form. In this seminar, we will examine these two aspects of the documentary in the context of my own journey as a film maker and of my colleagues in India. 


Masterclass de Gustav Deutsch (Austria)

“FILM IST.”

’Uma rapariga de um tempo ido pegou num punhado de cinzas e lançou-as ao ar e as faúlhas transformaram-se em estrelas’.

(Um conto boximane)


"FILM IST." é uma declaração reflexiva. O cinema existe sem qualquer definição. O cinema – entendido como meio para a produção de imagens em movimento por meio da luz – é um fenómeno óptico e não uma invenção de seres humanos. O primeiro cinema foi uma caverna na qual raios de luz, reflectidos do mundo exterior, entrando através de um pequeno orifício, produziam uma imagem do mundo exterior, invertida e ao contrário, imediatamente depois de a crosta terrestre ter começado a solidificar-se. Uma câmara escura para forças elementares. O curso das estrelas, as fases da lua, eclipses do sol e da lua, relâmpagos – imagens de luz na cabina de projecção do céu. Inspiração periodicamente recorrente para os mitos dos povos da Terra. Os protagonistas permanentes do cinema mundial.


Nesta masterclass apresentarei e discutirei:

  • A panorâmica de 360 graus do mar Egeu, criada pela CAMERA OBSCURA na ilha de Aegina/Grécia, que está erigida sobre os alicerces de uma plataforma de artilharia alemã da Segunda Guerra Mundial.

  • Sequências filmadas hindus com legendas em persa e francês, que encontrei nas ruas de Casablanca, perdidas por um transportador de bobinas entre dois cinemas.

  • O filme de um arranha-céus em chamas em película de nitrato, do proprietário de um cinema croata, fortemente danificada pela água, que tinha sobrevivido a duas guerras mundiais numa cave austríaca.

  • Uma cópia de trabalho de uma telenovela brasileira contendo dois fotogramas de cada cena a ser usada na determinação de tempos de exposição, com notas sobre filtros e valores fotométricos, que era usada por uma empregada de limpeza em São Paulo para lavar os ladrilhos do pavimento de uma casa de banho.

  • Sequências desactivadas de um filme de longa metragem de 35 mm com códigos binários perfurados que Konrad Zuses usou no primeiro computador de cálculo cem por cento operacional que construiu na sala de estar de casa dos pais, em Berlim, em 1936.

· O subcapítulo 9.3.5 (Rodagem) do subcapítulo 9.3 (Primeiro contacto) do capítulo 9 (Conquista) da imagoteca de FILM IST.7-12

· Capítulo 9 (conquista) de FILM IST.7-12


Masterclass de Mark Durden (Inglaterra)

Documentário Fotográfico Artístico (Paul Seawright  e Luc Delahaye)


Tratarei de questões resultantes da intersecção entre o fotojornalismo e a arte, em particular o trabalho de Paul Seawright no Afeganistão, Hidden, 2003, encomendado pelo Imperial War Museum de Londres, e a passagem de Luc Delahaye do fotojornalismo à arte através de uma série de fotografias panorâmicas e acontecimentos da actualidade mundial, desde a guerra no Afeganistão ao Iraque.


Seawright é um artista cuja obra se enquadra numa tradição particular do documentário artístico, em reacção ao conflito na sua cidade natal, Belfast. Tendo estudado com Paul Graham e Martin Parr, o seu trabalho combina o documentário artístico com uma admonitória relação modernista com a capacidade chocante, explícita e reveladora (e distanciamento dela) da fotografia documental, particularmente no seu papel dentro do fotojornalismo. Na essência, o modernismo é anti-realista. A sua obra está imbuída de uma rejeição do género de imaginário fotojornalístico que veio a dominar a cobertura que a imprensa fez da guerra na sua terra natal. O facto de ter chegado ao Afeganistão depois de muita da devastação ter sido infligida ao país permitiu-lhe prosseguir a estética documental minimalista, com a sua perspectiva da margem do ardor do conflito, que havia estabelecido com o seu trabalho em Belfast.


Delahaye chega à arte vindo do fotojornalismo e tem vindo a produzir imagens muito menos moderadas do que as de Seawright. Elas tiram pleno partido desse aspecto revelador e criador de sensações da capacidade da fotografia de evidenciar acontecimentos e explorar a prevalência da fotografia realista a cores de grande formato no mercado artístico - Andreas Gursky, Jeff Wall, Thomas Struth. Delahaye usa uma antiga câmara panorâmica a fim de nos mostrar uma visão maior e mais abrangente, numa posição de recuo que contraria o princípio de proximidade do fotógrafo de guerra de Robert Capa. Carregadas de pormenor, as suas fotografias possuem uma grandeza e importância, assumem uma solenidade histórica e opõem-se à instantaneidade e subsequente obsolescência imediata da imagem noticiosa mediática. Revivem a ideia de a história pintar através da fotografia. Comparada com o eufemismo modernista de Seawright, a táctica de Delahaye é intrinsecamente pictórica e espectacular.


A galeria de arte ou o livro fotográfico proporciona decerto um contexto mais aberto e menos restrito do que o jornal ou a revista e pode permitir ao fotógrafo a transmissão de informação e percepções sobre determinados conflitos e situações, desvalorizados ou deficientemente representados pelos meios noticiosos. Ao mesmo tempo, enquanto arte, este trabalho destaca as tensões irresolúveis entre a beleza e a estética no que diz respeito à representação de focos de conflito, dor e sofrimento. Em termos da circulação das obras como bens artísticos de luxo, o que elas revelam amplia as contradições e o abismo entre os excessos da sua celebração e aprazimento de primeiro mundo e o espectáculo dos “outros mundos” que apresentam, países e territórios assolados por uma violência e destruição que é muitas vezes parte integrante da manutenção do Ocidente da sua ordem primeiro-mundista e dos seus opulentos excessos.


Dados Biográficos

Jorge Campos é jornalista, documentarista, programador cultural e professor do Ensino Superior. Desempenha funções de assessor de Coordenação do Curso de Comunicação Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto, onde lecciona as disciplinas de Cinema e é responsável pela área científica de Estudos Visuais. Foi o Programador responsável pelo Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura. Trabalhou na Imprensa, Rádio e Televisão, tendo sido jornalista da RTP durante 25 anos, durante os quais muitos dos seus trabalhos foram premiados ou distinguidos. Entre outros, Galápagos – As Ilhas Encantadas (Açor de Bronze na categoria de Reportagem na Mostra Atlântica de Televisão), “Tuaregues” no Tecto do Mundo (Menção Honrosa Melhor Documentário Português no Festival de Cinema Documental da Amascultura), Nadir (Prémio Gazeta de Televisão do Clube de Jornalistas, Prémio de Cultura Sampaio Bruno do Clube de Jornalistas do Porto, Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa, Selecção Oficial do Festival du Scoop et Journalisme de Angers), A Regata do Infante (Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa), Torga (Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa), Eugénio de Andrade – O Poeta (seleccionado para representar a RTP no Prix Europe de Televisão 1993). Faz parte de diversos grupos de trabalho de âmbito nacional e internacional, cujo objectivo é fomentar o ensino e prática no Ensino Superior numa perspectiva profissionalizante.


Mercedes Álvarez realizou em 1997 a curta-metragem “El viento africano”. A partir de 1998, resolveu dedicar-se à linguagem documental, tendo participado no Master de Documental de Creación da Universidad Pompeu Fabra de Barcelona. Foi montadora da longa-metragem “En Construcción” de José Luis Guerín, a qual ganhou em 2001 o Goya de Melhor Documentário, bem como o Prémio do Júri no Festival de San Sebastián. O seu documentário “O Céu Gira” (2004) é igualmente uma criação no âmbito do curso de mestrado da Universidad Pompeu Fabra, tendo contado com a participação do director Jordi Balló, bem como com a colaboração de mestrandos e o apoio do ICAA, Canal +, dos governos de Navarra e do País Basco e das juntas de Castilla e León. “O Céu Gira” tem conquistado prémios em todos os festivais por onde tem passado, nomeadamente, o Grande Prémio no Cinéma du Réel de Paris (atribuído por um júri onde marcavam presença Jia Zhang-Ke e Ross McEIwee), vencedor do VPRO Tiger Award no Festival de Roterdão e o prémio de Melhor Filme no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires.


Rahul Roy concluiu o seu mestrado em Produção de Cinema e Televisão, em 1987, no Mass Communication Research Centre, Jamia Millia Islamia, em Nova Deli, e desde então, tem trabalhado na área do documentário como cineasta independente.  É bolseiro da MacArthur Foundation Fellowship na India. Os seus documentátios têm sido apresentados nos principais festivais internacionais, nomeadamente o IDFA, Munique, Leipzig, Paris, Cracóvia, Hawai, Yamagata, Lisboa, Bruxelas e Katmandu . Os seus últimos três filmes, “When Four Friends Meet”, “Majma (Performance)” e “The City Beautiful” examinam os cruzamentos entre o homem, o trabalho e a cidade, sendo conhecidos pelo modo como criam e revelam os ambientes de intimidade no âmbito das relações pessoais e familiares com o mundo. Tem sido distinguido por diversas vezes, nomeadamente  com o prémio Basil Wright no Festival Internacional de Cinema da RAI e com o Prix International de la Scam do Festival du Cinéma du Réel de Paris. De momento trabalha no seu quarto filme, o qual propõe um olhar sobre a classe operária de Nova Deli.


Gustav Deutch nasceu em 1952 em Viena. Entre 1970-1979 estuda arquitectura. Entre 1980-1983 é membro da Medienwerkstatt Wien, trabalhando em vídeo desde 1983. Membro do Grupo Artístico Internacional Der Blaue Kompressor Floating & Stomping Company. Desde 1985 trabalha com Hanna Schimek, tendo realizado, desde 1989, numerosas obras cinematográficas. É desde 1997 membro da sixpackfilm, e desde 2001 membro de After Image Productions. Realizou trabalhos sobre a fenomenologia do meio cinematográfico. Dedica-se à investigação artística. Tem realizado projectos desde 1985 com Hanna Schimek, e desde 1997 projectos sob a designação D&S.


Mark Durden ganhou reputação como especialista em fotografia e arte contemporânea. Como artista expõe regularmente tanto no seu país quanto internacionalmente enquanto membro do grupo "Common Culture", criado em 1997,o qual, actualmente, é constituído por ele próprio e por David Campbell.  As suas numerosas publicações incluem textos sobre Paul Seawright, Wolfgang Tillmans, John Szarkowski, Paul Graham, David Goldblatt, John Goto, Sophy Rickett, Tracey Emin, Andres Serrano, Dorothea Lange, Mark Lewis, Joachim Schmid, Martina Mullaney e Peter Finnemore. Em Outubro de 2004 foi o comissário da importante Exposição de Fotografia Documental “American FSA documentary photographs for The Lowry”. Acaba de publicar o seu último livro sobre Teoria da Fotografia. Durden estudou Belas Artes no Exeter College of Art and Design e na Glasgow School of Arts e fez primeiro, o mestrado e, depois, o doutoramento em História e Teoria da Arte na University of Kent. Leitor em História e Teoria da Fotografia na University of Derby em 2002 assumiu, no ano seguinte, a direcção do Curso. 


Coordenação:    Olívia Silva                               

Programação:    Jorge Campos                            

Produção:   Cesário M. F. Alves       

José Quinta Ferreira        

Formação:  Manuel Taboada             

Nuno Tudela                             

Marco Conceição            

Design: Vítor Quelhas                            

Secretariado:     Carla dias                     

Apoio técnico:     Serviços de Vìdeo /IPP

Serviços de Fotografia /IPP


Apoios Institucionais e Comerciais

Instituto Politécnico do Porto

Caixa Geral de Depósitos

Curtas Metragens CRL

Solar - Galeria de Arte Cinemática

Faculdade de Belas Artes da U P


Prológica

Xerox

Power Focus

Prosonic

Auvid científico

GTC






 
 
 
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Todo o conteúdo © Jorge Campos

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Criado por Isabel Campos 

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C A T E G O R I A S

Ensaios, conferências, comunicações académicas, notas e artigos de opinião sobre Cultura. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes  quando se justificar.

Iluminação Camera

 

Ensaios, conferências, comunicações académicas, textos de opinião. notas e folhas de sala publicados ao longo de anos. Sem preocupações cronológicas. Textos recentes quando se justificar.

Estático

Arquivo. Princípios, descrição, reflexões e balanço da Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, da qual fui o principal responsável. O lema: Pontes para o Futuro.

televisão sillouhette

Atualidade, política, artigos de opinião, textos satíricos.

Notas, textos de opinião e de reflexão sobre os media, designadamente o serviço público de televisão, publicados ao longo dos anos. Textos  de crítica da atualidade.

Notas pessoais sobre acontecimentos históricos. Memória. Presente. Futuro.

Textos avulsos de teor literário nunca publicados. Recuperados de arquivos há muito esquecidos. Nunca houve intenção de os dar à estampa e, o mais das vezes, são o reflexo de estados de espírito, cumplicidades ou desafios que por diversas vias me foram feitos.

Imagens do Real Imaginado (IRI) do Instituto Politécnico do Porto foi o ponto de partida para o primeiro Mestrado em Fotografia e Cinema Documental criado em Portugal. Teve início em 2006. A temática foi O Mundo. Inspirado no exemplo da Odisseia nas Imagens do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura estabeleceu numerosas parcerias, designadamente com os departamentos culturais das embaixadas francesa e alemã, festivais e diversas universidades estrangeiras. Fiz o IRI durante 10 anos contando sempre com a colaboração de excelentes colegas. Neste segmento da Programação cabe outro tipo de iniciativas, referências aos meus filmes, conferências e outras participações. Sem preocupações cronológicas. A Odisseia na Imagens, pela sua dimensão, tem uma caixa autónoma.

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